"(...) Seu polegar passou embaixo dos meus olhos. Por um instante, seu senti como se pudesse cair, mas logo percebi que já não havia espaço para isso. Eu vi então o seus lábios se curvarem para cima, fazendo o que ele fazia de melhor: sorrir.
— Seus olhos…
─ O que tem? ─ com o pouco de voz que ainda me restava, retruquei.
─ Nada, na verdade. Eu só decidi que gosto deles."
─ Eternamente sua.
Por Ária Coimbra.
Página 20.
ÁRIA
Eu tinha sete anos quando papai me levou em um playground duas ruas abaixo de onde morava. Ainda que as imagens estivessem embaralhadas na minha mente, lembro-me de ter agarrado sua mão com dificuldade pelas luvas, do ar frio castigando minhas bochechas e então da sensação de vários pares de olhares em nós dois à medida em que nos aproximavamos de um banco. Havia uma moça lá sentada lá, com o corpo curvado para frente, enquanto falava com duas crianças quase do mesmo tamanho que eu, de costas para nós dois.
O primeiro a nos ver foi um menino, que logo eu descobriria ser dois anos mais velho que eu, carregando sorriso brilhante enquanto corria até nós dois e então, quando próximo o bastante, enérgico demais para pular no colo do meu pai, que nem se quer havia soltado minha mão quando o segurou. A mulher, então se virou, sorrindo grande quando seus olhos parou na cena e então, repetindo o ato quando me encarou.
Recuei dois passos, escondendo-me atrás do corpo do homem, a medida em que eles se aproximaram. O outro garotinho chegou primeiro, franzindo os olhos na minha direção antes de encarar meu pai firmemente:
"Quem é, Seu Santiago?"diferente de todo mundo naquele lugar, teu sotaque era muito mais parecido com o meu.
Já se fazia anos que eu visitava papai nas férias, mas me acostumar com o país onde ele morava era bem mais difícil.
"Oi, Lucca. Essa é a minha filha Ária, lembra? Eu falei dela para vocês."
O olhar dele cruzou com o meu por um instante, antes de balançar a cabeça.
"Não falou não, eu lembraria se tivesse falado." retrucou. Papai, então, riu. A mulher o acompanhou, enquanto abaixava para falar algo no ouvido do menino. "É um prazer, Ária."
Mamãe, dias antes, havia me dito para ser educada quando papai fosse me apresentar pessoas novas. Talvez ela já estivesse prevendo aquilo ou não sei o quê e mesmo que eu tivesse prometido que o faria, minha voz simplesmente havia sumido completamente pela timidez do momento.
"Ela fala, seu Santiago?" o seu rosto confuso se fez presente, encarando meu pai em dúvida. "Os olhos dela são assim mesmo? "
Por um instante, escutar aquilo, fez um sorriso discreto aparecer em meus lábios. Papai também tornou voltar a rir, deixando o outro garoto no chão, antes de dar os ombros. Eu já tinha escutado essa mesma pergunta durante anos, principalmente na escola. Mesmo que fosse discreto, bastava apenas alguém reparar um pouco mais e, com um pouco mais de atenção, ver o que ele havia visto de primeira.
"Por que você não pergunta a ela? "
Eu não sei porque essa memória ainda me perseguia tanto, até os dias de hoje. Não sabia dizer se era porquê havia sido meu primeiro contato com outras pessoas por lá, se era porquê aquele fora um dos únicos dias dos quais eu havia me sentindo bem na casa de papai ou se pelo fato de que, anos depois, esse mesmo garotinho, tinha se tornado meu namorado e, agora, ex. Quer dizer, não era bem agora, já que nós dois não nos víamos há mais de um ano, mas ainda assim era... bem.
Por incrível que parecesse, ele tinha a mesma idade que eu e era sobrinho da mulher que o acompanhava naquele dia (mulher esta que, horas mais tarde, eu descobriria como minha madrasta e mãe do garotinho mais velho, Guilherme, diga-se de passagem) e assim como eu, também, tinha ido a férias. Era irônico termos nos encontrado na mesma faculdade mais velhos, cursando as mesmas coisas, vivendo e compartilhando as mesmas histórias depois disso. Havíamos tido mais três verões antes de perder totalmente o contato quando eu parei de visitar meu pai.
Nossa história era meio que aquela cosia... Como podia dizer? Filme de romance, misturado com um pouco de tragédia porque não tínhamos ficado juntos. Mesmo assim, talvez pelo apego ou pelo comodismo de ter alguém, eu me pegava pensando em até onde uma pessoa iria pelo seu sonho.
Eu, basicamente, tinha um namoro estável, uma vida mais ou menos antes de vir para São Paulo, e nenhuma expectativa a mais de nada. A mesmice havia me acostumado com a estabilidade de não ter uma vida agitada e hoje, ainda assim, eu me pegava pensando mesmo se havia feito o certo.
Quer dizer... até onde você iria por aquilo que se ama? Decidir entre o amor e um sonho era mesmo amar?
"Você não me disse o que aconteceu ontem naquela cozinha..." Dandara, sem tirar os olhos da xícara de café, murmurou.
Volto minha atenção para ela, tentando dispersar qualquer que fosse os pensamentos que minha cabeça havia arrumado àquela hora da manhã.
"E o que aconteceu ontem na cozinha?" perguntei, vendo ela levantar a cabeça e então me analisar calmamente.
Dandara me dava medo, as vezes.
"Isso é você que tem que me dizer. " aponta a colher na minha direção. "Eu acordo de madrugada morrendo de sede e então resolvo tomar água. A casa toda escura, uma chuva do c*****o lá fora e então, quando entro na cozinha, encontro minha melhor amiga quase beijando um dos amigos do meu... bem, de Gabriel."
Tento não rir quando quase a vejo dizer namorado. Dandara, diferente de mim, tinha uma relutância absurda com qualquer coisa significasse relacionamentos. Independe dela e de Gabriel estarem ou não em um, não duvidava muito que uma hora ou outra um dos dois iria dar o braço a torcer. Eles brigavam a mesma medida em que se gostavam, mas hora hora chegariam lá e algo me dizia que isso não demoraria.
"E isso não foi nada mais, nada menos, que a sua confusão mental por ter acabado de acordar numa noite fria. "concluo, não querendo pensar naquilo.
O fato era que não tinha acontecido nada, nada mesmo e eu não sabia se minha frustração era por isso ou se havia apenas acordado pensativa demais nessa manhã. Todas essas confusões de Luca's e seus derivados do Lucasverso devia ser demais para mim e o fato de ter um tão próximo, talvez viesse para reforçar isso.
Quer dizer, eu m*l o conhecia, não é?
"Ária..."
"Dandara..." imito seu tom, sorrindo minimamente quando ela suspira já sabendo que eu não falaria nada.
Pego minha xícara fumaçando de cima do balcão, deixando que o silêncio do apartamento dela preenchesse o espaço. Horas mais cedo, todos os quatro haviam ido embora, deixando apenas que eu ajudasse minha amiga na bagunça.
"Que horas sua mãe chega?" pergunta, segundos depois.
Olho para o relógio em meu pulso, tentando lembrar o horário que ela havia me dito que sairia de casa.
"Acho que logo depois do almoço." digo.
"Ela falou algo a mais sobre seu pai?"
Mesmo dizendo aquilo com cuidado, eu sinto meu corpo enrijecer. Não era culpa de Dandara, afinal. Balanço a cabeça, em negação.
"Não." forço minha voz a dizer, sorrindo fraco quando vejo sua feição se tornar culpada. "Está tudo bem, Dara. Ela me disse que conversariamos melhor quando chegasse."
Minha amiga balança a cabeça. No tempo em que o silêncio volta a nos cobrir, novos pensamentos também me cercam. Sinto meu estômago, a
os poucos, embrulhando-se.
(…)
LUCAS
A voz de Gabriel, anunciando o fim de mais uma reunião é o que chama a minha atenção. Vejo o pessoal se levantando enquanto conversavam entre si, em seguida, relaxo o corpo na cadeira quando finalmente, depois de acenar para alguns, só restam eu e um dos meus sócios (ele, no caso) na sala.
"Você não prestou atenção em nada do que dissemos hoje. Geralmente sempre é o primeiro a dar ideia de estratégias, mas hoje…"
Ele comentou. Desde tínhamos tido a ideia de montar essa empresa há um ano junto com o nosso terceiro sócio, Bruno, eu não tinha ficado tão aéreo como hoje. Trabalhar com marketing digital não era fácil, mas era o mais perto de um trabalho que me dava a possibilidade de trabalhar em casa que eu teria. Nesses um ano, até que tínhamos conquistado algumas coisas notórias, uma vez que Bruno sempre foi alguém de muito contato além de pertencer à uma família influente.
"Besteira. Vamos voltar para nossas salas que terminar de analisar aquele levantamento de público. Tem uma empresa de jogos eletrônicos interessada na nossa equipe de estratégia."
Desconversei, antes que ele resolvesse cavar fundo. Não estava com saco para aturar ele zoando com minha cara pelo fato de estar completamente cismado com a amiga da "namorada" dele.
"Então tá, né?" Disse. "Vamos!"
Juntei a papelada que tinha sido distribuída afim de dar uma olhada nela mais tarde e fui para minha sala, soltando um suspiro cansado. A barba por fazer já estava me causando incômodo e até mesmo indícios do meu desleixo nos últimos dias, porém não tinha muito o que fazer além de esperar chegar em casa para tira-la.
Me joguei na minha cadeira, despejando a papelada lá também, pragueijando apenas quando, segundos depois, escuto a porta da sala se abrir. Matteo, nosso diretor e amigo, passa por ela, seguido por Gabriel e ambos se jogam nas poltronas à minha frente antes que eu pudesse falar qualquer coisa. Bufei.
"Vocês não tem trabalho para fazer não?"
"Sim, mas qual a graça de ser o chefe se nao posso perambular por aí e pedir café na minha sala?"
Rio de canto, ligando meu notebook e vejo Matteo pegando o telefone e riscando o ramal da copa afim de pedir um café pra nós.
"Era para ter alguma graça em trabalhar?" Questionei.
Era comum que vinhessem na minha sala para isso, jogar conversa fora, principalmente quando tinham alguma coisa para dizer. O engraçado é que eles sempre tinham, nem que fosse fofoca. Às vezes, eu me sentia como se estivesse morando numa rádio com tanta notícia, mas não podia negar que chegava a ser pior de vez em quando.
E de pensar que ainda dividia apartamento com Gabriel…
"Tem nada pra dizer não?" Matteo questionou, escorando-se na poltrona.
Nem se quer notando que aquilo era comigo, eu só percebo que era quando ergo o olhar do notebook e encarado ambos em silêncio, vendo Matteo me olhar com uma sobrancelha arqueada. De todo mundo, desde quando eu tinha vindo para cá, era óbvio que ele devia ser o que mais me conhecia. Estávamos convivendo juntos e éramos amigos há tanto tempo que não era atoa o fato dele ser um dos meus melhores amigos.
"Eu estava como sempre, ue!"
"Não, hoje foi diferente."Gabriel respondeu. "Não prestou atenção em nada, eestava mais focado na caneta e não deu uma opinião vez se quer na reunião. Você é extremamente falante nessas horas."
Por um momento me questiono se aquilo havia sido ou não uma ofensa. Giro minha cadeira até estar de frente para os lados.
"Eu estive pensando em umas coisas bobas, acontece. Ou não pode?"
"Eu sei que não é isso. É mulher, não é? Conheço você." Gabriel diz, antes de nos encarar com um sorriso. "E tenho uma suspeita de quem seja. Quer o número dela?"
"Não viaja, já disse que estou correndo de problemas pelo menos por enquanto. Quem disse que foi por isso? Eu nem quero!"
Mentiroso. Isso que eu era.
Os dois me ignoraram, virando um de frente para o outro e rindo.
"Aquela do moletom?"
"Meu Deus, vocês são muito fofoqueiros!"
Gabriel riu.
"Qual é essa do moletom que eu não tô' sabendo?"
"Acho que uma do elevador que ele encontrou e resolveu se fingir de prestativo pra conseguir conversar com ela."
Eles não sabiam que estavam falando da mesma pessoa. Ok.
Balanço a cabeça, aborrecido quando ouço eles gargalharem. Em seguida, tenho um Gabriel balançando seu telefone na minha frente.
"A Ária? Você deu em cima da Ária dentro de um elevador?"
"Não?" questionei, como se aquilo fosse óbvio. "Eu só fui um cavalheiro! Pode mais não, é?"
Matteo, descrente, n**a com a cabeça. Era óbvio que ele não acreditaria, mas também não iria o forçar a acreditar. Não era totalmente mentira, mas também não era verdade. Eu realmente quis ser gentil e, de quebra, quem sabe ao menos saber o nome da menina dos olhos coloridos.
Ela tinha os olhos mais lindos que eu já tinha visto. Cada um de uma cor, porém extremamente incríveis.
"Vem cá, você já reparou nos olhos dela?" antes que pudesse conter a língua, eu disse.
Meus amigos sorriam largo com isso.
"Loucura, né? Dandara me disse o nome uma vez." ele se vira para Matteo. "Ela tem um olho castanho claro e um verde, quase castanho também. Eu demorei pra perceber, até porque são quase iguais, mas depois fica mais nítido."
Concordo, lembrando então que horas atrás, com seu rosto próximo demais ao meu, ainda que no breu, eu conseguia vê-los perfeitamente bem toda vez que os relâmpagos clareavam o céu.
"Acho que o Lucas gostou dos olhos dela." Matteo não conteve o tom irônico, só então me fazendo perceber que eu devia ter me desligado da conversa por alguns segundos. Olhei-o confuso.
"Eu só perguntei. Vocês não tem outro pra encher o saco não? Cadê o Bruno?" tento levar o assunto até o nosso outro companheiro de casa, mas eles não pareciam tão interessados assim.
"Até temos, mas você é mais divertido. Está nervoso por quê?"
Eu sabia que tudo aquilo era apenas para me ver no ponto mais irritado do meu dia. Entretanto, mesmo não tendo dormido quase nada, eu havia acordado e decidido passar ele bem demais para isso.
"Não estou." Dou de ombros.
O celular de Gabriel, então, tocou chamando nossa atenção. Ele o pegou e segundos depois abriu um sorriso para a tela antes de me encarar como se tivesse encontrado um tesouro perdido.
"Hoje deve ser seu dia de sorte porque Dandara nem questionou quando pedi o número da amiga dela. " É o que diz, me deixando surpreso que ele já tivesse até pedido. "Olha o w******p que eu vou te mandar. Antes que me agradeça: de nada!"
Dei de ombros, fingindo desinteresse e digo que depois olharia. Volto a virar de frente pro meu notebook, antes de manda-los fechar a porta quando saíssem porque eu queria trabalhar e ignoro eles dizendo que nem se quer chegaram a tomar o café.
Entretanto, eles saem e assim fazem isso, apenas levo um tempo para testar o terreno seguro e então, abrir o App para salvar o número da mulher de olhos bonitos no meu telefone.