CAPÍTULO 29: O PRESENTE DE BEATRIZ

1897 Palavras
A luz do jardim botânico parece ter nos marcado, carrego o peso do depoimento de Moraes nas costas, uma mochila invisível de verdades ditas em voz trêmula. Melissa dorme profundamente no banco de trás, exausta pela tensão que mesmo uma criança silenciosa absorve. Dante dirige em silêncio absoluto, seus dedos brancos no volante. O plano está gravado em aço em sua mente, posso o sentir, frio e afiado, pairando no ar condicionado do carro. A mansão nos recebe como um bunker, Almeida nos sinaliza da guarita — tudo calmo. Rossi faz uma varredura no perímetro, são movimentos de guerra que se tornaram nossa rotina, e assim que confirmado que estamos fora de qualquer perigo, subimos, e o cheiro do lugar, de limpeza cara, flores trocadas e um vazio asséptico — nunca me pareceu tão hostil. Dante vai direto para o escritório trancado logo após acomodar a pequena Melissa em sua cama e eu vou ao meu quarto, mas não para descansar. Abro o laptop e começo a tarefa final. Reúno todos os fragmentos da nossa tragédia, o diário digital de Beatriz se abre na tela, sua letra cursiva transformada em fonte Times New Roman, o que de algum modo a torna mais real, mais permanentemente morta, copio os arquivos de áudio, aquele último suspiro gravado que é ao mesmo tempo uma despedida e uma acusação, incluo os scans dos cadernos de Augusto, as anotações de um velho cínico condenando seu próprio filho à irrelevância. Adiciono o vídeo de Moraes, seu rosto um mapa de medo e remorso e por fim, os extratos bancários, as linhas de código que ligam Viktor a uma rede de clínicas que são necrotérios de ética. É um monstro de arquivos, chamo a pasta de “CONTINGÊNCIA B”, um eco perverso da pasta de Augusto, com certeza Beatriz teria gostado da ironia e quando clico para comprimir tudo, a barra de progresso demora, como se o próprio computador hesitasse em criar aquela arma. Enquanto isso, me surpreendo quando Dante reaparece na porta do meu quarto trazendo consigo uma caixa pequena de madeira escura, que parece ter sido esculpida à mão. Não é um objeto da mansão, é algo pessoal, íntimo. — Encontrei no sótão — diz com a voz rouca que eu amo. — Estava separada das outras coisas, estava com um lenço em volta. Ele a coloca na cama, entre nós e Melissa, que entrou quieta e se sentou no chão com seu bloco, levanta os olhos. Ela se aproxima, não com curiosidade infantil, mas com a reverência de quem reconhece uma relíquia. Dante não tem a chave e as fechaduras minúsculas estão enferrujadas. Ele pega um clipe de papel da minha mesa, desdobra-o com mãos surpreendentemente estáveis, e mexe uma das fechaduras, um clique, outro clique e a tampa cede. Dentro, sobre veludo azul desbotado, repousam quatro objetos, um chocalho de prata, uma mecha de cabelo presa com uma fita, uma foto emoldurada de Beatriz grávida, sorrindo para o nada com uma felicidade tão crua que corta a respiração e um envelope pardo, comum, com uma única palavra na frente: “Para Melissa”. Ninguém se move, ninguém respira, o ar do quarto fica pesado, carregado de uma emoção tão pura que dói. Dante é o primeiro a romper o momento, estende a mão e pega o envelope e o segura como se fosse feito de vidro fino enquanto olha para a filha. — É seu minha pequena, era da sua mamãe — diz, e a voz dele quebra no meio da palavra. Melissa se levanta, suas mãozinhas vão ao encontro do envelope. Ela o pega, vira, examina a caligrafia da mãe, seus dedos passam sobre as letras e então, sem hesitar, ela o pressiona contra o centro do peito, bem onde o coração bate e fecha os olhos enquanto um único tremor percorre seu corpo pequeno. Ela não tenta abri-lo, o guarda no bolso do vestido, que fecha com um botão, como se estivesse selando um tesouro. A decisão é dela. O presente é dela e o momento de o abrir também será. Beatriz, em seu medo final, pensou nisso, pensou em deixar um pedaço palpável de seu amor para a filha que poderia crescer sem lembrar do som de sua voz. É o ato mais corajoso e doloroso de uma mãe que já testemunhei. Dante desaba na beira da cama, o rosto enterrado nas mãos, seus ombros sacodem uma vez, silenciosamente. É um homem quebrando e se remendando no mesmo instante. E quando levanta o rosto, está transformado. A dor ainda está lá, esculpida em cada linha, mas foi forjada em algo sólido, impenetrável, com um propósito. — Ela nos deu tudo — ele sussurra, olhando para o espaço vazio onde o envelope estava. — Até uma razão para vencer. Volto ao laptop, o arquivo está compactado. “CONTINGÊNCIA_B.zip”. Peso: suficiente para derrubar um império. Dante se aproxima e olha para a tela. — Amanhã de manhã — diz. — Enviamos para o canal da PF que o Leandro estabeleceu e para o jornalista ao mesmo tempo e depois, vamos até ele. — Ele estará cercado. — Sim. Mas a mordida da cobra é mais perigosa quando ela está encurralada, nós precisamos estar prontos para o veneno. Passamos as próximas horas em preparativos meticulosos. Leandro está contactado via satélite. Ele confirma: pode ter homens extra aqui ao amanhecer. O perímetro será impenetrável, combinamos códigos, um sinal de rádio específico significará “ataque iminente”, outro, “evacuação”. Melissa nos observa trabalhar, ela não desenha, senta-se à mesa da cozinha com Dona Alzira e cola um mosaico interminável com grãos de feijão coloridos. É um trabalho de paciência, de construir algo sólido a partir de pequenas unidades. Metáfora de sobrevivência. À noite, o silêncio da mansão é diferente. É o silêncio do campo de batalha antes do primeiro tiro, Dante e eu não dormimos, ficamos no escritório, revisando cada detalhe. Às três da manhã, ele pega o diário físico de Beatriz, que trouxe do sótão, e abre numa página aleatória. Lê em voz baixa, para mim, para o quarto vazio, para o fantasma que nos observa. “Melissa fez um desenho hoje, um monstro com três cabeças. Perguntei quem era, e ela apontou para mim, para Dante e para uma mancha preta que disse ser ‘o homem do barulho’. Viktor. Ela não o chama pelo nome, o chama pelo efeito que ele tem no ar da casa. Ela vê tudo, e eu, Deus me perdoe, trouxe essa escuridão para a vida dela.” A voz de Dante some, ele fecha o diário, segurando-o com força. — Ela se culpava — diz, o olhar perdido. — Por ter descoberto, por ter nos colocado em perigo, mas a culpa nunca foi dela, foi minha, por não ter visto o monstro ao meu lado, por ter deixado o barulho dele invadir nossa casa. — Você vê agora — respondo. — É isso que importa. Ver e agir. Ele acena, mas a sombra da culpa paterna — do pai que falhou com a esposa e com a filha — é longa e teimosa. O amanhecer chega cinza e úmido, Leandro e mais dois homens chegam em uma van discreta, são apresentados como “técnicos de sistema”. Seus olhos não são de técnicos e sim de soldados. A mansão é discretamente convertida em uma fortaleza, janelas têm sensores extras, os pontos das câmeras são duplicados, Lara é mantida em seu quarto com a desculpa de uma “vistoria de encanamento”. Ela aceita, absorta em um novo audiolivro. Às oito, estou diante do laptop, os dois e-mails prontos. Os arquivos anexados, criptografados com chaves que só o destinatário terá, minha mão está firme, o medo se transforma em uma certeza fria, Dante está ao meu lado, uma presença sólida e imóvel. — Por ela — ele diz. — Por elas — corrijo, pensando em Melissa, em Lara, em Beatriz. — Por nós — ele conclui. Às nove em ponto, pressiono ENTER. A tela pisca. “Mensagem enviada.” Duas vezes. Está feito. A verdade, armada e endereçada, agora corre pelos cabos e ondas do mundo, em direção às mãos que podem — que devem — fazer justiça. Agora, a parte perigosa. Melissa entra no escritório vestida, ela parece mais velha hoje, seus olhos são sérios e me entrega um desenho. É simples. Três figuras de palito, de mãos dadas, a do meio, menor, segura um pequeno retângulo no peito — o envelope. Acima delas, rabiscos que parecem raios de luz ou proteção. Não há monstro no desenho, só o triângulo que formamos e a luz que carregamos conosco. Dante dobra o desenho e o guarda no bolso. É o nosso estandarte. Deixamos a mansão sob o comando férreo de Leandro. As instruções são claras: ninguém entra, ninguém sai até o nosso retorno ou até um sinal de código. O abraço que dou em Melissa é longo. Ela sussurra algo no meu ouvido, não é uma palavra, é um sopro, um ruído suave que soa como “voltem”. Prometo com um aceno. No carro, o silêncio retorna, Dante confere a arma no coldre sob o paletó e eu seguro minha bolsa, onde além do kit de sobrevivência levo uma cópia impressa do sumário do dossiê. Se algo nos acontecer, o papel pode sobreviver. A cidade passa pela janela, normal, alheia. O prédio da Lobo Holding se ergue, um monumento de vidro ao legado envenenado de Augusto e à ambição assassina de Viktor. Estacionamos na vaga reservada, o porteiro nos cumprimenta, seu sorriso congela ao ver nossas expressões. No elevador executivo, Dante olha para seu reflexo nas portas de aço. — Ele vai tentar negociar — diz. — Vai oferecer dinheiro, poder, a saída limpa, vai apelar para o que resta do meu pai em mim. — E você vai lembrar da voz dela — digo, segurando seu olhar no reflexo. — Do áudio, do que ele fez. O elevador para, as portas se abrem. Heloísa está em pé atrás de sua mesa, pálida, as mãos entrelaçadas. — Senhor Lobo… ele está… — Nós sabemos — Dante corta, passando por ela sem diminuir o passo. O corredor até o escritório de Viktor parece mais curto hoje, a porta está fechada, Dante não hesita e bate uma vez, firme, e empurra a maçaneta. Viktor está sentado atrás de sua mesa monumental, falando ao telefone e o desliga ao nos ver, um sorriso profissional surgindo em seus lábios, mas seus olhos, aqueles olhos azuis de gelo, nos escaneiam em um microssegundo, lendo a decisão em nossos rostos, a falta de medo, a presença do fim. — Dante, Clara que visita inesperada. — Ele se levanta, gesto de cortesia vazio. — Parece que temos assuntos urgentes a tratar. — O único assunto, Viktor, é a sua rendição — a voz de Dante ecoa na sala revestida de carvalho. — O jogo acabou. O sorriso de Viktor não some, apenas se transforma, tornando-se mais afiado, mais real. — Jogos só acabam quando um dos jogadores desiste, Dante. E eu… nunca fui bom em perder. Ele está encurralado e sabe disso. E, como Dante previu, a mordida da cobra será agora. O presente de Beatriz nos trouxe até esta sala. Agora, entregaremos o nosso. O confronto final começa.
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