A neutralização de Torres deixa um vácuo carregado. Nos dias que se seguem, a mansão respira diferente. Os novos seguranças, homens de olhos atentos e poucas palavras contratados por Dante através de um canal blindado, são fantasmas eficientes. Mas a ausência do chefe anterior, a sua saída súbita em “férias indefinidas”, paira como um gás inodoro e tóxico, todos sentem e ninguém comenta.
Viktor, como um sismógrafo, registra o tremor, e a sua resposta não é um terremoto, mas um ajuste de pressão. As comunicações de Sofia se tornam mais frequentes, mais ansiosas, com certeza ele a pressiona por informações sobre “reações à saída do Torres”, sobre “mudanças no humor do Dante”. Ela, nossa pobre agente dupla, passa as informações inócuas que nós fornecemos, temperadas com um leve suor de medo digital que eu consigo ler entre as linhas.
Dante lida com a pressão como granito, o que sempre me surpreende, agora ele acelera os planos. O evento de caridade do Instituto Neurológico Nacional, um jantar de gala que patrocinamos, não é mais um mero compromisso de fachada, é um campo de batalha escolhido.
— Viktor vai estar lá — ele me diz, na véspera, enquanto escolho um vestido no closet que se tornou meu mas nunca senti como tal. — Ele não pode faltar, é uma demonstração de poder e nós precisamos fazer uma demonstração maior.
— O que você tem em mente?
— União inabalável, felicidade, até. — Ele diz a palavra “felicidade” como se fosse um código tático. — Você e eu, inseparáveis. Um casal tão sólido, tão harmonioso, que qualquer insinuação dele sobre instabilidade soará como inveja patética, precisamos brilhar, Clara. De um jeito que cegue.
Olho para os vestidos, tecidos caros, cortes impecáveis, armaduras de seda, então escolho um vermelho escuro, quase vinho, de alças finas e cauda sutil, é uma cor de poder, de advertência.
— E a Melissa? A Lara?
— Lara ficará com a enfermeira particular, quanto a Melissa… — Ele faz uma pausa rara. — Melissa quer ir.
A declaração me pega de surpresa.
— Ela disse isso?
— Não com palavras. Mas trouxe um desenho dela, de vestido ao nosso lado, em um lugar cheio de pessoas como palitos. — Ele sorri, um sorriso cansado e genuíno. — Ela quer ver o palco. Quer mapear o teatro.
A ideia me aterroriza. Expor ela a esse mundo podre, ao Viktor, ao olhar público.
— É muito perigoso, Dante.
— É mais perigoso deixá-la aqui, imaginando. Ela precisa ver que podemos ocupar aquele espaço, que não nos escondemos. E, estrategicamente… uma criança, nossa criança, presente e calma, é um símbolo poderoso de normalidade. De vitória sobre o trauma que ele ajudou a causar.
Ele está usando a própria filha como peão e eu confesso que a revolta sobe na minha garganta, mas morre antes de virar palavras, porque entendo que não é apenas tática, é a verdade dele e para Dante, a vitória sobre Viktor é a restauração do mundo quase perfeito de Melissa, e neste momento tudo é estratégia, mas nem toda estratégia é fria. Algumas são incandescentes de necessidade.
— Ela fica conosco o tempo todo — digo, é uma condição, não uma pergunta.
— O tempo todo — ele concorda.
Finalmente a noite do evento chega e com ela a transformação é completa. Dante está impecável em seu smoking preto, a austeridade habitual polida para um brilho de autoridade impenetrável enquanto estou vestindo o vestido vermelho, o cabelo preso em um coque baixo e severo, e jóias mínimas — os brincos de pérola da minha mãe, um toque de rebeldia privada.
Melissa parece uma pequena fada saída de um conto sombrio, vestida em um vestido azul-celeste e sapatos brilhantes. Seu rosto está sério, mas seus olhos, enormes, observam tudo com a curiosidade intensa de um explorador em terra estranha.
No carro, ela se senta entre nós, sua pequena mão encontra a minha e depois a do pai. Ela nos une fisicamente, um elo vivo. Dante olha para ela e depois para mim, e algo em sua expressão se desfaz por um segundo, ele agora não é o estrategista, é o pai. Aterrorizado mas orgulhoso.
O salão do hotel é um mar de cristal, luzes baixas e sorrisos caros. A entrada do “casal Lobo com a pequena herdeira” causa o frisson calculado. Sussurros, olhares, flashes de câmeras discretas de colunistas sociais. Seguramos as mãos de Melissa para a encorajar, ela no centro, nossa âncora e o nosso estandarte.
Nossa pequena não se encolhe, caminha com uma dignidade silenciosa que arranca suspiros disfarçados. Ela não sorri,apenas observa enquanto absorve a geografia do poder, os grupos, as hierarquias.
Viktor nos encontra perto do bar, ele vem com um turbilhão de risadas fáceis e tapas nas costas, mas seus olhos azuis são lascas de gelo que vão direto para Melissa e depois para as nossas mãos entrelaçadas.
— Dante, Clara! Ohhh, claro a pequena princesa. Que surpresa encantadora! — sua voz é um mel ácido.
— E você, querida, está se divertindo neste baile chato de gente grande? — se abaixa para falar na mesma altura da nossa pequena, enquanto finge simpatia.
Melissa apenas olha para ele, o olha por longos minutos, sem piscar. Então, vira a cabeça e enterra o rosto na dobra do smoking de Dante, num gesto claro de rejeição.
O silêncio é microscópico, mas devastador e o sorriso de Viktor congela por uma fração de segundo. Dante aproveita o momento, passando a mão pelos cabelos de Melissa com uma naturalidade possessiva.
— Ela é seletiva com sua atenção, Viktor. Como deve ser.
— Claro, claro — Viktor se recompõe, erguendo-se. Seu olhar desliza por mim, avaliando o vestido, a postura, a mão que ainda segura a de Melissa. — Você está simplesmente radiante, Clara. O matrimônio e… as responsabilidades familiares parecem concordar com você, é quase uma transformação.
— A clareza de propósito tem esse efeito, Viktor — respondo, o sorriso nos meus lábios é uma lâmina fina. — Quando se sabe exatamente o que se está defendendo.
Ele segura meu olhar, o duelo silencioso ocorrendo sob o olhar polido da sociedade. Ele vê a unidade, vê a fortaleza e vê, com incômodo crescente, que a filha muda é parte integrante dela.
— Sem dúvida — ele murmura. — A defesa é tudo. Mas cuidado para não confundir trincheiras com prisões, afinal algumas fortalezas… podem se tornar celas.
— Só para quem está do lado de fora tentando invadir — Dante intervém, sua voz é calma, final. — Porque para quem está dentro, é simplesmente o lar.
A palavra “lar” dita por ele, neste contexto, é a arma mais poderosa da noite então Viktor recua um milímetro, seu sorriso se torna um pouco mais rígido.
A noite prossegue como uma coreografia de alto risco. Dançamos — Dante e eu — com Melissa observando de uma cadeira na beira da pista, sempre com um dos seguranças novos à uma distância respeitosa. Nosso corpo se move em uníssono, uma demonstração de sintonia que é metade performance, metade verdade biológica. Sua mão na minha cintura é firme, orientadora e meu corpo responde aos seus comandos como se praticamos a vida inteira.
— Você está ótima — ele sussurra no meu ouvido, durante uma valsa.
— Você também.
— Não estou falando do vestido, estou falando do olhar. Clara, você o encarou e não pestanejou.
— Eu estava pensando na Lara e nela. — olho discretamente para Melissa sentada nos observando.
— É o melhor motivo.
A noite atinge seu clímax quando o mestre de cerimônias anuncia a doação recorde da Lobo Holding para pesquisas sobre mutismo seletivo e traumas infantis. O projeto levará o nome de “Iniciativa Beatriz”. Dante sobe ao palco para um breve discurso.
Ele fala da perda, da dor, da esperança, em nenhum momento menciona Viktor tampouco o Lúmen. Fala da luz que se apaga e da coragem necessária para reacendê-la, mas o seu olhar, porém, não está na plateia, está em mim e em Melissa, que agora está sentada no meu colo, ao lado do palco.
— A força — ele diz, a voz ecoando no salão silencioso — não está em nunca cair. Está em se levantar, e em ter alguém para estender a mão. Em encontrar, na escuridão, alguém cujo silêncio compreende o seu e juntos, transformam esse silêncio em algo novo, não necessariamente em palavras. Mas em paz, em segurança. Em lar. — enfatiza a última palavra.
É o discurso mais pessoal, mais vulnerável que ele já fez publicamente. E é uma declaração de guerra disfarçada de poesia. Cada palavra é um tijolo na muralha que estamos construindo ao redor da nossa família improvisada. Aplausos fervorosos se seguem e Viktor, na primeira fila, aplaude com os outros, seu sorriso está perfeito, mas seus olhos são de puro ódio.
Na volta para casa, Melissa adormece no banco de trás, a cabeça no meu colo, exausta da sobrecarga sensorial. Dante dirige em silêncio, a tensão da performance começa a se dissolver, deixando para trás um cansaço profundo e uma estranha euforia.
— Nós ganhamos hoje — ele diz, finalmente, enquanto a cidade iluminada desfila pela janela.
— Ganhamos o quê?
— A narrativa. Ele tentou nos provocar, tentou minar, mas nós mostramos uma frente unida, feliz, filantrópica, com uma criança curada o suficiente para estar em público. A história que sairá nos jornais amanhã será sobre a redenção de Dante Lobo, a família reconstruída, o legado de Beatriz. Não sobre conflitos corporativos. Ele perdeu o controle da história.
É verdade. Mas a vitória parece oca.
— E enquanto isso, nos bastidores, ele planeja Deus sabe o quê.
— Sempre planejará. Mas agora, o mundo vê o que queremos que veja. E isso é um tipo de poder, o poder de ditar a realidade.
Olho para Melissa, adormecida, seu rosto angelical iluminado pelos faróis dos carros. Ela foi nosso trunfo mais poderoso hoje. Um ser humano tão pequeno, mas já usado como símbolo. A culpa é um nó na minha garganta.
— Sinto muito por ter usado ela assim — digo, a voz rouca.
— Eu também — ele admite, sem hesitar. — Mas ela escolheu vir. E ela… ela precisa ver que podemos enfrentar o monstro, não apenas nos corredores escuros, mas sob holofotes. É uma lição de coragem diferente.
Ao chegarmos em casa, levo Melissa, ainda sonolenta, para a cama e enquanto tiro seu vestido de festa e visto seu pijama ela abre os olhos por um instante, me olha, e então pega minha mão e a leva ao seu coração. Bum, bum, bum. Um ritmo lento, constante. Ela sorri, um sorriso minúsculo e cansado, e fecha os olhos.
É seu jeito de dizer que está bem, que sobreviveu e que o coração bate.
Desço e encontro Dante no escritório. Ele está de pé, sem o paletó, a gravata está solta, e ele está bebendo um uísque, me oferece um copo e eu aceito. O líquido queima uma trilha de calor até meu estômago vazio.
— Foi um risco — ele diz. — Mas valeu a pena.
— Ela me fez tocar seu coração antes de dormir — comento, olhando para o líquido âmbar no copo. — Para me mostrar que estava batendo.
Ele pousa o copo e se aproxima. Seus olhos estão sombrios, carregados de tudo que não foi dito.
— O coração dela, o seu, o da Lara. São os únicos batimentos que importam nessa guerra. O resto é ruído.
Ele me puxa para perto e sela os nossos lábios, o beijo não é de vitória, é de alívio, de gratidão por mais um dia em que todos os corações que importam ainda batem. É um beijo que sabe do preço pago, e aceita.
Mais tarde, na cama, o cansaço nos consome enquanto a necessidade, o desejo surge desse vazio. Dante arranca as roupas com eficiência, não delicadeza e na penumbra, vejo o volume evidente sob seu boxer — uma afirmação crua do que eu também sinto.
Sem pedir sua boca desce pelo meu pescoço, deixando marcas que concordamos em esconder e uando seus lábios cobrem meu seio, a sucção é fome pura, sua mão encontra meu botão do prazer encharcado, dois dedos entram sem hesitar.
— Sempre tão pronta — murmura contra minha pele enquanto me contorço contrwa seu corpo, contra seus dedos...
Sua língua desce em uma linha lenta deixando beijos quentes sob a minha pele até chegar entre minhas pernas. O primeiro contato é íntimo e preciso, Dante trabalha com determinação, círculos firmes em meu c******s e enquanto seus dedos se curvam dentro de mim o orgasmo vem rápido, um tremor contido que me faz engasgar.
Ele sobe, seu m****o duro pressiona minha entrada.
— Me peça — ordena com a voz áspera.
— Me preencha, Dante, me faça sua. — sussurro.
Ele não espera, em um movimento único e calculado sinto cada centímetro me invadindo, preenchendo o vazio. O ritmo é profundo, intenso e cada estocada é uma afirmação, minhas pernas se enroscam em sua cintura enquanto ele enterra o rosto no meu pescoço e suas mãos agarram meus s***s com posse desesperada.
A velocidade das estocadas aumentam quando a necessidade aperta, o desejo evidente nos domina, minhas unhas marcam suas costas, seus braços, sinto a onda do calor crescer em meu baixo ventre, começando onde nossos corpos se fundem.
— Clara — sua voz rouca me deixa ainda mais excitada.
Meu nome pronunciado em sua boca é como um gatilho e o orgasmo me atinge com força bruta, um grito abafado contra seu ombro, e ele segue meu ritmo, mais três estocadas profundas, e para. Sinto a pulsação dele dentro de mim, quente e real.
Dante desaba sobre mim, fica assim por alguns minutos, a respiração pesada, acelerada e depois rola para o lado, e me puxa contra seu peito e seu braço envolve a minha cintura enquanto sua boca busca a minha em um beijo.
—Você é gostosa, é bom estar com você, Clara, estar dentro de você… — suas palavras me deixam sem reação…
Precisamos apreciar estes momentos, ainda estamos vivos — murmura contra meu pescoço após abandonar minha boca.
Pressiono sua mão com a minha. É a única resposta necessária.
Aqui, no escuro, não há platéia. Só pele, batimentos, o cheiro do sexo e a promessa tácita de que, enquanto um segurar o outro assim, podemos suportar o próximo round.
A vitória tem um sabor complexo, parte uísque caro, parte lágrima salgada. E o brilho que mostramos ao mundo é, no privado, apenas o reflexo cansado de dois corpos se agarrando para não se despedaçarem.