CAPÍTULO 11: ESTREIA PÚBLICA

1740 Palavras
Os dias que se seguem são de treinamento intenso. Dante é um diretor implacável. Nossa história é simples, ele decreta durante o primeiro “ensaio” no escritório da mansão. Encontro profissional, atração respeitosa, a pressão compartilhada nos une rapidamente. Romance discreto, mas inevitável. — Nada de detalhes — ele avisa, os olhos analisam cada micro expressão do meu rosto. — Detalhes criam armadilhas. Mantenho-me no genérico: “ele me apoia”, “admiro sua dedicação”, “estamos focados no futuro”. Ensaiamos respostas para perguntas invasivas. Quando é a cerimônia? “Planejamos algo íntimo.” O que me atrai nele? “Sua integridade.” A palavra soa falsa na minha boca, um osso que engasga. — Melhor — ele corrige. — Digo “sua força”. É verdadeiro e ambíguo. Aprendo a andar ao seu lado, meu passo ajusta-se ao seu. Aprendo a inclinar a cabeça, um ângulo específico que parece atento, não submisso. Aprendo a tocar seu braço — rápido, leve, possessivo — e a retirar a mão no momento exato. É coreografia pura. Cada gesto, uma mentira ensaiada. Melissa observa alguns desses ensaios, sentada no chão do escritório com seu bloco de desenho. Ela rabisca, mas seus olhos não perdem nada. Quando Dante coloca a mão na minha cintura para ajustar minha postura, ela aperta o lápis amarelo com força. O papel quase rasga. Mais tarde, encontro um novo desenho na minha cama: duas figuras de palito rígidas, lado a lado, com uma régua invisível entre elas. Ela vê a precisão mecânica. Ela sempre vê. Finalmente chega a noite do grande evento. É um jantar de gala para inaugurar uma nova ala de um hospital, patrocinada pela Lobo Holding. Minha armadura é um vestido de seda cor de vinho, simples e caríssimo. O cabelo preso em um coque baixo. Pouca joia. Apenas os brincos de pérola que são da minha mãe. Um toque de verdade em meio à farsa. Dante me avalia no saguão. Seu olhar é frio, profissional. — O vestido está bom. Os brincos são um risco. Podem gerar perguntas sobre sua família. — Eles ficam — digo, com uma firmeza que me surpreende. Ele hesita, depois acena. Um ponto para mim. O salão é um mar de luzes de cristal, vestidos pretos e sorrisos caros. O ar cheira a flores de estufa e ambição disfarçada de filantropia. Quando entramos, um silêncio em ondas se espalha, seguido por um aumento no burburinho. Todos os olhos se voltam para nós. Para mim. Sinto o pânico subir, um gosto metálico. A mão de Dante encontra a minha nas costas, um ponto de pressão firme e discreto. Mantenha a linha, diz o toque. Seguimos em frente. Ele cumprimenta ao mesmo tempo em que apresenta. —“Minha noiva, Clara.” Os sorrisos são corteses, os apertos de mão, calculados. As mulheres me examinam de cima a baixo, decifram o tecido, o corte, procuram a brecha, a origem duvidosa. Os homens olham com uma curiosidade diferente, mais interessados no que eu represento: uma vulnerabilidade no até então impenetrável Dante Lobo. Consigo responder. Minhas frases saem no tom certo, neutras, seguras. Sorrio quando preciso. Aceno com a cabeça. É como flutuar fora do meu próprio corpo, observando uma atriz competente. Até que o vejo. Viktor Salles está perto do bar, com um copo de uísque na mão, rodeado por um grupo que ri de algo que ele diz. Seu olhar encontra o nosso sobre a multidão. O sorriso dele não muda, mas se intensifica, torna-se uma coisa predatória. Ele se desvencilha do grupo e avança em nossa direção. Sinto a mão de Dante nas minhas costas fica rígida como pedra. — Dante! Clara! Que visão deslumbrante — Viktor exclama, a voz projetada para ser ouvida. Ele pega minha mão e leva aos lábios. O contato é úmido, rápido, repugnante. — O amor realmente a transforma, minha querida. Está radiante. — Obrigada, Viktor — minha voz não treme. — O evento está maravilhoso. Um belo reflexo do compromisso da holding. Ele arqueia uma sobrancelha, impressionado com a resposta corporativa. — Vejo que você já domina a linguagem. Muito rápido. Dante sempre sabe escolher seus… ativos. O insulto é envolto em elogio. Dante sorri, um movimento tenso dos lábios. — Clara tem uma inteligência rara. Não é uma escolha, é uma sorte. — Sem dúvida — Viktor concorda, os olhos azuis brilham como gelo sob a luz. — E tão dedicada. Ouvi dizer que já está até planejando visitas a clínicas. Um toque humano encantador. — Ele toma um gole do uísque. — Só tome cuidado, minha cara. Alguns desses lugares podem ser… deprimentes. Ver tanto sofrimento de perto. O aviso é claro. Ele sabe. Sobre a Clínica São Mateus. Como? O frio que sobe pela minha coluna não é medo, é raiva. Ele invade tudo, até a minha falsa caridade. — A compaixão não é deprimente, Viktor — digo, mantenho o sorriso, sinto os músculos da minha face doerem. — É necessária. Principalmente para quem está na nossa posição. É o que nos diferencia de quem só vê números. Ele ri, um som genuinamente divertido, mas seus olhos não acompanham. — Adoro! Dante, você encontrou uma leoa. Tão bom ver a família se expandindo. — Ele ergue o copo. — Aos noivos. Que a união de vocês seja tão… frutífera quanto nossos negócios. Bebemos. O champagne é ácido e mortal na minha garganta. Viktor se afasta, deixa para trás um rastro de ameaça e perfume caro que parece poluir o ar ao meu redor. O resto da noite é um esforço consciente para não tremer, para não olhar por cima do ombro. Dançamos uma valsa. O braço de Dante é forte ao redor da minha cintura, minha mão repousa sobre seu ombro. A distância entre nossos corpos é exata, profissional. Mas para a plateia, somos o casal perfeito, unidos e inabaláveis. Sinto o calor dele através do tecido, a tensão contida em seus músculos. É a primeira vez que tocamos além dos gestos ensaiados, e a proximidade é eletrizante de um jeito perigoso. Não é desejo. É a carga de duas pessoas ligadas por um fio de alta tensão. — Ele sabe da clínica — sussurro, meu sorriso ainda fixo no rosto, tão rígido que sinto que vai rachar. — Ele sabe de tudo — ele respira próximo ao meu ouvido, o movimento faz parte da dança. Seu hálito é quente, sua voz, um zumbido grave que só eu ouço. — É um teste. Você passou. Não vacilou. Agora ele sabe que a secretária tem dentes. — E agora? — pergunto, giro sob seu comando, o vestido faz um leve ruído de seda. — Agora, ele sabe que você não é uma flor decorativa. Que você é parte da estratégia. O jogo muda de novo. O ataque, quando vier, será diferente. A música termina e sob aplausos polidos, saímos da pista. Minhas pernas estão fracas, mas meu espírito está alerta, afiado. A adrenalina do confronto substitui o medo. Na volta para a mansão, dentro do carro blindado, o silêncio é pesado, mas agora é um silêncio compartilhado, quase contemplativo. Finalmente a máscara cai, e o cansaço me atinge como um golpe físico, mas há um resquício de satisfação. Sobrevivi. Mais que isso: enfrentei. — Foi… intenso — murmuro, enquanto encosto a cabeça no vidro frio, vejo a cidade iluminada desfilar como um sonho distante. — É uma batalha. E você se saiu bem. — A voz dele é surpreendentemente suave, quase humana. — Os brincos… funcionaram. Deram um ar de autenticidade que desarmou alguns. Foi inteligente. Olho para ele no escuro. Seu perfil é uma linha dura contra as luzes da cidade, mas a rigidez habitual parece um pouco menor. — Não é por autenticidade — confesso, a fadiga solta minha língua. — É por rebeldia. Para lembrar de onde venho. Para ter uma peça de mim que ele não pode tocar. Ele vira a cabeça, me olha. Na penumbra, não consigo decifrar sua expressão, mas sinto o peso do seu olhar. — Às vezes Clara, — ele diz, devagar, como se a palavra fosse pesada, — rebeldia é a única autenticidade que nos resta. Guarde isso. Você vai precisar. O carro entra no portão da mansão. As luzes de segurança iluminam a fachada de concreto, fria e imponente. Uma fortaleza. Nosso palco principal. Nosso campo de batalha. Ao subir as escadas, meu corpo pesado pelo cansaço, passo pelo quarto de Melissa. A porta está entreaberta. No chão, no exato meio do vão, há um pequeno desenho. Um pedaço de papel dobrado, colocado como uma oferenda, uma mensagem. Pego com os dedos que já tremem de exaustão. É um esboço rápido, a lápis. Duas figuras de palito, lado a lado. Acima delas, a figura de um homem maior, com um sorriso enorme e dentes pontiagudos que ocupam metade do rosto. Entre o homem sorridente e as duas figuras, Melissa desenha uma linha grossa e preta, reforçada várias vezes. Uma barreira. Uma muralha. Então eu entendo, ella não desenha o que vê. Desenha o que sente. Ela desenha Viktor. E desenha uma proteção entre ele e nós. Não é um pedido de ajuda. É uma declaração. Estou com vocês. Dobro o papel com um cuidado infinito e guardo-o no bolso, junto com o resto dos meus segredos e das minhas armas. É o artefato mais precioso da noite. Mais valioso que qualquer sorriso fingido. Entro no meu quarto vazio e silencioso. Tiro os brincos de pérola, minha última conexão com um mundo real que parece desvanecer para sempre. Coloco-os na penteadeira. Olho-me no espelho. A mulher de vestido de seda me encara, seus olhos carregados de uma determinação fria e sombria que eu não conheço, mas que agora reconheço como minha. O medo não sumiu, mas ele tem um novo companheiro: uma fúria silenciosa. A estreia pública acabou. A farsa é lançada e, no primeiro teste, não quebramos. E, em algum lugar nesta casa, uma criança que não fala acaba de me entregar a única verdade inquestionável desta noite: o inimigo tem um rosto. E nós, agora, temos uma trincheira. E dentro dela, sem que eu percebesse quando começou, formamos uma linha de frente. Amanhã, a guerra continua. Mas hoje, pela primeira vez, sinto que talvez não estejamos tão sozinhos. E, o que é mais perigoso, sinto que talvez estejamos começando a acreditar na nossa própria mentira.
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