CAPÍTULO 32: CLAMOR PÚBLICO

2336 Palavras
O apartamento seguro de Torres fica em um prédio antigo no centro, com fachada de azulejos desbotados e um porteiro que parece dormir de olhos abertos. Leandro, Castro e um terceiro homem, o Silva, posicionam-se nas escadas de incêndio, na cobertura e no carro na rua de baixo, Dante e eu ficamos em uma van de entrega, estacionada dois quarteirões adiante, com o áudio da escuta no apartamento de Sofia pipocando em um laptop. O plano é simples: deixar Torres entrar, esperar que ele se exponha tentando coagir Sofia novamente, e então prendê-lo com suas próprias ameaças gravadas. A PF já está avisada, e um policial disfarçado está em uma cafeteria próxima aguardando o nosso sinal. Não é sobre justiça poética, é sobre eliminar um risco de forma limpa e legal. Sofia está sozinha no consultório, arrumando a bagunça superficialmente, como combinado. Ela está pálida, mas estável e a promessa de um novo começo mais o medo visceral de Torres — a mantêm focada. O gravador em seu colar de prata é quase invisível. Às 17:58, uma figura encapuzada surge na entrada dos fundos, Torres... Ele sobe as escadas com passos pesados, confiante, e pela câmera que instalamos no corredor, vejo seu rosto: duro, cansado, com um brilho de desespero ganancioso nos olhos. Ele não bate, só empurra a porta e entra. — Pensou bem? — é a primeira coisa que diz, a voz rouca pelo rádio. — Não tenho o que você quer, Torres — a voz de Sofia sai trêmula, mas clara. — Eu nunca tive cópias físicas , eu já te disse, tudo foi digital, de forma segura. — Não me venha com essa, Sofia, você trabalhou para eles, você sabe de tudo. Os arquivos da velha, os áudios, o que o Lobo tem contra o Viktor, eu quero tudo. Agora. — Por que? O Viktor está acabado, o Dante venceu. — O Dante — ele cospe o nome — me usou e me jogou fora. O Viktor está acabado, mas a informação dele vale ouro e com ela eu compro minha passagem para longe, ou compro meu lugar no conselho quando a poeira baixar, agora é a sua última chance, Sofia. Onde estão as provas? O som de algo sendo quebrado é ouvido — uma pequena estatueta, talvez. — Não… eu já te disse que eu não tenho! — o pânico dela soa genuíno demais. — Então você me deixa sem escolha, vou ter que te levar comigo e te convencer de outras formas, acredite eu sei como fazer você se lembrar. É a deixa, Dante acena para mim e fala no rádio para Leandro: “Agora.” A ação é rápida e silenciosa, Torres nem ouve os homens descendo as escadas de incêndio se surpreendendo quando a porta do consultório se abre e Leandro e Castro estão lá, diante dele, as armas não estão apontadas, mas visíveis, Torres se vira, ainda atordoado pela pelas presenças inesperadas, a sua mão voa para a cintura, mas para. Ele está em desvantagem numérica, e em terreno inimigo. — A festa acabou, Torres — diz Leandro. — A PF está a caminho, a sua conversa foi muito esclarecedora. — Armadilha — rosna Torres, os olhos arregalados de fúria e compreensão e ele olha para Sofia com ódio puro. — Sua p**a… — Poupe o vocabulário — a voz de Dante ecoa pelo rádio, no alto-falante do laptop que Sofia liga. — Você tem uma escolha, Torres, a mesma que te ofereci antes, mas agora com menos… generosidade. Saia com eles quieto e enfrente às acusações de sequestro e coerção ou tente ser herói e vire uma estatística, mas lembre-se, sua filha Marina, não precisa perder o pai de forma tão definitiva, não é? O nome da filha o atinge como um soco, todo o ar parece sair dele, ele empalidece. — Você não vai tocar nela. — Eu não preciso tocar, não sou o monstro que você acha que sou — diz Dante, a voz gelada e clara pelo alto-falante. — Como eu disse, eu não preciso tocar nela, basta que ela continue no tratamento no exterior. O que, aliás, será custeado integralmente por um fundo que criarei, independente do que acontecer com você. Sua escolha não vai afetar a saúde dela, mas vai afetar se você estará vivo para um dia vê-la melhor. É um movimento de mestre, Dante oferece uma cenoura (o tratamento da filha) como um porrete (a ameaça de morte e a promessa de cuidado mesmo sem ele). Dessa forma, tirando dele qualquer motivação nobre para resistir. Torres desaba literalmente, seus joelhos dobram e ele se apoia na mesa, a cabeça baixa. O homem duro, o chefe de segurança, se reduz a um pai derrotado. — Ela… ela precisa do tratamento. — E vai tê-lo — Dante garante. — Agora, decida. Torres ergue a cabeça, olha para a câmera como se pudesse ver Dante. — Eu saio quieto. Leandro e Castro o algemam com eficiência profissional, não há resistência quando o levam, Torres olha para Sofia uma última vez. — Você venceu, mas esse mundo… ele sempre cobra. Eles saem e em minutos, o plicial disfarçado da PF “intercepta” o grupo na rua, fazendo a prisão parecer uma ação deles. É limpo, Sofia desaba em lágrimas de alívio, o corpo tremendo incontrolavelmente. Na van, Dante desliga o áudio e solta um longo suspiro. — Mais um. — Há cansaço em sua voz, não triunfo. — Você foi bom, com a filha dele, Dante, me surpreendeu — digo. — Não foi bondade Clara, foi estratégia. E… um mínimo de humanidade, a menina não tem culpa. Olho para ele, o estrategista e o homem, sempre em guerra, talvez, nesta última jogada, o homem tenha ganhado um ponto. Ao chegarmos na mansão, o clima é de exaustão pós-batalha, Melissa nos espera na porta da sala de estar,ela não corre, não faz gestos, apenas observa nossos rostos, lê a fadiga e o alívio e acena uma vez, satisfeita e percebo que ela se sente segura. Leandro nos dá o relatório final: Torres está na custódia da PF, o depoimento de Sofia está gravado, e as provas do assalto ao consultório são sólidas. Viktor, até onde sabemos, ainda está em seu escritório, encolhido como uma aranha esperando o balde de veneno. Dante passa a noite no escritório, ligando para advogados e membros do conselho, preparando o terreno para o terremoto que vem. O dossiê completo — Beatriz, Augusto, Moraes, Torres, tudo — está programado para ser liberado para a imprensa no dia seguinte ao primeiro movimento da PF. É a cortina de fumaça final, para garantir que nenhum rato escape dos escombros. Deito, mas não durmo. O silêncio da casa é diferente, o “barulho” de Viktor, como Melissa chamava, está prestes a ser silenciado para sempre e no lugar dele, o que virá? O barulho dos tribunais, dos repórteres, os ajustes de contas? Após alguns minutos que consegui dormir no amanhecer, acordo com Dante já vestido, tomando café na cama ao meu lado — um gesto incomum, quase doméstico. — Hoje — ele diz, sem rodeios. — A PF vai ao escritório do Viktor, e também às clínicas de manhã, o Ricardo vai publicar sua matéria às 12h e o conselho tem uma reunião de emergência às 14h. Eu vou. — Você vai à reunião? — a pergunta sai comigo ainda sonolenta. — Tenho que ir. É a hora de apresentar a nova realidade, com elegância, com remorso, com um plano de limpeza. É a última batalha pública. Dante parece calmo, mas vejo a tensão nos cantos de seus olhos. Esta não é uma guerra de segredos e armadilhas é de narrativa. E ele precisa vencer essa também. Às 10h17, a primeira notícia aparece em um portal de economia: “PF cumpre mandados na Lobo Holding em investigação sobre fraude em medicamentos.” Não leva o nome de Viktor ainda, mas é só questão de tempo. Melissa fica comigo, no escritório da mansão. Assistimos, mudos, às imagens ao vivo na TV a cabo: as viaturas na frente do prédio, os agentes entrando com coletes à prova de balas, é surreal. O império que Dante herdou, que Viktor corrompeu, sendo invadido pela lei que ambos, de formas diferentes, desprezaram. Ao meio-dia em ponto, a matéria do Ricardo explode. É uma bomba nuclear em forma de texto. “O Veneno do Lobo: Herança Tóxica, Fraude e Homicídio na Maior Holding Farmacêutica do País.” Ele usa os arquivos com precisão cirúrgica, cita o diário de Beatriz, transcreve trechos do áudio dela, mostra os dados adulterados do Fênix, expõe a rede de clínicas. E nomeia Viktor Salles como o arquiteto do desastre. O telefone de Dante não para de tocar. Ele atende alguns, mas recusa a maioria. Sua expressão é de pedra. Às 13h30, ele se levanta para ir à reunião do conselho, veste um terno cinza-escuro, impecável, a armadura do CEO. — Você fica com a Melissa e com a Lara. — Sua voz é suave, mas firme. — Não importa o que saia desta reunião, o que realmente importa já está protegido. As provas estão lá fora e Viktor está acabado. — E você? — pergunto, o medo súbito apertando meu peito. O conselho pode vê-lo como cúmplice, como parte do problema. — Eu sou o remédio amargo que eles vão ter que engolir, a única pessoa que pode salvar o que resta do nome Lobo e eles sabem disso. Dante me beija, um beijo rápido, firme, na boca. Não é o beijo terno do carro, é um beijo de despedida para uma batalha. — Eu voltarei. Vemos ele sair, Melissa vem para o meu lado e pega minha mão. Sua mãozinha está quente, firme, ela aponta para a TV, onde a imagem do prédio da Lobo Holding continua, e depois para a porta por onde Dante saiu. Então, ela balança a cabeça e aponta para o próprio coração. Ele vai ficar bem, ela parece dizer. Nós vamos ficar bem. As horas se arrastam., o que é uma tortura sem fim, a cobertura da mídia é frenética. Vídeos de Viktor sendo levado pela PF, de capuz, algemado, inundam as redes sociais, seu rosto está impassível, mas seus olhos azuis, antes tão frios, parecem vazios, perdidos, a queda do titã. É uma imagem que vou carregar para sempre. Lara liga, assustada com as notícias, a acalmo dizendo que está tudo sob controle, que Dante está resolvendo, é outra meia-verdade necessária. Às 16h, a porta da frente se abre, Dante entra, seus passos são lentos, pesados, ele parece ter envelhecido dez anos em três horas. Mas seus olhos… seus olhos estão limpos. — E então? — pergunto, o coração na garganta. — O conselho aceitou minha renúncia como CEO, efetiva e imediata. O chão some sob os meus pés. — Renúncia?— Mas… você venceu! — E a vitória tem um preço. Para a holding sobreviver, o nome Lobo tem que sair do comando, pelo menos temporariamente, fui nomeado Presidente do Comitê de Ética e Transparência, com poder de veto sobre qualquer nova pesquisa e contrato. E… — ele faz uma pausa, um fio de satisfação real cruza seu rosto — …criei o ‘Fundo Beatriz’, com 30% dos lucros líquidos, para indenizar vítimas do Lúmen e financiar pesquisas independentes em doenças raras e eles aprovaram. Foi o preço da minha saída silenciosa. É uma derrota tática para uma vitória estratégica monumental, Dante perdeu o trono, mas garantiu o legado e salvou a alma da empresa, ou o que resta dela. — E o Viktor? — Preso, sem fiança. Acusações de homicídio qualificado, fraude, corrupção, associação criminosa, a lista é longa. Ele não vai ver a luz do sol como um homem livre nunca mais. A justiça, finalmente. Não a justiça perfeita dos filmes, mas a justiça possível, suja e real. Melissa se solta da minha mão e corre até o pai, mas não o abraça, fica parada diante dele, olhando para seu rosto cansado e então abre o botão do bolso do vestido, tira o envelope de Beatriz e o estende para ele. É o presente e ela está pronta. Dante hesita, seus olhos marejam. Ele se ajoelha para ficar na altura dela. — Você quer que eu abra? Ela acena, séria. Suas mãos tremem levemente, ,mas ele pega o envelope, o lacre já está fraco pelo tempo. Ele o abre com cuidado, tira uma única folha de papel, escrita na mesma caligrafia elegante do diário. Lê em silêncio, vejo seus olhos se moverem pela página, uma onda de emoções passando por seu rosto: dor, amor, saudade, e finalmente, uma paz profunda e arrebatadora. Ele termina, dobra o papel com cuidado infinito e o guarda no bolso do peito, sobre o coração. Então, ele olha para Melissa, e uma lágrima, finalmente, escorre pelo seu rosto, limpa e silenciosa. — Obrigado, minha pequena. Ele não diz o que estava escrito. Este segredo é deles agora, deles e de Beatriz. Melissa, então, faz algo que nunca fez antes, dá um passo à frente, envolve os braços pequenos ao redor do pescoço do pai e o abraça, é um gesto desengonçado, forte, cheio de uma verdade que palavras nunca iriam conseguir carregar. Dante a envolve em seus braços, enterrando o rosto em seus cabelos, e chora. Silenciosamente, completamente. Fico ali, os observando, uma testemunha abençoada e intrusa deste santuário de perdão e amor que renasce das cinzas de tanto ódio e traição. A guerra pública pode ter acabado, o clamor da mídia vai continuar por dias, talvez semanas, haverá processos e reconstruções dolorosas. Mas aqui, neste hall, com o som abafado de um homem chorando de alívio e uma criança o segurando como uma âncora, nasce um novo silêncio. Não o silêncio comprado do meu pacto. Não o silêncio opressor dos segredos de Viktor. Não o silêncio traumatizado de Melissa. Mas o silêncio da paz conquistada. Frágil, recente e preciosa. O barulho acabou. Ao menos por hoje.
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