O cofre portátil com os arquivos de Augusto pesa na minha consciência como um bloco de chumbo. Ele agora fica escondido no forro falso da minha mala de viagem mais antiga, um lugar que Dante julgou menos óbvio do que qualquer cofre ou gaveta com chave. A presença física dessa herança maldita altera o ar da mansão e Dante passa a ficar mais tempo no escritório de porta fechada, e o silêncio atrás dela é mais profundo do que o habitual. Ele está processando a rejeição paterna, e a descoberta trinta anos tarde, é uma ferida que sangra em silêncio.
Melissa sente a mudança. Seus desenhos perdem a complexidade simbólica e voltam a ser rabiscos agressivos, linhas que furam o papel e borrões de cores escuras misturadas. Ela está regurgitando a energia n***a que o segredo de Augusto liberou. Lara, inocente em sua bolha de tratamento e esperança, é a única luz constante, o seu progresso com o Neurovax é lento, mas mensurável, são menos crises e mais lucidez e este é o único fato incontestavelmente bom em nosso mundo em ruínas.
Três dias após a descoberta, uma nova mensagem de Sofia chega, é breve e urgente:
“Ele encontrou algo e pode ser grande. Disse ‘se ela deixou um diário, está com ele’. Se referindo à Beatriz, ele quer acesso à mansão para uma busca discreta, eu neguei, disse que a segurança nova é rígida, ele ficou irritado, a pressão subindo.”
Mostro a mensagem a Dante. Ele lê a mensagem e, pela primeira vez desde o vídeo de Augusto, vejo algo além da dor em seus olhos. Vejo fogo.
— Um diário — ele sussurra, a palavra saindo como uma descoberta. — Beatriz sempre escreveu, cadernos bonitos, com flores na capa, ela anotava tudo: ideias para o jardim, observações sobre a Melissa, receitas… pensamentos.
Ele fecha os olhos, tentando se lembrar.
— Depois que ela morreu, eu não consegui lidar com as coisas dela então mandei a Dona Alzira guardar tudo em caixas, estão no sótão, eu nunca… nunca consegui abri-las.
O sótão, um território inexplorado, cheio de fantasmas.
— Viktor acha que ela pode ter anotado algo sobre o Lúmen, sobre o que descobriu — digo, conectando os pontos.
— É possível. Ela era meticulosa e se encontrasse correspondências, e-mails, ela teria registrado, anotado datas, nomes. — A esperança em sua voz é perigosa, mas frágil. — Precisamos daquele diário.
— Se existir.
— Se existir, Clara, é a prova que falta. A ligação direta, nas palavras dela, entre a descoberta e a morte. É a testemunha que Viktor não pode silenciar.
A busca no sótão é uma descida ao coração da dor dele. O espaço é amplo, empoeirado, cheio de caixas de mudança antigas, móveis cobertos com lençois, o cheiro morno de madeira e tempo parado. As caixas de Beatriz estão marcadas com um “B” simples e discreto, em uma prateleira no fundo, são seis. Dante hesita diante delas, sua mão pairando sobre a primeira tampa de papelão.
— Eu não deveria ter feito isso, não deveria ter escondido dela, deveria ter guardado, olhado, preservado…
— Você estava sobrevivendo — digo, suavemente. — E cuidando da Melissa, não há culpa nisso, Dante.
Ele acena, não convencido, e abre a primeira caixa, são roupas, vestidos de verão, suaves ao toque, ainda com um vestígio fantasma do seu perfume — lavanda e algo doce. Ele segura um por um momento, depois o dobra com cuidado infinito e o pousa de lado. A segunda caixa: livros, fotografias em molduras, pequenos objetos de decoração, nada.
A terceira caixa contém cadernos, meu coração acelera, são vários, de capas coloridas, estampadas, cadernos de desenho da Melissa mais nova, agendas com capa de couro, blocos de anotações. Dante pega um por um, folheia com as mãos trêmulas, são listas de compras, anotações sobre pediatras, rascunhos de cartas nunca enviadas.
— Não é este — ele murmura, a decepção nítida. — Ela tinha um específico, um diário de verdade, de capa de couro marrom, com um fecho.
Revistamos a caixa inteira e nada, a quarta e a quinta caixa são mais roupas, sapatos, cobertores de bebê da Melissa e finalmente a esperança murcha.
A última caixa é a menor. Está no fundo da prateleira, um pouco esmagada, Dante a puxa. Está mais pesada, ao abri-la, não há tecidos, há uma pilha de livros de capa dura — romances que ela gostava — e, no fundo, uma caixa de charutos de madeira fina. Dante a tira, o lacre está intacto, empoeirado.
Ele abre a tampa, dentro, não há charutos, há um caderno de couro marrom, exatamente como ele descreveu, com um pequeno fecho de latão e ao lado dele, um pen drive preto, moderno, contrastando com a antiguidade do diário.
Um calafrio percorre minha espinha, Beatriz escondeu o pen drive com o diário, o que quer que esteja nele, ela considerou tão importante quanto seus pensamentos mais privados.
Dante pega o diário primeiro e o segura contra o peito por um momento, respirando fundo. Então, com dedos cuidadosos, abre o fecho. As páginas são cheias de uma letra cursiva elegante e fluida, ele folheia rapidamente, os olhos escaneando cuidadosamente e para em uma página perto do final, sua respiração para.
— Aqui — ele sussurra, e lê em voz baixa e rouca. —Ele vira a página. Sua respiração para.
— Aqui — ele sussurra, e lê em voz baixa e rouca. — “Dante está diferente, distante. A empresa o consome. E há uma sombra nisso tudo. O Viktor. Sinto um frio quando ele está por perto. Hoje, encontrei um relatório no laptop antigo de Dante, Projeto Fênix. Os números não fecham. As mortes nos testes… estão sendo omitidas, meu Deus. O que ele está fazendo? O que nós estamos fazendo?’
Ele vira a página, seus dedos tremem levemente ao tocar o papel.
— ‘Não posso mais ficar em silêncio, vou confrontar o Dante hoje à noite, ele precisa me ouvir. Precisa ver a verdade com os próprios olhos antes que seja tarde demais. Levarei cópias de tudo e se ele não acreditar em mim, pelo menos as provas existirão e se algo acontecer comigo… que estas palavras e estas cópias ditem a verdade. Cuidem da minha Melissa.’ — A entrada termina abruptamente. A data é o dia da morte dela.
O ar no sótão fica gelado, são as últimas palavras dela, uma premonição e uma acusação.
— Ela sabia — a voz de Dante está destruída. — E ela tentou me avisar, mas eu a afastei.
— Dante, não…
— Eu a afastei! — ele explode, o som ecoando no sótão empoeirado. — Estava com medo, com vergonha, e a afastei para proteger o segredo podre do meu pai! E ela morreu por isso!
Ele cai de joelhos ao lado das caixas abertas, o diário pressionado contra a testa. O luto, adiado por anos, finalmente o alcança aqui, entre os objetos da mulher que amou, prometeu proteger e falhou. É uma cena de uma dor tão privada que me sinto uma intrusa, então dou um passo para trás, lhe dando espaço.
Depois de um longo momento, ele se acalma. As lágrimas secam, deixando apenas uma frieza resoluta. Ele se levanta e pega o pen drive.
— Vamos ver o que ela guardou aqui.
Descemos em silêncio para o escritório. O diário ele guarda consigo, no bolso interno do paletó. O pen drive conectamos ao laptop seguro e desta vez, os arquivos estão organizados por pastas nomeadas: “Fênix_Dados”, “Correspondência_Viktor”, “Anvisa_Subornos”.
Beatriz não foi apenas uma esposa preocupada, foi uma investigadora meticulosa. Ela escaneou documentos, capturou telas de e-mails, organizou tudo com uma clareza forense. Há trocas de e-mails entre Viktor e o auditor Gustavo Moraes, pressionando-o a assinar laudos. Há planilhas com lotes do Lúmen que “desapareceram” do inventário e há uma gravação de áudio, nomeada “Último_Recurso”.
Dante clica nela com a mão trêmula.
A voz de Beatriz preenche o escritório. É suave, clara, mas carregada de uma tensão vibrante.
— “Se este áudio está sendo ouvido, é porque eu não consegui impedir isto, meu nome é Beatriz Lobo, sou a esposa de Dante Lobo, CEO da Lobo Holding e o que vou dizer a seguir é a verdade, e tenho documentos para comprovar. O medicamento Lúmen, da nossa holding, é baseado em uma pesquisa fraudulenta e perigosa chamada Projeto Fênix, iniciada por Augusto Lobo, os dados de toxicidade foram escondidos e o meu marido foi enganado pelo diretor de operações, Viktor Salles, que manipulou os dados para obter aprovação. Pessoas estão morrendo. Pacientes estão tendo reações graves que estão sendo omitidas dos registros. Eu confrontarei o Dante e o Viktor hoje com estas provas e se algo me acontecer, não foi um acidente, foi porque eu descobri a verdade. Viktor Salles é perigoso e ele vai matar para proteger o seu segredo podre. Cuidem da minha filha, por favor, cuidem da Melissa.”
O áudio termina e o silêncio que se segue é absoluto, sagrado. É a voz de uma mulher morta, falando do túmulo, é a prova viva, respirante, da culpa de Viktor.
Dante está imóvel, olhando para o alto-falante do laptop como se pudesse ver o fantasma dela ali, suas mãos estão cerradas nos braços da cadeira, os nós dos dedos brancos.
— Ela fez isto — ele sussurra, maravilhado e devastado. — Ela fez isto por mim, por nós. E eu não a ouvi.
Agora temos tudo. O veneno da fonte (Augusto), a conduta fraudulenta (os arquivos de Beatriz), e o testemunho da vítima (o áudio). É um caso perfeito, irrefutável.
Mas também é a nossa sentença de morte, se manuseado incorretamente.
— Não podemos levar isto à polícia comum — digo, a lógica estratégica superando o choque emocional. — Viktor tem influência e pode sumir com as provas, ou pior, virá-las contra você, dizendo que você e Beatriz conspiraram.
— Precisamos de um canal blindado, a Polícia Federal, a promotoria de crimes contra a saúde pública, algo grande demais para ele comprar ou intimidar.
— Precisamos do Leandro, ele tem contatos e precisamos do Moraes, vivo e lúcido, para corroborar.
Dante acena, se puxando para a ação. A dor agora é combustível.
— Vou contactar o Leandro, ele precisa trazer o Moraes para um local seguro e prepará-lo. Enquanto isso, você faz cópias desses arquivos e Criptografa e depois prepara um dossiê. Um para a PF, um para um jornalista de confiança — o Ricardo, da Coluna Econômica, ele é incorruptível — e um guardamos conosco.
— E o Viktor? Ele está desesperado pelo diário e quando perceber que não o encontrará…
— Ele fará um movimento desesperado, precisamos estar prontos, a mansão é uma fortaleza, mas não podemos ficar trancados aqui para sempre.
O plano se forma, rápido e mortal, estamos armando a armadilha final, com a voz de Beatriz como isca.
Enquanto trabalho, criptografando arquivos em um pen drive novo, Dante fica sentado com o diário físico aberto na última página. Ele lê em silêncio, suas expressões mudando — dor, amor, raiva, admiração. Beatriz não foi apenas uma vítima, foi uma heroína e ele, o herói trágico que falhou em salvá-la.
Mais tarde, Melissa entra no escritório. Ela para, sentindo a energia intensa, o cheiro de poeira do sótão ainda no ar, seu olhar vai para o diário nas mãos de Dante. Ela se aproxima, toca a capa de couro com um dedo.
Dante olha para ela, seus olhos marejados.
— É da mamãe, querida, ela escrevia sobre você. Sobre o quanto te amava.
Melissa acena séria, pega o lápis que sempre carrega e, em uma folha em branco da mesa, desenha, não é uma cena complexa, apenas um coração e, dentro do coração, três letras: B, M, D.
Beatriz, Melissa, Dante.
Ela aponta para o coração, depois para Dante e para si mesma, e então para a foto de Beatriz que ele mantém na mesa.
A família. A família que existia e que foi quebrada.
Dante a puxa para um abraço forte e silencioso. Ela não se debate, apenas pousa a cabeça no seu ombro.
Eu continuo a trabalhar, os dedos voando no teclado, mas meu coração está naquela cena muda. Estamos lutando por muitas coisas: por justiça, por vingança, por sobrevivência, mas no fundo, estamos lutando para que aquele coração desenhado por uma criança silenciosa possa voltar a significar algo mais do que memória e perda.
O pen drive com o diário digital de Beatriz não é apenas uma prova. É uma voz que retorna do silêncio para guiar nosso golpe final.
E, pela primeira vez, sinto que não estamos apenas reagindo, estamos atacando com a força de uma mulher que amou o suficiente para morrer pela verdade.
Agora, é nossa vez de honrar essa morte. Transformando-a no fim do pesadelo de Viktor.