A revelação sobre o Neurovax fica entre nós como um terceiro fantasma na cama, ao lado de Beatriz e Augusto e Dante está lidando com ela da maneira que sabe: agindo.
Ele acelera a burocracia para o traslado de Lara, transformando o que seria um processo de meses em questão de semanas e não é apenas pressa; é um exorcismo. E o quanto antes minha doce irmã estiver sob os cuidados do instituto suíço, longe do solo contaminado, mais ele vai conseguir respirar.
Na mansão as coisas começam a ficar diferentes, e pela primeira vez Dante fala em nos mudarmos.
— Clara, este lugar… — ele diz enquanto olha ao redor da sala de jantar opulenta e vazia — …foi construído para impressionar, não para viver. E carrega memórias que não nos servem mais.
O que acha de uma casa menor? Em um condomínio fechado com segurança discreta, mas com um jardim grande, espaço para Melissa correr, uma cozinha onde possamos realmente cozinhar, não apenas receber comida de um chef…
É um sonho tão simples, tão normal, que quase dói ouvir. É a materialização da nossa nova vida, frágil e desejada. O sonho de um casamento real.
E enquanto ele lida com o passado da holding e planeja o nosso futuro juntos, eu me afundo no presente da transição. Minha “VP de Reconstrução” ganha um escritório de verdade, um cubículo envidraçado no prédio da Lobo, de onde supervisiono a desmontagem do império de Viktor. É um trabalho que mistura contabilidade forense com trabalho social.
Vejo os rostos das famílias arruinadas pelo Lúmen, ouço suas histórias de dor e falência, assino os primeiros cheques do Fundo Beatriz… E o alívio nos olhos de cada um deles é um bálsamo e um fardo, e cada assinatura é um lembrete: este dinheiro vem de um poço envenenado, mas apesar disso ele está limpando uma ferida. É o melhor que podemos fazer.
E uma dessas famílias é a de Torres. Marina, sua filha, tem uma doença mitocondrial raríssima e o tratamento experimental que ele tanto roubou para bancar agora está disponível em um hospital na Alemanha, completamente custeado pelo fundo. É a promessa de Dante sendo cumprida e quando a mãe de Marina me liga para agradecer, chorando, sua voz é um emaranhado de gratidão e confusão.
— Ele fez coisas horríveis, eu sei… mas ele fez por ela. E agora… agora vocês a estão ajudando. Eu não entendo.
— Às vezes, o bem e o m*l usam as mesmas estradas — digo, escolhendo as palavras com cuidado. — O importante é onde ela vai chegar agora.
É a única filosofia que consigo extrair deste caos.
Em meio a isso, a data de partida de Lara se aproxima. O instituto suíço mandou um enfermeiro especializado e uma série de instruções rigorosas para o voo particular. Lara está um turbilhão de emoções — animada com a chance, aterrorizada pela distância, grata pelo milagre. Ela passa os dias fazendo listas, aprendendo frases em alemão, e me enchendo de perguntas sobre a neve, os chocolates, a pontualidade dos trens.
— Você vai me visitar, não vai? — ela pergunta toda hora, seus olhos, mais límpidos a cada dia, buscando garantia.
— Toda chance que tiver — prometo, e essa promessa é um fio que me prende à sanidade.
Ela é minha última ligação tangível com a vida que eu tinha antes de Dante, antes do pacto, e ver ela partir é como soltar a âncora que me impede de ser arrastada completamente para o mundo dos Lobos.
Melissa sente a mudança no ar e se apega a Lara de uma forma nova, quase possessiva, se senta por horas ao lado da cadeira de rodas da minha irmã, mostra desenhos e ouve suas histórias. É como se, sabendo que Lara vai partir, Melissa guarda na memória a sensação de ter uma irmã mais velha — algo que ela nunca teve de verdade, a tarde, eu as encontro no solário, Lara está falando sobre como eu era na adolescência, travessa, e vejo Melissa rir — um som baixo, rouco, mas inconfundivelmente, é uma risada. É a primeira vez que a ouço rir desde que cheguei ao seu mundo, confesso que o som me arranca lágrimas.
Dante também percebe a proximidade das duas e, em um gesto que demonstra o quanto ele mudou, sugere uma “festa de despedida”. Não um jantar de gala, mas um churrasco no jardim, só nós quatro, o Dr. Elias e Dona Alzira, é algo tão comum, tão familiar, algo tão simples, que parece a coisa mais revolucionária que já fizemos aqui.
O dia amanhece ensolarado, e começamos a nos preparar para o churrasco e Dante, para meu espanto, assume as brasas, confesso que ele não é bom nisso, fica nervoso com o vento, queima algumas linguiças, mas ri de si mesmo. É um homem completamente diferente, desengonçado e humano, longe do CEO de gelo, Lara está totalmente encantada enquanto Melissa é a sua sombra, carregando pratos e apontando para o pai qual parte da carne ele deve virar.
Dr. Elias chega com uma garrafa de vinho suíço, “para ambientar a Lara”. A conversa é leve, cheia de planos para o futuro dela e ninguém menciona Viktor, o processo, a holding, neste momento são assuntos proibidos e por algumas horas, somos uma família qualquer, celebrando uma partida triste mas cheia de esperança.
Observo quando o Dr. Elias puxa Dante de lado, perto da churrasqueira, e vejo o rosto de Dante ficar sério, depois surpreso, depois… pensativo e ele olha para mim, através do jardim, o seu olhar carrega uma pergunta tão grande que sinto um frio na espinha, mesmo sob o sol.
Mais tarde, quando o sol se põe e Lara está cansada, nós a levamos para dentro, Melissa, exausta da socialização, adormece no sofá da sala, Dante me encontra na cozinha, lavando os últimos pratos.
— O Elias falou comigo — ele diz, sem cerimônias, enquanto seca uma tábua de carne. — Sobre o Neurovax. Sobre a… conexão.
— Eu sei. Eu te contei.
— Não tudo. — Ele faz uma pausa, escolhendo as palavras. — A equipe de Zurique, ao isolar a molécula derivada do Fênix… eles descobriram que ela tem uma propriedade única. Em baixíssimas concentrações, não só para a degeneração, como estimula a regeneração de conexões neurais danificadas. É o que está salvando a Lara. Mas… há um efeito colateral interessante em casos de trauma psíquico profundo. Em crianças.
O coração parece parar no meu peito. — Melissa.
— Eles não testaram, claro. É só uma hipótese, uma observação em culturas de células. Mas o Dr. Elias… ele acha que o mutismo seletivo dela, o trauma do que viu, da perda da mãe… pode não ser apenas psicológico, pode ter uma base neural que foi… congelada. E essa molécula, em uma formulação completamente diferente, segura, poderia, em teoria, ajudar a ‘descongelar’ essas vias.
O mundo desfoca. A mesma raiz podre que quase matou Lara, que enriqueceu Viktor, que destruiu Beatriz… poderia ser a chave para libertar a filha dela do silêncio?
— É um risco enorme, Dante, a Melissa não é uma cobaia.
— Eu sei. E jamais… jamais faria algo sem certeza absoluta, mas é uma possibilidade. Após anos de terapia, de progressos mínimos… pela primeira vez, há uma luz no fim de um túnel que eu pensei ser infinito. — A voz dele treme. — E vem do mesmo lugar que escureceu tudo.
A ironia é tão pesada que quase nos esmaga, aqui nesta cozinha de mármore branco. Olho para ele e vejo a guerra interna: o pai desesperado por qualquer chance, e o homem que sabe o preço de mexer com o legado venenoso da família.
— O que você vai fazer?
— Nada, por agora a prioridade é a Lara, depois… veremos. Vamos estudar por décadas, se for preciso. Mas saber que há uma possibilidade… Clara, isso muda tudo para mim, dá um propósito para toda essa… essa podridão.
Se algo bom pode sair de tudo isso, então talvez… talvez não tenha sido em vão.
É a primeira vez que o vejo encontrar um sentido que não seja punitivo no que aconteceu. Não é sobre pagar uma dívida. É sobre extrair um bem do m*l absoluto. É quase uma fé.
Esta noite que precede a partida de Lara, não conseguimos dormir, ela está agitada no seu quarto, então eu vou ficar com ela, me sento em sua cama, e ela segura minha mão com uma força que não tem mais.
— Você ficou diferente, sabia? — ela diz, seus olhos me escaneiam no escuro. — Está mais forte, mais… triste, também. Mas mais você.
— O que quer dizer?
— Antes, você era minha irmã que carregava o mundo nas costas e sorria para eu não ver. Mas agora… agora você carrega, mas não sorrir mais assim, sabe? É um sorriso mais verdadeiro. Como se finalmente aceitasse o peso.
Sua percepção me corta a respiração, Lara sempre viu mais do que eu imaginava.
— Eu fiz coisas que nunca pensei que faria, Lara. Por você.
— Eu sei. — Ela aperta minha mão. — E eu nunca vou poder te agradecer o suficiente. Mas promete uma coisa?
— O que?
— Para de fazer as coisas só por mim. Agora… faz por você também, e por eles. Pelo Dante, pela Melissa, minha irmã, você merece essa família. Você conquistou, Clara.
Suas palavras são um presente maior que qualquer fundo fiduciário. Choro, silenciosamente, e ela me abraça, minha irmãzinha que agora é, de muitas formas, mais sábia do que eu.
A manhã finalmente chega e logo o carro para na porta. O enfermeiro suíço, eficiente e gentil, ajuda a acomodar Lara na van adaptada, as malas estão no porta-malas. É um momento triste, feliz… esse misto de sentimentos é surreal.
Dante segura a mão de Lara. — Você vai brilhar, querida. E nós estaremos aqui, te acompanhando a cada passo.
Lara sorri, seus olhos brilham. — Cuida dela para mim — ela sussurra, com um aceno discreto para mim.
Melissa então se aproxima, nossa pequena não chora, apenas fica diante da cadeira de rodas, séria, e entrega a Lara um desenho. São elas duas, de mãos dadas, mas com um avião no céu, ligado a uma linha pontilhada que vai até uma pequena casa com uma bandeira suíça desenhada. E, saindo do avião, há pequenos corações.
Lara pega o desenho, as lágrimas escorrendo. — Vou pendurar na minha parede, minha irmã postiça, e você vai me mandar um por semana, combinado?
Melissa acena, feliz, e então se inclina e dá um beijo rápido na bochecha de Lara. É um gesto tão espontâneo, tão afetuoso, que nos deixa a todos sem reação.
É a despedida perfeita.
A van parte, desaparecendo na curva do portão, ficamos os três no caminho de entrada, o vazio da partida nos envolvendo, Dante coloca um braço ao redor dos meus ombros e o outro ao redor de Melissa, puxando-nos para perto dele.
Ela não se afasta, fica ali, encaixada entre nós, sua cabecinha repousada no braço do pai.
O silêncio não é triste, é cheio. Cheio de saudade, sim, mas também de promessa, Lara parte para sua cura enquanto nós ficamos para a nossa.
E pela primeira vez, olhando para a casa grande e vazia atrás de nós, e depois para o homem e a criança ao meu lado, sinto que o lugar para onde estamos indo — seja uma casa nova, seja um futuro incerto — não é uma fuga.
É uma jornada. E finalmente, estamos nela juntos.