CAPÍTULO 22: A DANÇA DAS MÁSCARAS

1670 Palavras
A vitória sobre Sofia tem gosto de cinza, não é doce, é metálico, frio, é como engolir uma moeda, consigo, mas deixa um rastro sujo na garganta. Dante a chama de ativo descartável, e a frieza da frase me persegue pelos corredores silenciosos da mansão. Eu a vi, Sofia. Vi o medo cru nos seus olhos quando as máscaras caíram, não era só medo de Viktor, ou de Dante, era medo de mim, do que eu me tornei. A mulher que entrou no seu santuário terapêutico e trocou curas por chantagem. Melissa sente a mudança, ela não desenha mais a cena da terapia, nos dias que se seguem, seus rabiscos são abstratos: redemoinhos de lápis preto, formas angulares que se chocam, borrões de cores primárias misturadas até virar marrom. É um barulho visual. O eco do conflito que plantamos no único espaço que era só dela. Dante, por outro lado, está transformado. A conquista de Sofia — a minha conquista de Sofia — é como uma injeção de nitrogênio líquido em suas veias. O seu gelo estratégico agora tem um brilho afiado, perigoso, e ele se move com uma certeza renovada, e essa certeza se estende até mim. Onde seus toques, sempre possessivos, agora carregam um selo de aprovação. Um sócio aprovando o trabalho de outro. — Ela já mandou o primeiro relatório — ele me diz à noite, no meu quarto. Estamos sentados na cama, laptops abertos, mas o dele está desligado, ele está olhando para a tela do meu, onde um arquivo criptografado foi aberto, é a transcrição da primeira comunicação de Sofia com Viktor, depois do nosso acordo. A mensagem é inocente, um relato padrão sobre a sessão de Melissa. — Progresso lento na verbalização… maior engajamento nas atividades não-diretivas… a presença da Sra. Lobo parece acalmar, mas a dinâmica familiar ainda é observada com cautela pela criança. É a isca, informação verdadeira, mas inócua. Plantada por nós. A resposta de Viktor, vinda de um número descartável, é seca: — Mantenha o foco na logística, horários, rotinas, visitas externas planejadas, e o estado emocional do marido. Meu estômago se contrai. — Visitas externas planejadas —. Ele quer saber quando estaremos fora da fortaleza, quando seremos vulneráveis. — Ele está se preparando para um movimento — digo, a voz soando oca no quarto silencioso. Dante acena, os olhos fixos nas palavras na tela. — Está nos sondando, quer um padrão, um hábito. — Ele vira a cabeça para mim, seu olhar é calculista, mas há uma centelha de algo mais quente por baixo. — Vamos dar a ele. O plano é simples e perverso. Criamos uma rotina falsa, toda quinta-feira, às 14h, eu levo Melissa para uma atividade extracurricular num parque distante, é uma mentira, na verdade, ficamos em um apartamento seguro que Dante mantém, onde Melissa pode brincar longe de qualquer olho, e eu estudo os dossiês que Leandro envia sobre a rede de clínicas. Mas para Sofia — e, por tabela, para Viktor — é um ponto fraco. Um horário em que a filha e a nova esposa estão em trânsito, potencialmente expostas. É uma armadilha. E nós somos a isca. Finalmente a primeira quinta-feira do esquema chega, é outono e o dia está anormalmente quente, o ar está pesado, carregado da umidade que precede a chuva, logo saio da mansão segurando Melissa pela mão — ela está séria, vestida com roupas simples, uma mochila nas costas com seu material de desenho — sinto o peso de dezenas de olhos invisíveis, das câmeras de Torres, dos binóculos que imagino escondidos nas colinas arborizadas ao redor, do olhar frio de Viktor em algum monitor distante. Marcos nos leva, mas em um carro diferente, mais comum, o trajeto é meticuloso, cheio de voltas desnecessárias, Melissa olha pela janela, quieta, de vez em quando, ela aperta minha mão, mas não é medo, é alerta. Ela também está caçando, procurando o carro que não deveria estar lá, a moto que passa duas vezes, a sombra que se move errado. Chegamos ao apartamento seguro. É um lugar simples, mobiliado de forma genérica, mas com janelas blindadas e um sistema de segurança que Dante me mostrou pessoalmente, Melissa corre direto para uma mesa grande perto da janela, tira seus lápis e começa a desenhar, ela está criando seu próprio mapa do trajeto. Eu tento trabalhar, os documentos do Leandro são densos. Laudos médicos adulterados, recibos de medicamentos desviados, depoimentos anônimos de enfermeiras assustadas. A rede do Lúmen é um tumor, e cada página que viro mostra um novo vaso sanguíneo alimentando-o. Mas minha atenção está dividida, cada ruído na rua me faz levantar, cada som do elevador no hall me deixa rígida. Às 16h30, minha bolsa vibra. É uma mensagem de Sophia no app criptografado. — Perguntou sobre detalhes do trajeto, especificamente sobre engarrafamentos, ruas alternativas, insistiu. Mando uma resposta pré-combinada. — Trajeto padrão, Marginal até a saída 25, sem contratempos. Minhas mãos estão suando, Viktor está mordendo a isca, ele quer o caminho exato. Às 17h, é hora de voltar. O céu está carregado, nuvens baixas e roxas e a tensão no carro é palpável, Marcos dirige com uma calma profissional, mas seus olhos no espelho retrovisor não param de se mover. É na volta, em uma avenida larga mas relativamente vazia, que vejo. Um SUV preto, escuro, vidros fumê, ele estava dois carros atrás quando saímos do apartamento e agora está três carros atrás, mantendo uma distância constante, pode ser paranoia e pode não ser. — Marcos — digo, minha voz mais firme do que espero. — O SUV preto. Três carros atrás. Desde a saída do bairro? Ele dá uma rápida olhada no espelho. — Desde antes, senhora, desde que entramos na avenida. Não é paranoia. — Perda-o. Marcos não responde, apenas acelera suavemente, muda de faixa, o SUV faz o mesmo, ele pega o próximo retorno, rápido, e entra em uma rua lateral. O SUV some por um instante, mas reaparece na transversal, tentando cortar o caminho. É uma perseguição clara, óbvia. Melissa olha para mim, seus olhos enormes, não há pânico, apenas uma concentração feroz, ela pega seu bloco de desenho e começa a rabiscar freneticamente, não desenha o carro, desenha um labirinto. E, no centro do labirinto, um rato. — Ele está nos testando — digo, mais para mim mesma. — Vendo como reagimos, se temos escolta extra. — Sim — Marcos concorda, sua voz tensa. — Instruções? As instruções de Dante foram claras, em caso de perseguição óbvia, não é para confrontar. Demonstre cautela, não pânico, mostre que somos protegidos, mas não inatingíveis. É um equilíbrio delicado demais. — Siga para casa, pela rota mais segura, não a mais rápida, acione o protocolo Gamma. Marcos acena e pressiona um botão discreto no painel. Um sinal silencioso é enviado para a equipe de segurança da mansão e diretamente para Dante, não é um pedido de socorro. É um alerta, a isca foi mordida. O resto do caminho é uma coreografia de tensão, o SUV nos acompanha até a entrada do bairro fortificado e então some, derretendo-se no tráfego como se nunca tivesse existido. Foi um aviso. Um sopro de ar gelado na nuca. Ao passar pelo portão, vejo Torres na guarita, seu rosto está impassível, mas seus olhos seguem o carro com uma intensidade que me faz duvidar de tudo. Ele sabia? Fez parte? Melissa desce do carro, segura minha mão com força, ela não solta o desenho do labirinto. Ao entrarmos no hall, Dante nos espera, ele não pergunta, lê tudo no meu rosto, na postura de Melissa, na maneira como minha mão aperta a dela. — Meu escritório — ele diz, a voz é um fio de aço. Mal a porta se fecha, ele está em cima de mim, não para me tocar, mas para me examinar. Seus olhos vasculham cada centímetro do meu rosto, do meu corpo, procurando por danos. — Você está bem? Ela está bem? — Estamos. Foi um SUV preto, vidros fumês, nos seguiu desde o retorno, e sumiu no bairro. Ele solta um longo e lento sopro. Os músculos da mandíbula estão pulsando. — Torres? — Não sei. Ele nos observou entrar, não parecia surpreso. Dante se vira, esmurrando a mesa com o lado da mão. O baque é seco, violento. — Ele está forçando a barra, quer nos assustar, quer ver se você surtar, quer ver se eu recuo. — E o que fazemos? — pergunto, minha própria raiva começando a ferver, substituindo o frio residual do medo. Ele se vira, e há uma luz perigosa em seus olhos. — Vamos dar o próximo passo, Sofia nos deu o que ele quer: o padrão. Agora, usamos esse padrão contra ele. — Ele se aproxima, pega meu rosto entre as mãos. O toque é firme, quase doloroso. — Você fez certo hoje, foi forte e inteligente, mas a partir de agora, Clara, é guerra aberta. Ele cruzou uma linha ao seguir você e a Melissa. E guerra aberta tem regras diferentes. — Quais regras? — As nossas — ele diz, e sela os meus lábios, o beijo não é de conforto. É um pacto de sangue renovado, é a assinatura no contrato da vingança que estamos prestes a desencadear. Já na segurança do meu quarto, examino o desenho de Melissa. O labirinto é intrincado, cheio de becos sem saída, o rato no centro está parado, mas seus olhos, desenhados com dois pontos minúsculos de lápis vermelho, estão voltados para uma única saída. Uma saída que não é uma linha aberta, mas um buraco n***o, circular, cuidadosamente sombreado. Ela não vê uma armadilha, vê um caminho. Um caminho escuro, perigoso, mas um caminho. E o rato — nós — já está olhando para ele. Dobro o desenho. O cansaço me atinge, mas é um cansaço limpo, forjado no fogo da ação. Viktor achou que estava caçando uma presa desprevenida. Ele não entendeu. Nós não somos a presa. Somos a toca. E ele acabou de pôr a cabeça dentro.
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