O beijo que Dante me deu no escritório não foi afeto, era apenas uma transação e nos dias que se seguem, essa nova moeda circula entre nós, uma parceria com gosto de aço.
Ele passa a noite no meu quarto, mas não para fazer amor, planejamos sobre mapas digitais. Ele me mostra os pontos fracos de Viktor — uma transportadora-fachada, um laboratório com relatórios “perdidos”.
— Ataque é precisão, Clara — diz ele, a luz da tela azulada em seu rosto. — É puxar o fio na costura mais fraca.
Me assusto, mas também me fascino com sua frieza estratégica. Sou sua tenente agora, rsrs.
Minha função é decifrar pessoas, então estudo os rostos nos dossiês que Leandro enviou. O diretor da Anvisa com um filho doente e contas pagas, a enfermeira-chefe com vício em jogos, sumidos do extrato amém do contador de Viktor e a amante com apartamento novo.
— Todo mundo tem uma alavanca — murmuro, cruzando dados no tablet.
Dante olha para mim por cima da tela e há aprovação em seu olhar, além de algo mais reservado. Ele gosta do que vê, a descoberta é ácida.
Me pergunto quanto da Clara que emerge é sobrevivência, e quanto é adaptação ao seu ecossistema venenoso?
Melissa é nossa bússola, ela não desenha mais cenas, desenha diagramas. Fluxogramas de rabiscos com setas e símbolos: um olho (Viktor), um retângulo com antenas (o SUV), uma figura com dois rostos (Sofia). Ela cataloga a guerra.
Uma tarde, entrega um desenho diretamente ao pai. É um mapa tosco do bairro. No ponto onde fomos seguidos, ela desenhou uma pequena câmera com pernas, uma seta apontando para ela vem da casa, com a letra “T” ao lado.
Torres. Nos vigiando… ou avisando.
Dante dobra o papel com um cuidado infinito, percebo que a sua decisão já está tomada.
— Torres tem que sair, não pode ser uma demissão, tem que ser uma saída forçada, que o desacredite aos olhos de Viktor.
— Como?
— Ele é ganancioso e descuidado, então vamos dar a ele uma oferta irrecusável. Documentos falsos que sugerem que eu estou desviando fundos, para um caso de chantagem que ele pode “descobrir” e vender para Viktor e quando ele tentar trair os dois lados, o pegamos.
A crueldade é cirúrgica. É a lógica de Sofia aplicada a uma presa maior.
— E se ele for leal e não morder? — Pergunto um pouco receosa.
— Então o removemos por um escândalo pessoal. Ele tem esqueletos no armário, só precisamos abrir a porta.
A frieza com que Dante fala de arruinar um homem me congela. Ele está testando minha capacidade de sujar as mãos.
— Consigo preparar os documentos — ouço-me dizer, a voz estável. — Preciso de acesso aos modelos de contrato e assinaturas digitais do setor financeiro.
— Você terá. Vamos dar a ele 72 horas. A Sofia vai mencionar, casualmente para o Viktor, que notou tensão entre nós, que falei algo sobre “proteger ativos”.
A complexidade me dá vertigem. Uma armadilha dentro de uma mentira, alimentada por uma traição forçada.
— Dante — digo, sem conseguir conter. — O que isso está fazendo com a gente?
Ele se vira. Seu perfil é duro contra a luz da janela.
— Está nos mantendo vivos, está mantendo a Lara e a Melissa vivas, então há um preço por isso. Você realmente achou que era só o seu silêncio?
A faca se raiva fundo, e ele está certo. O preço é pedaços da nossa humanidade.
Há noite, trabalho nos documentos falsos. Crio transferências fantasmas, e-mails truncados, um rastro digital que sugere que Dante teme uma tomada hostil do conselho. É uma mentira plausível. Envio os arquivos para ele.
A resposta vem em minutos: — Perfeito. O pacote será “vazado” para o Torres amanhã. Prepare-se.
O dia amanhece banhado a um longo suspense, fingimos uma briga no café, então levanto-me abruptamente. Lara fica consternada enquanto Melissa apenas observa, calculando a farsa.
No escritório da mansão, a tensão é um animal vivo. Dante age com frieza distante enquanto eu, com frustração contida. Torres circula pelos corredores com um ar de alerta excessivo.
Às 15h17, o pacote é “acidentalmente” enviado para a impressora da sala de segurança. Um erro de digitação rastreável a um “descuido” meu. Dez minutos depois, Sofia manda uma mensagem criptografada.
— T. recebeu algo quente da impressora. Leu rápido e ficou agitado e em seguida fez uma ligação curta. Disse “é a confirmação que precisávamos”.
O peixe mordeu.
O resto da tarde é de agonia, Dante some enquanto eu fico no cubículo, incapaz de focar. Torres não aparece, a armadilha está armada.
Quando estou prestes a ir embora, ele surge na minha porta.
— Senhora Lobo. Um momento? — fala enquanto entra e fecha a porta, deixando o espaço completamente sufocante.
— Notei irregularidades nos protocolos da sua agenda — começa, fingindo consultar um tablet. — Rotas expostas, gostaria de revisar para sua proteção e é claro da pequena Melissa.
É a abordagem, nojenta e perfeita.
— Estou muito ocupada, Torres. Pode enviar um relatório.
— É mais urgente, senhora — insiste, baixando a voz. — Há vazamentos, informações sensíveis, pessoas que talvez não tenham seus melhores interesses em mente. Compreende?
É claro que ele está jogando a isca de volta. Sugerindo que Dante é a ameaça e que ele pode ser meu aliado.
Finjo hesitar, deixando um fio de medo real brilhar nos olhos.
— Que tipo de informações?
— Financeiras — sussurra ele. — Movimentações estranhas do Sr. Lobo. Se a senhora quiser, eu posso ajudá-la a se proteger, a garantir seus ativos.
O suborno está claro, então preciso levá-lo até a beira do abismo.
— Eu… não sei, parece complicado, então preciso pensar um pouco.
— Claro senhora Lobo — ele diz, recuando. O sorriso do triunfo esboça em seus lábios. — Pense, mas não pense muito, o tempo é um luxo. — Põe um cartão simples, só com um número, na minha mesa. — Quando decidir.
Sai logo em seguida, mas sem notar que as minhas mãos tremem de pura raiva.
Assim que a porta se fecha, mando a mensagem codificada para Dante: — O jogo começou. Ele tentou me recrutar contra você.
A resposta é instantânea: — Excelente. Amanhã você marca um encontro, local público, discreto. Para “discutir detalhes”. Levaremos gravação.
O plano se desenrola com precisão sinistra. A noite, Dante me mostra os dispositivos: um broche com microcâmera, um gravador camuflado.
— Você precisa fazer ele dizer explicitamente o que quer — me instrui.
Que tem provas contra mim, que pode vendê-las para Viktor ou para mim, dependendo de quem pagar mais, precisamos da confissão da chantagem.
Olho para os objetos na cama, são a materialização do abismo.
— E se ele perceber?
— Ele está confiante e ganancioso, e o cheiro do dinheiro cega. — Dante pega o broche. Você consegue, Clara, porque você é a isca perfeita, a nova esposa, assustada, ele acha que você é fraca, então mostre a ele o seu brilho.
A palavra ecoa… Brilho. Não o brilho do sol de Melissa, mas o brilho frio da lâmina.
O dia amanhece, e já com dedos gelados, envio uma mensagem para o número do cartão: — Concordo em conversar, café Grão Puro, shopping Jardins, 16h, irei sozinha.
A resposta vem em segundos: — Sozinha, entendido.
O café é caro, cheio de burburinho discreto, o lugar perfeito para um crime que parece negócio, chego antes, o broche no lapelo, o gravador no bolso, meu coração é um martelo descompassado.
Torres chega pontualmente, vestido em um terno civil e a postura militar, se senta olhando o ambiente, depois fixa o olhar em mim.
— Obrigada por vir.
— Obrigado por confiar em mim, senhora Lobo e em seguida pede um espresso.
—Então… considerou minha proposta?
— Preciso de garantias. Se o que diz é verdade… preciso me proteger. Mas preciso saber exatamente o que tem e claro, o que quer.
Ele sorri, um sorriso de crocodilo.
— Tenho documentos, transferências, E-mails. Provas de que ele está esvaziando a holding, Viktor pagaria uma fortuna por essas informações, mas prefiro fazer negócio com você. É mais limpo, você me dá o dobro e eu entrego tudo. Você se livra dele e garante sua parte, e eu sumo.
É a confissão que eu preciso, clara, gravada.
— O dobro do que Viktor oferece. E como sei que as informações não vão para os dois lados?
— Porque você tem acesso a ele todos os dias. Se eu te trair, você pode me denunciar para ele na hora. É um pacto de mútua destruição assegurada.
Lógico e perverso. Ele acha que me encurralou.
Finjo ponderar enquanto bebo água.
— Preciso ver uma amostra. Algo que prove que não é blefe.
Torres hesita, mas tira um envelope fino da bolsa e desliza-o pela mesa. Dentro há cópias dos documentos falsos que eu criei, com anotações dele circulando as “inconsistências”.
É a peça final.
— Está bem, concordo. Mas preciso de dois dias para o dinheiro.
O triunfo em seus olhos é nauseante.
— Dois dias. Então entramos em contato para a troca. — Levanta-se, aperta minha mão com força excessiva. — Fez a escolha certa, senhora Lobo. Uma escolha inteligente. — fala e em seguida some entre as mesas.
Fico sentada, o envelope na mão, o broche gravando o vazio.
Meu corpo treme, mas por dentro há uma calma glacial. A isca foi engolida.
Pago a conta e saio. No carro, mando a mensagem: — Pacto selado, confissão gravada, amostra em mãos.
A resposta é um ponto final: — .
O fim da linha para Torres.
Assim que cruzo a porta da mansão, Dante me espera no hall e me estende a mão, então lhe entrego o envelope e o broche.
— Dante, a gravação é cristalina, chantagem, conspiração, recrutamento. É mais que suficiente. E agora?
— Agora você descansa. Amanhã, chamo Torres para uma reunião e apresento a ele suas opções de carreira.
O sorriso que curva seus lábios não tem nada de humano. É o sorriso do predador vendo a presa sangrar na armadilha.
Exausta eu subo. Melissa está no topo das escadas, com um novo desenho. É uma figura grande (Torres) dentro de uma gaiola de linhas pretas quase rasgadas. De fora, duas figuras menores (nós) observam. Uma segura uma chave e a outra, um martelo.
Ela não desenha a captura, desenha as consequências e as ferramentas.
Pego o desenho e acaricio seu rosto, Melissa não sorri, apenas acena, séria.
É isso. O brilho da frieza ilumina tudo, mas não aquece, apenas revela.
E o que revela, nesta noite, é que não há mais volta.
Somos o martelo, a chave e a gaiola.
Tudo ao mesmo tempo.