5. T E M P O R A L

2178 Palavras
"(…) Eu o vi sorrir de canto. Apertei mais a garrafa entre os dedos, enquanto a claridade dos relâmpagos lá fora cortava nossos rostos no meio do breu. Meu estômago revirou de nervoso, mas eu não me afastei quando ele deu o primeiro passo em minha direção. De alguma forma, eu sabia que não queria aquilo." ─ Parte do livro "Eternamente sua" Por Ária Coimbra. Página 15. O ruído da televisão é a primeira coisa que escuto quando abro os olhos e tenho consciência de onde estou. Olhando em volta, percebo então que não era a única a ter adormecido, tendo Bruno e Marisol no outro lado da sala e Gabriel e Dandara se espremendo para caber no sofá maior. Eu nem se quer sabia como que havia vindo parar no outro sozinha, sendo que antes eu ocupava o lado do primeiro casal que nem prestar atenção estava. Bruno e Sol, pelo o que eu pouco conhecia, pareciam viver em uma lua de mel constante, excluindo qualquer outra coisa que se desse o trabalho chegar por perto. Desde quando Dandara começou a sair com Gabriel e assim, consequentemente com casal, a presença de ambos já estava se tornando constante (principalmente a de Sol) para mim também, que nesses poucos dois meses acabava por me encontrar ocasionalmente com os dois em tudo que minha amiga fazia. Eles tinham se tornado grandes amigos para mim. Pisquei repetidas vezes, focando na televisão ligada. Acho que não tinha dado dez minutos de filme quando eu dormi, já que provavelmente eu não me lembrava muito dele e, pelo que estava passando agora, já deveria estar no fim de um outro do qual eu nem se quer conseguia entender o que estava rolando. Aproveitando o deley mental que me dava toda vez quando acordava, tento prestar atenção nas imagens passando porque não conseguia ouvir, tentando imaginar pelo menos que horas deveria ser aquela, já que todos estavam apagados. Era tarde, disso eu sabia e sabia também que já era pra ter voltado para casa há horas. A missão de me manter acordada tinha falhado antes mesmo de eu colocá-la em ação e conhecendo Dandara como conhecia, ela estava torcendo por isso. Alguma coisa nela exalava uma uma proteção de irmã mais velha surreal e só ela sabia o quanto esses dias haviam tirado qualquer resquícios de sanidade mental e corporal minha. Tomando coragem, decido me levantar. Qualquer resquício de sono meu havia evaporado do meu corpo, mesmo que ainda sentisse um peso enorme nos ombros e logo o tédio chegaria se eu continuasse a achar que conseguia fazer leitura labial de filme estrangeiro. E eu nem sabia a p***a de inglês direito pra isso. Decidindo pegar meu celular no quarto de hóspedes, a primeira coisa que chama a minha atenção, no entanto, são as cortinas da varanda balançando forte um pouco antes. Olhei para trás, achando estranho ninguém parecer se importar com a friagem, embora estivessem cobertos por lençóis finos demais. Dei dois passos na direção, encontrando a porta entreaberta e então, uma ventania bagunçou meu cabelo quando a abri de vez. Uma garoa fina caia lá fora, porém, o tempo indicava que deveria piorar mais tarde. São Paulo ultimamente estava assim, mas isso não chegava a me incomodar. Eu tinha vindo de um lugar chuvoso, era acostumada com tal coisa e mesmo que a adaptação de um tempo oscilante como o daqui conseguisse quebrar um pouco o costume. Quando eu era pequena, mamãe dizia que eu era como a chuva; Pura, limpa e sempre pronta para tornar tudo à minha volta diferente. O mundo já não era o mesmo a cada gota, assim como eu não era a cada instante e as pessoas não eram a cada momento. Uma simples reação que mudava tudo tão rápido. Queria entender em que ponto eu havia me perdido nisso. Em qual determinado momento tinha tirado tudo o que ela via em mim e como todas as minhas outras versões havia entrado em um colapso tão grande que resultou nessa última. De repente, sem fazer nada demais na minha vida, eu apenas me via com medo do futuro. Correr riscos não era bem comigo e tudo fugia do meu controle, também me amedrontada. Quando começa a ficar frio demais, percebo então que ainda permaneço na porta, olhando pro céu. Eu era muito de divagar quando não tinha nada pra fazer e isso sempre me rendia horas demais pensamento e enchendo a cabeça com besteiras. Devia parar com isso. O quarto, já muito conhecido por mim, ainda estava da mesma forma como tinha deixado na semana passada. Era tão frequente minhas vindas que, praticamente, eu já podia considera-lo como meu. Havia até considerado a possibilidade de morar com Dandara quando a mesma me convidara, mas isso já havia sido descartado há muito tempo. Eu prezava por minha privacidade, mesmo que gostasse de estar com ela. Não daria certo e outra, quem iria encobri-la quando precisasse dar uma de adolescente com Gabriel? Dentro da bolsa, pego meu celular que demora a ligar e, quando o faz, vejo os resultados da chuva de dias atrás já dando sinal na tela. Algumas manchas começando a cobrir as beiradas e um pouco do meio, indicando que ele não demoraria a queimar de vez. Eu deveria comprar outro em breve, era o recado que me passava, indicando talvez um pequeno descontrole no meu orçamento, porém não havia muito o que fazer. Eu não aguentaria ficar sem, afinal e ainda fazia parte do grupo "jovens/adultos viciados em consumir vidas falsas na internet afim de tampar o buraco que suas vidas desinteressantes e frustradas deixavam." Ahá, meio triste mas era verdade. Depois de dar uma conferida em todas as mensagens, na pequena agenda que eu tinha sobre o que deveria fazer e rolar o feed do i********:, meu estômago começou a dar sinal. Eu deveria saber que tentar me contentar somente com pipoca uma hora não daria conta, então, visando nisso, atravessei novamente a casa rumo a cozinha. O barulho da chuva tinha relativamente aumentado nesses poucos minutos e agora, só de passar pela varanda, já dava para escuta-la caindo. A luz do lugar estava acesa quando me aproximei, não contendo a expressão de surpresa ao encontrar um Lucas desocupado, com a atenção no celular, perto da mesa. "Hm... oi!" Eu disse, sem graça, assim que sua atenção veio para mim. Por um instante, tinha até me esquecido que ele também estava aqui. "Perdeu o sono foi?" perguntou, sorrindo quando me encostei no batente. "Meio que isso. Não tenho tanto costume de dormir cedo, então geralmente de madrugada eu acordo sem saber o que fazer. E você?" Vendo sua postura relaxar, ele larga o celular na mesa antes de cruzar os braços à altura do peito. Hm, belas tatuagens a propósito. Belas como você. "Eu ainda nem dormi." responde. "Uma hora dessas?" já era mais de duas da manhã quando olhei o relógio. Definitivamente era tarde demais. "Eu sou todo desregulado quando o assunto é sono. Tô acostumado já." Balanço a cabeça, mostrando que havia entendido. Não tínhamos muito o que conversar, então logo um silêncio estranho nos cobriu por completo. Parecendo me lembrar do que eu tinha vindo fazer, então, meu estômago volta a roncar. "Tá aqui há quanto tempo?" me desencosto, indo em direção a geladeira sem olha-lo. Tenho ciência do seu olhar em mim e aquilo me faz quase rir de nervoso. Eu não era do tipo que me fechava para as pessoas, mas elas realmente me deixavam nervosa as vezes. Independente de quem fosse, era como se eu sempre estivesse disposta a fazer alguma palhaçada. "Faz um tempinho. Quando eu percebi que havia sido o único que ficou para assistir o filme chato que Dandara escolheu, eu vim pra cá." Aquilo me faz rir. Dandara tinha uns gostos tão peculiares quando se tratava de filme que às vezes nem ela mesmo gostava. "Sei bem como é. " retiro de lá uma caixinha de leite, queijo e presunto. "Você deve estar com fome também. Ainda sugeri para pedir pizza mas ninguém me escutou. " Colocando tudo na mesa, não esqueço de pegar os pães no armário. Deixo as coisas organizadas, junto as duas canecas. "É, você estava certa." ri. "É claro que eu estava, mas como eu disse: ninguém me escutou. Agora vamos nós dois sobreviver com pão porque, bem, é tudo o que minha habilidade culinária é capaz de fazer." "Admiro isso. Cortar um pão realmente é uma tarefa muito difícil." Não consigo não rir disso, preferindo por ficar calada. Ele nos serve primeiro. "Então.." instantes após, sua voz corta nosso silêncio. Percebo, então, que diferente de mim, ele não parecia muito o tipo que curtia ficar calado. "De onde você é?" "Daqui mesmo, do interior. E você? "Fortaleza." diz. "Fortaleza, Ceará. Veio pra cá há muito tempo? " Dou de ombros. "Não, na verdade vim no meio do ano passado, por conta da faculdade e aqui estou até então." Eu podia ver em seu rosto que ele tinha mais perguntas, porém se mantinha quieto. Por um momento, gostaria de tentar entender o porquê de tamanho receio quanto a mim. "E você?" quando vejo que ele não falaria mais nada, digo. Demora cinco segundos até ele processar que dessa vez era eu quem estas puxando assunto. "Eu o quê?" "O que te fez sair de Fortaleza e vir pra cá? Não me parece muito um lugar que eu trocaria por São Paulo." Olho-o pelo canto dos olhos. "Por que não? Não gosta daqui?" "Eu amo esse lugar, mas acho que existem melhores por aí, mais bonitos e essas coisas.. sem contar que é bem distante, não é? Da família e tudo." "Essa é a parte r**m, mas eu gosto daqui. Sem contar que pra trabalhar de longe era r**m e eu precisava vir para ajudar na empresa com o Gabriel." Agora tudo fazia sentido. "Então você trabalha junto com o Gabriel? Que legal!" "Conhece?" "Mais ou menos. Esses dias Dandara me fez andar até lá só pra dizer oi pro irmão dela, mesmo que fosse para ver Gabriel as escondidas." — dou de ombros. "Eu não-" Quando eu ia falar sobre ter ficado horas esperando na recepção, o estrondo de um trovão nos cortou. Dois segundos depois, as luzes da cozinha piscaram, antes de se apagar por completo. Bem, parece que agora sim o negócio estava ficando sério. "Droga! Esqueci meu celular no quarto" Sussurrei. Uma pequena luz fraca que vinha lá de fora, além das dos relâmpagos era a única coisa que entrava através da janela, não tornando tudo totalmente escuro. Por isso, eu o vi pegar o dele, ascendendo a lanterna logo em seguida. "Acha que deve demorar muito a voltar?" me pergunta, colocando o celular de tela para baixo e clareando mais o lugar. "Não sei. Se depender do tempo lá fora..." me levanto, tentando espiar pela janela. "Capaz que não. Tá' muito forte e esse prédio já deveria ter um gerador de energia, mas pelo jeito..." "Que merda!" diz, aproximando-se um pouco quando outro trovão soou. Olhei para trás e então parei um tempo para analisar sua expressão. O olhar em volta do local, a rápida espiada também pela janela, mãos inquietas em um batuque incessante no balcão. Um homem tão grande com medo de chuva, haha que gracinha! "Você tá com medo?" Não contive o riso, recebendo um olhar arqueado nele. "Tô nada. Tranquilão aqui ó... Só estava olhando o..." Escondi a boca com as mãos, porque ele nem se quer conseguia disfarçar. Lucas tornou a se aproximar, um relâmpago clareando muito mais que a lanterna do celular havia o feito apertar os passos, até que estivesse do meu lado olhando pela janela. "Minha mãe costuma dizer que nunca é bom ficar perto de janelas, espelhos ou coisas de metais quando está chovendo assim." explica, olhando em volta. "E bem, você tá literalmente perto de uma, dentro de um cômodo cheio de metais... então..." "É, você está com medo." O corto. Ele me faz uma careta, revirando os olhos logo em seguida. "Tudo bem, bebê da mamãe. Não vai acontecer nada!' "Ouviu o que eu disse?" Eu solto uma risada fraca. Ele realmente parecia crente nisso.. "Do que você tá rindo?" "Nada!" apresso-me em dizer. "Relaxa ai, é só a chuva." Mesmo sem querer, meu olhar se volta para o tempo lá fora. Eu realmente não conseguia me assustar com aquilo, por mais que elas vezes ela fosse tão caótica. Havia algo em mim que se identificava com o ato. "É só a chuva?" ironicamente, repete. Tenho que me segurar para não rir de novo, virando para responde-lo, mas colidindo com seu corpo no processo. Suas mãos seguraram meu braço, e tudo o que vi quando levantei a cabeça, então, foi seus lábios se esticando em um sorriso de lado. Não sabia que ele estava tão perto. p***a. Que pegada... "Tô começando a achar que você meio que gosta de cair em cima de mim." O ouço sussurrar. Um trovão volta a nos despertar.
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