7. I M P A S S E

2359 Palavras
“A vida de ninguém é repleta de momentos perfeitos. E se fosse, não seriam momentos perfeitos. Seriam apenas normais. Como você poderia saber o que é a felicidade se nunca tivesse experimentado as quedas?” P.S Eu te amo. . ÁRIA "Então quer dizer que você vai embora?: Dandara pergunta, com seu olhar se intercalando entre eu, mamãe e o pedaço de torta, até então intocado por ela. Pigarreio. Tinha sido fácil explicar a minha amiga todos os problemas que envolviam a vinda de mamãe até aqui e, consequentemente, uma porrada decisões que em breve eu teria que tomar. Mesmo que uma parte já estivesse óbvia, tanto para mim e ate mesmo para ela, mamãe aqui somente pressionava um pouco mais para que as coisas acontecessem e ficassem mais explícitas. E era claro que "esses problemas", obviamente, estavam inteiramente ligados à minha falta de sono e estresse nos últimos dias. "Isso não é uma certeza, é só uma possibilidade. Tenho muito o que pensar ainda." "Tipo na sua faculdade, no seu estágio.. no seu livro. Você tem uma vida aqui, Ária! Você está construindo uma aqui!" O silêncio que nos cobre quando encaramos uma à outra demora. Somente mamãe, segundos depois, toma coragem para quebra-lo. "Você voltou a escrever, Ária?" perguntou, sorrindo de canto. Levo meu olhar a ela, suspirando alto. Não era hora de tocar naquilo, porque ainda não passava apenas de uma ideia borrada na minha cabeça. Não havia nada a mais que isso. "Não, mãe. É só uma lampejo bobo, tenho certeza que assim como os outros não haverá nada." respondo, querendo tirar toda aquela expectativa que mais cedo ou mais tarde a cercaria. Sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Maria Dulce tinha dessas. A mais velha de três Marias e nada mais, nada menos que minha mãe, era a minha maior fã seja lá o que eu decidisse fazer. Apoiava-me em simplesmente tudo, desde tudo não fosse ilegal. Ela me apoiou quando, um dia, eu quis fazer música igual a ela, por exemplo. Nem se quer havia hesitado em me inscrever na primeira escola que achara, assim como apoiou quando eu simplesmente desisti, um ano depois. Ela apoiou quando eu disse que meu sonho era ser escritora, ainda que, depois, eu tivesse optado por medicina quando certamente não era o que, no fundo, eu queria. Ela sempre me incentivou a escrever quando tudo não passava de apenas uma ideia, uma frase ou rabisco, assim como foi a primeira a me motivar a largar anos de medicina quando eu finalmente havia decidido seguir meu sonho, quase um ano atrás. Para ela, nada era loucura, desde que eu tivesse certa sobre isso. No fundo, acho que devia ser frustrante ter uma filha com tanto medo de se arriscar, quando naquela altura ela já havia largado tudo por um amor. Veja bem, era engraçado de ouvir, mas mamãe sempre me contava com uma sensação nostálgica sobre como papai e ela haviam se conhecido e decidido viver de música. Ainda que anos depois, com um divórcio conturbado, uma filha que simplesmente não havia sido planejada, ela dizia não se arrepender disso. Ela tinha feito o que tinha vontade e isso, no fim, havia sido o certo. As vezes só queria ser assim. "E mesmo que não fosse, isso não seria um impedimento algum. Mãe, você pode deixar eu e Dandara as sós por um instante? Prometo que vai ser rápido." A mulher intercala o olhar entre nós duas, balançando a cabeça instantes depois. "Tudo bem. Eu já estava indo descansar um pouco mesmo." Deu de ombros. "Dandara, querida, você já é de casa. Tem mais torta na geladeira, caso você queira repetir. Pode ficar à vontade." Antes de sair, ela deixa um beijo na minha bochecha e na da minha amiga, cantarolando qualquer que fosse a música que tivesse escutado mais cedo. "E o que você pensa em fazer?" "Eu não sei!" sussurro. Havia algo que eu pudesse fazer? "É o meu pai. Eu não posso deixar ele sozinho agora." "Ária, ele já é bem grandinho, sabe lidar com um divórcio. Essa não é a primeira vez." Levo meu olhar até a televisão, mesmo que eu não fizesse ideia do que estava acontecendo ali. "Ele está doente, Dara." choraminguei. Este era o ponto. "E não tem ninguém, só a mim. O que eu poderia fazer? É o meu pai!" "E o que ele acha sobre isso?" Aquilo me deixa sem ter o que dizer. Não era como se papai e eu tivéssemos uma relação tão próxima assim. A última vez que havíamos nos falado tinha sido há mais de meses e o fato dele se quer imaginar que eu já sabia da sua doença era, no mínimo, esperado, já que quem havia me contado tinha sido Lucca. Sim, ele. Duas semanas atrás, em uma daquelas ligações que você não espera que seu ex faça, mas ele o fez. E a parte boa era que, mesmo que eu tivesse atendido com o coração acelerado, ele não havia tocado em nenhum assunto que não fosse meu pai. Isso era bom. Por isso que nos últimos dias eu estava tão apreensiva. m*l dormia, parava em casa ou relaxava. O silencio me fazia pensar muito. Falar com minha mãe havia me feito pensar muito e agora com ela aqui, depois de me contar o que mais tinha descoberto, havia me feito chegar quase em uma conclusão. "Vou ligar hoje à noite. Se eu realmente for, vou me certificar de que ele saiba, mesmo sabendo que ele deve causar por esse motivo. Preciso ver isso com calma, decidir em cima da hora não vai adiantar em nada e eu tenho muito o que fazer aqui antes de ir. Quero terminar pelo menos esse semestre antes de trancar." Dandara demorou para assentir, mas quando o fez, me vi soltando o ar que havia prendido aliviada. "Por que você acha que ele está escondendo isso de você, Ária? Você é filha dele, a única pessoa que ele tem." usa o mesmo argumento que eu. "Eu não sei. " Encolho os ombros. "Talvez receio. Você sabe, ultimamente não estávamos mais tão próximos assim.." O fato era que meu pai sempre tentou se manter presente, apesar de morar em outro país. Mesmo assim, a distância uma hora ou outra fez com que a gente se perdesse um do outro e o contato começasse a ficar escasso. Um grito, então, nos chama a atenção. Na TV, um jogo de algum time de futebol da série B ou C (não sabia ao certo) acabava de terminar. Eu entendia o básico de futebol, porém assistia para dar força à minha amiga que tinha um irmão que jogava em um time desses. "Ele ganhou? " franzi o cenho, não sabendo do placar. Não muito diferente de mim, sabia que ela também olhou para a televisão. Era uma imagem relativamente r**m e até mesmo um milagre que tivesse sendo televisionado. "Uhum, eu acho." Uma tabela apareceu quando eu já não estou tão interessada assim. No entanto, diferente de mim, minha amiga parecia até demais. "Qual time é o dele?" observo a tela, tentando lembrar o nome de qualquer um que tivesse ali. "O quinto." suspirou. "Isso é bom?" Dandara ri. "Não o ideal, mas como está na metade do campeonato eles ainda porém alcançar o líder." explica. "A pontuação não está tão distante assim." Olho para o relógio, vendo que já se passava das dez da noite. De repente, era como se todo o peso das últimas semanas tivessem caindo para os meus ombros em um só dia. Mamãe havia me dito tantas coisas que eu já não aguentava mais pensar. Entre prós, contras, o que deveria ou não fazer. Um toque do celular volta a chamar nossa atenção. Pelo sorriso da minha amiga, já sabia àquela altura quem poderia ser e o que a mensagem estava dizendo. Eu ri. "Mas sabe qual a notícia boa mesmo? Isso, a comemoração. Isso significa um churrasquinho amanhã na mansão do Gab. O que acha?" "Acho que vou passar o dia inteiro dormindo, mas que você deveria ir e comer por mim. De verdade." O olhar que eu recebo, no entanto, é tedioso. Dou de ombros. "Vamos Ária, você nunca foi comigo! Quero te apresentar as meninas. Não podemos ignorar seus últimos dias nessa cidade sem uma boa festa para ficar de lembrança, né?" Ela me abraça, colocando a cabeça no meu ombro e piscando os olhos repetidas vezes. Eu odiava quando ela fazia aquilo. "Credo, Dandara. Falando assim parece que eu vou morrer!" "Morrer não vai, mas vai embora. Daqui um tempo eu vou estar sozinha, sem minha melhor amiga e sem nem se quer ter te levado pra curtir um churrasco em Sampa. Que espécie de amiga eu sou?" Dandara espera que eu diga, mas sabe que no fundo eu havia cedido. Eu era muito fraca para resistir a dramas do tipo, por mais bobos que fossem. "Persuasiva. É essa espécie de amiga que você é.' acuso. "Maldita escorpiana." Antes que ela pudesse me responder, uma sensação de estranhamento me cobriu quando um celular voltou a notificar porque, dessa vez, o som vinha do meu. (...) LUCAS "O que eu mando?" tiro a atenção da TV na sala de casa para o celular em minhas mãos, aberto na aba de mensagens do w******p. Encaro por um instante o teclado, tentando resistir a vontade de abrir a pequena foto de Ária através do ícone, como havia feito horas atrás assim que tinha recebido o número. "Você ainda não mandou nada? De ontem?" "Hum... Não? O que queria que eu mandasse?" Nós ficamos em silêncio. Eu, Matteo, Gabriel e Bruno, tínhamos encerrado há algum tempo a última reunião da semana e para comemorar o andamento da empresa, estávamos bebendo na sala como costumávamos fazer. "Mano, sei lá cara. Um "oi, aqui é o Lucas. Salva aí" já é um começo. O que vier depois disso é consequencia." "Mandar isso aí do nada? Você é louco?" "Qual o problema?" Gabriel retruca, fazendo-me balançar a cabeça. "Todos? Do nada eu apareço mandando mensagem pra ela. No máximo ela deve achar que sou a p***a de um um stalker." suspiro. "Não acredito que é desse jeito que você chega nas meninas. Foi assim que você chegou na Dandara?" "Foi!" Gabriel responde como se fosse óbvio. A gargalhada de Matteo misturada com a de Bruno tira as palavras da minha boca. Era óbvio que eu não faria isso. "Bruno, você é o único aqui que pode me ajudar. O que eu mando?" "Esqueceu de mim?" Matteo reclama. "Cala a boca, você é com certeza a última pessoa que eu pediria ajuda!" Vejo meu celular desligar. Há trinta minutos o jogo de Pedro, um amigo nosso, tinha acabado. Estávamos todos assistindo, com as camisas que ele nos dera e claro que, como sempre, teria uma comemoração no dia seguinte. Óbvio que eu tinha noção que Dandara, irmã dele, viria e, no fundo, esperanças que trouxesse Ária também. Eu não ia negar meu interesse nela, porque isso já era óbvio demais. Havíamos comemorado já por ligação com ele, assim como tínhamos acabado de acertar os detalhes e agora, estávamos na simples missão de me fazer mandar uma mensagem pra ela. "O Lucas é engraçado. Não tem medo de falar na frente de um monte de gente sobre estratégias de marketing, mas tem na hora de mandar mensagem pra uma garota. Vai entender! " Reviro os olhos quando Gabriel diz mais uma vez. As risadas dos outros dois também não ajudavam nem um pouco na missão. "Meu amigo já ouviu o ditado "quem não ajuda, também não atrapalha"? Pois é!" "Acho que você devia mandar um "e aí, gata seu pai é..." ─ antes que ele pudesse continuar, eu me vejo puxando uma almofada até o rosto. Era óbvio que seria inútil, pensei enquanto já sentia a frustração me alcançar. Nem se quer entendia o porquê de estar receoso assim com Ária. Não fazia sentido se contar que não era normal, mesmo que eu tivesse tendência a falar besteira, mais cedo ou mais tarde. Eu podia ser péssimo quando o assunto era chegar em alguém, mas dificilmente esse alguém me deixava tão nervoso quanto ela. Eu podia quase me sentir um adolescente de 15 anos prestes a fazer alguma besteira. "Cara, manda a real logo, já disse. Diz que você ficou interessado, pediu o número e eu passei. Aproveita e convida ela pra' vir amanhã que aí você dois já se desenrolam sem drama e acabou." "Você sabe que ela não é a Dandara e que eu não sou tão cara de p*u quanto você, não é? Provavelmente ela ia me bloquear na mesma hora." :Como você pode ter tanta certeza disso? Você nem conhece ela." responde. "O máximo que pode receber é um não." "E é exatamente isso que eu não quero receber." "Sabe o que eu acho, mano?" Matteo é quem diz dessa vez. Contenho a vontade de dize-lo para ficar quieto, mas ele é mais rápido em me cortar. "Que você tem que fazer igual o que o Gabi falou, mas não ser tão direto assim. Ela nem te conhece, então tenta conversar na moral. Seu casaco ainda tá' com ela, né? É um bom começo. Relaxa, vai dar certo." Quando a gente permanece em silêncio, fica explícito que todos nós parecemos entrar em consenso de que aquilo era o mais certo. Tomando como impulso, me vejo apenas digitando a primeira coisa que me veio a mente. No último ato de coragem, clico em enviar, bloqueando o aparelho logo em seguida. "Foi?" Bruno é o primeiro a perguntar, recebendo um Uhum meu como resposta. "O que você disse?" Eu tento ignorar o online que aparece assim que volto a abrir as mensagens. Tiro um print da tela, mandando no nosso grupo. Segundos se passam até que eu ouço eles rirem, alto o suficiente para eu saber que tinha algo de errado. "Não acredito que você pediu pra ela devolver o casaco sem nem se quer dar um oi direto. Lucas, mano, você por acaso é burro?"
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