O escritório da mansão, após a descoberta, se transforma em um bunker de guerra. O diário físico de Beatriz repousa sobre a mesa de Dante, ao lado do pen drive preto. São objetos sagrados e profanos ao mesmo tempo. O áudio da voz dela ainda ecoa nas paredes, um fantasma de clareza aterrorizante.
Minha tarefa é técnica, cirúrgica: isolar, copiar e proteger. Crio três pacotes digitais criptografados. Um para a Polícia Federal, endereçado a um delegado específico que Leandro garantiu ser “limpo”. Outro para Ricardo, o jornalista e o terceiro, nossa cópia de fuga, vai para um serviço de nuvem anônimo, com acesso programado para se liberar caso nossos dispositivos biométricos parem de funcionar por 72 horas consecutivas. É um testamento digital.
Dante fica com a tarefa mais dolorosa: ouvir o resto dos arquivos de áudio. Beatriz, em sua meticulosidade, não fez apenas uma gravação, fez várias, pequenos registros, como se estivesse praticando, construindo coragem, ou documentando descobertas progressivas.
Ele coloca os fones de ouvido enquanto eu trabalho em silêncio, mas vejo seu rosto. Cada músculo é um mapa de emoções em guerra. A dor crua da saudade, primeiro, ao ouvir ela descrever o dia em que Melissa disse “mamãe” pela primeira vez, a tensão crescente, conforme ela narra, em detalhes clínicos, sua desconfiança sobre os números do Lúmen. A fúria contida, ao relatar uma conversa ouvida por acaso entre Viktor e Torres, algo sobre “limpar o rastro do lote 7”.
E então, o áudio mais curto e o mais devastador.
A voz de Beatriz está baixa, quase um sussurro, mas cristalina. É a gravação final, feita talvez minutos antes de sair de casa naquele dia fatal.
“Dante, meu amor. Se você estiver ouvindo isto, é porque eu… não consegui. Não consegui fazê-lo ver, estou com tanto medo, não por mim, mas por você e por nossa filha. Viktor olha para você não como um sócio, mas como um obstáculo e eu sei o que ele faz com obstáculos. Encontrei… encontrei algo hoje. Um pagamento para uma empresa de segurança terceirizada, daquelas que fazem ‘trabalhos sujos’. O beneficiário é um laranja, mas o dinheiro veio de uma conta que leva ao Viktor. A data… é de duas semanas após eu ter questionado ele pela primeira vez sobre os dados. Dante, ele não vai parar, ele vai te destruir para ficar com tudo. E se algo acontecer comigo… por favor, não se deixe destruir pela culpa. Lute. Por você e por nossa Melissa. Eu te amo. Sempre.”
Um clique e o silêncio.
Dante arranca os fones de ouvido como se queimassem, ele se levanta tão abruptamente que a cadeira tomba para trás com um baque. Ele caminha até a janela, as costas rígidas, os ombros tremendo, não é choro, é um tremor de raiva pura, antiga, fervendo até a superfície após anos de repressão.
— Ele já planejava me matar — a voz dele sai rouca, serrada. — Ela sabia e foi morta antes que pudesse me avisar.
A revelação é monstruosa, Viktor não matou Beatriz apenas para silenciá-la sobre o Lúmen. Foi também um passo em um plano maior: isolar Dante, desestabilizá-lo, para depois removê-lo do caminho. O acidente foi uma multitarefa maligna.
— Ele é um câncer — digo, a metáfora surgindo involuntariamente. — Metastático. Espalha-se para destruir tudo ao redor.
Dante se vira, seus olhos estão vermelhos, mas secos. A dor foi queimada, transformada em algo mais perigoso: uma determinação absoluta e glacial.
— Câncer se cura com cirurgia, com radiação. — Ele pega o telefone seguro. —E é hora de chamar o cirurgião.
A ligação para Leandro é curta e em código. “O paciente crítico precisa ser preparado para depoimento. O local primário está comprometido. Use o plano B e traga a amostra patológica.”
Tradução: Moraes, o auditor, precisa ser trazido a um local seguro e preparado para falar. A mansão não é mais segura e traga as provas que ele tem.
A resposta de Leandro vem por mensagem de texto, também codificada. “Plano B ativo. A amostra está estável, a entrega é em 24h. Local: o jardim da senhora.”
O “jardim da senhora”. O jardim botânico privativo onde, segundo Dante, Beatriz passava horas, um lugar público o suficiente para não ser uma armadilha óbvia e privado o suficiente para um encontro discreto, Viktor nunca associaria Dante a um lugar de memória tão dolorosa. É simplesmente genial.
"Temos vinte e quatro horas, um dia para preparar o golpe final, um dia para viver sob a constante ameaça da retaliação de Viktor — uma verdadeira espada de Dâmocles pairando sobre suas cabeças — que deve estar enlouquecendo com o silêncio de Sofia e a ausência de Torres."
Melissa, intuitiva como sempre, sente a aceleração. Ela para de desenhar em vez disso, fica colada a mim ou a Dante, uma sombra silenciosa, ela não busca afeto físico, apenas proximidade, é como se estivesse nos carregando na sua aura, nos protegendo com sua presença vigilante.
À noite, Dante não vai para o seu quarto, fica no escritório, estudando o dossiê que montei, ouvindo os áudios de Beatriz repetidamente, como um mantra de dor e combustível, preocupada levo um cobertor para ele, ele pega minha mão e a segura por um momento, seus dedos estão frios.
— Ela teria te amado — ele diz, de repente, sem olhar para mim. — Por ser forte, por cuidar de Melissa e por não ter medo de me enfrentar.
A declaração me pega desprevenida, é um reconhecimento que vai além da aliança, que toca no núcleo da família que estamos, grotescamente nos tornando.
— Eu a admiro, só de ouvir sua voz — respondo, honestamente. — Ela foi corajosa até o fim.
— Ela foi corajosa pelo fim — ele corrige. — Para garantir que houvesse um fim para isto. Não podemos falhar com ela agora.
— Não vamos.
O dia amanhece e com ele a tensão é um animal vivo dentro da mansão, até Lara percebe.
— Está todo mundo tão sério — comenta no café, sua voz ainda um pouco arrastada pela medicação. — Aconteceu alguma coisa?
— Apenas muito trabalho, querida — minto, o sabor amargo familiar na língua. — Coisas importantes que o Dante precisa resolver.
Ela acena, confiante e a sua confiança é um fardo cada vez mais pesado.
Às 14h, nos preparamos para ir ao jardim botânico com o pretexto de uma “saída em família” para Melissa, algo para aliviar a tensão, vestidos com roupas casuais. Dante checa a arma sob o paletó enquanto eu tenho a minha, no fundo da bolsa, um peso estranho e ameaçador.
Marcos nos leva, mas desta vez seguimos em dois carros, o segundo, com dois dos novos seguranças, segue atrás a uma distância discreta, o trajeto é silencioso, Melissa olha pela janela e sua mão sobre a minha está fria.
O jardim botânico privativo é um oásis de silêncio pago, trilhas sinuosas entre espécies raras, estufas de vidro e bancos isolados. É um lugar de paz profunda, o que torna a missão que vamos realizar aqui um sacrilégio.
Caminhamos até uma clareira perto de uma antiga fonte de mármore, o ponto combinado. O ar cheira a terra molhada e flores exóticas, com certeza é um lugar que Beatriz amaria. Dante para diante da fonte, sua expressão fechada, mas vejo sua mandíbula tensionada.
Leandro aparece cinco minutos depois, vindo de uma trilha lateral, ele parece mais velho, mais gasto, mas seus olhos estão alertas e ao seu lado, um homem magro, de óculos grossos, roupas simples e um ar de quem acabou de sair de um longo pesadelo: Gustavo Moraes.
O auditor não é mais um catatônico, está pálido, frágil, mas seus olhos estão focados e ele olha para Dante com uma mistura de medo e alívio.
— Ele está lúcido — Leandro sussurra, cumprimentando-nos com um aceno. — Lembra de tudo e está pronto para falar.
Dante estende a mão para Moraes, o homem hesita mas depois a aperta com uma força surpreendente.
— Obrigado por vir, Gustavo e por ter tentado fazer a coisa certa, lá atrás.
Moraes balança a cabeça, seus olhos se enchem de lágrimas.
— Eu… eu tentei, mas ele ameaçou a mim e a minha família. E depois… as drogas, o sanatório… — Sua voz falha.
— Não precisa falar agora, só precisa falar para as autoridades. Está disposto?
Moraes olha para Leandro, que dá um aceno encorajador.
— Estou, eu estou cansado de ter medo. A Sra. Lobo… ela foi gentil comigo, ela acreditou e olha no que deu.
O nome de Beatriz no ar é como um toque sagrado, todos ficamos em silêncio por um momento.
— Nós temos as provas que ela coletou — digo, suavemente. — Seu depoimento vai selar tudo.
— O que você precisa que eu faça? — pergunta Moraes com a voz mais firme.
Dante explica rapidamente que o depoimento será filmado, aqui mesmo, hoje.
Um vídeo com data e local, onde Moraes identificará a si mesmo, narrará a pressão de Viktor para falsificar laudos, descreverá o encobrimento das mortes dos pacientes, e mencionará a visita de Beatriz e as ameaças subsequentes e que este vídeo será parte do pacote enviado à PF.
Enquanto Leandro prepara uma pequena câmera de alta definição e ajusta o áudio, eu observo os arredores. O jardim parece deserto, mas a paranoia é um segundo instinto agora e cada farfalhar de folha, cada chilrear de pássaro, parece uma ameaça.
Melissa, sentada em um banco próximo, não desenha, mas observa Moraes com intensidade. Ela está memorizando seu rosto, sua voz e adicionando mais uma peça ao quebra-cabeça do horror.
A gravação começa. Moraes, inicialmente hesitante, ganha firmeza à medida que fala. A verdade, guardada por tanto tempo, sai em um fluxo de detalhes técnicos e terror pessoal. Ele nomeia Viktor, descreve os lotes adulterados, o sumiço dos nomes dos pacientes dos registros, fala de Beatriz com uma reverência tocante. “Ela era a única luz naquela escuridão”, diz. “E ele a apagou.”
São quinze minutos de depoimento cru, devastador, irrefutável e quando termina, Moraes parece exausto, mas também mais leve, como se tivesse expelido um veneno.
— Está feito — diz Leandro, guardando a câmera. — O vídeo é de qualidade forense, incontestável.
— O que acontece agora com ele? — pergunto, olhando para Moraes.
— Eu o levo para um lugar seguro, longe até a poeira baixar. Ele tem uma nova identidade esperando.
Moraes acena, grato, mas antes de partir, ele se vira para Dante.
— Ela falava muito de você, sabia? Da sua honestidade, que você estava perdido, mas que tinha um bom coração. Ela nunca perdeu a fé.
Dante não consegue falar, apenas acena, o rosto contraído pela emoção.
Leandro e Moraes desaparecem pela trilha e ficamos os três na clareira, o peso do que acabamos de fazer ainda pairando sobre nós. Temos todas as peças, a arma está carregada e agora, é só puxar o gatilho.
Melissa se levanta e vem até nós. Ela olha para a fonte, para o local onde Moraes estava e em seguida pega a mão de Dante e a minha e as une, não é um gesto de amor infantil. É um gesto de selamento, de pacto.
O jardim da senhora, o refúgio de Beatriz, se tornou o campo de batalha onde sua vingança foi forjada.
Os áudios da verdade dela encontraram, finalmente, eco.
E o silêncio que se segue não é de paz.
É o silêncio carregado do trovão que está prestes a romper.