A confissão de Viktor ainda ressoa na minha mente, um eco venenoso. “Os fracos morrem, a medicina é para os fortes.” O beijo no carro, o primeiro beijo verdadeiro, parece agora um frágil oásis em um deserto ainda fumegante. Derrotamos o monstro, mas o terreno minado que ele deixou para trás ainda está sob os nossos pés.
Dentro da mansão, o ambiente é de alívio tenso. Leandro e seus homens mantêm a vigilância, mas o inimigo declarado está contido em seu escritório, esperando pela queda que ele sabe ser inevitável. A notícia do confronto e da iminente ação da PF deve tê-lo alcançado, Viktor está quieto, quieto até demais.
Melissa sente a mudança, ela não procura mais o envelope no bolso, ele se tornou parte dela, um amuleto silencioso, mas seus olhos, sempre tão vigilantes, agora se fixam em pontos específicos da casa: o vão da escada, a porta do escritório de Dante, a entrada da ala leste... É como se estivesse recalculando um mapa interior, riscando a figura do “homem do barulho” e procurando novas ameaças.
Lara, em seu quarto, está em uma sessão de fisioterapia. O som suave da música instrumental e das instruções calmantes da terapeuta é uma bolha de normalidade quase dolorosa e assim que eu entro para vê-la percebo que o seu sorriso é mais fácil hoje, os músculos do rosto menos tensos.
— O Dante parece… diferente — ela comenta, enquanto alonga o braço com ajuda. — Menos carrancudo, aconteceu algo bom no trabalho?
A ironia é tão profunda que quase me faz rir de puro desespero.
— Algo se resolveu — digo, a meia-verdade saindo com fluência assustadora. — Um grande problema, então agora ele pode focar em coisas melhores.
— Como a família — ela diz, simples, confiante. A fé da minha doce irmã é um dom e uma condenação.
Assim que saio do quarto, encontro Dante no corredor. Ele está olhando para o monitor de segurança no hall, onde câmeras exibem diversos ângulos da propriedade, seu rosto está concentrado, não mais em fúria, mas em análise pura.
— Ele não tentou sair — comenta, sem tirar os olhos da tela que mostra o portão principal. — Nem um e-mail suspeito detectado pela nossa filtragem. Acha mesmo que ele está aceitando a derrota?
— Alguém como Viktor não aceita derrota, Dante, ele deve está se reorganizando, ou está jogando um jogo mais longo.
Dante concorda com um grunhido. — Precisamos garantir que toda a rede dele esteja desmantelada. A PF vai agir sobre o Lúmen, as clínicas, mas existem células menores, pessoas que ele comprou ou coagiu dentro da própria casa.
A menção faz um frio percorrer minha espinha, Torres já foi, mas e os outros? A governanta? Os motoristas? A equipe de jardim? E… Sofia.
O nome surge como uma iluminação sinistra, a terapeuta, a nossa agente dupla. Com Viktor pressionado, ele pode tentar usá-la para um último movimento. Ou pior: ela, sentindo o navio afundar, pode tentar se virar contra nós para ganhar o favor dele ou simplesmente fugir.
— A Sofia — digo, baixinho. — Precisamos falar com ela agora, antes que Viktor dê uma ordem final ou que ela entre em pânico.
Dante aperta os lábios. — Ela tem uma sessão com a Melissa amanhã de tarde, podemos interceptar ela antes.
— Não, isso dá tempo demais, sem falar que Viktor pode agir ainda hoje. Ela responde ao app seguro?
Pego meu telefone e abro o aplicativo criptografado. A última mensagem de Sofia é de ontem, confirmando que Viktor havia perguntado sobre “reações à mudança de segurança”. Nada desde então.
Escrevo uma mensagem neutra, um teste: “Relatório de rotina sobre o humor da M. necessária para atualização do protocolo.”
Enviamos, o ícone de “entregue” aparece, mas o de “lido” não, os minutos se passam e nada.
— Ela não está lendo — observo, o nó da ansiedade apertando no estômago. — Ou não quer ler.
— Ou não pode — completa Dante, sua voz sombria. — O Viktor pode tê-la neutralizado, ou ela fugiu.
A possibilidade de Sofia morta — mais uma vítima do jogo sujo de Viktor — é horrível, mas a possibilidade de ela solta, com o conhecimento que tem sobre nós, sobre Melissa, sobre nossos métodos, é uma ameaça tangível.
— Precisamos ir até o consultório dela — proponho, a decisão tomando forma. — Ver com nossos olhos.
— É arriscado, sem falar que pode ser uma armadilha.
— Tudo é arriscado, Dante, mas deixá-la como uma variável solta é mais perigoso. Vamos com Leandro, agora.
Dante hesita por um segundo, seus olhos vão na direção do quarto de Melissa, protegê-la é seu instinto primordial, mas proteger também significa eliminar ameaças à distância.
— Certo, vamos. Leandro e mais dois homens vêm conosco enquanto os outros ficam aqui. Em máxima vigilância.
Nos preparamos em minutos.
Vestidos com roupas escuras, funcionais, Dante e Leandro checam as armas, eu levo um taser e o spray de pimenta que Dante me obrigou a carregar, não sou soldado, mas aprendi a não ser uma vítima.
O consultório de Sofia fica em um bairro tranquilo, de casas convertidas em clínicas discretas. É uma rua arborizada, silenciosa demais para uma tarde de semana.
O carro de Leandro para a uma quadra de distância, ele e um de seus homens, o Castro, descem primeiro, misturando-se à paisagem com naturalidade assustadora enquanto Dante e eu esperamos com o motor ligado e os nossos sentidos aguçados.
O rádio discreto no colarinho de Dante chia. A voz de Leandro chega filtrada.
— Frente limpa, a porta do consultório está fechada, a placa diz ‘fechado para atendimentos externos’. Nenhum movimento nas janelas, mas vamos dar uma volta pelo fundo.
Os minutos se arrastam. Olho para as janelas do primeiro andar, onde imagino o consultório. Persianas fechadas. Nada.
— Alvo localizado — a voz de Leandro volta, tensa. — Fundos, entrada de serviço, porta aberta, há sinal de violação. Estamos entrando.
Dante prende a respiração e a minha mão fecha-se ao redor do taser na bolsa, a espera é agonizante. Então, o rádio chia novamente, desta vez com a voz de Castro.
— Área interna limpa, ninguém no andar térreo. Subindo.
Mais silêncio. Uma eternidade compactada em talvez dois minutos.
— Encontramos ela — Leandro finalmente relata, sua voz contida. — No consultório, está viva, mas amarrada e amordaçada, parece em choque, estamos revistando o local.
Alívio e nova tensão se misturam, ela está viva, mas foi atacada. Por quem? Viktor? Ou alguém tentando impedi-la de falar?
— Vamos — diz Dante enquanto abre a porta e desce estendendo a mão para me apoiar a descer, logo saímos do carro.
Caminhamos rápido até a entrada dos fundos, uma porta de serviço que dá para uma pequena área de lavanderia. O interior é limpo, organizado, mas há uma cadeira tombada no corredor. Subimos as escadas silenciosamente.
O consultório é um espaço amplo e claro, ou era, mas agora está revirado. Caixas de areia derrubadas, miniaturas espalhadas pelo chão, prateleiras de livros especializados violadas, não de forma aleatória, mas metódica, claramente alguém procurava algo.
Sofia está sentada em uma cadeira de escritório no canto, suas mãos amarradas atrás das costas, um pedaço de fita adesiva cobrindo sua boca, seus olhos estão arregalados de terror, mas assim que nos vê, o pânico dá lugar a um alívio imenso seguido de vergonha. Leandro a desamarra enquanto Castro vigia a porta.
Assim que a fita é removida, ela engasga, tentando falar.
— Ele… ele sabia — são as primeiras palavras, saem em um sussurro rouco. — Soube que eu estava passando informações.
— Viktor? — pergunta Dante, de forma direta.
Ela balança a cabeça, chorando silenciosamente.
— Não, pior. O Torres, ele… ele veio. Disse que o Viktor estava acabado, que ele ia garantir seu próprio futuro, disse que eu tinha coisas… coisas que valiam dinheiro, provas contra o Viktor que ele poderia vender para o conselho ou para a imprensa. Ele queria tudo o que eu tinha passado para vocês.
Torres. O ex-chefe de segurança, a quem Dante subornou para sair “honrosamente”. Ele não fugiu para o exílio tranquilo, está tentando capitalizar o caos, pegar as migalhas de poder que restam e para isso, precisava das provas que Sofia, como nossa espiã, acumulou.
— O que você deu a ele? — a pergunta de Dante é uma lâmina.
— Nada! Juro! — ela soluça. — Eu não tenho nada físico, tudo estava no app, criptografado, eu disse a ele mas ele não acreditou então revirou tudo, disse que se eu não entregasse, ele me entregaria ao Viktor, ou… — ela estremece — …me faria sumir. Ele estava desesperado, percebeu que o suborno de vocês era uma farsa, que estava queimado dos dois lados.
É uma reviravolta lógica e perversa. Torres, o homem descartável, tentando se tornar um jogador independente no último minuto.
— E onde ele está agora? — pergunta Leandro, sua voz perigosamente calma.
— Não sei, mas disse que voltaria e que eu tinha até o fim do dia para “reconsiderar”. Ele… ele deixou um homem lá fora para me vigiar.
Leandro e Castro trocam um olhar e desaparecem da sala, descendo as escadas em silêncio absoluto enquanto nós ficamos com Sofia. Ela está destroçada, mas também há um lampejo de algo mais duro em seus olhos, o medo a quebrou, mas também a libertou da dupla lealdade.
— Acabou para mim, não é? — ela pergunta, olhando para Dante. — Não importa o que eu fizer, o Viktor me mata se souber da minha traição, o Torres me mata por não ter o que ele quer. E vocês… vocês não vão me proteger.
Dante a observa em silêncio.
A mulher que usou a filha dele como cobertura, que traiu sua confiança, mas também a mulher que, por medo ou ganância, nos ajudou a chegar até aqui.
— Depende — ele diz, sua voz implacável, mas justa. — Você tem uma última escolha. Pode tentar fugir sozinha, com o Torres e quem mais ele tem te caçando ou pode nos dar tudo o que tem sobre o Torres, padrões, contatos, pontos fracos…
Você nos ajuda a removê-lo de vez e em troca, colocamos você no programa de proteção que prometemos. Uma nova vida, longe daqui, mas desta vez, a lealdade tem que ser real, Sofia, até o fim.
É uma oferta c***l em sua generosidade. Ela não merece clemência, mas é útil e neste jogo, a utilidade às vezes supera a justiça.
Vejo a hesitação em seus olhos por apenas um instante, mas então acena, derrotada e determinada.
— Ele tem um apartamento seguro, no centro. Usa um pseudônimo, eu tenho o endereço. E… ele tem uma fraqueza, a filha. Ela tem uma doença rara, que tem um alto custo financeiro, ele fez tudo por ela, até trabalhar para o Viktor. É o único ponto humano nele.
A informação é uma bomba, Torres, o homem de pedra, tem um calcanhar de Aquiles. E é exatamente o tipo de vulnerabilidade que Dante sabe explorar com precisão cirúrgica.
Os passos de Leandro voltam pelas escadas e assim que ele entra, limpa as mãos em um lenço.
— O vigia está… incapacitado, disse que o Torres voltaria às 18h para pegar a resposta da Sofia.
Olho para o relógio, são 17:10.
— Temos cinquenta minutos para preparar uma recepção — diz Dante, e nos olhos dele acende-se a centelha fria do estrategista. A guerra tem uma nova frente, menor, mas não menos mortal e nós temos uma nova peça no tabuleiro: uma espiã arrependida, com tudo a ganhar e tudo a perder.
A descoberta de Sofia, a traída, torna-se nossa nova arma. E Torres, o homem que pensou que podia jogar sozinho, está prestes a descobrir que no fim do jogo, só há lugar para dois lados.
E ele já escolheu o perdedor.