O processo de Viktor é um zumbido constante, uma mosca presa atrás do vidro, incômoda, mas impotente, por enquanto a Dra. Renata mergulha na papelada, e Murilo garante que a estratégia de assédio processual seja a nossa principal defesa. A coletiva teve o efeito desejado: a opinião pública oscila, mas a doação das patentes e a a******a do fundo são fatos concretos que pesam mais do que insinuações.e Rafael Costa, privado do seu furo exclusivo, agora escreve sobre a "batalha judicial que promete ser o novo capítulo do escândalo Lobo". Ele se alimenta do conflito, não da verdade, então aprendemos a ignorá-lo.
Meus dias são divididos entre o escritório na holding, onde supervisiono a transição burocrática interminável e o trabalho do fundo, que agora inclui uma camada extra de cautela jurídica. Cada palavra, cada comunicado, é esmiuçado pela Dra. Renata, é exaustivo, mas necessário. O fruto do veneno exige cuidado ao ser manuseado.
Tenho notado que Dante está mais distante, absorvido pela reconstrução da empresa e pela negociação silenciosa com o conselho, ele quer acelerar sua saída definitiva da presidência executiva, transformar seu título em algo puramente honorífico e focar no Comitê de Ética. É uma forma clara de isolar o nome Lobo da operação diária, um último sacrifício pelo renascimento. E vejo o peso disso nele, nas olheiras mais profundas, na maneira como ele fica parado à janela do escritório, olhando para a cidade que seu pai conquistou e que ele agora precisa, simbolicamente, abandonar.
Estou revisando os relatórios de indenização na sala de estar, quando telefone seguro toca. Não é um número que reconheço, mas poucos têm esse canal, então atendo com cautela.
— Alô?
— Sra. Lobo. — A voz é áspera, contida, familiar de uma forma que me faz gelar os dedos em volta do aparelho.
— Torres… Como você conseguiu este número? — minha voz é um fio de aço.
— Tenho meus recursos, ou melhor, tinha, eles estão minguando, mas precisamos falar.
— Não temos nada a falar, e você está sob custódia da PF.
— Solto sob fiança, condições restritivas, sim, mas não trancado e com muito tempo para pensar. — Ele faz uma pausa, e posso quase ouvir o sorriso amargo.
— Pensei muito na sua oferta, na oferta do seu marido, na verdade… O tratamento para minha filha.
O coração acelera, esta é sua alavanca, a sua única moeda de troca.
— O tratamento está garantido, independentemente de você. Foi o prometido.
— Prometido por um homem que me subornou para sair e depois me entregou à polícia. Suas promessas têm valor duvidoso, Sra. Lobo.
— O que você quer, Torres?
— Quero uma saída real. A fiança consumiu o que eu tinha, as contas do Viktor estão bloqueadas. Minha filha… a próxima fase do tratamento é em um mês, é mais cara. Muito mais cara. — A voz dele trinca, e por um segundo, ouço o pai desesperado, não o ex-chefe de segurança c***l.
— Eu tenho informações, coisas que não contei para a PF, coisas sobre o Viktor que nem o senhor Lobo sabe. Detalhes operacionais, nomes de pessoas em cargos públicos que ele comprou, esquemas de desvio que vão além do Lúmen, coisas que podem enterrá-lo de vez e… limpar um pouco a barra de quem quer que forneça essas informações.
É uma oferta. Suja, perigosa, mas potencialmente devastadora, Torres quer vender o último ativo que tem: os segredos mais profundos do seu antigo patrão, em troca de dinheiro e, talvez, clemência.
— Por que não vai direto à PF com isso?
— Porque a PF tem seus protocolos, suas burocracias e a minha filha não tem um mês de burocracia, ela tem um mês até a próxima infusão. E porque… — hesita por alguns segundos — …entregar tudo de uma vez me deixa sem barganha, sem garantia. Entende? Vocês… o senhor Lobo tem recursos, discretos e é um interesse pessoal em ver o Viktor destruído. É uma transação mais direta.
Torres está certo, é uma transação, nojenta e ilegal. Exatamente o tipo de coisa que Dante e eu juramos deixar para trás, mas a informação… informação que pode garantir que Viktor nunca respire ar livre de novo… e salvar uma criança no processo?
— O que você propõe?
— Um encontro amanhã em um local público, mas discreto. Eu levo uma amostra, um documento, um nome, algo que prove o valor do que tenho e vocês trazem um sinal de boa fé. Um adiantamento para o tratamento, aí, negociamos o pacote completo.
— E se for uma armadilha?
— Minha filha está em casa, Sra. Lobo, sob monitoramento eletrônico, eu não posso me dar ao luxo de armadilhas. Isso é um longo passo, a última jogada.
Desligo e fico parada, o telefone pesado na mão. A ética grita para eu recusar, para levar isso imediatamente à Dra. Renata e à PF, mas a estratégia sussurra sobre a vantagem decisiva e o coração, o maldito coração, pensa na filha dele, Marina, que nunca pediu por nada disso.
Vou até Dante que ainda está em seu escritório na mansão, imerso em uma planilha de reestruturação e lhe conto sobre a ligação, palavra por palavra. O seu rosto, iluminado pela luz fria da tela, não revela surpresa, revela apenas um cansaço profundo, o cansaço de um homem que já previu todos os movimentos possíveis do inimigo, e alguns dos aliados também.
— Torres — ele murmura, fechando os olhos por um segundo. — O rato encurralado tenta vender o queijo que roubou do próprio navio que está afundando.
— É perigoso, pode ser uma cilada, ou ele pode estar mentindo, tentando extorquir dinheiro com informação velha. — Enfatizo.
— Pode. — Ele abre os olhos, e eles estão frios, calculistas, percebo que o estrategista desperta.
Mas ele também pode ter a chave para trancar Viktor de vez e a filha dele… a promessa foi feita então um adiantamento não é irracional, considerando a gravidade da doença.
— Dante, não podemos compactuar com isso, é uma chantagem, é o mesmo jogo sujo.
— Não é o mesmo jogo. — Ele se levanta, andando até a janela. — No jogo antigo, o fim justificava todos os meios, agora… agora os meios são um veneno que temos que administrar com cuidado, pensando no fim maior. E se a informação de Torres puder acelerar a justiça, evitar que Viktor compre sua liberdade ou que outras pessoas no governo continuem impunes… e salvar uma criança no processo… onde está o limite, Clara?
É a pergunta que me assombra desde o início. Onde está o nosso limite agora? Já não somos inocentes, já cruzamos fronteiras. A questão é: cruzaremos mais uma, conscientes do preço, pelos motivos certos?
— E se for uma armadilha? Se ele estiver trabalhando com alguém? Com Costa, ou com algum aliado remanescente do Viktor?
— Por isso não vamos sozinhos, Leandro vai conosco e nós vamos observar de longe. Se for limpo, negociamos e se for sujo, Leandro se retira, e nós temos provas para incriminar ainda mais o Torres por tentativa de extorsão. — Ele se vira para mim. — Mas você precisa decidir se quer estar lá. Se quer carregar o peso dessa decisão, porque desta vez, Clara, não é uma ordem estratégica. É uma escolha moral, é sua escolha.
Dante está me dando a responsabilidade, o poder e isso é aterrador, mas é exatamente o que eu sempre quis – ser uma parceira de verdade, não uma peça. E agora que tenho, o peso parece esmagador.
A noite passa enquanto me reviro na cama ao lado de Dante, que dorme um sono inquieto. Melissa, no quarto ao lado, está quieta. O que ela faria? Ela, que desenha justiça com luzes e sombras de forma tão clara? Mas a vida não é um desenho. É cinza sobre cinza.
Assim que amanhece a minha decisão está tomada. Envio uma mensagem criptografada para o número de Torres, combinando um local: o café dentro do museu de arte moderna, às 14hs, é público, cheio de câmeras de segurança, mas com cantos isolados.
Digo que irei sozinha, mas é mentira, Dante e Leandro estarão em mesas diferentes, observando enquanto Almeida e outro homem vão ficar do lado de fora.
Me visto com simplicidade, e escondo um pequeno gravador no broche, minhas mãos estão frias, mas minhas ideias, claras. É uma missão, talvez a última missão suja.
O museu está silencioso, cheio de luz filtrada e o cheiro de café caro, e assim que chego percebo que Torres já está lá, sentado em uma mesa no canto, diante de uma janela que dá para um pátio de esculturas, ele parece mais velho, mais encolhido, a postura militar substituída por uma contração defensiva, mas quando me vê, seus olhos se acendem com uma mistura de esperança e desconfiança.
Sento-me à sua frente sem nenhum cumprimento.
— Você trouxe a amostra? — A pergunta é direta, não quero prolongar além do necessário.
Ele acena e desliza um envelope fino pela mesa, dentro, há uma foto impressa. É Viktor, em um restaurante chique, apertando a mão de um homem. É claro que reconheço o homem: um deputado influente da comissão de saúde. Viro a foto e na parte de trás, uma data, de um ano atrás, e um número de conta rabiscado.
— O depósito na conta do deputado, no dia seguinte a essa foto, foi de quinhentos mil. Para "consultoria". Existem mais dez fotos como essa e e-mails, além de gravações de conversas onde ele detalha como atrasar investigações na Anvisa.
A prova é sólida e escandalosa.
— E o que você quer em troca do pacote completo?
— Dois milhões, depositados em uma conta no exterior que vou fornecer, metade agora, como sinal e a outra metade após a entrega de todo o material, e… uma carta de recomendação para as autoridades, atestando minha cooperação. Para tentar reduzir minha pena.
— Dois milhões é muito.
— É o preço para enterrar um homem como Viktor Salles de vez e para salvar minha filha. E eu sei que para vocês, é troco de pinga. — Seus olhos estão incandescentes de desespero. — Eu não estou blefando, Sra. Lobo, esta é minha única saída.
Olho para a foto, para o rosto sorridente e confiante de Viktor e sinto um ódio tão puro e cristalino que quase me sufoca. Esta foto pode ser a pá de cal, pode garantir que ele nunca mais respire liberdade.
— Um milhão, metade agora, a outra metade e a carta após a entrega e verificação do material, e o tratamento da sua filha continua garantido, separado disso. — Minha voz não treme, soa como a de um negociador frio. O que, de fato, me tornei.
Torres hesita, avalia. Ele está encurralado e sabe.
— Aceito.
"Entrego a Torres um cartão com as instruções para o depósito inicial. A conta é controlada por Leandro — uma medida de segurança, já que a transação pode ser rastreada e revertida em caso de fraude e combinamos,
— Nos encontramos em 48 horas para a troca final”. — Minha voz é firme, finalizando o encontro.
Quando saio do café, minhas pernas estão bambas, Dante e Leandro se aproximam em silêncio, nos fundos do museu.
— Conseguimos a amostra — digo, entregando o envelope a Dante.
Ele olha a foto, e um sorriso lento, sombrio, quase c***l, curva seus lábios, é a expressão do caçador que finalmente vê a presa cair na armadilha.
— Isso… isso é ouro. — Diz enquanto olha para mim.
Você fez a escolha certa.
Mas enquanto caminhamos de volta para o carro, uma náusea persistente toma conta de mim.
A escolha certa? Negociar com um traidor, pagar por informações, brincar com o sistema de justiça… para um fim maior? O fruto do veneno não deixa de ser venenoso, só aprendemos a tolerá-lo melhor.
Sentados à mesa, no jantar, Melissa me entrega um desenho.
É uma balança, de um lado, há uma pilha de barras de ouro e do outro, uma única figura pequena, deitada em uma cama de hospital. A balança pende levemente para o lado da figura na cama, mas uma sombra escura, em forma de mão, segura o prato do ouro, tentando puxá-lo para baixo.
Ela vê o conflito, o dilema, o preço.
A oferta de Torres pode enterrar Viktor, mas também enterra um pedaço final da nossa inocência. E, desta vez, fui eu quem assinei a sentença.