A palavra de Melissa ecoa na casa por dias. “Juntos”. Ela não a repete, mas a carrega consigo, num novo jeito de andar, de nos observar à mesa, de desenhar. Os desenhos mudam, as figuras de palito não estão mais isoladas em quadrados, agora estão lado a lado, muitas vezes de mãos dadas. Às vezes, ela desenha um sol amarelo sobre elas, às vezes, uma nuvem preta com um rosto sorridente e dentes pontiagudos – Viktor – pairando ao longe, mas sempre separado por uma linha grossa.
A palavra também reconfigura o espaço entre Dante e eu e a tensão s****l não desaparece, se estabiliza, transformando-se em uma corrente subterrânea, constante, que alimenta tudo. Um toque na cintura ao passar no corredor, um beijo roubado na cozinha antes do amanhecer, quando a casa ainda dorme. A mão dele na minha nuca durante uma reunião por vídeo, um gesto de posse e apoio que me faz queimar por dentro.
Mas além do desenho, há a parceria, Dante me consulta sobre tudo, estratégias financeiras, movimentos no conselho, a contratação de um novo chefe de segurança para substituir Torres, que Dante está minuciosamente marginalizando. Minha opinião não é apenas ouvida; é esperada. Sinto meu cérebro, há tanto tempo focado apenas na sobrevivência, expandir, se engajar com problemas complexos de poder corporativo. É assustador, mas eletrizante.
E é nesse novo equilíbrio que Leandro finalmente responde.
A mensagem chega em um número descartável que Dante mantém. É uma mensagem curta, críptica: “Pombo pousou. Penas bagunçadas, mas cantando. Jardim precisa de capinagem. Encontre a jardineira. S.”
“Pombo” é Moraes. “Cantando” significa que ele está falando, dando informações. “Jardim” é a rede de clínicas. “Capinagem” é limpeza. E “jardineira”…
— A terapeuta — digo, o coração batendo mais forte. Estamos no escritório dele na mansão, a porta trancada. — Sofia, a terapeuta da Melissa.
Dante franze a testa, analisando. — Faz sentido. Viktor colocou a espiã mais próxima possível do meu ponto cego: minha filha. Através dela, ele sabia de tudo, dos meus horários, do meu estado de espírito, dos progressos de Melissa… e depois, dos nossos movimentos.
A frieza da realização é um banho gelado. Sofia, com sua voz suave, suas técnicas de caixa de areia, sua paciência infinita. Ela, que ganhou a confiança de Melissa, que ganhou, indiretamente, a minha, além de ter acesso livre à casa.
— O que o Moraes deve ter dado ao Leandro — continuo, conectando os pontos — são nomes, talvez gravações, prova de que ela era uma fonte de informação, quem relatava a Viktor.
Dante se levanta, andando de um lado para o outro. — Se ela é uma agente dupla do Viktor, a demitimos e perdemos a chance de usá-la, se a confrontarmos, ela o avisa e some, Clara, nós precisamos virar o jogo, fazer dela uma agente dupla nossa.
A audácia do plano me faz parar. — Você está falando em recrutá-la? Ela trabalha para o Viktor.
— Ela trabalha para quem paga mais — ele corrige, parando à minha frente. Seus olhos estão frios, calculistas, o estrategista em sua forma mais pura. — E para quem oferece a melhor proteção. Se nós a confrontarmos com provas da traição dela, e em seguida oferecemos um acordo… ela pode ser nossa maior arma dentro do campo de Viktor.
É arriscado, é clínico, é simplesmente brilhante.
— Ela nunca vai acreditar que você a perdoaria — digo. — Ela sabe o que fez a Melissa. Usar uma criança… É nojento.
— Eu não vou oferecer o acordo, Clara — diz Dante, seu olhar se fixando em mim. — Você vai.
O ar sai dos meus pulmões. — Por quê?
— Porque você é a novidade. A variável que o Viktor ainda não decifrou completamente. Ela te viu como uma intrusa, depois como a noiva ambiciosa, não te vê como uma ameaça direta, não como eu. E porque… — ele faz uma pausa, sua voz suaviza um grau. — Você tem habilidade com ela,com Melissa.
Você entrou no mundo dela e Sofia respeita isso, mesmo que não admita. É a sua ponte.
Ele está certo. E a ideia, embora me enjoe profundamente, faz sentido estratégico. É jogar o jogo de Viktor, mas com nossas regras.
— O que oferecemos? — pergunto, já pensando nos termos.
— Anistia, um novo começo, longe daqui, com uma quantia generosa e em troca, ela continua seu trabalho para Viktor, mas nos passa tudo, cada pedido, cada gravação. Cada movimento dele.
— E se ela nos trair? Se contar a Viktor sobre nossa abordagem?
— Temos as provas do Moraes. Se ela nos trair, vazamos tudo, ela será inútil para Viktor e será destruída profissional e legalmente. É um equilíbrio do terror, ela precisa acreditar que nossa oferta é a melhor saída.
Preparamos o cenário com cuidado, a próxima sessão de Melissa com Sofia é marcada para quinta-feira à tarde. Dante se ausenta “por negócios urgentes”, e eu fico, como de costume, para levar e buscar Melissa.
A sessão transcorre normalmente, observo da cadeira reservada, como sempre. Sofia é gentil, paciente enquanto Melissa constrói uma cena na caixa de areia: uma casa grande, uma figura feminina perto, uma figura masculina mais distante, e uma pequena figura de criança observando tudo de uma janela alta. É perturbadoramente preciso.
Quando a sessão termina, Sofia se dirige a mim com seu sorriso profissional.
— Melissa fez progressos significativos na representação especial. É uma forma poderosa de processar o ambiente.
— Ela é muito observadora — digo, mantendo a voz leve. — Absorve tudo.
— As crianças sim, são esponjas — concorda Sofia, começando a guardar as miniaturas.
É a deixa.
— Sofia, preciso falar com você sobre algo em particular, logo após a Melissa ir com a Dona Alzira.
Um leve tremor percorre seus ombros, quase imperceptível e o sorriso não muda.
— Claro, Clara. O que seria?
Aguardamos até Melissa sair, guiada pela governanta. A porta do consultório caseiro é fechada e o silêncio é repentino, carregado.
Sofia se vira para mim, ainda sorrindo, mas seus olhos estão mais atentos.
— Dante está preocupado com algumas… inconsistências nos relatórios de segurança — começo, escolhendo as palavras com a precisão de um cirurgião. — Inconsistências que parecem coincidir com alguns dos seus relatórios sobre o progresso de Melissa.
O sorriso dela esfria um grau. — Não entendo. Meus relatórios são confidenciais entre mim e o Sr. Lobo.
— Eram — corrijo suavemente.
Abro minha bolsa e tiro uma cópia impressa de um extrato bancário, não é o original, é uma reconstrução baseada no que Leandro passou, mas é convincente e mostro a ela.
Há uma série de depósitos regulares de uma holding fantasma para uma conta com seu nome em um banco das Ilhas Caimã, e os valores são altos, muito altos para o salário de uma terapeuta.
O sangue drena do seu rosto e ela fica pálida, os olhos fixos no papel.
— Isso… isso é um erro, uma falsificação — a voz dela perde a suavidade, ganha um fio de pânico.
— Gustavo Moraes não acha — digo, o nome caindo como uma pedra.
Ela estremece. O nome do auditor desaparecido é a chave que abre o cofre do seu medo.
— O que vocês querem? — pergunta, a voz agora um sussurro áspero.
— Queremos que você continue seu trabalho — digo, dobrando o papel e guardando-o. — Exatamente como antes, relatando ao Viktor., só que agora, você vai relatar também para nós. Cada pedido dele, cada informação que ele buscar. E, ocasionalmente, você vai passar a ele informações que nós forneceremos.
Ela balança a cabeça, em negação feroz. — Ele vai me matar se descobrir.
— E nós vamos destruí-lo antes que ele tenha a chance — minha voz é gelada, convicta. — Você conhece o Dante, sabe do que ele é capaz quando alguém toca na filha dele. O Viktor está perdendo terreno, Sofia. Você pode ficar no barco que está afundando, ou pode aceitar um salva-vidas.
Ofereço o segundo papel, um termo de acordo, simples. Anistia total após a queda de Viktor, uma nova identidade, uma quantia em um fundo blindado. Tudo em troca de sua cooperação total a partir de agora.
Ela lê, as mãos trêmulas, o conflito em seu rosto é uma guerra visível. Medo de Viktor, medo de Dante, ganância e autopreservação.
— E se eu disser não? — ela pergunta, sem levantar os olhos do papel.
— Então o Dante recebe essa cópia, e a polícia recebe a original do extrato, junto com o depoimento assinado de Moraes, que o Leandro tem sob custódia segura. Você passa de terapeuta a cúmplice em espionagem industrial e violação de sigilo terapêutico de uma menor. Em outras palavras, você nunca mais trabalha em nenhum lugar, estará acabada. E o Viktor… bem, o Viktor não gosta de falhas, especialmente falhas que podem levá-lo à cadeia.
É um jogo de xadrez com a vida dela, e nós temos o xeque-mate.
Os ombros de Sofia afundam, a derrota é total. Ela olha para mim, e pela primeira vez vejo a máscara da profissional compassiva cair completamente, restando apenas uma mulher assustada, ambiciosa e encurralada.
— Como funciona? — ela sussurra.
Explico o protocolo. Um ponto de contato único: eu. Um aplicativo de mensagem criptografada, encontros só em locais públicos, com desculpas plausíveis.
Ela concorda, com a resignação de um prisioneiro aceitando a corrente.
Quando saio do consultório, o coração bate forte no meu peito, aperto o telefone no bolso, onde a gravação da conversa — obtida por um minúsculo gravador na minha bolsa — está salva. É nossa garantia.
Encontro Dante no escritório, Ele não pergunta, não é necessário, lê a resposta no meu rosto.
— Ela aceitou — ele diz, não como uma pergunta.
— Aceitou. Está aterrorizada, mas aceitou.
Ele acena, um movimento satisfeito e sombrio. — Agora temos os olhos e ouvidos dentro do campo dele.
— E se ela for boa demais? — pergunto, a dúvida ainda me corroendo. — Se ele suspeitar?
— Então nós a sacrificamos — diz Dante, a voz sem nenhuma emoção. — E usamos a queda dela para atingi-lo. É um ativo descartável, Clara. Nunca se esqueça disso.
As palavras são um choque de realidade. Olho para ele, para o estrategista impiedoso que vive dentro do homem que me toca com tanta posse nas noites escuras. São a mesma pessoa. E eu, ao concordar com este plano, tornei-me mais parecida com ele.
Mas quando volto para o meu quarto, e encontro um novo desenho de Melissa deslizado por baixo da porta, a dúvida se acalma. É um desenho da sala de terapia. A figura da criança (ela) está na caixa de areia, a figura da mulher (Sofia) está do lado de fora, mas agora tem dois pares de olhos. E uma terceira figura, maior (eu), está à porta, segurando uma linha fina que vai da figura de Sofia até… um sol amarelo.
Melissa sabe. Não os detalhes, mas a essência. Que viramos o jogo, que trouxemos luz para um lugar escuro, para o seu mundo.
Dobro o desenho e guardo-o com os outros. A moralidade aqui não é preto e branco, é sombra e luz, movimento e contra-movimento.
Somos jogadores num jogo sujo, mas agora, pela primeira vez, estamos jogando para ganhar e temos, oficialmente, uma agente dupla.
A guerra subterrânea acaba de ganhar um novo, e perigosíssimo, campo de batalha. O campo da mente, e nós acabamos de plantar a nossa bandeira.