CAPÍTULO 14: ATAQUE À RETAGUARDA

1792 Palavras
A paz é uma ilusão frágil neste mundo. Ela se quebra numa terça-feira comum, no meio da tarde, com um toque de celular. Estou na sala de estar, revisando um relatório de segurança sobre os horários da enfermeira de Lara, quando meu telefone pessoal toca. É o Dr. Elias. Seu nome na tela já é um mau presságio. — Clara — a voz dele soa seca, cortada, sem o tom calmo habitual. — Houve um incidente. Na Clínica Vitalis, onde Lara faz fisioterapia respiratória duas vezes por semana. O ar sai dos meus pulmões. — Ela está bem? Onde ela está? — Ela está bem. Fisicamente. Ela não estava lá. O incidente parece que foi … dirigido. — Dirigido? — repito, a palavra ecoando oco na minha mente. — Um curto-circuito. No quadro de energia que alimenta exclusivamente a sala de fisioterapia e a farmácia adjacente. Os equipamentos de última geração, o nebulizador de alta pressão que ela usa… tudo foi queimado. A sala está completamente destruída. O fogo foi contido, mas… — Ele faz uma pausa, e ouço-o engolir em seco. — Foi muito específico, Clara. Muito pontual. Não afetou nem o corredor ao lado. Foi um ataque preciso, cirúrgico. A clínica. A visita que eu planejo. O aviso de Viktor no evento. “Alguns desses lugares podem ser… deprimentes.” Não foi um aviso. Foi uma previsão. — Viktor — a palavra sai dos meus lábios como um veneno. — Não posso provar — diz o Dr. Elias, baixando a voz. — Mas não acredito em coincidências. Você está no meio de algo perigoso. E Lara, por estar ligada a você, também está. Precisa tirá-la daí. — Não posso! — a resposta é um sussurro desesperado. O pânico, um animal vivo, arranha minhas entranhas. — A segurança dela é… é o que há de melhor aqui. — Segurança contra o quê, Clara? Contra intrusos? Ou contra o homem que paga pela segurança? — A pergunta do Dr. Elias é um golpe baixo e certeiro. Desligo, minhas mãos trêmulas. O mundo ao meu redor – a sala de estar luxuosa, a luz filtrada, o silêncio caro – parece se desfocar, torna-se uma pintura a óleo grotesca. Tudo isso, a fortaleza, o contrato, a fachada… e ele, ele conseguiu alcançar Lara. Não diretamente, não ainda. Mas ele atingiu o lugar que é uma extensão dela, o lugar que a mantém viva. Foi um tiro de aviso através da minha linha de defesa mais vital. A fúria que surge em seguida é um furacão branco e silencioso. Arde mais forte que o medo. Ele tocou na minha irmã. Encontro Dante em seu escritório na mansão, em uma videoconferência. Ele levanta os olhos, e deve ter lido a tempestade no meu rosto, porque diz algo rápido em inglês e desliga a chamada. — O que houve? — A pergunta é direta. — A Clínica Vitalis. No setor de fisioterapia, houve um incêndio elétrico, tudo foi destruído. — As palavras saem cortantes, como estilhaços de vidro. — Lara não estava lá. Desta vez. Ele não se surpreende. Seu rosto se transforma em granito. Os olhos escurecem, não com medo, mas com uma fúria gelada que espelha a minha. — Viktor. — É claro que foi um aviso para mim. Porque eu vou à Clínica São Mateus, simplesmente porque estou fuçando. Ele deixou claro que sabe. E agora mostrou como sabe e o que pode fazer. — Minha voz sobe, carregada de um tremor de raiva pura. — Você prometeu proteção! Proteção total! E ele chegou até a porta da clínica da minha irmã! O que vem depois, Dante? Um acidente no carro? Uma dose errada de medicação “fortuita”? Ele se levanta, um movimento fluido e perigoso. — Você acha que eu não sei disso? Você acha que não tenho pessoas vigiando cada movimento dela, cada profissional que toca nela? A clínica está fora do perímetro direto! É um ataque à retaguarda, Clara, calculado para nos provar que ele pode nos atingir onde dói, sem violar abertamente o “tratado”! — Tratado? — solto uma risada amarga, que soa como um choro abafado. — Que tratado? O de não agressão enquanto ele brinca de piromante com a vida da minha irmã? — O tratado de que atacar a Sra. Lobo diretamente é uma declaração de guerra! — ele grita, pela primeira vez perdendo o controle, sua voz ecoa nas paredes austeras. — Ele não queimou a sua irmã! Queimou uma sala! Para nos mostrar que pode! Para nos paralisar de medo! E está funcionando, não está? Nos encaramos através da mesa, dois animais encurralados, feridos, mostrando os dentes um para o outro. A raiva no ar é palpável, um terceiro elemento na sala. — Funcionando? — sussurro enquanto me aproximo. — Você acha que isso me paralisa? Isso me dá raiva, Dante. Uma raiva que faz o medo parecer um brinquedo. Ele mexeu com a única coisa que importa. Ele não entende que, por Lara, eu não tenho mais nada a perder. Nem mesmo o medo. Ele me observa, a respiração ainda pesada, mas vê algo no meu olhar que o faz recuar um centímetro. Não é histeria. É determinação absoluta, forjada no fogo do pânico. — O que você quer fazer? — pergunta, a voz mais contida. — Quero devolver o ataque. Não queimando uma sala dele. Arrancando o chão debaixo dos pés dele. A prova que você precisa, do Lúmen, da morte da Beatriz… temos que acelerar. Temos que arriscar mais. — É o que ele quer! Quer nos fazer agir por impulso, cometer um erro! — E nós vamos cometer! — digo, bato a mão aberta na mesa. O som é seco, violento. — Vamos cometer o erro de ser melhores que ele. Mais ousados. Mais implacáveis. Ele acha que controla tudo? Vamos mostrar que não. A partir de agora, não sou mais só a esposa de fachada ou a assistente que investiga. Sou a linha de frente. Me dê a arma, Dante. Me dê a prova final. Há um longo silêncio. O relógio de parede marca os segundos. Ele me estuda, avaliando a mudança em mim, a transformação do medo em algo muito mais perigoso. — Há um homem — ele diz finalmente, a voz baixa e grave. — O auditor, Gustavo Moraes. O que assinava os relatórios do Lumina. Ele pediu demissão há quatro meses e sumiu. Ninguém sabe onde está. Dizem que teve um colapso nervoso. Eu acho que ele tem algo. Algo que não cabe nos relatórios. — Encontre-o — ordeno, e a palavra soa estranha na minha boca, dirigida a ele. — Estou tentando. É difícil. Se Viktor o escondeu… — Então use algo que Viktor não espere. — A ideia se forma, audaciosa e temerária. — Use ela. — Quem? — Melissa. — Vejo o choque, seguido de recusa imediata, cruzar seu rosto. Antes que ele possa protestar, continuo. — Não para se colocar em perigo. Viktor a ignora. A vê como uma criança muda, inofensiva, uma tragédia doméstica. Ele não vigia os canais dela. O que ela vê? O que ela ouve, mesmo que pareça não ouvir? Ela desenha o Torres, o ex-chefe de segurança. Ela sabe das coisas. Talvez, sem querer, ela tenha visto ou ouvido algo sobre esse auditor. Um nome. Um lugar. Algo que passa despercebido por todos, menos por ela. Dante parece devastado pela sugestão. Usar a filha como ferramenta. Mas também vejo o cálculo rápido em seus olhos. É uma jogada que Viktor nunca iria antecipar. — Eu… não posso perguntar a ela. Não diretamente. Ela se fecha. — Você não precisa perguntar — digo, a voz mais suave agora. — Eu vou. Do meu jeito. Através dos desenhos. É o único idioma que ela confia. Ele hesita, a guerra entre o pai e o estrategista é visível em cada linha do seu corpo. Por fim, o estrategista vence, mas a muito custo. Ele acena, um único movimento de cabeça, pesado com culpa. — Com cuidado. O mínimo de pressão possível. Saio do escritório, o sangue ainda cantando de adrenalina e fúria nos meus ouvidos. O ataque de Viktor falhou em seu objetivo principal. Não me paralisou. Me transformou. Encontro Melissa na sala de arte. Ela está limpando meticulosamente seus lápis, organizando-os por tonalidade. Parece um ritual de ordem em um mundo desordenado. Sento-me no chão ao lado dela, não muito perto. Pego uma folha em branco e um lápis. Começo a desenhar, não rabiscos abstratos como da outra vez, mas figuras simples. Desenho uma casa, depois, uma figura de homem do lado de fora da casa. Desenho um segundo homem, menor, com um rosto triste, bem longe da casa. Ela observa, sem se intrometer. Então, pego um lápis vermelho. E desenho, com cuidado, um pequeno fogo, bem na porta da casa. Melissa para de organizar os lápis. Seus olhos se fixam no fogo vermelho. Ela olha para mim, e vejo um reflexo do meu próprio pânico nos olhos dela. Ela sente o perigo. Ela sempre sente. Então, ela pega um lápis preto. E desenha, sobre a figura do homem triste longe da casa, um grande “X”. Como uma marca. Como um alvo. Ou como uma localização. Depois, ela pega um lápis cinza-claro, quase prateado. E desenha, bem fraco, quase imperceptível, uma linha de pontos que vai do “X” até… uma forma irregular atrás da casa. Poderia ser uma colina. Ou um prédio. Ela empurra o desenho para mim e se levanta, indo para a janela. A conversa acaba. Ela dá o que tem. Estudo o desenho. O homem marcado com “X” é o auditor desaparecido? A linha de pontos… um caminho? Um esconderijo? Não é uma prova. É um palpite desenhado por uma criança traumatizada. Mas é mais do que tínhamos antes. É uma pista que nasce do mesmo ataque que deveria nos desmoralizar. Levo o desenho a Dante. Ele olha para as linhas tênues, para o “X”, e seu rosto fica pálido. — O Sanatório São Gerardo — ele murmura. — Fica numa colina nos arredores da cidade. É uma clínica de repouso… discreta. De alto custo. Onde pessoas inconvenientes “descansam”. A propriedade pertence a uma holding fantasma… que já cruzou com a gente antes. Olhamos um para o outro. O ataque à retaguarda falhou. Em vez de nos recuarmos, avançamos um passo. A fúria ainda arde em mim, mas agora temos um foco. Viktor cometeu um erro. Subestimou o que acontece quando você tira tudo de uma pessoa, menos a pessoa pela qual ela luta. Ele acendeu um fogo. E agora, vai aprender que fogos podem iluminar caminhos no escuro.
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