CAPÍTULO 30: BEIJO VERDADEIRO

1866 Palavras
A declaração de Dante paira no ar como um gás inflamável no escritório de Viktor. "O jogo acabou." Três palavras que rasgam o véu de décadas de parceria, de mentiras compartilhadas, de um império construído sobre ossos. Viktor não se agita, apenas se recosta na cadeira de couro, os dedos entrelaçados sobre a mesa polida. Seu sorriso agora é uma coisa calculada, ele nos estuda, claramente com um desdém controlado. — Termos tão definitivos, Dante. "Jogo". "Acabou". Parece linguagem de faroeste barato. Nós construímos uma holding farmacêutica, não jogamos pôquer em um salão. — Seu olhar azul se desvia para mim, um raio laser de desprezo. — E você trouxe sua… consorte para este desfecho dramático, que comovente. Ignoro o insulto e me mantenho ao lado de Dante, minha postura tão rígida quanto a dele. A bolsa com o sumário do dossiê pesa no meu ombro como uma âncora de verdade. — A dramática é a sua farsa, Viktor — digo, a voz surpreendentemente estável. — A que matou pacientes, a que matou Beatriz. Mas agora acabou porque a verdade tem mais testemunhas do que você pode silenciar. Ele ri, um som seco que não chega aos olhos. — A verdade? A verdade é uma mercadoria, minha cara, e como qualquer outro, moldável, negociável. — Ele se inclina para frente, os cotovelos na mesa. — Dante, vamos falar como homens que construíram algo. Você tem… inquietações e eu entendo. A morte da Beatriz foi uma tragédia que nos afetou a todos, talvez eu tenha sido muito… vigoroso em proteger os interesses da empresa naquela época. Erros de julgamento ocorrem sob pressão. É a primeira a******a. Tênue, viscosa, uma tentativa de reduzir homicídio e fraude a "erros de julgamento". Dante não se move. — Você não errou, Viktor, você calculou. O Lúmen era uma bomba e Beatriz descobriu o detonador então você a removeu. E depois, tentou me remover. — Acusações perigosas! — a voz de Viktor eleva-se um tom, encenação de indignação. — Baseadas em quê? No delírio de um auditor colapsado? Nas anotações paranoicas de uma esposa em luto? Você vai destruir tudo o que seu pai e nós construímos por causa de um surto de culpa póstuma? Ele apela para o legado de Augusto, como Dante previu. O golpe é baixo e preciso, vejo um tremor na mandíbula de Dante. — Meu pai — diz Dante, cada palavra uma facada de gelo — estava tão errado sobre você quanto esteve sobre mim, afinal ele viu um sucessor, só viu um reflexo de sua própria podridão, portanto Viktor, eu vou destruir essa herança podre para que algo limpo possa, um dia, crescer no lugar. É prazeroso ver quando a máscara de Viktor finalmente racha e a fúria, real e n***a, brilha em seus olhos. — Algo limpo? Você? O filho que nunca foi homem suficiente para segurar o leme com força? Eu salvei esta empresa da sua incompetência emotiva! O Lúmen é um sucesso porque eu tive a coragem de ignorar choramingos éticos e fazer o que era necessário! Os fracos morrem, Dante. A medicina é para os fortes. Sempre foi. A confissão, torpe e orgulhosa, ecoa na sala, ele não n**a, apenas justifica. É mais assustador do que qualquer mentira. — Então você confessa — pressiono, minha mão fechada ao redor do gravador na bolsa. — Confesso que sou um visionário — rosna ele, agora de pé, as mãos apoiadas na mesa enquanto seus olhos antes calmos agora transbordam raiva. — E vocês dois são obstáculos sentimentais, e obstáculos podem ser contornados ou removidos. É uma ameaça direta, o ar fica eletrizado e Dante dá um passo à frente. — Sua rede está desfeita, Viktor, Torres está sumido, a sua espiã agora espia para nós, Moraes falou e as provas já estão com a Polícia Federal e com a imprensa. O seu dinheiro não vai comprar isso, seus políticos vão correr para se esconder e você está sozinho. Pela primeira vez, vejo uma f***a de dúvida, de pânico, cruzar o rosto de Viktor. Ele avalia a convicção de Dante e a minha postura inabalável. Ele calcula, furiosamente, e percebe que não estamos blefando. O pano de poder que o cobria se desfaz. — Impossível… — murmura, mas é para si mesmo. — É inevitável — corrige Dante. — Você tem uma escolha, sai por essa porta conosco agora, e se entrega, ou espera que eles venham buscá-lo aqui, com algemas e câmeras, mas posso lhe garantir que a queda será mais suave na primeira opção. Viktor olha para a janela panorâmica, para a cidade que ele acreditava dominar, seu rosto é uma máscara de ódio impotente. Ele perdeu e ele sabe. — Você não vai se safar, Dante — Sibila, o veneno jorrando. — A mancha é da holding. Você é o CEO, você vai afundar comigo. — Eu vou sobreviver aos escombros, eu lhe garanto— Dante responde, sem hesitar. — Você, não. O impasse é total, Viktor está encurralado e é perigoso, um animal ferido. Sinto o instinto de me colocar entre ele e Dante, mas me contenho. De repente, Viktor solta uma risada, uma risada de verdade, carregada de amargura e de algo mais… resignado. — Tudo bem, tudo bem. — Ele abre uma gaveta da mesa, nossos corpos se tensionam, mas ele só tira um cigarro e acende. A fumaça sobe em uma espiral lenta. — Vocês venceram este round. Parabéns, mas a guerra… a guerra nunca acaba, Dante e ela só muda de campo. Ele olha para mim, e seu olhar é um golpe sujo. — Cuide bem dele, Clara. Ele é frágil e o mundo é duro com coisas frágeis. É a última tentativa de semear discórdia, mas falha e Dante pega minha mão. Seu toque é firme, vivo, uma afirmação silenciosa. — Vamos embora — ele diz, para mim. — Ele já está acabado. Viramos as costas para Viktor Salles, o homem que governou nosso inferno particular. Saímos do escritório, deixando-o envolto em sua fumaça e em seu império desmoronando. O som da porta fechando atrás de nós é o ponto final de um capítulo. No corredor, a tensão que nos mantinha rígidos começa a se dissolver, meus joelhos tremem levemente. Dante para, ainda segurando minha mão, e olha para mim, seus olhos estão exaustos, mas limpos e pela primeira vez desde que o conheci, não vejo o peso esmagador dos segredos neles, vejo apenas alívio, vejo tristeza e vejo… paz. Não trocamos palavras, o elevador desce em silêncio e a batalha foi vencida não com tiros, mas com verdades lançadas como bombas. A guerra, como Viktor disse, talvez continue em outro campo — os tribunais, a mídia, a reconstrução da holding, mas o que realmente importa é que o monstro foi derrotado. No carro, a quietude é diferente. É o silêncio após a tempestade. Dante não liga o motor de imediato, fica sentado com as mãos no volante, olhando para o prédio que já não é sua gaiola, mas sua responsabilidade a ser reformada. — Está feito — ele diz, finalmente com tom de alívio. — Está. Ele se vira para mim, a luz do final da tarde entra pela janela, banhando seu rosto em tons dourados, percebo a fadiga, as linhas de preocupação, mas também uma vulnerabilidade que ele nunca permitiu transparecer. — Eu não poderia ter feito isto sem você — a voz dele é rouca, carregada de uma emoção nua. — Você não foi só a isca, o sócio, a cuidadora. Você foi… a minha tábua de salvação. A razão para eu lembrar que ainda havia algo digno para lutar. As palavras me atingem o meu lugar profundo, desarmado, não são palavras de um chefe para uma funcionária. São palavras de um homem para uma mulher que caminhou com ele pelo vale da sombra da morte. — Você me deu a mesma coisa, Dante — respondo, a garganta apertada. — Um propósito além da sobrevivência, algo pelo qual valia a pena queimar os próprios navios. Sou surpreendida quando ele levanta a mão e toca meu rosto, seus dedos são ásperos, quentes, reais. Seu toque não é possessivo, é reverente, é grato. — Clara… — meu nome sai de seus lábios como uma pergunta, uma oração, uma confissão. Seu rosto se aproxima, ele olha intensamente em meus olhos enquanto se inclina e me beija. Não é o beijo de fúria no corredor e nem o beijo de posse na cama. É um beijo lento, profundo, terno, um beijo de reconhecimento de dois sobreviventes que, após atravessarem o deserto do desespero juntos, se encontram do outro lado, feridos, marcados, mas vivos. E se reconhecem, não como aliados de conveniência, mas como parceiros de alma. É um beijo verdadeiro. O primeiro beijo verdadeiro. Ao nos separarmos, a nossa respiração está irregular e seus olhos buscam os meus, procurando por arrependimento, por hesitação, mas encontram apenas o mesmo reflexo do que ele sente: uma exaustão gloriosa e um afeto que, nascido na escuridão, teima em florescer. — Eu não sei o que vem depois — ele admite, a testa encostada na minha. — A holding, o julgamento, a reconstrução… tudo será um caos. — Nós enfrentaremos juntos — digo, e acredito em cada palavra. — Como sempre fizemos. Ele sorri, um sorriso pequeno, cansado, mas genuíno, o primeiro sorriso de verdade que vejo nele. — Juntos — ele repete, selando o pacto. Em seguida ele liga o carro e partimos. Não voltamos diretamente para a mansão, Dante dirige até um mirante afastado, de onde se vê a cidade se acendendo contra o entardecer. Ficamos em silêncio, observando as luzes, cada uma representando uma vida, um drama, uma história, a nossa história, uma das mais sombrias, que alvez encontre agora um fio de luz. — A Melissa vai abrir o envelope em algum momento — ele diz, pensativo. — O que será que Beatriz escreveu? — O que uma mãe que ama deixa para a filha? — respondo. — Coragem, esperança. O segredo de que ela era, e sempre será, amada. Ele acena, seus olhos brilhando no escuro. — E nós… o que deixaremos para ela? — A pergunta fica no ar por alguns segundos… — Um mundo mais seguro, um pai presente. E… — hesito, mas a verdade é forte demais para ser contida — …talvez uma nova família. Diferente, marcada, mas real. Ele pega minha mão novamente, entrelaça nossos dedos. O gesto é simples, mas carrega o peso de todas as batalhas vencidas e de todas as que ainda virão. O beijo no carro foi um recomeço, o juramento silencioso de que, após terem vendido silêncios e comprado lealdades, encontraram no meio do lodo, algo que não tem preço: a verdade de um sentimento que não precisa de contrato para existir. A guerra contra Viktor aparentemente acabou. A construção da paz, da nossa paz, m*l começou e pela primeira vez, olhando para as luzes da cidade e sentindo a mão dele na minha, acredito que vai valer cada lágrima, cada medo, cada mentira contada. Porque o que está nascendo entre nós nesta quietude, sob o céu que escurece, não é um pacto. É uma promessa.
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