O casamento civil acontece numa segunda-feira chuvosa, num cartório de subúrbio escolhido por sua discrição e por um juiz de paz que deve favores a Dante. Não há música. Não há flores. O cheiro no ar é de mofo e papel velho.
Estamos os quatro: Dante, eu, Heloísa e o chefe de segurança, Torres, como testemunhas obrigatórias. Heloísa veste um tailleur cinza, seu rosto uma máscara de profissionalismo ácido. Torres olha para a parede, suas mãos grandes penduram inertes ao lado do corpo. Parece mais um escolta do que uma testemunha.
— Lara não está. “Uma gripe forte”. — Minto para ela na manhã anterior, meu coração é um nó de culpa. Ela fica decepcionada, mas aceita.
— “Traga fotos!”, pede, seus olhos ainda brilham com a fábula do nosso amor relâmpago.
O juiz, um homem de meia-idade com um sotaque carregado, lê os artigos da lei com a empolgação de quem recita a lista de compras. Suas palavras ecoam na sala vazia. “Capacidade… livre consentimento… comunhão plena de vida…”
Cada termo é um soco. Livre consentimento. Assino sob coação de uma ameaça e de um desespero. Comunhão plena de vida. Nossas vidas estão em caixas separadas: seu setor de guerra, meu setor de cuidados, nossos quartos separados.
Dante está ao meu lado, imóvel. Veste um terno escuro, a única concessão à formalidade. Não olha para mim. Olha para as mãos do juiz, como se avaliasse a eficiência do gesto.
— Os contraentes afirmam, perante mim e as testemunhas aqui presentes, que desejam se unir em matrimônio? — pergunta o juiz, finalmente erguendo os olhos.
Dante responde primeiro, sua voz clara e sem hesitação. — Afirmo.
Todos os olhos se voltam para mim. Sinto a língua pesada, grudada no céu da boca. O silêncio se estende por um segundo torturante. Vejo, pelo canto do olho, Heloísa franzir levemente a testa. Torres permanece uma estátua.
Dante vira a cabeça, apenas um grau. Seu olhar é rápido, um raio laser de alerta.
Puxo ar para os pulmões. A palavra que sai é rouca, mas audível. — Afirmo.
O juiz prossegue. A troca de alianças é o momento mais grotesco. Heloísa entrega uma pequena caixa de veludo a Dante. Dentro, dois anéis de ouro lisos, sem nenhum detalhe. Frios. Impessoais. Como o nosso acordo.
Dante pega o anel menor. Pega minha mão esquerda. Seus dedos são firmes, secos. Sua pele toca a minha, sinto um choque. Não de desejo, mas de realidade. Este é o único contato verdadeiro em meio a toda a encenação. O metal frio desliza pelo meu dedo, encontra resistência na junta, até se acomodar na base. Pesado. Estranho. Uma algema dourada.
Depois, é minha vez. Minhas mãos estão trêmulas quando pego o anel maior. A mão dele é larga, quente, as veias salientes. Deslizo o aro de ouro pelo dedo dele. O gesto íntimo parece uma violação.
— Pelos poderes que me foram conferidos, declaro vocês casados. — O juiz fecha o livro com um baque seco. — Podem se cumprimentar.
Cumprimentar. Não beijar. Cumprimentar.
Dante e eu nos viramos um para o outro. A expectativa no ar é mínima, mas existe. Heloísa observa com curiosidade mórbida. Torres parece entediado.
Dante se inclina levemente. Seus lábios tocam minha face, próximos ao canto da minha boca. É um contato rápido, seco, profissional. Um selo em um documento. Não há calor. Não há emoção. É o beijo mais solitário da minha vida.
Ele se afasta. Seu rosto está impenetrável novamente. Meu rosto arde onde seus lábios tocam, mas por dentro sinto apenas um vazio gelado.
Os trâmites burocráticos finais são resolvidos com eficiência brutal. Assinaturas, carimbos, cópias autenticadas. Dante guarda os documentos em uma pasta de couro. Heloísa paga as taxas em dinheiro.
Em menos de vinte minutos, está tudo acabado. Saímos do cartório. A chuva fina cai, torna o asfalto brilhante e escuro.
No carro, o silêncio é total. Torres dirige. Heloísa senta ao lado dele. Dante e eu ficamos atrás, separados por um abismo de couro preto.
Olho para o anel no meu dedo. Ele brilha sob a luz fraca que entra pela janela. Parece pertencer a outra pessoa. Puxo-o, instintivamente. Ele não sai. Está preso. Aperta minha pele.
— Não — a voz de Dante é baixa, mas cortante. — Você vai usar sempre. Em público e dentro de casa.
Baixo a mão, envergonhada. Ele está certo. O anel não é um símbolo. É um uniforme. Um equipamento de campo.
A mansão nos recebe com seu silêncio habitual. Dona Alzira está na entrada, seu olhar vai direto para minha mão. Ela acena, um gesto quase imperceptível de reconhecimento. A notícia já se espalhou pela casa.
Subo as escadas. Minhas pernas parecem chumbo. Ao passar pelo quarto de Melissa, a porta está fechada. Mas no chão, diante dela, há um pequeno embrulho feito em papel pardo, amarrado com uma fita vermelha.
Me ajoelho. Desamarro. Dentro, está um dos seus desenhos. É o desenho de três figuras na janela, aquele com o sol amarelo. Mas agora, ela coloriu. Usou lápis de cor. O sol está um amarelo vivo. A casa tem um tom de bege quente. E, em volta do dedo da figura que sou eu, ela desenha um pequeno círculo dourado, com um pontinho de amarelo dentro, como um brilho.
Ela não desenha uma algema. Ela desenha algo que brilha.
Dobro o papel, seguro-o contra o peito. É o único gesto de afeto neste dia desolador.
Chego à minha ala. A porta do meu quarto está entreaberta, mas assim que entro, paro.
Sobre a cama, há um único objeto que não estava lá antes. Uma pequena caixa de madeira escura, simples. Abro-a. Dentro, em um estojo de veludo, está um relógio fino, de pulseira de couro, clássico e discretamente caro. Não há cartão. Não há inscrição.
Mas eu sei. É dele. Não é um presente do meu “marido”. É um equipamento para uma aliada. Para marcar o tempo do nosso contrato. Dos nossos dois anos.
Tiro o relógio velho e barato que é meu, aquele que conta as horas nas salas de espera do hospital e coloco o novo. A pulseira se ajusta ao meu pulso, firme, leve. O mostrador é limpo, os números, romanos. Ele marca as horas com um tique-taque quase silencioso, persistente.
Olho para o anel no meu dedo e para o relógio no meu pulso. Duas marcas de um mesmo pacto. Um para o mundo ver. Outro para eu sentir passar, cada segundo, cada minuto, cada dia dos setecentos e trinta que me separam da liberdade.
À noite, o jantar é servido na sala de jantar formal. Lara está à mesa, recuperada. Seus olhos vão direto para o anel.
— Ah, Clara! É lindo! — ela exclama, pegando minha mão. — Tão simples, tão elegante. Combina com você. E o Dante? Cadê o dele?
Dante estende a mão, mostra o anel idêntico. Lara sorri, satisfeita. — Agora estão mesmo casados.
A ironia é tão profunda que quase me faz engasgar. Casados. Por um laço de obrigação e segredos mortais.
Melissa observa a cena do seu lugar, quieta. Seus olhos vão do anel no dedo do pai para o anel no meu dedo. Ela não sorri. Mas ela acena, uma única vez, um gesto lento e solene. Como um reconhecimento de um novo estado das coisas.
Mais tarde, no meu quarto, tiro o vestido simples que usei no cartório. O anel ainda pesa no meu dedo. O relógio marca as horas no meu pulso. Do lado de fora, a chuva cai sobre o jardim geométrico.
Não há celebração. Não há consumação. Não há nada além do peso frio do metal e do som quase inaudível do tempo passando.
O contrato civil foi concluído. A farsa agora tem fundamento legal. E eu, Clara Silva, não existo mais. No mundo e perante a lei, agora sou Clara Lobo.
O nome parece um fantasma, um habitante estrangeiro da minha própria pele. Levo a mão ao rosto, onde seus lábios tocaram. A pele já não arde. Só resta uma memória seca, um carimbo.
Desligo a luz. Deito na cama enorme. O tique-taque do relógio é o único som no escuro. É o som da minha nova vida. Metódico, implacável, terrivelmente e agonizantemente solitário.