CAPÍTULO 10: FARSA ÍNTIMA

1716 Palavras
O som do silêncio na mansão é diferente. Não é a falta de barulho, mas a absorção de todos os ruídos pelos tapetes grossos, pelas paredes altas, pelo vazio de uma casa feita para impressão, não para vida. Meu primeiro despertar aqui é confuso. Por segundos, não sei onde estou. A luz filtrada pelas persianas de um cinza-claro cai sobre um teto que não é o meu, sobre móveis que não reconheço. Então, a memória retorna, pesada e completa: o contrato, a assinatura, o sol amarelo no desenho de Melissa. Me levanto. O quarto é imenso. Caminho até a janela. O jardim lá embaixo é uma obra de arte geométrica e estéril. Nada balança. Nada cresce fora do lugar. É a tradução perfeita do mundo de Dante Lobo: controle absoluto. Uma batida suave na porta me arranca do devaneio. É Dona Alzira, com uma bandeja de café da manhã. — Bom dia, senhora. O senhor Lobo aguarda no escritório para alinhar a agenda da semana. — Obrigada, Alzira. E minha irmã? — A senhorita Lara já está na sala de sol, tomando seu chá. Parece bem descansada. A normalidade da cena é surreal. Lara, tomando chá na "sala de sol" de uma fortaleza, enquanto eu me preparo para alinhar uma agenda de farsas com meu marido-empregador. Respiro fundo enquanto me preparo mentalmente e em seguida encontro-o no escritório da casa, um cômodo menor que o do trabalho, mas igualmente austero. Ele está de pé, de costas, olhando para um monitor que exibe câmeras de segurança de vários ângulos da propriedade. A imagem de Melissa aparece em um quadrado, sentada quieta na sala de arte. — A movimentação da mudança foi discreta? — pergunta, sem se virar. — Acho que sim. O carro era discreto. — Viktor sabe. Ele tem pessoas em todo lugar. — Finalmente, ele se vira. Parece ter dormido tão pouco quanto eu. — O evento de sexta foi só o primeiro passo. Agora, a performance precisa se estender para o cotidiano. Existem aparências a manter, inclusive dentro desta casa. — O que isso significa, exatamente? — Significa que, durante o dia, somos um casal recém-casado em harmonia doméstica. Para a equipe da casa. Para eventuais visitas. Para Melissa. — E à noite? — À noite, somos sócios em uma investigação. Estudo os arquivos que você trouxe, cruzo com outros dados. Você se familiariza com a vida do Viktor, com os negócios da holding, com tudo que pode ser uma arma. Ele fala com uma frieza prática que deveria me aliviar, mas me enche de um cansaço profundo. Vivo duas vias paralelas, ambas falsas. Não há espaço para Clara Silva, só para Sra. Lobo e para a investigadora secreta. — E Lara? Ela não pode suspeitar. — Cabe a você administrar essa frente. É a parte mais importante do seu trabalho agora. O dia se desenrola como um roteiro estranho. Tomo café com Lara na sala de sol. Ela está entusiasmada, falando sobre a luz, sobre o silêncio, sobre como aquele lugar vai ajudá-la a se recuperar. Cada palavra de esperança dela é uma agulha fina no meu peito. Pela tarde, acompanho Melissa à sua sessão com Sofia, a terapeuta. É uma mulher calma, de voz suave, que trabalha com caixas de areia e miniaturas. Melissa não me olha, mas quando Sofia pergunta se pode incluir uma "figura nova" na sessão hoje — uma miniatura que poderia ser uma mulher —, Melissa pega a figura e a coloca firmemente ao lado da miniatura de uma menina. Um gesto claro. Sofia me olha, surpresa, e acena com a cabeça, permitindo que eu fique. Observo, em silêncio, a linguagem muda da pequena Melissa. Ela não brinca. Ela organiza. Cria cenários com as miniaturas: uma mulher perto de uma árvore, um homem mais distante, uma casa grande. Sempre a mesma configuração básica. Sempre com uma tensão imóvel. No caminho de volta para o quarto dela, ela para diante da porta do meu quarto. Olha para a maçaneta, depois para mim. Seus olhos são uma pergunta. — Esse é o meu quarto — digo, sem saber o que mais dizer. Ela acena, séria. Como se confirmasse uma informação. Então, aponta para a porta no final do corredor, a do quarto de Dante, e faz um gesto negativo com a cabeça, franzindo a testa. Entendo. Ela está mapeando a nova configuração. Ela sabe que somos peças separadas, em espaços separados. E ela aprova, ou pelo menos compreende, que a porta de Dante permaneça fechada. À noite, após o jantar — uma refeição silenciosa onde Dante e eu trocamos frases banais para o benefício de Lara e da equipe —, ele me chama no escritório. Sobre a mesa, uma linha do tempo complexa está projetada em uma tela. — O Lumina, — ele começa, o rosto iluminado pelo brilho azulado. — O que você encontrou é a ponta. O princípio ativo L-779 era, originalmente, uma molécula promissora. Mas nos testes iniciais, mostrou toxicidade cardíaca em um subgrupo. Foi reformulado. Tornou-se o Lúmen. — E a morte do paciente 33? — Foi com a nova fórmula. O relatório que você viu, o que o Viktor mandou "não integrar", sugere que a toxicidade original pode não ter sido totalmente eliminada, só mascarada. E eles sabiam. — Beatriz descobriu. — Deixo escapar, não uma pergunta, mas uma afirmação. Ele fecha os olhos por um segundo, um espasmo de dor genuína cruzando seu rosto. — Sim. Ela teve acesso aos meus arquivos antigos em casa. Encontrou a correspondência inicial sobre os riscos e confrontou o Viktor. Ele a convenceu de que foram dados superados, que eu estava ciente e que era um risco necessário para um bem maior. Ela… ela ficou com medo. Medo de mim. Do que a empresa estava se tornando. Foi aí que eu e ela… — ele não termina. — A discussão no telefone, — eu concluo em voz baixa. Ele acena, a voz rouca. — Ela estava vindo me confrontar com as novas provas que encontrou. Provas de que o Viktor não apenas sabia dos riscos atuais, mas de que estava acelerando a produção, ignorando protocolos, subornando auditores. E, eu acho… acho que ela tinha algo que ligava ele diretamente ao sumiço de lotes inteiros de L-779 da formulação tóxica. Lotes que sumiram dos registros, Clara. Onde eles vão parar? O ar parece sair do cômodo. — No mercado? Em pacientes? — Deixo escapar em pergunta o que está me corroendo lentamente. — Ou em algo pior. — Ele fixa os olhos em mim. — A Beatriz não morreu por causa da nossa briga. Ela morreu porque estava a caminho de me entregar a prova que iria derrubar o Viktor. Alguém a interceptou. — O Viktor. — Ou alguém a mando dele. O ex-chefe de segurança, o Torres, que assinou nosso contrato como testemunha, é o homem de confiança do Viktor. Ele "pediu demissão" duas semanas após o acidente. A imagem do homem grande e silencioso que testemunha nosso contrato surge na minha mente. Uma testemunha cúmplice. — O que a Melissa vê ou ouve? — pergunto. A pergunta parece atingi-lo. Ele desliga a projeção, mergulhando o cômodo na penumbra. — Não sei ao certo. Ela estava em casa naquele dia. Beatriz pode ter falado algo com ela antes de sair. Ou ela pode ter visto alguém… alguém que não devia estar lá. O desenho do homem no jardim… — Ele engole seco. — Eu nunca sei se é um medo generalizado, ou a memória de uma figura específica. Ficamos em silêncio na escuridão. O peso das suspeitas, das mortes, do segredo, é esmagador. E estamos no centro, em uma casa vigiada, fingindo ser algo que não somos. — Precisamos de uma prova irrefutável, — digo finalmente. — Algo que não possa ser enterrado com um carimbo "não integrar". — Estou trabalhando nisso. E você vai me ajudar. Há uma rede de clínicas privadas que são as maiores prescritoras do Lúmen. Precisamos acessar seus registros de efeitos adversos, que são separados dos reportados à Anvisa. — Como? Ele olha para mim, e pela primeira vez vejo um lampejo da estratégia implacável que o torna CEO. — Como minha esposa, você tem um novo nível de acesso e um novo pretexto. Vamos começar uma "iniciativa de responsabilidade social da família Lobo". Visitas a instituições de saúde. Você é o rosto compassivo. Sua primeira visita é à Clínica São Mateus, semana que vem. Enquanto você distribui sorrisos e cestas básicas, você procura o arquivo. É arriscado. É quase uma missão de espionagem. E é exatamente o tipo de coisa para a qual minha experiência jurídica em revisar documentos pode ser útil. — Certo, — digo, a surpresa dando lugar a uma determinação fria. Pela primeira vez desde que assinei aquele papel, sinto que faço mais do que ser um peão. É um contra-ataque. — Há um risco, — ele avisa. — Se o Viktor suspeitar… — Ele já suspeita de tudo. E eu já sou um alvo. Pelo menos assim, me defendo. Ele me observa por um longo momento, e seu olhar é diferente. Não é mais de chefe para funcionária, nem de manipulador para ferramenta. É de um aliado avaliando outro. — Amanhã, — ele diz, — vamos ensaiar. Sua história, suas maneiras, seu interesse "genuíno" em neurologia. Não pode haver uma nota falsa. Saio do escritório. O corredor está escuro e silencioso. Ao passar pelo quarto de Melissa, vejo uma fresta de luz saindo por baixo da porta. Pareço ouvir o leve ruído de um lápis raspando no papel. Na minha ala, a solidão do quarto enorme me envolve. Deito na cama que não é minha, olhando para o teto. Sou uma noiva, uma atriz, uma espiã e uma cuidadora. Sou tudo, menos eu mesma, parece até cômico. E no meio desse turbilhão, uma única imagem me acalma: um sol amarelo, desenhado com cuidado no canto de um papel, por uma menina que talvez, só talvez, esteja começando a acreditar que nem tudo nesta casa é tristeza. Amanhã, a farsa continua. Mas agora, tenho um propósito dentro dela. Não é mais só sobre sobreviver. É sobre encontrar a verdade que matou Beatriz e que ameaça todos nós. E, pela primeira vez, acho que posso ser boa nisso.
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