Acordo antes do despertador. A primeira sensação não é a luz, mas o calor. Um calor sólido, pesado, envolvente nas minhas costas, e um braço. Um braço masculino, forte, lançado com possessividade sobre minha cintura, a mão grande apoiada aberta sobre meu estômago.
Dante.
A memória da noite invade a minha memória, não como um choque, mas como uma maré quente e lenta. Os sons, os sabores, a dor gostosa, a posse, a rendição, tudo. Meu corpo responde antes da minha mente, um tremor suave de reconhecimento, uma pontada branda e agradável entre as pernas, não me viro, fico imóvel, deixando a realidade se firmar.
Sua respiração é lenta, profunda, contra o meu pescoço enquanto dorme. O poderoso e impenetrável Dante Lobo, adormecido com o nariz enterrado em meus cabelos, o corpo colado ao meu como se temesse que eu me esvaísse se me soltasse.
A i********e é de um tipo que nunca experimentei, brutal em sua simplicidade, não há performance aqui, apenas dois corpos exaustos, entrelaçados no rescaldo do incêndio que provocamos.
Lentamente, me viro sob o peso do seu braço. Dante murmura algo incompreensível no travesseiro, seu rosto relaxado na luz fraca da manhã, as linhas duras da preocupação e do comando estão suavizadas. Parece mais jovem, mais humano.
Vejo a sombra de sua barba, os cílios escuros contra a pele, os arranhões que minhas unhas deixaram em suas costas estão visíveis, marcas vermelhas contra o músculo, um estranho senso de orgulho, primitivo e feminino, me percorre. Eu o marquei assim como ele me marcou.
Meu movimento o acorda.
Seus olhos se abrem, não com a brusca atenção do CEO, mas com um despertar lento, sonolento, Dante pisca, focado no teto por um segundo, e então a consciência volta. Sinto o seu braço tensionar levemente ao redor da minha cintura. Ele vira a cabeça.
Nossos olhos se encontram a centímetros de distância.
Não há constrangimento, não do modo que eu esperava, apenas uma avaliação silenciosa. Seu olhos percorrem meu rosto, meus lábios e focam em meus olhos, provavelmente a procura de arrependimento ou hesitação. Eu o deixo ver, não há nenhum, só a mesma exaustão pacificada, e um questionamento que ecoa o dele: E agora?
É ele quem quebra o silêncio, sua voz sai rouca, áspera do sono.
— Você está bem?
Não é uma pergunta de chefe. É uma pergunta de amante, uma pergunta preocupada, contida.
— Sim , e você?— minha voz também está rouca.
Vejo quando ele apenas move o ombro, um encolher quase imperceptível.
— Dói, mas de um jeito bom.
Um pequeno sorriso involuntário, toca meus lábios, e ele vê. Algo em seus olhos se aprofunda, um brilho de satisfação sombria.
Ele levanta a mão que estava no meu estômago, em vez de retirá-la, seus dedos sobem, traçando um caminho lento do meu umbigo até a costela, depois contornando a curva do meu seio por cima do lençol. Seu toque é exploratório, natural, provocativo, como se já tivesse o direito enquanto um calafrio de puro prazer percorre a minha pele.
— Clara — diz meu nome, mas é diferente de todas as vezes anteriores. É uma afirmação, uma posse reconhecida.
— Dante — respondo no mesmo tom.
O silêncio que se segue não é pesado, está cheio, carregado do que fizemos, do que admitimos sem palavras. O contrato não foi rasgado, foi incinerado. Em seu lugar, há apenas a verdade física e crua de nossos corpos, da aliança forjada na fornalha.
Dante senta na cama, de costas para mim. Vejo os músculos dorsais se moverem, as marcas vermelhas salientes. É uma visão íntima, poderosa. Ele se levanta, seu corpo nu, e caminha até o banheiro sem cerimônia, não há falsa modéstia. A naturalidade em gesto fala mais que mil palavras. Dante é meu, eu sou dele, e nesta esfera privada, as regras mudaram.
Assim que o som do chuveiro começa, deito-me de costas, olhando para o teto. O mapa da mansão na parede me encara, os alfinetes vermelhos ainda estão lá. Viktor ainda está lá fora, a guerra não acabou, pelo contrário, pode ter escalado, mas algo fundamental mudou dentro destas quatro paredes. A lealdade deixou de ser transacional, não luto ao lado dele pelo dinheiro de Lara, não mais. Luto porque… porque o toque dele se tornou uma geografia que preciso mapear. Porque a vulnerabilidade que Dante me mostrou é um tesouro que carrego. Porque, de alguma forma perversa e inesperada, estamos no mesmo barco, remando contra a mesma tempestade, e o barco agora tem o nosso cheiro, a nossa marca.
O chuveiro para, não demora e ele sai apenas com a toalha na cintura, o cabelo escuro pingando, gotas escorrem pelo peito, pelos sulcos abdominais. Meus olhos descem um pouco mais pelo caminho da felicidade. Ele me flagra enquanto estou o analisando detalhadamente, e um canto de sua boca se ergue, um quase sorriso matador carregado de conhecimento.
— Temos que falar sobre o espião — diz, a voz agora mais clara, voltando ao pragmatismo. Mas o tom é diferente. É vamos falar…Não eu vou falar e você vai ouvir.
— Sim — concordo, sentando-me na cama, puxando o lençol para cobrir meu peito mais por hábito do que por pudor. — O falso alarme foi um teste para ver como reagimos. Para nos separar.
— E falhou — ele conclui, pegando uma camisa limpa. — Porque nos juntou.
As palavras pairam no ar, verdadeiras, perigosas.
Ele se veste com eficiência, mas sem a pressa frenética de antes, e quando está pronto, caminha até a cama, sentando-se na borda, ao meu lado. Seu olhar é sério, estratégico novamente, mas por trás dele há uma camada de… cuidado.
— Viktor vai saber que algo mudou — diz. — A dinâmica, ele sente essas coisas e eu tenho certeza que o ataque seguinte não será um alarme falso.
— Eu sei.
— Clara, você não pode sair sozinha. E quanto a Lara… a segurança dela tem que ser absoluta.
— Já é, mas concordo. Precisamos de um plano melhor, precisamos do Leandro e da informação que o Moraes tem.
Ele acena. — Já mandei um sinal para o Leandro, devemos ter notícias hoje. — Faz uma pausa. — E você… hoje, comigo, no escritório. Não como minha secretária. Como minha… sócia. Viktor precisa ver que a linha de frente é única.
Sócia. A palavra é melhor que ‘esposa’, melhor que ‘aliada’. Carrega peso, igualdade, escolha.
— Entendido — digo.
Dante levanta-se, mas antes de ir, se inclina, sua mão encontra meu queixo, gentilmente, e ele me beija. Não é o beijo desesperado da varanda, nem o beijo devorador da noite passada, é um beijo calmo, de reconhecimento, de uma aliança renovada, mais profunda.
— Até logo, Clara — diz contra meus lábios.
Quando a porta do quarto se fecha atrás dele, o ar parece diferente, mais limpo, mais meu.
O dia que se segue é uma revolução silenciosa.
Assim que desço para o café da manhã, quando entro na sala, Dante já está sentado com Lara, ele levanta os olhos e me dá um aceno, um brilho rápido nos olhos que só eu percebo. Ele puxa a cadeira ao lado dele, não a do outro lado da mesa.
— Clara, venha. Lara estava me contando sobre a nova terapia.
Sento-me, nossos joelhos se tocam sob a mesa, o contato é pequeno, escondido, mas deliberado, um fio condutor. Lara sorri, feliz por nos ver tão próximos.
No carro a caminho da Lobo Holding, ele não se enterra no laptop, conversamos sobre o tráfego, sobre um artigo que li, sobre nada importante e tudo, sua mão repousa no console, a palma para cima. Após um momento de hesitação, coloco a minha sobre ela, seus dedos se entrelaçam aos meus, firmes, não é um gesto de paixão adolescente, é de solidariedade de posse tranquila.
No andar executivo, a mudança é sutil, mas catastrófica para as velhas dinâmicas. Heloísa nos vê sair do elevador, minhas mãos soltando a dele no último instante, seus olhos de águia captam tudo e o respeito em seu olhar quando se dirige a mim é diferente. Não é mais para a ‘esposa do chefe’. É para uma pessoa de influência.
Dante me chama para uma reunião com o diretor financeiro, eu entro e tomo lugar não na cadeira de visitante, mas em uma cadeira ao lado da dele, na cabeceira da mesa. É até engraçado quando o diretor arregala os olhos. Dante começa: “A Clara vai nos ajudar a revisar esses números. Sua percepção jurídica é crucial.”
Trabalhamos. O dia é intenso, mas há uma fluidez nova, um olhar meu, e ele entende o ponto que quero levantar, um gesto dele, e eu busco o documento certo. É uma dança perfeita, somos sócios na guerra e também na cama, e as duas esferas agora se alimentam.
Viktor aparece no final da tarde, como um tubarão farejando sangue na água, sua entrada no escritório de Dante é teatral.
— Dante! Clara! Que visão de eficiência conjugal — seu sorriso é largo, os olhos azuis escaneando-nos, tentando decifrar a nova energia.
Dante não se levanta, apenas se inclina para trás na cadeira, um gesto descontraído que é, em si, um novo poder.
— Viktor, apenas otimizando processos, a Clara tem sido… inestimável.
O olhar de Viktor pousa em mim, pesado, inquisitivo. Sorrio, um sorriso que não chega perto dos olhos.
— A felicidade parece beneficiar a produtividade, Viktor — digo, docemente venenosa.
Ele ri, mas o som é curto, ele vê… Vê a unidade e a falta de espaço para suas cunhas. Algo perigoso brilha no fundo de seu olhar, a ameaça não diminuiu, apenas percebeu que o alvo ficou mais duro, mais coeso.
— Sem dúvida — ele diz. — Continuem, não vou atrapalhar o… trabalho de vocês.
Ele sai e a tensão que deixa para trás é diferente, não é mais a tensão do medo do que ele pode fazer comigo, ou com Lara. É a tensão do confronto que se aproxima. Nós sabemos, ele sabe.
Ao final do dia, enquanto voltamos para casa, Dante solta um longo suspiro.
— Ele sabe — diz, olhando pela janela.
— Sim. E agora?
— Agora — ele se vira para mim, seu rosto determinado na luz do entardecer — ele vai ter que vir para cima de nós dois, e Clara, estamos prontos.
Pego sua mão novamente e desta vez, não a solto.
Assim que chegamos em casa, nos deparamos com Melissa à nossa espera no hall. Ela olha para nossos rostos, para nossas mãos entrelaçadas, seus olhos sérios nos examinam. Então, ela nos surpreende.
Ela se aproxima e segura nossas mãos livres e as junta, colocando a mão dele sobre a minha, e aperta-as juntas com as suas pequenas mãos. Um gesto lindo de coroação, de aprovação.
Então, olha para nós e sussurra, a voz sai como um sopro rouco de desuso, mas perfeitamente clara:
— Juntos.
Uma palavra, a primeira em anos. Cai no hall como um diamante.
Dante para, o choque, a alegria, a emoção crua que cruza seu rosto é a coisa mais linda e devastadora que já vi. Ele se ajoelha, ficando na sua altura.
— Sim, querida — diz, a voz grossa. — Juntos.
Ela acena, satisfeita, e sobe as escadas, deixando-nos ali, com nossas mãos unidas e o mundo virado de cabeça para baixo por uma palavra.
Agora no meu quarto, não há papéis espalhados, não há mapas de guerra, somos apenas nós, e quando ele me toca, não é com a fúria desesperada da noite anterior, é com uma posse confiante, uma exploração meticulosa, um reconhecimento silencioso de cada nova curva, cada suspiro, cada ponto de prazer que agora nos pertence mutuamente.
A lealdade não é mais transacional, é orgânica, vital.
E quando adormeço, envolta em seu corpo quente, a única palavra que ecoa em minha mente, misturando-se a de Melissa, é a mesma: Juntos.
O inimigo é forte, o perigo é real. Mas a linha de frente agora é uma só. E nós estamos nela.