CAPÍTULO 16: O COVIL DO LEÃO

2073 Palavras
O silêncio dentro do carro é uma terceira pessoa. Ele se senta entre Dante e eu, espesso, carregado do que foi dito no sítio do Leandro e do que está por vir. Seu casaco ainda está em meus ombros. O peso do tecido, o seu cheiro residual — madeira, couro, e o resíduo seco e amargo de uísque caro — me envolve como um segundo pacto, mais íntimo e mais perigoso que o primeiro. Meus dedos, escondidos nas mangas compridas, tocam a borda úmida onde a chuva respingou. A memória de seus dedos ajustando o cinto, aquele choque elétrico, ainda faz um zumbido baixo nos meus nervos. Dante dirige. As mãos dele firmes no volante são as mesmas que assinaram o contrato, que entregaram o relógio, que cobriram meus ombros. O perfil dele é uma escultura de granito sob a luz fugaz dos postes que riscam a estrada escura de volta para a cidade. A tensão não sai dele; apenas se transforma, torno-se uma energia concentrada, afiada, pronta para ser disparada. — O Leandro vai conseguir? — pergunto, quebrando o silêncio não por necessidade, mas para ouvir minha própria voz, para me certificar de que ainda estou aqui, dentro desta realidade impossível. — Se alguém pode conseguir, é ele. — A voz de Dante é rouca, o cansaço das últimas quarenta e oito horas finalmente aparecendo. — Ele tinha… uma ligação com a Beatriz. Um respeito. Sabia que algo estava errado antes de todos. Foi afastado pelo Viktor com promessas de aposentadoria dourada, mas recusou e saiu. E isso lhe dá credibilidade. “Uma ligação”. A palavra paira. Penso na dedicação silenciosa do Dr. Elias, em Leandro e seu café amargo num sítio perdido. Há homens bons nas sombras desta história. É um pensamento que me dá um frágil fio de esperança. — E se o Moraes estiver… inacessível? Como o Leandro disse? Dante respira fundo, um som profundo que parece vir do fundo do peito. — Então teremos que encontrar outra prova. Mas ele é a peça que falta. O homem que viu a podridão de dentro e tentou, de alguma forma, documentá-la. Se ele estiver quebrado… — Ele não termina, não precisa. Olho pela janela, a paisagem rural já dá lugar a bairros adormecidos. A chuva diminuiu para uma garoa fina que distorce as luzes das casas, transformando-as em manchas douradas e tristes. Penso em Lara, provavelmente dormindo naquele quarto azul enorme, sonhando talvez com um futuro onde a doença é apenas uma memória distante. O fogo na clínica não a tocou fisicamente, mas queimou um pedaço da sua segurança, da nossa segurança. A fúria reacende, mas agora é um carvão quente, mantido em brasa, não uma chama aberta. Ela agora é útil. Sinto o olhar de Dante sobre mim antes de virar a cabeça. Na penumbra do carro, seus olhos são apenas dois pontos mais escuros, mas a atenção é total. — Você estava impressionante lá atrás — ele diz, inesperadamente. — Com o Leandro. Foi firme, Clara. Não parecia alguém que vendeu o silêncio. Parecia alguém que comprou uma guerra. Sua observação me pega desprevenida, não sei o que responder. “Obrigada” parece errado. “Eu não tive escolha” soa fraco, então fico em silêncio, absorvendo as palavras. — A Beatriz… — ele começa, e a sua hesitação é uma coisa rara, vulnerável. — Ela também era feroz. Mas de um jeito diferente. Mais… idealista. Acreditava que a verdade, por si só, venceria. Ela não calculava os riscos como você calcula. — Ele faz uma pausa, os dedos batendo levemente no volante. — Às vezes me pergunto se ela tivesse a sua frieza estratégica… talvez estaria viva. É uma confissão carregada de dor e de uma análise brutal que só alguém que viveu no mesmo inferno poderia fazer. Não me comparo a ela, não posso, mas entendo o que ele diz. Minha “frieza estratégica” nasceu no chão de um hospital, na planilha de dívidas, na escolha calculada de vender minha alma. Não é uma virtude. É uma cicatriz. — Eu não sou feroz por acreditar na verdade, Dante — falo, olhando para as minhas próprias mãos, envoltas no tecido do seu casaco. — Sou feroz porque não tenho mais nada a perder. É uma diferença importante. Ele não responde por um longo tempo. O carro desliza para a avenida principal, o asfalto brilhante refletindo os faróis. — Talvez — ele finalmente diz, a voz tão baixa que quase se perde no ronco do motor. — Talvez seja essa a única ferocidade que resta neste mundo. A dos que já perderam tudo. A proximidade no carro parece diminuir. Não fisicamente — ainda há um abismo de couro preto entre nós — mas o ar fica diferente. Mais compartilhado. A trincheira que havíamos ocupado como aliados táticos ganha uma profundidade emocional inesperada, perigosa. Ele desvia para um caminho mais escuro, que leva ao bairro fortificado onde fica a mansão enquanto a chuva para completamente. O silêncio volta, mas agora é um silêncio consciente, carregado do que foi dito e do que ficou suspenso. Ao passar pelo portão, vejo a silhueta de Torres, o chefe de segurança, na guarita. Ele acena para o carro, seu rosto uma máscara sob a luz fluorescente. O homem que testemunhou nosso “casamento”. O homem que pode ser os olhos e os ouvidos de Viktor dentro da nossa fortaleza. Um calafrio que não tem nada a ver com o frio corre por mim. Dante estaciona na garagem subterrânea, cavernosa e iluminada por luzes frias de LED. O motor se cala, e o silêncio repentino é quase ensurdecedor. Ele desliga a ignição, mas não se move. Fica sentado, as mãos ainda no volante, olhando para o painel escuro. — Obrigado — ele diz, novamente, mas o significado agora parece mais amplo. — Por quê? — Por não ter fugido hoje, por ter ido, por ter visto. Por… — ele vira a cabeça, e na luz mortiça da garagem, vejo a exaustão total em seus traços, mas também uma determinação renovada. — Por me fazer lembrar que ainda posso agir. E não apenas reagir. É a maior admissão de vulnerabilidade que ele já me fez. O homem que comprou meu silêncio, que controla cada aspecto desta farsa, está me agradecendo por tê-lo tirado da paralisia. Antes que eu possa responder, ele se move. Abre a porta e sai. A ação é rápida, quebrando o momento. Eu o sigo, ainda envolta no seu casaco. O ar da garagem é gelado e cheira a óleo e concreto. Caminhamos juntos em direção ao elevador privativo, nossos passos ecoam no vazio. No espaço fechado do elevador, a proximidade é esmagadora. Ele está a menos de um metro de distância, posso distinguir os fios de prata em suas têmporas, a tensão no músculo da sua mandíbula, sentir o seu cheiro, agora misturado com o frio da noite que nos envolve. É um cheiro de poder e de cansaço, de decisões impossíveis e de uma solidão tão profunda quanto a minha. Dante olha para os números que iluminam, subindo, não olha para mim. Mas a consciência do corpo dele, da minha presença aqui, neste espaço minúsculo, é uma corrente entre nós. A porta se abre para o hall silencioso da mansão, a luz noturna está baixa, é tarde e todos dormem. Quando ele está prestes a se virar para o corredor que leva à sua ala, ele para e me olha de cima a baixo, seu olhar percorrendo a imagem que faço: seu casaco enorme em meus ombros, meu rosto lavado pela fadiga e pela adrenalina, meus olhos que devem refletir a mesma tempestade que vejo nos dele. — Amanhã — diz ele, a voz um sussurro grave que parece vibrar no silêncio do hall. — Amanhã, começamos. Com o que o Leandro trouxer ou sem ele. Não podemos parar. — Eu sei. Ele acena, hesita. Parece que vai dizer algo mais, mas em vez disso, levanta a mão. Por um segundo acho, com um salto absurdo do coração, que vai tocar meu rosto. Mas sua mão para no ar, e ele apenas ajusta a gola do casaco em meu ombro, um gesto que já fez antes, mas que agora, na quietude da casa adormecida, parece infinitamente mais íntimo. Seus dedos roçam meu pescoço por uma fração de segundo. A pele fica sensibilizada, como se queimada. — Boa noite, Clara — ele diz, e meu nome na sua boca, dito dessa forma, com aquela carga, soa como uma coisa nova. — Boa noite, Dante. Ele se afasta, seus passos são silenciosos no tapete grosso, observo sua silhueta alta desaparecer na escuridão do corredor oeste. Fico parada no hall, envolvida em seu cheiro, em seu calor residual, no eco do toque fugaz. Meu coração bate com uma cadência estranha, acelerada, mas não com medo. Com algo mais complexo, mais arriscado. Subo as escadas para o meu quarto. A casa é um túmulo de luxo. Ao passar pelo quarto de Melissa, vejo que a porta está fechada, mas uma fresta de luz sai por baixo. Ela deve estar acordada. Desenhando, talvez? Registrando a energia alterada da casa, a volta da nossa missão noturna. No meu quarto, finalmente tiro o casaco. Seguro-o nas mãos por um momento, sentindo seu peso, não o penduro, deixo-o sobre uma poltrona, como se fosse um visitante, uma testemunha. Visto o pijama e lavo o rosto, a água está fria. No espelho, a mulher que me olha de volta tem olheiras profundas, mas os olhos estão vivos e alertas, mas algo mudou. O ataque de Viktor não me quebrou, me fortaleceu. E o que aconteceu hoje com Dante… isso me desequilibrou de um jeito que ainda não consigo nomear. Deito-me na cama enorme. O relógio no meu pulso marca 2:47 da manhã. O tique-taque é um som familiar, quase um conforto agora. Minha mente revira o dia: a fúria gelada ao saber do incêndio, a decisão de enfrentar, a viagem ao sítio, a camaradagem tensa com Leandro, a volta no carro, as palavras trocadas, o toque. Talvez essa seja a única ferocidade que resta. A dos que já perderam tudo. Nós dois perdemos. Ele, a esposa, o filho não nascido, a inocência. Eu, meus pais, minha liberdade e a segurança de Lara. E no meio desse deserto, estamos construindo uma fortaleza não só de concreto e segurança, mas de uma lealdade forjada no fogo compartilhado. É assustador porque essa lealdade, essa parceria que nasceu de uma transação… está começando a parecer real. E se for real, o preço de perdê-la será muito maior do que o preço de tê-la comprado. Meu telefone vibra silenciosamente no criado-mudo. É uma mensagem de um número desconhecido. “Portão de serviço. Amanhã, 05:30. Traga o Sr. L. Vou direto.” - L. Leandro. Ele não esperou até de manhã. Ele vai esta noite e o frio da adrenalina me atinge novamente. Ele está indo ao covil do leão. Agora. Envio uma mensagem rápida para Dante: “Leandro vai agora. Mensagem recebida. 05:30 portão de serviço.” A resposta vem em segundos: “ Acordarei. Esteja pronta.” Pronta. Estou sempre pronta. E agora, este é o único estado que me resta. Mas quando fecho os olhos, não vejo o sanatório fortificado ou o rosto possivelmente destruído de Gustavo Moraes. Vejo o perfil de Dante contra a janela do carro, iluminado por breves clarões de luz. Vejo suas mãos no volante. Sinto o peso do casaco e o fantasma de seus dedos no meu pescoço. O covil do leão que vamos enfrentar amanhã não é só o de Viktor. É o covil de tudo o que ele representa: a ganância que mata, os segredos que silenciam. E, de algum jeito que ainda não compreendo totalmente, estamos entrando lá juntos. Não como marido e mulher por contrato. Não como chefe e funcionária. Mas como aliados. E talvez, apenas talvez, como algo mais frágil e mais forte do que qualquer contrato poderia prever. A noite é longa e inquieta. O primeiro clarão de luz começa a raiar no horizonte quando, por fim, caio em um sono agitado, com o cheiro de madeira e perigo ainda impregnado em minha pele, e a sensação de que, ao cruzar o portão de serviço ao amanhecer, não estaremos apenas buscando uma prova. Estaremos selando, de uma vez por todas, o lado em que escolhemos lutar. Juntos.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR