As quarenta e oito horas até o próximo encontro com Torres são um misto de ansiedade suspensa e medo de que ele volte atrás. A foto comprometedora foi autenticada por Leandro e o deputado em questão já está sendo “convidado a colaborar” em investigações separadas, o que aumenta o valor do que Torres promete, já o depósito simbólico foi feito, rastreável e reversível, como uma isca deixada na água e Torres mordeu. O peixe está na linha.
Dante e a Dra. Renata estruturam a jogada como uma operação de inteligência privada com fins de justiça, tudo é meticuloso, legalmente fronteiriço, mas com um pé na cooperação com as autoridades e uma conversa sussurrada com um delegado da PF de confiança garante que, se o material for robusto, será “encontrado” de forma a beneficiar a investigação oficial. É uma dança complexa entre o legal, o ilegal e o moralmente ambíguo. E eu sou o ponto central, a ponta que toca no lodo.
O local da entrega final é um depósito de documentos desativado, na zona portuária, Torres quem escolheu: isolado, mas com várias rotas de fuga. Nós aprovamos: isolado significa sem testemunhas civis, e as rotas de fuga são uma ilusão que nós controlamos, Leandro e três homens ocupam posições nos armazéns vizinhos e nos telhados enquanto Dante e eu ficaremos em uma van com vidros fumê, estacionada a uma distância segura, com áudio e vídeo ao vivo. Eu não entrarei, desta vez, a transação será entre Torres e Leandro, a minha parte foi a negociação. Agora é a execução.
Finalmente chegou o dia, vestidos com roupas escuras e funcionais, o clima é de operação militar e não de negócios. No rosto de Dante, vejo a concentração fria do general e em mim, sinto o coração batendo um samba de medo e antecipação. Esta é a pá de cal e depois disso, Viktor será uma memória, um processo em andamento, um homem definhando atrás das grades com o peso de novas e irrefutáveis acusações. É um pensamento doce e amargo.
No caminho, meu telefone vibra. É um número desconhecido, mas não o seguro. Atendo por instinto.
— Clara? — É a voz de Sofia, a terapeuta, trêmula, quase inaudível. — Ele… ele me encontrou.
O sangue parece parar nas minhas veias. — Quem? Costa?
— Não, é pior, o Torres, ele me encontrou, ele sabe onde estou e disse… disse que se eu não o ajudar a sair do país, ele contará ao Viktor que eu era a espiã, que eu os traí, o Viktor ainda tem gente lá fora, ele disse, gente que pode me fazer sumir. — Ela está chorando, ofegante. — Eu não sei o que fazer, vocês prometeram me proteger!
— Onde você está agora? — pergunto, tentando manter a calma, trocando um olhar alarmado com Dante.
— No apartamento seguro, mas ele sabe o endereço! Como ele sabe, Clara?
Torres… O ex-chefe de segurança, é claro que ele tinha acesso a informações residuais, a buracos no sistema e ele está jogando suas últimas cartas, tentando controlar todas as peças soltas.
— Fique onde está e tranque tudo, não atenda a porta. Vou mandar alguém até você agora, um dos homens do Leandro, e você vai para um novo local imediatamente.
Desligo e explico a Dante, com minha voz tensa, mas me surpreendo quando o seu rosto se transforma em uma máscara de fúria pura.
— Ele está tentando controlar o tabuleiro por medo, um erro de amador. — Ele pega o rádio.
— Leandro, mudanças no plano, Castro e o Silva vão até o endereço da Sofia imediatamente e a tirem de lá. Levem-na para o ponto B agora. O resto do plano segue.
É um desvio de recursos, um risco, mas não podemos deixar Sofia à mercê de Torres, ela é uma vítima, uma peça quebrada, mas ainda é nossa responsabilidade.
Chegamos ao ponto de observação, a van é escura, abafada, cheia de telas que mostram diferentes ângulos do depósito vazio, iluminado por holofotes fracos. Leandro está lá dentro, sozinho, uma mala preta e simples a seus pés – a suposta segunda parcela em dinheiro não-rastreável que na verdade, são folhas de jornal com uma camada fina de notas de verdade no topo. O restante do “pagamento” só será liberado após a verificação.
Às 21h em ponto, Torres aparece na tela, entrando pela porta lateral que deixamos destrancada, ele parece um fantasma, assustado, os olhos constantemente se movendo. Ele carrega uma mochila digital camuflada.
— Está sozinho? — a voz de Leandro ecoa no alto-falante da van, limpa e profissional.
— Estou, a mochila está aqui. E o dinheiro?
— Primeiro a mercadoria.
Sem demora Torres abre a mochila e tira um laptop e um envelope grosso, Leandro se aproxima, mas mantendo distância, e inspeciona rapidamente, abre o laptop, checa alguns arquivos, vemos na tela principal da van: são pastas e pastas, fotos, vídeos, gravações de áudio, extratos bancários, e-mails, é simplesmente um tesouro de corrupção.
Leandro faz um sinal discreto para a câmera: é legítimo.
— O dinheiro — pressiona Torres, a voz urgente.
Leandro empurra a mala com o pé, Torres a abre, vê as notas do topo, e um suspiro de alívio quase histérico escapa dele enquanto pega a mala.
— A carta de recomendação… — ele começa.
— Sairá após a verificação completa do material, como combinado. — A voz de Leandro é final.
— Agora saia, use a rota leste, há um carro esperando três quarteirões adiante, como acertado.
Esta é a armadilha, o carro está lá, sim. Mas será seguido e o sinal de GPS na mala nos levará a qualquer esconderijo que Torres tenha, dessa vez ele não vai escapar, vai nos levar até seus possíveis cúmplices e, então, será “interceptado” pela PF com o dinheiro e a evidência de tentativa de fuga, quebrando suas condições de fiança e adicionando mais acusações. Ele será neutralizado, e nós ficaremos com o material.
Torres acena, agarra a mala, e se vira para sair, mas então para e se vira lentamente, seus olhos, na câmera de close-up, estão cheios de um entendimento terrível e tardio.
— É uma armadilha, não é? — sua voz sai distorcida pelo áudio. — Vocês nunca me deixariam ir.
— Cumpra sua parte e cumpriremos a nossa — responde Leandro, impassível.
Torres olha para a mala, para a mochila com o laptop no chão, e depois para as sombras ao redor do depósito. Vejo o momento exato em que a ficha cai, ele não é mais um pai desesperado, é um animal encurralado que percebeu que a gaiola já estava fechada.
— A Sofia — ele diz, e um sorriso feio e triunfante distorce seus lábios. — Ela não vai chegar ao novo esconderijo.
Dante se inclina para frente, as mãos fechadas em punhos. — O que você fez?
A voz de Torres soa pelo rádio, clara e venenosa.
— Não fiz nada, só passei o endereço do apartamento seguro para um amigo, um amigo que tem um grande ressentimento contra traidores, o nome dele é Rafael Costa. Acho que ele vai adorar ter uma entrevista exclusiva com a espiã que derrubou Viktor Salles.
Costa. Ele uniu os pontos. Torres, em seu desespero, vendeu a localização de Sofia para o único predador que poderia usar aquela informação para nos atingir de outra forma: através do sensacionalismo, da exposição. Se Costa encontrar Sofia, ele a despedaçará em uma reportagem, expondo toda a nossa rede de espionagem, minando ainda mais nossa credibilidade e provavelmente condenando Sofia a um destino pior do que a prisão.
— Interceptem-no AGORA! — a ordem de Dante é um rugido baixo no rádio. — Não o deixem sair!
Mas Torres já está se movendo. Ele joga a mala longe – um movimento de distração – e corre para uma porta traseira que não estava nos nossos planos, uma saída de emergência enferrujada que ele deve ter preparado, Leandro parte atrás dele, e nossos homens surgem das sombras, há uma confusão de movimentos nas telas, sons de impacto, um grito abafado, Torres luta com uma força desesperada, mas é superado em segundos, já está no chão, algemado, enquanto Leandro recupera a mochila com o laptop.
Mas o dano está feito, a informação vazou, para Costa.
Dante já está discando furiosamente no telefone, tentando alcançar Castro e Silva, que estão a caminho de Sofia, o sinal falha, típico da área portuária.
— Merda! — ele xinga, esmurrando o painel da van.
Em uma das telas, vemos Leandro se aproximar da câmera, segurando o laptop e a mochila, sua expressão é séria.
— O material está seguro e o alvo está contido, mas quanto a informação sobre a Sofia… — Ele faz uma pausa. — Acho que devemos assumir que o Costa já está a caminho.
A vitória tem o sabor de cinzas, conseguimos o que queríamos: a arma definitiva contra Viktor, mas no processo, expusemos Sofia e, por tabela, uma vulnerabilidade nossa, Torres em sua jogada final e desesperada, conseguiu nos atingir.
Na van silenciosa, a tensão é palpável, o sucesso da missão principal é ofuscado pela falha tática, pela vulnerabilidade humana que subestimamos, Dante olha para mim, seus olhos são buracos negros de frustração.
— Temos que chegar até a Sofia antes do Costa.
— E se não conseguirmos?
— Então controlamos a narrativa, de novo. — Mas sua voz não tem a convicção de antes, estamos cansados. Cansados de controlar narrativas, de apagar fogos, de fazer acordos com demônios.
O rádio chia. É a voz de Castro, ofegante.
— Chegamos ao apartamento mas a porta está arrombada. Ela não está aqui, há sinais de luta. E… há um cartão de visitas no chão.
— De quem? — pergunto, já sabendo a resposta.
— Rafael Costa. ‘A Verdade na Mira’.
A entrega foi um sucesso e um fracasso retumbante, temos Viktor pela goela, mas perdemos Sofia e Costa agora tem sua próxima vítima – e sua próxima manchete explosiva. A guerra não acabou, ela apenas encontrou um novo campo de batalha, mais público, mais sujo, e mais pessoal do que nunca.
O fruto do veneno, uma vez colhido, exige um preço constante e o preço de hoje é uma mulher assustada nas mãos de um carniceiro e a sensação nauseante de que, em nossa busca por justiça, talvez tenhamos criado mais uma vítima.