A rotina se estabelece com a precisão de um mecanismo de relojoaria. O tique-taque do meu novo relógio marca o ritmo dos nossos dias, cada hora alocada, cada gesto coreografado.
As manhãs começam cedo. Encontro Dante no escritório da mansão às sete em ponto para o “briefing familiar”. São reuniões curtas e sombrias. Ele passa rapidamente pela agenda do dia: compromissos públicos que exigem minha presença, telefonemas que devo atender como “Sra. Lobo”, relatórios da equipe de segurança sobre Lara e Melissa. É um balanço de ativos e vulnerabilidades. Nunca pergunto sobre seus negócios, a guerra silenciosa contra Viktor. Esse território é discutido à noite, na segunda vida que levamos.
Depois, o café da manhã performático. Sentamos na varanda envidraçada, com Lara e Melissa. Dante lê o jornal enquanto sirvo o chá, pergunto a Lara como ela está enquanto passo a manteiga para Melissa. Para quem vê de longe, parece que somos uma belíssima família feliz. Falamos sobre o tempo, sobre um programa de TV inócuo. É um momento da normalidade doméstica. Lara sorri, envolvida pela ilusão. Melissa observa, seus olhos grandes captam cada intervalo vazio, cada olhar que Dante e eu evitamos trocar.
Meus dias são preenchidos com as “obrigações de aparência”. Visito, sozinha, a Clínica São Mateus. Distribuo cestas de produtos de higiene com o logo da Lobo, sorrio para pacientes com olhos opacos de dor, aperto a mão de médicos cansados. Enquanto uma enfermeira distraída me mostra a ala pediátrica, meus olhos vasculham as estações de trabalho, as pastas sobre as mesas, os quadros de avisos. Vejo um formulário de notificação de evento adverso, abandonado perto de uma impressora. Meu coração dispara. Mas não posso pegar. Não aqui. É só reconhecimento do terreno.
Outros dias, acompanho Dante a almoços de negócios. Sento ao seu lado, calada na maior parte do tempo, mas presente. Minha função é humanizá-lo. Suavizo suas arestas com minha presença.
— “Sua esposa é um trunfo, Dante”. — Um potencial investidor comenta, seus olhos escorregam por mim de uma forma que faz minha pele encolher.
Dante sorri, um movimento raro e calculado.
— “Ela é fundamental”. — Responde, e seu pé toca o meu sob a mesa. Não é um carinho. É um toque de controle. Mantenho a pose.
As noites são o verdadeiro trabalho. Após o jantar, depois que Lara se retira para ler e Melissa é levada para dormir por Dona Alzira, a máscara cai. Encontro Dante no escritório, agora iluminado apenas pela luz azulada das telas.
Aqui, somos sócios. Cúmplices.
Ele me mostra fluxos de dinheiro que desaparecem em off-shores com nomes de fachada. Rastreio assinaturas em documentos de desvio de lotes do Lúmen, todas apontando para subordinados de Viktor. Cruzo dados de pacientes que têm reações graves com prescrições maciças feitas por médicos ligados a uma rede de clínicas que Viktor adquiriu no ano passado.
— Ele está criando seu próprio ecossistema — Dante explica, a voz rouca de cansaço.
Controle da produção, da distribuição, da prescrição e do silenciamento dos efeitos colaterais. É um circuito fechado. Lucrativo e mortal.
Minha mente jurídica se aguça neste ambiente. Vejo padrões onde ele vê números. Consigo prever o próximo movimento de Viktor com base em documentos antigos, uma lógica perversa de ganância e cobertura de rastros.
— Ele não vai parar no Lúmen — digo uma noite, analiso um contrato de aquisição de uma pequena biotecnológica.
— Ele está comprando expertise em entrega direta ao sistema nervoso central. O próximo “milagre” dele será ainda mais arriscado, mais difícil de rastrear.
Dante olha para mim, e há um novo respeito em seu olhar. Um reconhecimento frio, mas genuíno.
— Você tem um instinto para a podridão.
— Tenho um instinto para a sobrevivência — corrijo.
— É a mesma coisa, neste mundo.
Nessas horas, na penumbra do escritório, a proximidade é diferente. Não é a distância cortês do dia, nem o toque performático dos eventos. É a i********e tensa de dois soldados em uma trincheira, compartilhando mapas sob fogo. O ar entre nós parece carregado, não de desejo, mas de uma adrenalina compartilhada, perigosa. Nossos dedos às vezes se tocam ao passar um documento. Nossos olhares se encontram sobre uma descoberta chocante. É uma conexão nascida no veneno, mas é real. Talvez a coisa mais real nesta casa.
E é nesses momentos que o cansaço me vence. A dupla vida é um fardo que pesa cada vez mais. Acordo atuando, durmo investigando. Não há descanso para Clara Silva, porque Clara Silva praticamente deixou de existir.
Uma tarde, encontro Melissa no jardim de inverno. Ela está sentada no chão, não desenhando, apenas olhando para um vaso de orquídea. Sento-me ao lado dela, em silêncio. O cansaço me dói nos ossos.
Ela vira a cabeça, me observa. Então, levanta-se, vai até uma pequena estante e pega um livro de colorir e uma caixa de giz de cera. Volta e os coloca no meu colo. Aponta para uma página em branco.
— Para mim? — pergunto.
Ela acena, séria.
Pego um giz de cera azul, sem pensar. E começo a rabiscar. Não desenho nada em particular. Apenas deixo a cor se espalhar pelo papel, em movimentos amplos e cansados. É um ato mecânico, sem arte. Mas à medida que o azul cobre o branco, sinto uma tensão mínima se dissipar dos meus ombros.
Melissa observa, depois pega um giz de cera amarelo. Ela não desenha sobre o meu azul. Ela começa em seu próprio canto da página, criando um sol redondo e meticuloso. Trabalhamos lado a lado, em silêncio, cada uma em seu próprio espaço, mas compartilhando a mesma página. O mesmo alívio mudo.
É o momento mais pacífico do meu dia. Até que Dante aparece na porta do jardim de inverno. Ele para, observando a cena. Seu rosto, usualmente tão fechado, parece suavizar por uma fração de segundo. Vejo nele algo parecido com alívio, misturado com uma dor antiga. Ele vê a filha compartilhando um espaço silencioso com alguém. Algo que ele, com toda sua fortuna e poder, não consegue fazer.
Nosso olhar se encontra por cima da cabeça de Melissa. Ele não diz nada. Apenas acena, um gesto quase imperceptível, e se afasta.
Nesta noite, durante nossa sessão de trabalho, ele é menos brusco. Passa uma pasta para mim. — São os registros de acesso ao servidor no dia em que você baixou os arquivos do Lumina. O Torres acessou os logs dez minutos depois de você ter saído do prédio.
O perigo é real, tangível. Viktor sabe, com certeza, do meu papel.
— E ele não age — observo.
— Porque agora você é minha esposa. Agredi-la é declarar guerra abertamente. Ele prefere a guerra subterrânea. Está nos sondando. Nos testando.
— Como o teste do champanhe, no evento.
Dante olha para mim. — Exatamente. Você percebeu o duplo sentido. “Frutífera quanto aos nossos negócios.” Ele está se referindo ao Lúmen. E ao nosso… arranjo.
A frieza da análise não consegue esconder o nojo. Estamos casados sob a bênção cínica de um homem que acredita que tudo e todos têm um preço.
— Precisamos de uma prova que não possa ser ignorada — digo enquanto fecho a pasta. — Algo que vá direto para as autoridades, sem passar por ninguém dentro da holding.
— Estou trabalhando nisso — ele diz.
Mas pela primeira vez, vejo uma sombra de dúvida em seus olhos. A rede de Viktor é mais profunda e mais ampla do que ele imagina.
Ao me retirar para o meu quarto, passo pela porta de Dante. Está entreaberta. Vejo-o de pé, diante da janela, olhando para a escuridão. Em sua mão, ele segura um pequeno porta-retratos de prata. Não consigo ver a foto, mas seu polegar passa sobre o vidro, uma e outra vez, num gesto de saudade inconsciente.
É a primeira vez que vejo um sinal claro de que por trás do CEO, do estrategista, do homem de gelo, há um viúvo. Um homem que perdeu a mulher para o mesmo monstro que agora ameaça sua filha e… bem, e a mim.
A percepção me causa uma pontada estranha. Não é pena. É reconhecimento. Nesta guerra, ele também é um refém.
Entro no meu quarto. O relógio no meu pulso marca quase meia-noite. O anel no meu dedo pesa. Tiro o casaco, e algo cai do bolso. É o desenho que Melissa e eu fazemos juntas. O azul confuso do meu cansaço e o sol amarelo meticuloso dela, dividindo a mesma página.
Pego o desenho e o prego com um ímã no painel metálico discreto atrás da porta do meu guarda-roupa. Longe dos olhos de todos. É meu lembrete secreto.
Há, nesta vida de fachada, dois tipos de verdade. A verdade suja que investigamos à noite, que pode nos matar. E a verdade frágil e silenciosa, como um desenho compartilhado ou um gesto de saudade visto por uma fresta de porta, que me lembra, contra toda a lógica, do que ainda vale a pena proteger.
Deito-me. O tique-taque do relógio parece um pouco menos solitário. Talvez porque eu não esteja mais apenas contando os dias até a liberdade. Talvez porque, sem perceber, tenha começado a contar os dias até que possamos, ele, eu, Melissa e Lara, viver uma vida que não precise de fachada alguma.