CAPÍTULO 15: O PREÇO DO RESGATE

1624 Palavras
A fúria é um animal vivo dentro do meu peito, arranhando por sair. Subo as escadas da mansão dois degraus de cada vez, o desenho de Melissa apertado na minha mão até o papel ficar úmido e quente. O som do telefone do Dr. Elias ainda ecoa nos meus ouvidos — incêndio elétrico, muito específico, muito pontual — e cada sílaba alimenta as chamas que me consomem por dentro. Viktor tocou na linha de vida da minha irmã. E sorriu enquanto o fazia. A porta do escritório de Dante está fechada. Bato e empurro. Ele está de pé diante da lareira apagada. Não se vira, mas os ombros sob a camisa se tensionam. Sente a tempestade. Atravesso o cômodo e jogo o desenho sobre a mesa de mármore. O som é seco. — Sanatório São Gerardo — digo, minha voz áspera. — É onde está o auditor. O homem que pode enterrar o Viktor. Ele se vira. Seus olhos vão para o desenho, depois para mim. Há fadiga, mas também respeito diante da minha fúria. — E como sugere que procedamos? — pergunta, com um fio de sarcasmo. — Chegamos lá e agimos — retruco, avançando. — Inventamos uma razão. Mas vamos. Hoje. Antes que ele coloque fogo na próxima coisa com a minha irmã dentro. A máscara dele racha. Algo visceral sai das profundezas. — Você acha que não sei? — a voz é um rosnado carregado. — Você acha que não carrego esse medo desde que ouvi 'Lúmen' no telefone da polícia? Desde que soube que minha ambição matou a mulher que amava? Ele vai até a janela. — Ela estava grávida, Clara. As palavras caem como pedras. O ar some. — Nove semanas. Ninguém sabia. Nem eu. Ela ia me contar naquela noite. Enquanto eu me preocupava com reuniões, ela carregava nosso filho. E os dois morreram porque ela descobriu um segredo que eu fui covarde demais para enfrentar. Ele se vira. Seus olhos estão secos, queimados. — Então não me fale sobre medo. Eu já perdi. E quase perdi a Melissa. E agora… — engole em seco. — Agora ele toca no mundo da sua irmã. E eu olho para você e vejo a Beatriz. A mesma coragem teimosa. E tenho medo. Não dele, mas de falhar de novo. De deixar que outra pessoa que… que começou a importar… seja destruída. O silêncio é espesso. A raiva em mim se transforma. Mistura-se com reconhecimento. Somos espelhos. Dou dois passos à frente. — Você não vai falhar — digo, a voz mais suave, mas firme. — Porque desta vez você não está sozinho, e eu não sou a Beatriz, Dante. Eu sou mais dura. Já estou dentro da fortaleza. Ele sabe que não pode me subestimar mais. Ele me observa. Vejo alívio em seus olhos. Como tivesse encontrado alguém para ajudar a carregar o peso que está sobre ele. — O Sanatório — ele diz, tom pragmático mas diferente. Há um nós agora. — É fortificado. Não podemos ir como nós mesmos. — Então vamos como quem não somos. — Há um homem. Leandro. Meu segurança antes do Torres. Era próximo da Beatriz. Quando o Torres assumiu, pediu demissão. Mora num sítio. Ele sabe coisas. Pode nos ajudar. — Você confia nele? — Confio que ele odiava o Viktor. Precisamos ir. Hoje. A decisão paira no ar. O plano é perigoso. Mas é ação. — Vou me preparar — digo, virando-me. — Clara. Paro. O jeito como diz meu nome é diferente. — Obrigado por não ter medo. Por me fazer lembrar como é não ter medo. Aceno e saio. No meu quarto, troco o tailleur por roupas de combate: jeans escuro, camiseta, tênis. Penteio o cabelo para trás. No espelho, vejo uma estranha. Alguém pronto para a guerra. Quando desço me surpreendo, Dante também se trocou. Jeans, camisa preta, botas. Sem o terno, parece mais real. Mais perigoso. Um soldado, não um CEO. — O Marcos nos leva — ele diz. — Depois volta. Não quero envolvê-lo mais. Saímos pela porta dos fundos. O SUV é discreto. Marcos ao volante, olhos vigilantes. A viagem é silenciosa. Cidade, estrada rural, terra batida. O sítio do Leandro é modesto: casa de madeira, galpão, cercado com cavalos. Um homem alto sai da casa. Rosto marcado, olhos claros. Leandro. — Demorou — diz, olhando para Dante, depois para mim. — Preciso de ajuda. Leandro me avalia. — É ela? — É. Dentro, café forte em xícaras de metal. Sem cerimônia. — Sanatório São Gerardo — Dante vai direto ao ponto. Leandro não se surpreende. — Um dos lugares do Viktor. Fortificado. Ex-militares na segurança. Pacientes na ala de "cuidados especiais" não têm janelas. — Como entramos? — pergunto. — Vocês não entram. Eu entro. Tenho um contato. Posso verificar. Mas se ele estiver lá… tirá-lo é quase impossível. A não ser que ele queira sair e esteja lúcido. E pelo que ouvi, Moraes não está bem. Drogas. Isolamento. Pode ser uma casca vazia. A perspectiva é desanimadora. — Mesmo assim — insisto. — Ele é a prova viva. — Ela tem razão — Dante diz. Leandro suspira. — Certo. Vou hoje à noite. Me dê até amanhã de manhã. Mais não prometo nada. É o melhor que temos. Na volta, o silêncio no carro é pesado. A ansiedade da espera substitui a adrenalina da ação. Olho pela janela. O céu está quase n***o. Sinto o olhar de Dante e viro-me. Na penumbra, seus olhos brilham. — Obrigado — ele sussurra. — Por não desistir. — É o preço de entrada no clube dos que perderam tudo — respondo, sem pensar. Ele estende a mão. Ajusta o cinto de segurança torcido no meu colo. Seus dedos roçam os meus. Um choque elétrico, pequeno mas intenso, percorre meu braço. Ele sente também — vejo um espasmo em seus dedos. Mas não recua. Termina de ajustar o cinto, a mão permanece próxima do meu quadril. O ar dentro do carro fica carregado. Não é desejo. É o reconhecimento físico da aliança. Dois corpos unidos por um propósito perigoso. Ele retira a mão lentamente. Nossos olhos se encontram. Na escuridão, há uma centelha nova nos olhos dele. O resto da viagem é silêncio consciente. A chuva começa assim que chegamos na mansão. Saímos do carro, e antes que eu reaja, Dante tira seu casaco de couro e o coloca sobre meus ombros. O gesto é rápido, instintivo, protetor. O casaco guarda o calor do seu corpo, do seu cheiro. — madeira, ar limpo, perigo. — Está frio — diz, mas o olhar diz outra coisa. Fico parada, envolvida. O gesto é uma afirmação. Você está sob minha proteção. — Obrigada. Ele acena. Seus dedos roçam os meus novamente, breve mas deliberado, antes de subir os degraus, subo logo em seguida. No hall, Dona Alzira nos vê. Seu olhar vai do casaco em meus ombros para nosso rosto. Ela registra. Melissa está no topo das escadas, observa e desce até ficar diante de mim. Toca a manga do casaco. Um toque leve. Olha fixamente para mim. Vejo aprovação em seus olhos, um aceno silencioso. Ela sobe e desaparece. Fico no hall, envolta em seu casaco, no seu cheiro dele. O ataque de Viktor deveria ter nos enfraquecido. Em vez disso, forjou algo. Um laço fora do contrato. Já na minha suíte, não tiro o casaco imediatamente. Fico na janela. A chuva cria rios no vidro. Meu reflexo está embaçado — uma mulher com casaco grande, anel no dedo, relógio no pulso. Deslizo a mão no bolso do casaco e encontro um papel dobrado. Um recibo de estacionamento do hospital, no verso, sua letra angulosa: cálculos, horários. E uma frase: "Preciso contar a verdade antes que seja tarde." Foi escrito antes de mim. Ele já planejava enfrentar Viktor. Só precisava de coragem. E eu fui o empurrão. Ouço passos leves, fico feliz quando Melissa entra com seu pijama azul e descalça, estuda o casaco e depois meu rosto, logo depois ergue as mãos pequenas, palmas para cima. Coloco minhas mãos nas dela. Sua pele é macia, mas firme. Ela vira minhas mãos, toca o relógio, depois o anel. Seus olhos perguntam: "Isso te prende ou te protege?" Ela solta minhas mãos, pega lápis e papel e escreve: "Ele sonha alto. Acorda gritando e diz 'desculpa'." Um calafrio percorre meu corpo, ela ouve, sabe dos pesadelos, da culpa. Melissa aponta para o casaco, depois para a porta do quarto de Dante e faz gesto de cobrir os ombros, em seguida toca seu coração e aponta para mim. Ele te cobre. Vem do coração. Ela escreve mais uma coisa, devagar: "Mamãe gostaria de você." A folha cai da minha mão. Ela se vira para ir, na porta, para e olha para trás enquanto esboça um sorriso. Leve, quase imperceptível. Mas é o primeiro e desaparece no corredor. Fico tremendo. agora o casaco pesa mais, o recibo com sua culpa, a confissão de Melissa. A aprovação de uma mulher morta. Caminho até a janela. Meu reflexo está diferente, o preço do resgate continua sendo pago. Mas talvez não seja só um resgate. Ele me deu uma fortaleza e eu estou dando de volta um fragmento de humanidade. Ele me cobre do frio e eu estou aquecendo o gelo ao redor do seu coração. É perigoso, mais que qualquer investigação. Simplesmente porque envolve o que não está no contrato: o que podemos começar a sentir. Amanhã, saberemos sobre o auditor. Amanhã, a guerra continua. Mas nesta noite, há uma trégua. E nela, algo novo respira. O tique-taque do relógio marca um novo ritmo. Não mais uma contagem regressiva. Mas a batida de algo que, após tanto tempo congelado, talvez esteja voltando à vida.
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