Pré-visualização gratuita A Visita
O shopping fechava às dez. Eram nove e quarenta e dois quando o som de saltos altos ecoou pela loja fazendo Irina levantar os olhos, o choque foi imediato diante dela como se fosse um fantasma estava Vanessa sua irmã gêmea.
"Você não muda mesmo não é, a mesma omega coitadinha de sempre."
Sem oi. Sem quanto tempo. Quatro anos sem se verem sem nenhuma notícia, e era assim Vanessa ia esfregar na cara de Irina novamente o fato dela ter nascido sem uma loba em uma familia de alfas.
"Por onde você andou, tem noção do estrago que casou, como você pode fazer o que fez com nossos pais?" , diz Irina decidindo ignorar a provocação
"Não começa com drama, sei que esta em uma situação financeira difícil e vim dizer que vou devolver parte do dinheiro que peguei." A voz de Vanessa tinha aquele tédio de sempre, levemente ensaiado, de quem está fazendo um favor enorme só por estar ali, ela estende a mão entregando um papel para Irina e continua. "Vou estar nesse endereço daqui meia hora esteja lá. Não vou ficar aqui esperando a noite toda."
Irina quer agarrar a irmar calhar ela ate que algum tipo de sentimento de culpa, arrependimento qualquer coisa que a torne normal se manifeste, mas ela sabia como terminaria se fizesse isso , ferida caída levando dias para se curar, Irina aprendeu cedo que revidar sendo omega era perigoso não importa quanto ela queria esfregar a cara da irmã no chão agora.
Irina lê o endereço ia pergunta o que lugar era aquele mas Vanessa já estava do lado de fora da loja , sai sem olhar pra tras , sem se importar nem com , nem com ninguem.
Ela suspira e lê o endereço denovo
South Side, perto do lakeshore. Uma rua que Irina não conhecia. Olhou para o relógio na parede. Nove e quarenta e cinco. Metrô, caminhada, chegaria lá por volta das dez e meia.
A conta do tratamento da mãe vencia em três dias e isso não lhe dava escolha a não ser ir ao endereço dado pela irma.
Ela guardou o celular e foi terminar de fechar a loja.
Vanessa havia sumido oito meses atrás com o dinheiro da família e a escritura da casa dos pais, mandando uma mensagem de texto dizendo que precisava de um recomeço. O pai não sobreviveu à desonra. A mãe perdeu a loba de tristeza e ficou na cama, e Irina largou a faculdade de curandeira, pegou aquele emprego e passou a pagar tudo, as contas, as dívidas que Vanessa deixou, o tratamento que a mãe precisava e que não era barato nem rápido.
Pessoas não mudavam assim. Vanessa especialmente não mudava assim.
Mas a conta vencia em três dias e Irina mordeu o lábio até sentir o gosto de sangue e foi mesmo assim.
O metrô estava quase vazio. Ela ficou de pé com a mão no corrimão olhando para o próprio reflexo na janela escura sem realmente se ver, calculando. Pegar o dinheiro, depositar antes da meia-noite se o aplicativo deixasse, ligar para a clínica de manhã. Simples. Rápido. Sem conversa, sem explicação, sem precisar de mais nada de Vanessa depois disso.
Nunca precisava de mais nada de Vanessa. E sempre terminava precisando aguentar mais alguma coisa.
Desceu na estação e caminhou seis quarteirões até encontrar a rua.
Parou.
As luzes funcionavam. As calçadas existiam. Tinha gente. Mas tinha uma van com motor ligado no meio do quarteirão sem motivo visível, e tinha um grupo de pessoas paradas perto de um prédio sem placa que não conversavam entre si mas olhavam para direções diferentes com aquela atenção específica de quem está vigiando sem parecer que está vigiando.
O estômago de Irina fechou antes da cabeça terminar de processar.
Ela cresceu em uma matilha que a tratava como defeito. Crianças que crescem sendo subestimadas aprendem a ler o ambiente com uma precisão que os outros não precisam desenvolver. E o ambiente inteiro daquela rua dizia vai embora, vai embora agora.
Olhou para o endereço no celular. Olhou para o prédio sem placa. Olhou para a van.
Deu um passo para trás.
A mão caiu no ombro dela antes que o segundo passo acontecesse. Grande, pesada, firme do tipo que não oferece ajuda nenhuma.
Irina virou devagar. Virar rápido era mostrar medo, e mostrar medo aqui era o tipo de erro que não se desfazia.
O homem atrás dela era largo, de ombros que pareciam ter sido construídos para ocupar espaço, e sorria do jeito errado, com a boca mas não com os olhos.
"Irina Solano." Não foi pergunta.
Ela não respondeu.
"Você está atrasada." Ele inclinou a cabeça na direção do prédio sem placa. "Eles já estão esperando."
Irina olhou para a mão dele no próprio ombro, depois olhou para ele, e entendeu com uma clareza que doeu que Vanessa não estava do outro lado daquela porta esperando pagar nenhuma dívida.
Nunca esteve.
O homem não esperou resposta. A mão no ombro de Irina virou pressão, pressão virou direção, e ela estava dentro do prédio antes de decidir se ia ou não.
A sala era grande. Cadeiras enfileiradas voltadas para um palco pequeno no fundo, a maioria ocupada. Tinha gente demais para aquele horário, demais para aquela rua sem placa, e ninguém conversava. Irina procurou Vanessa com os olhos e não encontrou. Procurou uma saída e encontrou duas, uma na frente e uma lateral, as duas com homens parados do lado que não estavam lá por acaso.
O estômago dela afundou.
No palco, um homem de terno bateu um martelo na bancada. "Próximo lote." A voz era profissional, igual a de qualquer apresentador de qualquer coisa, e foi exatamente isso que fez a frase seguinte ser pior. "Irina Solano. Vinte e um anos. Ômega. Sem lobo desperto. Virgem confirmada."
Ela levantou da cadeira antes de pensar.
A mão do segurança atrás dela a forçou de volta. "Senta."
"Isso é um erro." Ela ouviu a própria voz saindo controlada e não sabia como. "Eu vim buscar minha irmã. Eu não faço parte disso."
O leiloeiro não olhou para ela. "Lance inicial em aberto."
Na primeira fila, um homem levantou dois dedos. Não se virou, não disse nada, não demonstrou pressa nenhuma. Só dois dedos no ar com a calma de quem já sabe como isso termina.
Irina abriu a boca para gritar. A mão do segurança cobriu o rosto dela antes que o som saísse, e com a outra mão pressionou algo no pescoço dela, uma agulha pequena, uma pontada rápida. Depois soltou.
Ela esperou a dor. Não veio.
O que veio foi calor. Não na pele, por dentro. Começou no pescoço e desceu devagar pelo peito, pelo estômago, pelas pernas, e Irina apertou as mãos nas coxas com força porque precisava segurar alguma coisa concreta enquanto o concreto ainda fazia sentido. As unhas deixaram marcas vermelhas que ela não sentiu.
Nunca tinha sentido aquilo antes. Era como pressão embaixo da pele, como se algo estivesse acordando num lugar que ela nem sabia que existia dentro dela. Fraco. Desorientado. Mas presente, presente de verdade, e isso era quase mais assustador do que o salão e o leiloeiro e os dois dedos levantados na primeira fila.
A loba que nunca acordou se mexeu. Só isso. Não despertou, não fez nada útil, mas Irina a sentiu pela primeira vez em vinte e um anos e por um segundo não soube se queria chorar de alívio ou de desespero.
Os lances continuavam. Ela ouvia os números chegando de longe, a droga já instalando uma camada de distância entre o que acontecia e o que o cérebro conseguia segurar. O homem da primeira fila não levantava a voz. Só os dedos, calmo, sem pressa, como quem tem certeza absoluta de qual é o número final.
O martelo bateu.
O homem da primeira fila se levantou, ajeitou o paletó com um gesto preciso e começou a caminhar na direção dela sem apressar o passo. Irina olhou para ele e olhou para o segurança ao lado, que deu meio passo para frente para receber o comprador.
Meio passo.
Ela não pensou. O corpo foi primeiro, levantou, virou, empurrou a porta lateral com o ombro antes que o segundo segurança fechasse o espaço. Bateu no batente, ignorou a dor, e saiu para a rua.