CAPÍTULO 35: O FIO DA NAVALHA

1952 Palavras
A casa respira diferente depois que Lara se foi, o espaço que ela ocupava – não apenas físico, mas no ar – vira um vácuo suave. A sua ausência é um fantasma bom, uma saudade limpa que não aperta, apenas lembra e Melissa demonstra sentir mais que todos, por vários dias ela para em frente a porta do quarto vazio de Lara e fica olhando, depois fecha a porta com um cuidado solene, e eu entendo que este é seu ritual de despedida. Dante e eu afundamos no trabalho como forma de não afundarmos no vazio. A reconstrução da holding é um monstro de mil cabeças, e cada contrato revisto, cada funcionário ligado a Viktor demitido, cada comunicado à imprensa é um ato de coragem, é uma cirurgia. Ele está determinado a criar algo transparente, quase monástico, em relação à ética. É uma penitência corporativa. Meu trabalho com o fundo de indenização tem me levado a lugares sombrios, hospitais públicos, salas de espera de fóruns, casas simples onde fotos de entes queridos perdidos para o Lúmen ainda estão na mesa de centro e ouvir cada história é como ser esfolada viva, dia após dia e esta tarde não é diferente, uma senhora idosa, que perdeu o marido, segura minha mão com a força de aflição: “Pelo menos alguém veio olhar nos nossos olhos. O outro, o tal de Viktor, nem um ‘sinto muito’ mandou.” Confesso que as suas palavras me destruíram completamente, e ao voltar para casa sinto o peso do mundo nas costas, é um peso que não é meu, mas que carrego por obrigação moral. Caminho até a cozinha com a intenção de fazer um chá para me acalmar, meu corpo inteiro treme diante de todo o cansaço físico e mental do meu dia, minhas mãos estão trêmulas enquanto estou preparando o chá, mas sou surpreendida pelo abraço quente e reconfortante, pelas costas, Dante está aqui, me apoiando do jeito que pode. — Você não precisa fazer isso sozinha, Clara. — ele diz enquanto tira a chaleira da minha mão . — Podemos contratar uma equipe, psicólogos, assistentes. — Eu preciso fazer, Dante — respondo, a voz rouca. — Preciso ver. É o meu ‘sinto muito’. Por todas as vezes que me calei. Ele me entende, não argumenta. Apenas fica ao meu lado, em silêncio, enquanto a água ferve. É nesses momentos que nossa aliança se funde em algo mais profundo que paixão, desejo ou conveniência. É cumplicidade de culpa e reparação. Enquanto isso, o processo contra Viktor começa a ganhar as manchetes de forma mais técnica. Os detalhes que saem são grotescos. A quantia desviada, o número de laudos falsos, a lista de pacientes que morreram sem saber por quê. A opinião pública, que primeiro nos viu como heróis românticos, agora começa a virar um pouco. Artigos questionam: “O quanto Dante Lobo sabia?” “Até onde vai a culpa do herdeiro?”. A palavra “cumplicidade” é sussurrada. É aí que a nova ameaça, prevista no escopo, começa a se materializar. Não com um estrondo, mas com um furo de agulha. Recebo um e-mail na minha conta profissional, não a segura. O remetente é “R. Costa”, de um domínio de um portal de notícias sensacionalista que eu conheço. O assunto é: “Convite para diálogo - Em nome da verdade completa”. O corpo do e-mail é curto, polido e venenoso: “Prezada Sra. Lobo, Parabenizo-o pela coragem em expor a fraude do Lúmen. No entanto, fontes próximas ao caso sugerem que a narrativa pública está incompleta. A figura do Sr. Dante Lobo, em particular, merece um olhar mais atento. Sua ascensão na holding, seu relacionamento com o falecido Augusto Lobo e os detalhes do seu ‘acordo’ com você, Sra. Lobo, são pontos que o público tem o direito de entender. Gostaria de oferecer a vocês a oportunidade de darem sua versão, antes da publicação da minha reportagem investigativa. Disponho-me a encontrar-lhe em sigilo. Atenciosamente, Rafael Costa – ‘A Verdade na Mira’” Meu sangue gela. Ele não tem detalhes, mas tem o faro, fala em “fontes próximas”. Quem? Algum ex-funcionário ressentido demitido na limpeza? Alguém do caso Torres? Sofia, apesar de protegida, poderia ter deixado rastros. Não penso duas vezes, mostro o e-mail a Dante no seu escritório. Ele lê, seus olhos escurecendo a cada linha. Não há raiva, há uma fadiga profunda, como a de um homem que vê a tempestade que achou ter escapado se formando de novo no horizonte. — Rafael Costa — ele murmura. — Um carniceiro digital, especializado em destruir reputações com meias-verdades e insinuações. Ele não quer a ‘verdade completa’. Quer a versão que vende mais cliques. — O que fazemos? Ignoramos? — Ignorar é dar a ele carta branca para inventar e responder é entrar no jogo dele. — Ele ergue os olhos para mim. — Ele menciona o nosso ‘acordo’. Ele sabe, ou desconfia, que não foi um casamento por amor. — Todo mundo desconfiava. — Mas ninguém tinha coragem de dizer e ele tem. — Dante se levanta, andando de um lado para o outro. — Ele vai cavar, vai tentar achar o contrato nupcial, vai procurar ex-funcionários da mansão, vai tentar contato com a Lara… A menção de Lara me faz estremecer. — Ele não vai chegar até ela. — Não diretamente. Mas pode usar a história dela como ângulo, ‘a irmã doente que foi a moeda de troca’. É a manchete perfeita para ele. A noite chega carregada dessa nova ansiedade, jantamos em silêncio e claro que a Melissa percebe. Ela não desenha, fica apenas observando nossos rostos e o seu próprio rosto é uma máscara de concentração infantil. Antes de dormir, ela me entrega um pedaço de papel. É um desenho de três figuras em um barco pequeno, em um mar cheio de linhas serrilhadas que representam ondas, debaixo da água, próximo ao barco, há uma forma alongada, com um olho grande e uma boca cheia de dentes triangulares, um tubarão. Mas o tubarão não está atacando. Está seguindo. Ela aponta para o tubarão e depois para a janela, para o mundo lá fora. O perigo ainda está lá, ela diz sem palavras. Ele não foi embora, só mudou de forma. Já deitados, e enquanto descanso nos braços de Dante, ele diz que é melhor a abordagem estratégica e me pede para responder ao e-mail, com a ajuda de Heloísa e do nosso novo advogado de crise. A resposta é um modelo de discrição cortês: “Prezado Sr. Costa, Agradecemos seu contato e seu interesse. A família Lobo está inteiramente focada no processo de reparação às vítimas do Lúmen e na reconstrução ética da holding. Todos os fatos relevantes foram compartilhados com as autoridades competentes. Não acreditamos que um diálogo midiático adicional seja produtivo no momento. Atenciosamente, Clara Lobo Vice-Presidência de Reconstrução e Relacionamento com as Vítimas” É uma negativa educada, um muro de corporativismo cuidadoso. É o que temos. A resposta de Costa não demora e chega em menos de duas horas, ainda mais curta e mais afiada: “Entendido. Lamento que optem pelo silêncio, a história, como um rio, sempre encontra seu caminho. A publicação segue programada para sexta-feira. R.C.” Estamos na terça-feira, então temos três dias. O clima na mansão fica elétrico, Dante aumenta a segurança digital, pede a Leandro para verificar se há novos vigias na rua e ele também faz uma ligação incrivelmente difícil: para o conselho da holding, alertando-os sobre a matéria iminente e as “insinuações pessoais” que podem surgir. É um movimento para tentar controlar o dano interno antes que ele estoure. Na quinta-feira à noite, acontece o que eu mais temia, recebo uma ligação no meu celular particular de um número desconhecido. — Alô? — Clara Lobo? — A voz é masculina, jovem, com um sotaque cultivando mas uma entonação de repórter de crime verdadeiro. É Rafael Costa… — Ele conseguiu meu número. — Como você conseguiu este número? — Isso não importa, o que importa é que eu queria ser justo. Enviei para o seu e-mail um trecho da minha reportagem, claro que é só o trecho que lhe diz respeito. Pense nisso como um último aviso, agora a bola está com a senhora. Ele desliga antes que eu possa dizer qualquer coisa. Abro o e-mail com os dedos trêmulos, e o trecho que vejo é uma facada. “… fontes consultadas pela reportagem descrevem o início do relacionamento entre Dante Lobo e Clara Silva como ‘transacional’. Clara, então uma ex-assistente jurídica em situação financeira desesperadora devido à doença rara da irmã, foi contratada por Lobo sob termos incomuns. Um contrato de confidencialidade draconiano precedeu o rápido e discreto casamento civil. Especialistas em direito de família consultados sugerem que tais acordos, embora comuns em uniões de alto patrimônio, são atípicos quando uma das partes está em clara desvantagem e vulnerabilidade extrema. A pergunta que fica é: o que, exatamente, Clara Silva vendeu, e o que Dante Lobo comprou, antes do ‘amor’ supostamente florescer? A narrativa de redenção romântica pode estar encobrindo um pacto muito mais sombrio e calculista, que lança uma nova luz sobre a figura do agora ‘herói’ Dante Lobo…” Ele não tem o contrato, mas tem a essência. Alguém falou, alguém que sabia do meu desespero, da doença da Lara, da rapidez do casamento. Dona Alzira? Alguém do hospital? O fantasma do passado ganha voz através desse jornalista. Imprimo e levo o texto a Dante. Ele lê, e pela primeira vez, vejo algo próximo do pânico em seus olhos, não o pânico por ele, mas por mim. — Ele está te transformando de vítima em cúmplice, de heroína em mercenária — ele diz, a voz rouca. — Ele está destruindo a sua dignidade para atingir a mim. — Ele está contando uma versão da verdade — digo, surpresa com a própria calma. — Nós fizemos um pacto. Eu vendi meu silêncio e você comprou minha lealdade. — Mas não é tudo que somos! — a voz dele sobe, um raro rompante de emoção crua. — O que veio depois… o que construímos… isso também é verdade! — E ele vai ignorar simplesmente porque a verdade complexa não vende. A história suja vende. Ficamos em silêncio, o trecho da reportagem impresso entre nós como uma declaração de guerra. Melissa, atraída pelas vozes, aparece na porta, ela não precisa ler, vê os nossos rostos, vê o papel, e entende e seus olhos se arregalam. Ela se aproxima e pega a folha, embora não consiga ler tudo seus dedos passam sobre as palavras “vulnerabilidade extrema” e “pacto sombrio”. E o que ela faz a seguir nos paralisa. Ela joga a folha no chão, pisa em cima dela com força, e olha para nós, seus olhos cheios de uma fúria infantil e protetora. Ela aponta para si mesma, para o peito, e depois para nós, unindo os dedos em um só punho. Nós somos um e nada disso importa. É o gesto mais corajoso que eu já vi. E é a centelha que precisamos. Dante se ajoelha diante da nossa pequena. — Está com medo, querida? Ela balança a cabeça, negativamente, firme. Não. Ele olha para mim, e vejo a decisão se formando em seu rosto, substituindo o pânico por uma determinação fria e clara. — Ele quer uma guerra de narrativas? Vamos dar a ele uma narrativa, mas a nossa. À noite, em vez de tentar abafar o fogo, decidimos atear um novo. Um que ilumine o que realmente importa.
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