A noite não traz descanso, traz o eco da voz de Torres no meu ouvido, a memória tátil do envelope passando pela mesa, brilho da frieza, uma vez aceso, recusa-se a ser apagado. Ilumina pesadelos silenciosos onde eu sou tanto a figura com a chave quanto a figura na gaiola.
Dante dorme ao meu lado, um sono profundo e imóvel de general após traçar a estratégia final. Eu fico acordada, olhando para o teto, contando as batidas do meu coração até que se fundam com o tique-taque do relógio no pulso. Sou a isca que mordeu de volta. A sensação é estranha, intoxicante e doentia.
O dia amanhece e vejo Dante acordar exatamente às seis. Seus olhos se abrem, claros e focados, sem um vestígio da névoa do sono. Vira-se e me observa, sabendo que eu estou acordada.
— Hoje — diz, a única palavra carregada de finalidade.
— Sim.
Ele se levanta, veste-se com a precisão habitual, hoje não é um dia de terno. Veste calças de gabardine e uma camisa cinza, sem gravata, como costumo dizer, uma roupa de trabalho sujo que será feito.
— Clara, você fica aqui com a Melissa e a Lara. A equipe nova já está de plantão — os homens que eu trouxe para substituir a lealdade duvidosa de Torres. — Ninguém entra ou sai sem a minha autorização direta.
— E você?
— Eu tenho uma reunião de desempenho com o chefe de segurança. Para discutir… falhas recentes nos protocolos.
Há um fio de ironia n***a em sua voz. E Dante está antecipando o momento.
— Você vai mostrar a ele a gravação. — Não é uma pergunta, é uma afirmação.
— Vou oferecer a ele uma escolha, uma saída “honrosa”, sob certas condições, ou a exposição total. Se Torres for inteligente, escolherá a porta número um, se for burro ou leal demais ao Viktor… bem, a porta número dois se abre sozinha.
— E se ele reagir? Se for violento?
Dante abre uma gaveta da minha penteadeira — “minha penteadeira” — e tira um objeto compacto e escuro, uma pistola de defesa, pequena, mas mortal. Ele a coloca na minha mão, o metal é gelado e pesado, um peso final.
— Você sabe usar?
Balbucio, olhando para a arma. — Não, não realmente.
Ele pega minha mão, ajusta meus dedos no punho, no gatilho, suas mãos são firmes, didáticas.
— É simples, destrave aqui, mire o alvo e puxe o gatilho. Mas só puxe se não houver alternativa. Os homens lá fora são pagos para serem a alternativa. Este é o último recurso para você, para elas.
A lição é de cinco segundos. O objeto repousa na minha palma, um convite ao abismo, sinto um enjoo súbito.
— Não quero isto.
— Eu também não quero que você precise — Dante responde, sem emoção. — Mas o mundo é o que é, Clara, Viktor já cruzou linhas e o Torres é capaz de cruzá-las também. Prefiro que você tenha isso e não precise usar, do que se precisar e não ter.
Ele fecha minha mão ao redor da arma. O gesto não é carinhoso, é uma transmissão de responsabilidade, de poder mortal.
— Esconda-a. Mas a mantenha acessível.
Viro-me e abro a gaveta do criado-mudo. Envolvo a arma em um lenço de seda — ironicamente, um presente de “casamento” que nunca usei — e a coloco no fundo. A gaveta fecha com um clique suave enquanto o objeto some, mas seu peso permanece no ar.
Dante observa, satisfeito e me dá um beijo rápido e seco, na testa e sai.
O dia se arrasta dentro de uma bolha de tensão suspensa e Lara percebe o clima, fica mais quieta, perguntando menos. Melissa, claro, é a mais aguda, ela não desenha apenas fica sentada na janela da sala de estar, olhando para os portões, como se pudesse ver através das paredes do escritório de Dante a quilômetros de distância.
Às 10h17, meu celular vibra com uma mensagem de Dante: “Ele chegou.”
Fico paralisada, imagens invadem minha mente: Torres agressivo, Dante ferido, tiros. Respiro fundo, me forço a mover. Caminho até a cozinha para pegar água, minhas mãos não tremem mas estão frias, estáveis. O brilho da frieza estabiliza tudo.
Os minutos se arrastam, quinze, trinta.
Às 10h52, outra vibração. “Aceitou a porta um, condições em negociação. Se mantenha aí.”
Um suspiro que eu não sabia que estava prendendo escapa dos meus pulmões. “A porta um, a saída honrosa”. Torres escolheu ser inteligente, não leal. O alívio é seguido por uma pontada de desprezo. Ele é tão vendido quanto calculamos.
Mas “negociação” significa que há discussão. Torres não está aceitando passivamente, ele está tentando salvar algo, extrair algo.
Meu celular toca. É o número interno da portaria.
— Senhora Lobo? — É a voz de um dos novos homens, Almeida.
— Sim.
— Há um carro na portaria, a senhora Sofia, a terapeuta, diz que tem uma sessão de emergência com a Melissa, marcada pelo Sr. Lobo, mas não consta na agenda.
O sangue parece parar nas minhas veias. Sofia, agora.
Isto não é coincidência. É parte do jogo. A pergunta é de quem?
— Ela está sozinha?
— Parece estar, um carro de aplicativo.
— Não a deixe entrar, diga que há um imprevisto familiar e que o Sr. Lobo entrará em contato para remarcar. Seja educado, mas firme.
— Entendido.
Desligo, o coração acelera. Por que Sofia viria agora? Uma verdadeira sessão de emergência? Improvável. Viktor testando nossa reação? Ou Sofia, assustada, tentando se aproximar por conta própria?
Mando uma mensagem urgente para Dante: “Sofia apareceu na portaria alegando sessão de emergência, neguei a entrada. É parte disso?”
A resposta não vem.
Os minutos são agulhas, então caminho até a sala de estar e Lara olha para mim, preocupada.
— Está tudo bem, Clara?
— Tudo bem. Só um contratempo com a agenda da Melissa.
Melissa vira-se da janela. Seus olhos encontram os meus. Ela levanta uma mão e faz um gesto curto, preciso: dedos imitando uma boca falando, depois um ponto de interrogação no ar.
Ela está perguntando? — pergunto com os olhos.
Melissa acena e então, faz outro gesto: aponta para si, depois para a porta, e balança a cabeça negativamente.
Ela não quer vê-la.
— Não vai vê-la — afirmo em voz alta, para ambas. — Já cancelei.
Melissa acena, satisfeita, e volta a olhar pela janela.
Meu telefone vibra novamente, é Dante.
“Foi tentativa de acesso por parte do Viktor. Ele mandou ela criar um distúrbio, testar a segurança na minha ausência, você agiu certo, a reunião está terminando, Torres aceitou os termos, sai da empresa hoje, “férias imediatas”, depois demissão por justa causa pré-acordada, sem ação judicial de nossa parte e em troca, ele some e fica calado.”
Terminou, Torres está neutralizado, é uma peça do tabuleiro de Viktor, removida sem alarde, sem sangue. É uma vitória limpa, Clara.
— E a Sofia? — digito.
“Deixe comigo. Vou lidar com ela depois.”
Uma hora depois, o carro de Dante entra no portão, da janela, vejo-o descer, sua postura é ereta, vitoriosa. Ele olha para cima, para a janela onde estamos, e acena uma vez, breve.
Desço ao hall para encontrá-lo, seu rosto está sério, mas os olhos têm um brilho frio de triunfo.
— Está feito — diz, em voz baixa. — Ele está arrumando o escritório dele agora, sai em uma hora e dois dos homens do Viktor na equipe dele vão com ele, “por lealdade”. Limpamos a casa.
— E os termos?
— Exílio e uma quantia modesta para não levantar suspeitas, mas suficiente para mantê-lo quieto.
Ele acha que está saindo por cima, levando seus comparsas e um pé-de-meia. O que ele não sabe é que a quantia vem de uma conta rastreável vinculada a uma das offshores do Viktor e quando a hora certa chegar, vazamos isso. Viktor vai pensar que Torres o roubou e fugiu. Dividiremos ainda mais o campo deles.
Dante, você realmente é demais… Sua astúcia é brutal, não apenas removeu o homem, como plantou uma bomba-relógio de desconfiança no acampamento inimigo.
— E a Sofia na portaria?
— Foi um teste, como suspeitei, Viktor queria ver se, com Torres “distraído” na reunião comigo, a segurança fraquejar, você passou no teste. Agora ele sabe que a fortaleza se mantém firme, mesmo com o general temporariamente ausente.
Confesso que sinto um fio de orgulho perverso, seguido por vergonha. Passei no teste de um psicopata.
— E ela? O que fazemos?
Dante sorri, um sorriso que não é nada bom.
— Nós vamos a elogiar pelo app seguro, é claro. Diremos que sua tentativa de acesso, embora frustrada, foi corajosa e mostrou iniciativa, vamos dizer que estávamos testando a resposta da equipe nova e ela ajudou, assim reforçamos a sua posição com o Viktor e fazemos ela se sentir mais valiosa, mais confiante. E assim, mais útil para nós.
A manipulação é tão profunda que me perco nas camadas. Estamos elogiando uma traidora por tentar invadir nossa casa, para que ela traia melhor o homem para quem já trai.
— Isso é… cínico demais.
— É necessário — ele corrige, sem hesitar. — Cada peça, Clara, cada movimento, nós não estamos jogando xadrez, estamos jogando Go. O objetivo é cercar, sufocar, controlar o território, Torres era uma pedra importante, agora está fora do tabuleiro. E a Sofia… Sofia é uma pedra que colocamos no território dele.
Ele se aproxima e toca meu rosto. Seus dedos estão quentes, em contraste com a frieza de suas palavras.
— Você foi impressionante hoje. Na reunião, na portaria. Você está se tornando a peça mais versátil do meu tabuleiro.
Sei que deveria ser um elogio, mas soa como uma sentença. A peça mais versátil, não a parceira, a peça.
Olho para ele, tentando encontrar o homem que me beijou com desespero na varanda, que desabou sobre mim na cama. Ele está ali, sim, mas fundido, indistinguível do estrategista. E eu… o que está se fundindo em mim?
O som de passos leves nos faz se afastar, é a pequena Melissa, ela para diante de nós, segurando outro desenho, mas desta vez, é uma mesa de reunião. De um lado, uma figura grande (Dante), do outro, uma figura um pouco menor, de uniforme (Torres). Entre eles, sobre a mesa, há um pequeno baú aberto, cheio de moedas douradas. Da boca da figura de Torres, saem linhas de zigue-zague, como um dialeto de rabiscos, que vão parar num cesto de lixo do lado de fora da sala.
Melissa desenhou a negociação, o suborno, as palavras sujas sendo jogadas fora.
Dante pega o desenho, o estudo com cuidado, seu rosto se suaviza, pela primeira vez hoje, com algo que não é cálculo.
— Ela vê tudo — murmura, mais para si mesmo.
— Ela entende tudo — corrijo.
Ele acena, devolve o desenho a Melissa e ela o guarda com cuidado, depois olha para nós, séria e faz um gesto novo: esfrega os punhos um no outro, depois os abre, palmas para cima, vazias.
Está limpo?
Dante responde, falando devagar. — Está limpo hoje, querida. O homem mau foi embora.
Melissa observa seus olhos por um longo momento, como se buscasse a verdade por trás das palavras e então, acena, uma vez. Aparentemente satisfeita, vira-se e sobe as escadas para o seu quarto.
Ficamos em silêncio no hall vazio. A vitória tem um sabor metálico, como chupar uma pilha. Ganhamos terreno, mas o território que controlamos é um pântano de mentiras, chantagem e medo.
— Vamos comemorar? — pergunta Dante me surpreendendo, a voz agora mais suave, convidando-me de volta para o lado humano da nossa aliança.
Olho para as escadas por onde Melissa desapareceu, depois para a gaveta do criado-mudo, invisível daqui, onde a arma está envolta em seda.
— Comemorar o quê? — pergunto, sem conseguir disfarçar a exaustão. — Que conseguimos fazer um homem corrupto aceitar um suborno para sair quieto? Que manipulamos uma mulher assustada para trair ainda melhor? Que sua filha de sete anos precisa desenhar diagramas para processar a podridão ao seu redor?
Dante não se ofende. Seus olhos me escaneiam, diagnosticando a fadiga moral.
— Comemorar que estamos vivos. Que eles estão seguros e que hoje, ninguém morreu, ninguém se feriu, em uma guerra, Clara, isso é a única vitória que importa. O resto é luxo.
Ele tem razão. Uma razão triste, pequena e aterrorizante. A única vitória que importa é a sobrevivência e o resto — a sanidade, a pureza, a paz de espírito — é luxo.
Ele estende a mão e eu cedo. Seus dedos se fecham ao redor dos meus, firmes, ancorando.
A reunião terminou e Torres saiu. A fortaleza se mantém. O território está um pouco mais seguro.
E nós, dentro dela, estamos um pouco mais perdidos no labirinto que nós mesmos construímos. O brilho da frieza nos guia, mas ilumina apenas o próximo passo. O caminho de volta para a luz parece sumir a cada movimento que fazemos.