CAPÍTULO 36: FRUTO DO VENENO

2453 Palavras
O meu novo escritório cheira a futuro, mas o presente é um anzol cravado na minha garganta, o trecho da reportagem de Rafael Costa, marcado pela pegada decidida de Melissa, repousa sobre a mesa limpa e a sua raiva infantil foi um choque de lucidez para nós. Dante se ajoelha diante daquele papel amassado e diz, a voz cortando o ar pesado: — Ele quer uma guerra de narrativas? Vamos dar a ele uma narrativa. Mas a nossa. A decisão foi tomada, não vamos nos esconder, vamos enfrentar a insinuação com uma verdade maior e mais desconcertante: a do que construímos depois. “E enquanto Dante e o advogado preparam um comunicado oficial que abrirá todos os livros do Fundo Beatriz e convocará uma auditoria internacional, a minha frente de batalha é mais íntima. Mais perigosa”. Antes que eu possa discar o número seguro de Sofia – minha primeira e mais instável peça , Heloísa abre a porta. Seu rosto profissional está levemente fissurado. — Senhora Lobo, Rafael Costa está na recepção, ele insiste em vê-la. O gelo desce pela minha espinha, quanta audácia, mas a raiva de Melissa aquece meu sangue, o tornando límpido e potente. — Permita sua entrada, depois feche a porta e peça ao Almeida para ficar do lado de fora. Fico ao lado da janela, mas não atrás da mesa, sem fortificações. Ele entra, é jovem, magro, com olhos que catalogam o ambiente antes de pousarem em mim, vestindo um blazer despojado que não esconde o predador por dentro. — Sra. Lobo, obrigado por me receber. — Achei que sua reportagem já estava fechada, sr. Costa. — Gosto de olhar nos olhos, isso ajuda a separar o trigo do joio. — E o que vê nos meus olhos? — Cautela e… fúria. O que é justo, afinal a verdade é um invasor natural. Luto contra o nojo que seu clichê provoca. — A verdade é complexa e você vende simplificações. — O público quer herói ou vilão e no seu caso, acho que é as duas coisas. E isso é fascinante. Ele não se senta e eu também não ofereço. É um duelo em pé. — Você veio fazer perguntas que já se respondeu? — O trecho que enviei era um convite. — Ele abre uma pasta em um gesto teatral. A sua irmã, Lara Silva. O tratamento dela na Suíça, custeado por um fundo anônimo, e o engraçado ou curioso se preferir é que o Fundo Beatriz inicia as remessas na mesma época. Consegue explicar isso? Ele cavou fundo. O suor gela em minha nuca. — O fundo ajuda vítimas de doenças raras e negligenciadas e até onde eu sei, a Lara se encaixa, portanto é a função do fundo sendo cumprida. — Uma função que beneficia a irmã da vice-presidente, interessante... Algumas pessoas podem chamar isso de “conflito de interesses", ou se preferir… “pagamento”. A palavra pagamento ecoa na sala. É uma facada. — Meu trabalho é voluntário e cada caso passa por um comitê independente, todos os documentos estão disponíveis. — Minha voz soa metálica. — Você está insinuando que usamos um fundo de reparação para quê? Comprar meu silêncio de novo? Já não seria tarde? Vejo o interesse acender em seus olhos, eu toquei no núcleo. — De novo? Então a senhora admite um acordo inicial? — Todo casamento é um acordo, sr. Costa, e o nosso começou em circunstâncias incomuns, eu precisava salvar minha irmã e Dante precisava de uma aliada, nos encontramos no desespero. — Falo devagar, cada palavra uma peça do nosso novo teatro. — O que veio depois? A família que formamos, o trabalho para corrigir erros… e até onde Dante e eu sabemos é que isso não estava no contrato, nasceu do respeito e depois do amor. Pode até parecer um roteiro r**m, mas é a nossa verdade. E a nossa verdade é mais sólida que qualquer insinuação que o sr. possa ou possam fazer. Fico em silêncio, ofereci a narrativa, agora a bola está com ele. Costa me observa, impassível, fecha o bloco e guarda a pasta. — É uma bela história, eu quase acredito, mas sabe como é… As pessoas, o público gosta do barro, do contrato, do dinheiro, da doença, e o ‘felizes para sempre’ é para o final. E até onde sei, vocês ainda não chegaram ao final, não é? — Ele se vira para sair, mas para na porta. — Confesso que a sua coragem é admirável e isso ou é prova da sua inocência… ou da sua habilidade fenomenal. Amanhã descobriremos qual. A porta se fecha, minhas pernas tremem, não sei em qual armadilha caí, mas sinto a vertigem de ter exposto o nosso ponto mais fraco, a origem do nosso vínculo e tê-lo oferecido como prova de força. Foi um blefe monumental. E se ele tiver uma fonte concreta, um documento, uma testemunha que possa detalhar os termos exatos daquele primeiro contrato, tudo desmorona e o Fundo Beatriz vira apenas a próxima parcela do pagamento. Nosso amor, uma farsa elaborada. A tarde se arrasta em um estado de alerta amortecido. Ligo para o Dr. Elias para me certificar que os registros do tratamento de Lara estão intocáveis e anônimos e depois falo com o administrador do Fundo, reviso cada aprovação de verba, são barreiras de papel contra uma tempestade que busca emoção, não fatos. Assim que Dante chega ao escritório no final da tarde, seu rosto mostra um mapa de tensão contida, mas ao ler a minha expressão ele dispensa os relatórios que traz. Respiro fundo, buscando a calma que sei que não tenho no momento.. — Ele veio, contei a nossa história. — Eu sei, a Heloísa me avisou e o Leandro já está rastreando os passos dele desde que saiu daqui. — Ele se aproxima, seu toque no meu ombro é firme, reconfortante. — Você fez o certo e agora a história está em disputa. E nós temos mais a mostrar do que ele. — E se ele tiver mais? Algo que não sabemos? — Então vamos lidar com isso, juntos. Como sempre. Mas, o como sempre, agora tem um sabor diferente. Antes, o inimigo era claro: Viktor, sua ganância, sua violência, agora, o inimigo é uma névoa de insinuações, uma narrativa paralela que pode corroer a credibilidade que é nosso único capital agora. É uma guerra diferente, e desta vez eu me sinto despreparada. Chego em casa esgotada, minhas energias sugadas pela incerteza. A mansão está silenciosa, a ausência de Lara é um eco suave e doloroso, Melissa está com Dona Alzira, seu refúgio silencioso, não tenho forças para subir em vez disso, vou à cozinha, um lugar enorme e brilhante que raramente é usado para seu propósito real. Preciso de algo sólido, simples, algo que me lembre que a vida é mais do que palavras e estratégias, abro a geladeira quase vazia, mas vejo alguns ovos, manteiga, um pouco de queijo, e a ideia de uma omelete parece um ato de normalidade radical. Começo a bater os ovos em uma tigela, o som rítmico é reconfortante, pego uma frigideira e acendo o fogo, e o barulho do gás, o tilintar da madeira na borda, o crepitar da manteiga derretendo, são sensações simples, mas que por um instante me deixam feliz. Despejo os ovos e fico observando as bordas começarem a firmar, a se transformar de líquido translúcido em algo sólido e comestível, é um processo básico, previsível. Algo sobre o qual eu ainda tenho controle. E então sinto a sua presença, não ouço passos, mas o ar muda e um calor familiar se aproxima das minhas costas. — Heloísa me contou — a voz de Dante é baixa, rouca da noite de trabalho e preocupação. — Você foi incrível. Não me viro, continuo observando os ovos, mexendo-os suavemente com a espátula. — Não sei, talvez tenha sido estúpida e dado a ele exatamente o que ele queria — admito, a voz saindo mais fraca do que gostaria. — Você deu a ele a nossa versão, mais forte do que qualquer negação. — Ele se aproxima mais, seu corpo agora apenas centímetros das minhas costas. Sinto o calor dele através da minha blusa. — Estou orgulhoso de você, minha Clara. Orgulhoso. A palavra me atinge em um lugar sensível e desprotegido. Ninguém nunca disse isso para mim por causa de uma batalha, por enfrentar um monstro de frente, por se expor. Minha vista embaça, as lágrimas pinicando atrás dos olhos, Inclino a cabeça para frente, tentando me concentrar na frigideira, no amarelo dourado que se forma. — Estou com medo, Dante — sussurro, a admissão sai como um segredo na penumbra da cozinha. — Medo do que ele vai escrever, medo do que as pessoas vão pensar, medo de… de destruir tudo o que conseguimos construir com uma história m*l contada do nosso passado. Dante envolve a minha cintura me puxando para trás, para o calor sólido do seu corpo e enterra o rosto no meu pescoço, enquanto seus lábios tocam minha pele, um beijo não de paixão, mas de posse reconfortante. — Eles não podem e não vão destruir o que temos aqui, e nada que ele escreva pode mudar o que eu sinto por você, o que Melissa sente e nem o que construímos nessa casa. — Sua voz é um murmúrio contra minha pele. — O pacto acabou, Clara. O que temos agora é real e é à prova de fogo, eu me entreguei completamente a você. Viro-me dentro de seus braços, a espátula ainda na mão, esquecida, olho para o seu rosto, marcado pela fadiga, mas também por uma determinação tão profunda que parece gravada em seus ossos, a frigideira chia distraidamente atrás de mim, a omelete ameaçando queimar, mas nada importa além dele, neste instante. — Preciso acreditar nisso — digo, minha voz é um fio. — Então acredite. E então, ele me beija. Não é um beijo gentil ou consolador. É um beijo de afirmação, de posse reivindicada, de uma verdade que não precisa de palavras, é áspero, profundo, com sabor de determinação, um gemido baixo escapa da minha garganta, e minhas mãos agora livres agarram os lados do seu rosto, puxando-o mais para perto. O cheiro de omelete queimando invade nossos sentidos, e Dante solta um pequeno riso abafado contra meus lábios. — Você está queimando o nosso jantar. — Que se dane o jantar — murmuro, mordendo seu lábio inferior. Ele ri de verdade agora, um som raro e precioso, e com um movimento, desliga o fogão. O chiado cessa, deixando apenas o silêncio da enorme cozinha e o som da nossa respiração, que já está acelerada. Sem quebrar o beijo, ele me levanta, me fazendo sentar na borda fria da grande ilha de mármore, a superfície lisa e gelada contrasta violentamente com o calor que começa a arder dentro de mim e suas mãos deslizam pelas minhas coxas, puxando minha saia para cima, eu enlaço minhas pernas em torno de sua cintura, o puxando para o vão entre elas. — Aqui, tem certeza? — pergunta, seus olhos escuros buscando permissão, mas suas mãos já estão abrindo os botões da minha blusa. — Aqui — confirmo, desfazendo o cinto dele com dedos ágeis e famintos. — Aqui, agora. A necessidade é urgente, primitiva, sem tempo para delicadezas, muito menos para levar para o quarto, o calor domina, o desejo ardente em meio ao caos. Ele me puxa para a borda da ilha, meus quadris alinhados com os dele, minha calcinha é puxada para o lado e ele desfaz o próprio zíper. Sem pudores, sem aviso, sinto cada centímetro me invadir, a estocada é profunda, e me tira o fôlego enquanto o gemido alto e rouco ecoa na cozinha. Seus braços firmes ao redor das minhas costas, seu rosto enterrado na curva do meu pescoço, Dante se move, o ritmo rápido e profundo, e cada estocada é uma afirmação contra as palavras de Costa, contra o medo, contra a incerteza. A ilha de mármore treme levemente sob o impacto de nossos corpos, minhas unhas cravam as suas costas através da camisa, enquanto mordo seu ombro para abafar os gritos que ameaçam explodir. — É minha — ele rosna no meu ouvido, sua voz distorcida pelo esforço e pela emoção. — Você é minha, isso é nosso e nada lá fora tocará nisso. — Então me mostre, Dante — desafio, arqueando as costas, fazendo me invadir ainda mais fundo. — Dante… por favor… O ritmo se desfaz, se torna frenético e desesperado enquanto a pressão dentro de mim se acumula, rápida e avassaladora, alimentada pela tensão do dia, pela adrenalina, pela pura necessidade de sentir algo que não fosse medo, e quando o ápice me atinge, é como um rompante silencioso, um tremor violento que percorre todo o meu corpo, me fazendo engasgar e me prender a ele como a única âncora em um mar em fúria, ele segue meu ritmo, mais três estocadas brutas e profundas, e para, completamente enterrado em mim, enquanto um tremor longo e profundo o percorre, sinto a pulsação quente dele dentro de mim. Desabamos um contra o outro, ofegantes, suados, ainda entrelaçados na ilha de mármore. O cheiro de sexo e omelete queimada preenche o ar, uma combinação surreal e perfeitamente nossa. Os minutos passam antes que qualquer um de nós consiga se mover e ele finalmente se afasta, me ajudando a descer da bancada, minhas pernas estão moles, ele me segura, seu olhar agora suave, exausto, limpo. — Amanhã — ele diz, limpando um fio de suor da minha têmpora com o polegar. — Amanhã enfrentamos o mundo, juntos. — Juntos — ecoo, minha cabeça repousando em seu peito, ouvindo o batimento acelerado do seu coração acalmar. A cozinha é um caos, o nosso refúgio improvisado no campo de batalha, a fuga controlada do dia desencadeou nesta colisão necessária, logo após um banho rápido e em silêncio, arrumamos a cozinha apagada, não há mais medo. Há apenas a fadiga profunda dos guerreiros e a quietude silenciosa de quem sabe que, não importa o que Rafael Costa escreva, o núcleo do que somos — essa coisa selvagem, terna e indestrutível que nasceu na escuridão — está a salvo. Está guardado aqui, entre nós, à prova de fogo e de manchetes. O fruto que nasceu do mesmo veneno que quase nos matou, agora nos sustenta. É amargo, doce, complexo. E é nosso, apenas nosso. Amanhã é a guerra das narrativas, mas hoje, nesta cozinha, provamos que a nossa história mais verdadeira não é contada com palavras, ela é escrita na pele, no suor, no silêncio compartilhado após a tempestade.
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