CAPÍTULO 37: O PROCESSO

2298 Palavras
O silêncio da cozinha após a nossa tempestade de paixão e desejo é um véu frágil, após deixar tudo em ordem vamos para o nosso quarto, sim, nosso, porque Dante agora dorme comigo todas as noites e aconchegados, enquanto adormeço em seu peito. A luz do amanhecer chega crua filtrando pelas persianas me despertando completamente e com ela o peso do dia iminente já paira sobre a cama. O corpo de Dante está quente e sólido às minhas costas, seu braço pesado sobre minha cintura, traz um conforto único e por alguns segundos me permito afundar na ilusão de paz, mas não demora muito e a memória volta à realidade: Costa, a coletiva, a guerra. Alguns minutos depois, Dante acorda, o braço que repousa em minha cintura me puxa para nos unir ainda mais e sua voz rouca me deseja bom dia, mas não demora e percebo a mesma tensão sutil que eu sinto pois seus músculos se contraem logo após seus olhos se abrirem e ele me vê acordada, o observando, e seu rosto se suaviza por uma fração de segundos. — É hoje, Clara — ele diz, a única palavra necessária. — Sim, é hoje — confirmo com o peito apertado. A nossa rotina matinal é um ritual de preparação para o campo de batalha, visto um tailleur cinza elegante, mas conservador, o cabelo preso em um coque baixo e pouca maquiagem. A mensagem é clara: seriedade, profissionalismo, não glamour, Dante escolhe um terno azul-marinho escuro, a gravata é de um vermelho discreto – uma pequena concessão à combatividade e juntos descemos para a sala de café da manhã, Melissa já está lá, sentada com Dona Alzira, comendo mingau com uma concentração solene. Ela nos olha e seus olhos grandes escaneiam as nossas roupas e as nossas expressões e em seguida levanta a colher e aponta para a porta e depois faz um gesto de fechamento com a mão, os dedos se unindo. Fechem a porta. Fechem a boca deles. É sua forma de dar sorte. — Vamos fechar, querida — Dante promete, passando a mão em seus cabelos. No carro a caminho da sede da Lobo Holding, o silêncio entre nós é carregado, mas não pesado, é o silêncio de parceiros que já disseram tudo o que precisam e que já estão com a estratégia traçada. Nossas mãos se encontram no banco e nossos dedos se entrelaçam, é um toque de reforço, de conforto.. A coletiva está marcada para às 10h no auditório da empresa e às 9h, já estamos no andar executivo, cercados por assessores, pelo advogado de crise – um homem extremamente frio chamado Murilo – e por Heloísa, que é uma fortaleza de eficiência tranquila. O nosso comunicado final é revisado mais uma vez, a a******a dos livros do Fundo Beatriz, o convite à auditoria internacional, a doação das patentes e a minha frase está lá, intacta. Nossa história começou em uma transação. Hoje, é um compromisso. — Estão todos prontos? — Murilo pergunta enquanto ajusta os óculos. Lembrem-se: contrição, mas não culpa própria, transparência, mas não exposição desnecessária, foquem no futuro, nas ações corretivas, o passado… o passado foi um erro coletivo do qual o sr. Lobo, como líder, assume a total responsabilidade, mas não a autoria direta. Ele foi enganado por Viktor Salles. É o roteiro e Dante ouve, impassível, acenando ocasionalmente, seus olhos, porém, estão longe, calculando ângulos que vão além das palavras ensaiadas. Às 9:45, Heloísa entra na sala de reuniões temporária que estamos usando, o seu rosto está pálido. — Senhor Lobo, Senhora Lobo, temos um problema. — Costa publicou antes da hora? — pergunta Dante, se erguendo. — Pior, acaba de chegar por fax na portaria e foi entregue no departamento jurídico. É uma notificação judicial. — Ela estende uma pasta. O Sr. Viktor Salles, através de seus advogados, está processando a Sra. Clara Lobo por difamação e interferência maliciosa em relações contratuais. Ele alega que as acusações feitas por ela – e perpetuadas pela fundação que ela comanda – são falsas e danificaram irreparavelmente sua reputação e seus negócios, impedindo-o de exercer seu direito de defesa perante a opinião pública. E ele pede uma indenização por danos morais e materiais… astronômica. E uma liminar para suspender todas as atividades públicas do Fundo Beatriz e da Sra. Lobo que mencionam seu nome ou o caso Lúmen. O ar é sugado da sala e um silêncio absoluto se instala sendo quebrado apenas pelo zumbido baixo do ar-condicionado. Sinto o chão se mover sob meus pés, Viktor mesmo da prisão continua incomodando. Ele não está aceitando passivamente a queda, está contra-atacando e de uma forma genialmente perversa: não ataca Dante diretamente, ataca a mim. A fundação. A narrativa de reparação que construímos. Murilo é o primeiro a se mover, pega a pasta das mãos trêmulas de Heloísa, seus olhos voam sobre as páginas, sua expressão ficando mais grave a cada linha. — É uma manobra clássica para silenciar críticos e ganhar tempo na opinião pública, transformando a vítima em réu. Se a liminar for concedida… — ele me olha — …a senhora não poderá dar entrevistas, nem fazer discursos, nem assinar comunicados sobre o caso e o fundo praticamente vai parar. E a coletiva de hoje… — A coletiva de hoje é ainda mais necessária — corta Dante, sua voz, uma lâmina de gelo, sua fúria não é explosiva; é uma coisa que se compacta, ficando mais densa e mais perigosa. — Ele quer nos fazer calar, principalmente você, Clara, porque a sua voz, a sua história, é a mais convincente e ele sabe disso. — Mas se eu falar e a liminar for concedida depois… posso ser multada por descumprimento, podem até… — A liminar ainda não foi concedida e não será, se jogarmos certo. — Ele se vira para Murilo. — Precisamos de um advogado especialista em liberdade de expressão e ações estratégicas contra a indústria do litígio. Agora, antes das 10h e quero um contraponto pronto para inserir no comunicado. A sala entra em erupção controlada enquanto Murilo sai aos berros no telefone e Heloísa coordena a busca pelo advogado. Dante me puxa para um canto. — Você não vai recuar — diz, seus olhos queimando nos meus. — Isso é o que ele quer, que você se esconda e que pare de falar, não podemos e não vamos dar esse gosto a ele. — E o risco? — Eu assumo, todo e qualquer risco financeiro, jurídico, você fala o que precisa falar, a sua verdade, a nossa verdade. Dante… Sua fé em mim, neste momento de caos, é mais aterradora do que qualquer processo. É uma carga imensa, mas também é um farol e ele está certo. Se eu recuar agora, Viktor vence uma batalha crucial sem sair da cela. Às 9:58, um novo advogado chega, uma mulher de cerca de cinquenta anos, cabelo grisalho preso em um r**o-de-cavalo apertado, olhos inteligentes e cansados. É a Dra. Renata Vilela, especialista exatamente no que precisamos. Ela se tranca com Murilo por cinco minutos intensos e quando saem, ela se dirige diretamente a mim. — Sra. Lobo, o processo é uma tentativa clara de assédio processual (SLAPP), a chance de uma liminar ser concedida, diante da notoriedade pública do caso e do interesse social na atuação do seu fundo, é baixa, mas não é zero. O juiz do plantão de hoje é conservador e a decisão dele pode ser influenciada pelo burburinho midiático, a minha recomendação é que você fale, mas seja precisa. Foque nos fatos já comprovados pelas investigações da PF, nas vítimas, no trabalho do fundo e evite adjetivos diretos contra o Sr. Salles, deixe que os fatos o condenem. Assim, mesmo se uma liminar sair, será mais difícil de ser sustentada em uma apelação. É um conselho sólido, é a estratégia do cirurgião, não do carniceiro. — Entendido. Às 10h em ponto, entramos no auditório, o clarão dos flashes é uma agressão física e o burburinho de dezenas de vozes, o calor dos holofotes… é um cenário hostil. Nos sentamos à mesa no palco, Dante no centro, eu à sua direita, Murilo e Dra. Renata ficam à esquerda enquanto Heloísa fica nos bastidores. Dante inicia, lendo o comunicado com uma voz firme e clara, sem emoção excessiva. Ele é uma fortaleza, assume a responsabilidade institucional, detalha as medidas de transparência, anuncia a doação das patentes. A reação da plateia é de atenção respeitosa, mas fria, claramente eles estão esperando o sangue. Esperando por mim. Quando é minha vez, o silêncio se aprofunda, posso sentir o peso do processo de Viktor como uma algema invisível em meus pulsos mas respiro fundo enquanto olho para as câmeras, não para os repórteres. — Como vice-presidente do Fundo Beatriz — começo, minha voz sai mais estável do que eu temia, minha única missão é garantir que a ajuda chegue a quem foi mais atingido por essa tragédia, tragédia que, sim, tem nomes e responsáveis já identificados pelas autoridades, o trabalho do fundo é documentado, auditável e guiado pela ética mais rígida, é um trabalho sobre o futuro, sobre reparação, sobre garantir que o sofrimento de tantas famílias não seja em vão. Faço uma pausa, deixando as palavras pousarem enquanto vejo alguns repórteres anotando freneticamente. — Quanto às… circunstâncias pessoais que têm sido objeto de especulação — continuo, mantendo o tom neutro, quase clínico, a única coisa que posso acrescentar ao que já está no comunicado é que a vida tem uma ironia c***l às vezes. Às vezes, os caminhos mais tortuosos, nascidos da necessidade mais desesperadora, podem levar a um destino que você nunca ousou sonhar, e o meu sonho hoje não é sobre o passado, é sobre poder olhar nos olhos de cada pessoa que ajudamos e saber que, de alguma forma, estamos virando a página de um capítulo terrível da nossa história. A página está sendo virada, com verdade, com trabalho, e com a força que só vem quando você está lutando por algo maior do que você mesmo. É o mais perto que chego de emoção, é o mais perto que chego de falar sobre nós, sobre o pacto, sobre o amor, sem nunca mencionar essas palavras e termino com um simples: — Obrigada. A sessão de perguntas que se segue é um campo minado e a primeira pergunta, previsivelmente, é sobre o processo de Viktor. — Sra. Lobo, o senhor Viktor Salles acaba de processá-la por difamação, como isso impacta o trabalho do fundo e sua fala aqui hoje? A Dra. Renata me dá um leve aceno, então vou pela linha de fatos. — Tomei ciência do processo minutos antes desta coletiva, é um direito dele, e nós, do Fundo Beatriz, temos a lei e os fatos do nosso lado e a nossa atuação continuará, focada nas vítimas, independentemente de ações judiciais que visem intimidar ou silenciar. A justiça maior que buscamos não é a dos tribunais, mas a das famílias que podem ter um amparo, um futuro. As perguntas continuam, algumas duras, outras tentando fisgar uma emoção mais suculenta, Dante intervém quando necessário, sua presença é uma muralha de serenidade impenetrável, ele não menciona o processo diretamente, mas cada uma das suas palavras reforça a postura de transparência e reparação. Finalmente a tortura da coletiva termina, saímos sob os flashes finais, mas nos bastidores, a tensão dos músculos das costas finalmente dói, Heloísa nos entrega tablets com as primeiras reações online. A manchete do portal de Costa já está no ar: “Casal Lobo Enfura Processo de Viktor e Reafirma Narrativa em Coletiva Tensa”. O texto é, como esperado, tendencioso, mas não consegue ignorar a solidez da nossa performance. O foco deles se divide: metade fala do processo, a metade da doação das patentes e da a******a dos livros, é um empate tático. Não ganhamos a narrativa de forma absoluta, mas não a perdemos. Já no carro enquanto voltamos, o cansaço é um peso físico, Dante segura minha mão com força enquanto me faz repousar a cabeça em seu ombro. — Você foi perfeita — murmura. Ele deu a cartada dele, e você nem pestanejou. — Ele ainda pode conseguir a liminar. — E nós vamos lutar, camada por camada, tribunal por tribunal. — Ele olha para a cidade que passa. Ele está preso e o seu poder é limitado a gestos como esse, são gestos desesperados. Quanto a nós, temos o terreno, temos o trabalho real. E temos um ao outro. Assim que chegamos em casa, Melissa nos espera no hall, segurando um desenho, é uma cena de tribunal. De um lado, uma figura grande e raivosa atrás das grades (Viktor) e do outro, uma figura menor, de vestido (eu), de pé, com uma lanterna na mão, iluminando várias figurinhas pequenas e magras (as famílias). Não há juiz, há apenas a luz e as grades. Ela é incrível, eentendeu, ela sempre entende. O processo de Viktor é mais um fantasma, um eco da guerra que pensamos ter terminado, mas, como o fruto do veneno, também aprendemos a usar as armas do inimigo, a batalha mudou de arena, mas não de natureza. E, hoje, ao menos, não recuamos um milímetro. Amanhã, a Dra. Renata entrará com uma contestação vigorosa e um pedido de reconvenção por litigância de má-fé, a nossa guerra jurídica vai começar, mas nesta noite, o silêncio da mansão não é de derrota, é o silêncio cansado de quem segurou a linha e pela primeira vez, a segurou não como uma peça em um jogo de Dante, mas como uma protagonista do seu próprio destino. O processo não é o fim. É apenas a confirmação de que a sombra de Viktor é longa, mas nossa luz, lenta e teimosamente, está se tornando mais longa ainda.
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