O despertador não toca. Meus olhos se abrem às 5:15, como se um instinto afiado pela tensão tivesse assumido o comando. A escuridão está carregada com o silêncio da espera. O tique-taque do relógio é um metrônomo vazio.
Visto roupas escuras. O casaco de Dante ainda está sobre a poltrona. Visto-o. O tecido pesado, agora frio, ainda carrega a memória do seu cheiro e do gesto que o colocou ali. É uma armadura.
Saio do quarto em silêncio. A mansão dorme, mas sua paz é ilusória. A lembrança de Torres na guarita me faz escanear cada sombra.
Dante já está no hall de serviço, perto da porta dos fundos e também veste escuro. Parece não ter dormido, há uma frieza nova em seus traços, mas nossos olhos se encontram e um entendimento rápido passa entre nós. O que foi dito no carro está agora lacrado sob a superfície, transformado em combustível.
— Nenhum sinal ainda — sussurra, a voz rouca.
Às 5:32, um farol pisca duas vezes além do portão, meu coração dispara. Dante aciona o comando.
Um veículo utilitário escuro desliza para dentro e Leandro desce. Seu rosto, sob a luz fraca, está sério e ele não está sozinho.
Do lado do passageiro, um homem desce com movimentos de fantasma. Magro, pálido, cabelo desgrenhado, olhos como buracos vazios. Um roupão de hospital sobre um pijama listrado. Gustavo Moraes.
Dante dá um passo à frente, mas Leandro ergue a mão, um gesto de cautela. Ele apoia Moraes, que olha para a mansão com confusão profunda.
— Dentro — ordena Leandro. — Rápido.
Nós os seguimos. Leandro guia Moraes pela cozinha escura, por um corredor estreito, até uma pequena sala de despensa que Dante preparou. Uma cama hospitalar, mas confortável, água, luz fraca. Uma cela segura, mas mais acolhedora que o Sanatório.
Moraes senta na cama, trêmulo. Seus dedos esqueléticos agarram o roupão.
— Ele está sob sedação pesada há semanas — Leandro explica, a voz baixa. — Meu contato trocou a medicação por placebo há dois dias. Isto é ele ‘acordando’. Ele não fala, mas escreve.
Logo estende um caderno espiral surrado do bolso e entrega a Dante. — Estava escondido no colchão. Ele riscava coisas quando achavam que estava catatônico.
Dante pega o caderno. Aproximo-me. As páginas estão cheias de rabiscos, números, símbolos. Em algumas, frases truncadas, em letra trêmula e regressiva.
“Lote 7… não era 7… sangue no soro…”
“A assinatura não é minha… eles copiaram…”
“Ela veio… a mulher do jardim… ela sabia…”
“O homem do fogo… ele queima os papéis…”
A última frase me paralisa. O homem do fogo.
— Ele está falando da Beatriz — sussurra Dante, o dedo sobre “a mulher do jardim”. — Ela foi vê-lo. Antes.
— E “o homem do fogo” pode ser o Torres — completo, um gelo na espinha. — Ou o próprio Viktor, limpando os rastros. É testemunho, precisamos que ele fale, que assine algo.
Leandro balança a cabeça. — Não está em condições e qualquer pressão ele recua completamente. Trouxe-o porque aqui está mais seguro, e porque vocês precisavam ver. Mas é uma prova frágil. Inutilizável agora.
Olhamos para o homem quebrado. A frustração é um gosto amargo. Estamos tão perto.
— E as outras coisas? — pergunta Dante, fechando o caderno com cuidado. — Os símbolos?
— Pode ser código, pode ser delírio. Não sei. Preciso levá-lo daqui antes do amanhecer. Tenho um lugar mais seguro, onde posso tentar… estabilizá-lo. Mas leva tempo, tempo que vocês podem não ter.
— Faça — diz Dante, a voz sombria. — Tire-o da cidade, estabilize-o e nos mantenha informados de qualquer progresso.
Leandro acena. — Preciso de algumas coisas como medicamentos, coisas discretas.
— Dê a lista para a Clara — ordena Dante. — Ela cuida.
O olhar de Leandro pousa em mim, em avaliação. Vê o casaco, minha postura. — Certo.
Enquanto ele sussurra uma lista de itens, meu cérebro já processa. O Dr. Elias. De forma indireta.
De repente, Moraes levanta a cabeça. Seus olhos, antes vazios, fixam-se em mim. É um olhar de puro terror. Ergue uma mão trêmula e aponta para mim, ou para algo atrás enquanto um gemido gutural sai de sua garganta.
Todos congelamos. Viro-me. Só a escuridão do corredor.
— O que é? — pergunto, suave.
Moraes balança a cabeça, olhos arregalados no vazio atrás de mim. Sussurra algo quase inaudível.
— …tem… olhos… nos… quadrados…
Olhos nos quadrados. Câmeras.
Uma possibilidade horrível se forma. Viro-me para Dante. — Os sistemas de segurança. Os monitores.
O rosto dele empalidece, Dane entende. Se a paranoia de Moraes for uma memória distorcida de algo real…
— Torres — diz o nome como uma maldição. — Acesso total. Poderia ter instalado algo… extra.
A fortaleza pode ter os olhos do inimigo dentro.
— Precisamos varrer a casa — sussurro. — Agora. Enquanto está escuro.
Leandro acalma Moraes com um murmúrio. O homem se recolhe, o momento de lucidez passando.
— Eu fico com ele até estar pronto — diz Leandro.
— Vocês vão caçar seus fantasmas, então cuidado. Se ele plantou olhos, pode ter plantado ouvidos também.
Dante e eu trocamos um olhar, a missão mudou e a caça ao espião começa agora.
Saímos da despensa. No corredor escuro, ele se vira para mim, na penumbra, seu rosto é uma máscara de fúria concentrada.
— Você pega a ala leste e os andares de serviço — ordena, a voz um sopro áspero e próximo.
A proximidade é forçada, nossos corpos quase se tocando, sinto o calor dele, a tensão irradiando.
— Eu faço a ala oeste, procuramos por qualquer coisa que não pertença, use isto. — Tira um pequeno detector de radiofrequência do bolso. — Básico, mas pega transmissões ativas.
Pego o dispositivo, nossas mãos se tocam, mas desta vez, não há choque, há a certeza fria e compartilhada do perigo. Ele segura minha mão por uma fração a mais, um aperto firme, cuidado.
— Você também — respondo, e meu polegar passa sobre os nós dos dedos dele, um gesto instintivo de solidariedade.
Ele solta, seus olhos brilham na escuridão e em seguida se vira e desaparece.
Fico sozinha, o detector frio na mão. Começo meu trabalho, sala por sala, corredor por corredor, o detector permanece silencioso, mas minha atenção está nos detalhes: um quadro torto, um livro movido, uma tampa de tomada solta.
É meticuloso e assustador, cada som normal da casa parece amplificado, hostil, estou caçando um fantasma que pode não existir.
Ao passar pelo quarto de Lara, paro. Ela está lá, dormindo, inocente. A raiva por Viktor queima com uma chama nova e mais fria, ele invadiu nosso santuário.
Continuo, na lavandaria, o detector emite um som baixo perto de um exaustor, meu coração salta, mas é apenas interferência de um disjuntor velho, então respiro fundo.
Duas horas se passam, o céu clareia. Encontro-me com Dante no ponto combinado: a biblioteca. Ele entra pela outra porta, tenso enquanto sacode a cabeça.
— Nada na ala oeste. Você?
— Nada, apenas Interferências falsas. — A frustração é evidente. — Talvez tenha sido só delírio.
Ele não parece convencido, seus olhos percorrem a sala. — Ou é muito bem escondido. Torres é ex-militar, sabe como se esconder.
— O que faremos então?
Ele se vira. A luz do amanhecer ilumina metade de seu rosto. — Assumimos que estamos sendo vigiados, criamos uma rotina falsa. E usamos isso a nosso favor.
— Isolamos as áreas “seguras” — completo. — E usamos apenas essas para conversas reais.
— Exatamente. A dispensa, por enquanto, é segura, meu escritório… precisa ser varrido por um profissional. O seu quarto…
— Meu quarto — interrompo, uma certeza súbita. — Eles não vigiaram, não ainda, porque até recentemente, eu não era uma ameaça. — Olho para ele. — Mas o seu pode estar comprometido.
Ele acena, lentamente. — É um risco, então, as reuniões estratégicas são na despensa ou… — pausa, os olhos se encontrando com os meus. — Ou no seu quarto.
As palavras pairam no ar carregado de poeira, “o seu quarto”. Torná-lo o centro de comando da nossa guerra é um passo íntimo, perigoso.
— É o mais lógico — digo, forçando a neutralidade. — É onde Viktor menos esperaria.
— Concordo — a resposta é rápida, mas seu olhar pergunta sobre os limites que isso cruzará.
O som de passos leves no corredor nos faz congelar, trocamos um olhar de alerta e Dante faz um gesto rápido. Escondemo-nos atrás de uma alta estante, num nicho escuro.
Os passos param e a porta se abre.
É Melissa.
Ela entra, de pijama, descalça. Seus olhos varrem a sala e caminha até o centro, sob a luz do amanhecer, senta-se no tapete com seu bloco de desenho.
Dante e eu ficamos imóveis, a proximidade é extrema, meu ombro pressiona contra o peito dele, sinto a batida acelerada do seu coração através do tecido. Ou será o meu? Seu hálito quente roça meu cabelo, ficamos assim, paralisados.
Melissa desenha com concentração intensa, para, olha para o desenho, depois levanta a cabeça e olha diretamente para nossa estante. Não para os lados, diretamente para o nosso nicho, como se soubesse.
Ela vira a página do bloco para nós.
Um desenho simples, duas figuras de palito, escondidas atrás de um retângulo (a estante). Do lado de fora, uma figura menor sentada, acima da estante, um pequeno olho aberto. Uma linha pontilhada sai do olho, atravessa a estante e aponta para as duas figuras.
Há um olho. E ele vê vocês.
O sangue parece congelar, ela sabe.
Melissa fecha o bloco, se levanta e sai, deixando a página virada no chão.
Dante sai primeiro, o rosto lívido, pega o desenho e a mão treme.
— Como? — a palavra sai rasgada.
Olho para onde o “olho” estava desenhado, meus olhos sobem, no alto da estante, camuflado na ornamentação de madeira, há um pequeno orifício, do tamanho de uma cabeça de alfinete. Quase imperceptível.
— Lá — aponto.
Dante sobe numa cadeira, examina e quando desce, seu rosto é fúria absoluta. — É uma câmera, minúscula, sem fio. — Olha para o desenho e para mim. — Ela sabia que estava lá, sabia que nós a encontraríamos hoje. Como?
A resposta atinge-me, não é premonição. É lógica.
— Porque nos viu sair de madrugada. Viu a energia, a caça, sabe que quando algo muda, nós procuramos. E este “olho” não deveria estar aqui, ela nos deu o mapa.
Ele fica em silêncio, digerindo. A filha que ele acreditava estar perdida cartografava o campo de batalha.
— Precisamos remover isso — diz, contido. — Mas não agora, não sabemos se é transmissão ao vivo então se removermos, saberão que descobrimos.
— Então esta sala é palco — concluo. — Falamos aqui apenas o que queremos que ouçam.
Ele acena. — E seu quarto é nosso quartel-general. — Pausa, o olhar pesado. — Você está disposta? A ter a guerra entrando no seu único espaço privado?
Olho para o desenho no chão, para o olho invisível. O covil do leão está aqui dentro.
— Ele já entrou — digo, uma determinação fria se estabelecendo. — Agora, é hora de contra-atacar.
A partir de hoje, meu quarto não é mais um refúgio, é uma fortaleza. E a primeira ordem é: encontramos aquele gravador.