CAPÍTULO 21: AGENTE DUPLA

1938 Palavras
A palavra de Melissa ecoa na casa por dias. “Juntos”. Ela não a repete, mas a carrega consigo, num novo jeito de andar, de nos observar à mesa, de desenhar. Os desenhos mudam, as figuras de palito não estão mais isoladas em quadrados, agora estão lado a lado, muitas vezes de mãos dadas. Às vezes, ela desenha um sol amarelo sobre elas, às vezes, uma nuvem preta com um rosto sorridente e dentes pontiagudos – Viktor – pairando ao longe, mas sempre separado por uma linha grossa. A palavra também reconfigura o espaço entre Dante e eu e a tensão s****l não desaparece, se estabiliza, transformando-se em uma corrente subterrânea, constante, que alimenta tudo. Um toque na cintura ao passar no corredor, um beijo roubado na cozinha antes do amanhecer, quando a casa ainda dorme. A mão dele na minha nuca durante uma reunião por vídeo, um gesto de posse e apoio que me faz queimar por dentro. Mas além do desenho, há a parceria, Dante me consulta sobre tudo, estratégias financeiras, movimentos no conselho, a contratação de um novo chefe de segurança para substituir Torres, que Dante está minuciosamente marginalizando. Minha opinião não é apenas ouvida; é esperada. Sinto meu cérebro, há tanto tempo focado apenas na sobrevivência, expandir, se engajar com problemas complexos de poder corporativo. É assustador, mas eletrizante. E é nesse novo equilíbrio que Leandro finalmente responde. A mensagem chega em um número descartável que Dante mantém. É uma mensagem curta, críptica: “Pombo pousou. Penas bagunçadas, mas cantando. Jardim precisa de capinagem. Encontre a jardineira. S.” “Pombo” é Moraes. “Cantando” significa que ele está falando, dando informações. “Jardim” é a rede de clínicas. “Capinagem” é limpeza. E “jardineira”… — A terapeuta — digo, o coração batendo mais forte. Estamos no escritório dele na mansão, a porta trancada. — Sofia, a terapeuta da Melissa. Dante franze a testa, analisando. — Faz sentido. Viktor colocou a espiã mais próxima possível do meu ponto cego: minha filha. Através dela, ele sabia de tudo, dos meus horários, do meu estado de espírito, dos progressos de Melissa… e depois, dos nossos movimentos. A frieza da realização é um banho gelado. Sofia, com sua voz suave, suas técnicas de caixa de areia, sua paciência infinita. Ela, que ganhou a confiança de Melissa, que ganhou, indiretamente, a minha, além de ter acesso livre à casa. — O que o Moraes deve ter dado ao Leandro — continuo, conectando os pontos — são nomes, talvez gravações, prova de que ela era uma fonte de informação, quem relatava a Viktor. Dante se levanta, andando de um lado para o outro. — Se ela é uma agente dupla do Viktor, a demitimos e perdemos a chance de usá-la, se a confrontarmos, ela o avisa e some, Clara, nós precisamos virar o jogo, fazer dela uma agente dupla nossa. A audácia do plano me faz parar. — Você está falando em recrutá-la? Ela trabalha para o Viktor. — Ela trabalha para quem paga mais — ele corrige, parando à minha frente. Seus olhos estão frios, calculistas, o estrategista em sua forma mais pura. — E para quem oferece a melhor proteção. Se nós a confrontarmos com provas da traição dela, e em seguida oferecemos um acordo… ela pode ser nossa maior arma dentro do campo de Viktor. É arriscado, é clínico, é simplesmente brilhante. — Ela nunca vai acreditar que você a perdoaria — digo. — Ela sabe o que fez a Melissa. Usar uma criança… É nojento. — Eu não vou oferecer o acordo, Clara — diz Dante, seu olhar se fixando em mim. — Você vai. O ar sai dos meus pulmões. — Por quê? — Porque você é a novidade. A variável que o Viktor ainda não decifrou completamente. Ela te viu como uma intrusa, depois como a noiva ambiciosa, não te vê como uma ameaça direta, não como eu. E porque… — ele faz uma pausa, sua voz suaviza um grau. — Você tem habilidade com ela,com Melissa. Você entrou no mundo dela e Sofia respeita isso, mesmo que não admita. É a sua ponte. Ele está certo. E a ideia, embora me enjoe profundamente, faz sentido estratégico. É jogar o jogo de Viktor, mas com nossas regras. — O que oferecemos? — pergunto, já pensando nos termos. — Anistia, um novo começo, longe daqui, com uma quantia generosa e em troca, ela continua seu trabalho para Viktor, mas nos passa tudo, cada pedido, cada gravação. Cada movimento dele. — E se ela nos trair? Se contar a Viktor sobre nossa abordagem? — Temos as provas do Moraes. Se ela nos trair, vazamos tudo, ela será inútil para Viktor e será destruída profissional e legalmente. É um equilíbrio do terror, ela precisa acreditar que nossa oferta é a melhor saída. Preparamos o cenário com cuidado, a próxima sessão de Melissa com Sofia é marcada para quinta-feira à tarde. Dante se ausenta “por negócios urgentes”, e eu fico, como de costume, para levar e buscar Melissa. A sessão transcorre normalmente, observo da cadeira reservada, como sempre. Sofia é gentil, paciente enquanto Melissa constrói uma cena na caixa de areia: uma casa grande, uma figura feminina perto, uma figura masculina mais distante, e uma pequena figura de criança observando tudo de uma janela alta. É perturbadoramente preciso. Quando a sessão termina, Sofia se dirige a mim com seu sorriso profissional. — Melissa fez progressos significativos na representação especial. É uma forma poderosa de processar o ambiente. — Ela é muito observadora — digo, mantendo a voz leve. — Absorve tudo. — As crianças sim, são esponjas — concorda Sofia, começando a guardar as miniaturas. É a deixa. — Sofia, preciso falar com você sobre algo em particular, logo após a Melissa ir com a Dona Alzira. Um leve tremor percorre seus ombros, quase imperceptível e o sorriso não muda. — Claro, Clara. O que seria? Aguardamos até Melissa sair, guiada pela governanta. A porta do consultório caseiro é fechada e o silêncio é repentino, carregado. Sofia se vira para mim, ainda sorrindo, mas seus olhos estão mais atentos. — Dante está preocupado com algumas… inconsistências nos relatórios de segurança — começo, escolhendo as palavras com a precisão de um cirurgião. — Inconsistências que parecem coincidir com alguns dos seus relatórios sobre o progresso de Melissa. O sorriso dela esfria um grau. — Não entendo. Meus relatórios são confidenciais entre mim e o Sr. Lobo. — Eram — corrijo suavemente. Abro minha bolsa e tiro uma cópia impressa de um extrato bancário, não é o original, é uma reconstrução baseada no que Leandro passou, mas é convincente e mostro a ela. Há uma série de depósitos regulares de uma holding fantasma para uma conta com seu nome em um banco das Ilhas Caimã, e os valores são altos, muito altos para o salário de uma terapeuta. O sangue drena do seu rosto e ela fica pálida, os olhos fixos no papel. — Isso… isso é um erro, uma falsificação — a voz dela perde a suavidade, ganha um fio de pânico. — Gustavo Moraes não acha — digo, o nome caindo como uma pedra. Ela estremece. O nome do auditor desaparecido é a chave que abre o cofre do seu medo. — O que vocês querem? — pergunta, a voz agora um sussurro áspero. — Queremos que você continue seu trabalho — digo, dobrando o papel e guardando-o. — Exatamente como antes, relatando ao Viktor., só que agora, você vai relatar também para nós. Cada pedido dele, cada informação que ele buscar. E, ocasionalmente, você vai passar a ele informações que nós forneceremos. Ela balança a cabeça, em negação feroz. — Ele vai me matar se descobrir. — E nós vamos destruí-lo antes que ele tenha a chance — minha voz é gelada, convicta. — Você conhece o Dante, sabe do que ele é capaz quando alguém toca na filha dele. O Viktor está perdendo terreno, Sofia. Você pode ficar no barco que está afundando, ou pode aceitar um salva-vidas. Ofereço o segundo papel, um termo de acordo, simples. Anistia total após a queda de Viktor, uma nova identidade, uma quantia em um fundo blindado. Tudo em troca de sua cooperação total a partir de agora. Ela lê, as mãos trêmulas, o conflito em seu rosto é uma guerra visível. Medo de Viktor, medo de Dante, ganância e autopreservação. — E se eu disser não? — ela pergunta, sem levantar os olhos do papel. — Então o Dante recebe essa cópia, e a polícia recebe a original do extrato, junto com o depoimento assinado de Moraes, que o Leandro tem sob custódia segura. Você passa de terapeuta a cúmplice em espionagem industrial e violação de sigilo terapêutico de uma menor. Em outras palavras, você nunca mais trabalha em nenhum lugar, estará acabada. E o Viktor… bem, o Viktor não gosta de falhas, especialmente falhas que podem levá-lo à cadeia. É um jogo de xadrez com a vida dela, e nós temos o xeque-mate. Os ombros de Sofia afundam, a derrota é total. Ela olha para mim, e pela primeira vez vejo a máscara da profissional compassiva cair completamente, restando apenas uma mulher assustada, ambiciosa e encurralada. — Como funciona? — ela sussurra. Explico o protocolo. Um ponto de contato único: eu. Um aplicativo de mensagem criptografada, encontros só em locais públicos, com desculpas plausíveis. Ela concorda, com a resignação de um prisioneiro aceitando a corrente. Quando saio do consultório, o coração bate forte no meu peito, aperto o telefone no bolso, onde a gravação da conversa — obtida por um minúsculo gravador na minha bolsa — está salva. É nossa garantia. Encontro Dante no escritório, Ele não pergunta, não é necessário, lê a resposta no meu rosto. — Ela aceitou — ele diz, não como uma pergunta. — Aceitou. Está aterrorizada, mas aceitou. Ele acena, um movimento satisfeito e sombrio. — Agora temos os olhos e ouvidos dentro do campo dele. — E se ela for boa demais? — pergunto, a dúvida ainda me corroendo. — Se ele suspeitar? — Então nós a sacrificamos — diz Dante, a voz sem nenhuma emoção. — E usamos a queda dela para atingi-lo. É um ativo descartável, Clara. Nunca se esqueça disso. As palavras são um choque de realidade. Olho para ele, para o estrategista impiedoso que vive dentro do homem que me toca com tanta posse nas noites escuras. São a mesma pessoa. E eu, ao concordar com este plano, tornei-me mais parecida com ele. Mas quando volto para o meu quarto, e encontro um novo desenho de Melissa deslizado por baixo da porta, a dúvida se acalma. É um desenho da sala de terapia. A figura da criança (ela) está na caixa de areia, a figura da mulher (Sofia) está do lado de fora, mas agora tem dois pares de olhos. E uma terceira figura, maior (eu), está à porta, segurando uma linha fina que vai da figura de Sofia até… um sol amarelo. Melissa sabe. Não os detalhes, mas a essência. Que viramos o jogo, que trouxemos luz para um lugar escuro, para o seu mundo. Dobro o desenho e guardo-o com os outros. A moralidade aqui não é preto e branco, é sombra e luz, movimento e contra-movimento. Somos jogadores num jogo sujo, mas agora, pela primeira vez, estamos jogando para ganhar e temos, oficialmente, uma agente dupla. A guerra subterrânea acaba de ganhar um novo, e perigosíssimo, campo de batalha. O campo da mente, e nós acabamos de plantar a nossa bandeira.
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