O homem não esperou resposta. A mão no ombro de Irina virou pressão, pressão virou direção, e ela estava dentro do prédio antes de decidir se ia ou não.
A sala era grande. Cadeiras enfileiradas voltadas para um palco pequeno no fundo, a maioria ocupada. Tinha gente demais para aquele horário, demais para aquela rua sem placa, e ninguém conversava. Irina procurou Vanessa com os olhos e não encontrou. Procurou uma saída e encontrou duas, uma na frente e uma lateral, as duas com homens parados do lado que não estavam lá por acaso.
O estômago dela afundou.
No palco, um homem de terno bateu um martelo na bancada. "Próximo lote." A voz era profissional, igual a de qualquer apresentador de qualquer coisa, e foi exatamente isso que fez a frase seguinte ser pior. "Irina Solano. Vinte e um anos. Ômega. Sem lobo desperto. Virgem confirmada."
Ela levantou da cadeira antes de pensar.
A mão do segurança atrás dela a forçou de volta. "Senta."
"Isso é um erro." Ela ouviu a própria voz saindo controlada e não sabia como. "Eu vim buscar minha irmã. Eu não faço parte disso."
O leiloeiro não olhou para ela. "Lance inicial em aberto."
Na primeira fila, um homem levantou dois dedos. Não se virou, não disse nada, não demonstrou pressa nenhuma. Só dois dedos no ar com a calma de quem já sabe como isso termina.
Irina abriu a boca para gritar. A mão do segurança cobriu o rosto dela antes que o som saísse, e com a outra mão pressionou algo no pescoço dela, uma agulha pequena, uma pontada rápida. Depois soltou.
Ela esperou a dor. Não veio.
O que veio foi calor. Não na pele, por dentro. Começou no pescoço e desceu devagar pelo peito, pelo estômago, pelas pernas, e Irina apertou as mãos nas coxas com força porque precisava segurar alguma coisa concreta enquanto o concreto ainda fazia sentido. As unhas deixaram marcas vermelhas que ela não sentiu.
Nunca tinha sentido aquilo antes. Era como pressão embaixo da pele, como se algo estivesse acordando num lugar que ela nem sabia que existia dentro dela. Fraco. Desorientado. Mas presente, presente de verdade, e isso era quase mais assustador do que o salão e o leiloeiro e os dois dedos levantados na primeira fila.
A loba que nunca acordou se mexeu. Só isso. Não despertou, não fez nada útil, mas Irina a sentiu pela primeira vez em vinte e um anos e por um segundo não soube se queria chorar de alívio ou de desespero.
Os lances continuavam. Ela ouvia os números chegando de longe, a droga já instalando uma camada de distância entre o que acontecia e o que o cérebro conseguia segurar. O homem da primeira fila não levantava a voz. Só os dedos, calmo, sem pressa, como quem tem certeza absoluta de qual é o número final.
O martelo bateu.
O homem da primeira fila se levantou, ajeitou o paletó com um gesto preciso e começou a caminhar na direção dela sem apressar o passo. Irina olhou para ele e olhou para o segurança ao lado, que deu meio passo para frente para receber o comprador.
Meio passo.
Ela não pensou. O corpo foi primeiro, levantou, virou, empurrou a porta lateral com o ombro antes que o segundo segurança fechasse o espaço. Bateu no batente, ignorou a dor, e saiu para a rua.
O ar frio de Chicago bateu na cara dela como um tapa. Ela correu sem direção, os pés no asfalto e a droga queimando por dentro como brasa, o calor crescendo em vez de diminuir, as pernas obedecendo mas por quanto tempo ela não sabia.
Atrás dela, passos.
A cidade estava na frente. Escura, longa, sem nenhuma placa que fizesse sentido, sem ninguém na calçada que tivesse cara de pessoa que ajuda. Irina correu e não olhou para trás porque olhar para trás era perder segundo e segundo era o que ela não tinha.
O corpo ia ceder. Ela sabia disso. Sentia nas pernas, no peito, na forma que a droga pulsava com cada batida do coração, quente e insistente e crescendo. Não sabia para onde estava indo. Sabia que parar era pior.
Então dobrou a esquina e colidiu com alguma coisa sólida que não cedeu.
Não alguma coisa. Alguém.