A caneta desliza sobre o papel com um ruído surdo, final. Um risco de tinta azul, meu nome, sob a linha que diz “Parte Contratante B”. Não é uma assinatura, é uma cicatriz. O som do metal do corpo da caneta batendo na mesa ecoa na sala silenciosa, um ponto final no mundo que eu conhecia.
Dante pega o documento. Seus olhos percorrem a minha assinatura, como um perito avaliando a autenticidade de uma nota falsa. Ele não sorri. Não acena. Apenas pega sua própria caneta — uma peça de prata gravada — e assina, com um traço firme e impiedoso, ao lado do seu nome. “Parte Contratante A”.
O silêncio que se segue é mais espesso que antes. O ar está carregado de cheiro de tinta, de couro caro e da enormidade do que acabamos de fazer.
— Heloísa — ele diz no interfone, a voz de volta ao tom habitual, seco, de comando. — Peça ao Dr. Tavares que suba. E traga as testemunhas padrão.
Dr. Tavares. Meu antigo chefe. A ironia é um gosto amargo na minha boca. O homem que me dispensou por “cortes orçamentários” agora vai ser o notário do meu casamento de fachada com um de seus maiores clientes.
Enquanto esperamos, Dante abre uma gaveta diferente e tira um novo documento, de uma única página. Ele escreve rápido, em letras claras e angulosas. É o anexo que eu exigi. A garantia solene, incondicional, do fundo fiduciário para Lara. Ele assina, data, e me passa a caneta.
— Suas testemunhas — ele diz, sem olhar para mim. — Escolha alguém. Alguém que não pergunte.
Não tenho ninguém. Ninguém que eu possa arrastar para este pântano. Penso no Dr. Elias, mas envolvê-lo seria manchar a única coisa limpa que resta na minha vida.
— Não tenho ninguém.
Ele emite um som baixo, quase um resmungo. — Heloísa e o chefe de segurança, então. Elas assinam coisas sem ler. É parte do emprego.
A porta se abre. O Dr. Tavares entra, um homem baixo e careca cujos olhos arregalados ao me ver são quase cômicos. Ele carrega uma maleta. Atrás dele, Heloísa e um homem grande de terno que deve ser o chefe de segurança, Torres. Seus rostos são máscaras profissionais.
— Dante — Tavares cumprimenta, apertando a mão dele. Sua mão sobre a minha é úmida, rápida. — Clara… surpresas, surpresas. Meus parabéns.
Ele não sabe de nada. Acha que é real. A vergonha queima meu rosto.
Dante ignora as formalidades. — Precisamos formalizar um acordo pré-nupcial e um anexo patrimonial com urgência, Tavares. Já está tudo redigido. Só precisa da sua formalização notarial.
Tavares senta-se, abre a maleta, coloca os óculos. Seus olhos correm pelas páginas. Vejo o momento exato em que ele compreende a natureza fria, transacional, do documento. O espanto, seguido por um rápido recalculo do seu próprio lugar neste novo tabuleiro. Ele olha para mim, e vejo o desprezo se formar atrás das lentes dos óculos. A ex-assistente desesperada que conseguiu fisgar o grande peixe. A história que ele vai contar no clube.
Mas ele é um profissional. E Dante Lobo paga bem.
— São… cláusulas bastante específicas — ele comenta, neutro.
— São — responde Dante, terminando a discussão.
O ritual é rápido, brutalmente eficiente. Tavares carimba e assina, nos faz assinar novamente ao lado dos carimbos. Heloísa e Torres assinam como testemunhas, seus rostos impassíveis. Nenhum sorriso. Nenhum “parabéns”. É a cerimônia mais deprimente da minha vida. Não há troca de alianças, apenas de pastas.
Em menos de quinze minutos, está feito. Tavares guarda seus documentos, faz um aceno formal e sai, lançando-me um último olhar carregado de curiosidade doentia. Heloísa e Torres desaparecem como sombras.
Ficamos sozinhos novamente. Dante entrega-me uma cópia do contrato, grossa, pesada. — Estude. Memorize. Especialmente as cláusulas de confidencialidade e as obrigações de aparência pública. Haverá um evento do setor na próxima sexta. A nossa estreia.
Pego a pasta. Não aguento mais olhar para ele. — Posso me retirar? Preciso… preciso avisar à minha irmã.
— Você não vai contar a verdade — é uma ordem, não uma pergunta.
— Vou dizer que conheci alguém. Alguém importante. Que vai nos ajudar. — A mentira já se forma, oleosa e necessária, na minha língua.
— Adequado. A mudança é para o final de semana. Mande suas coisas para este endereço. — Ele desliza um cartão de visita com o endereço da mansão. — Você terá uma ala independente. Quarto, banheiro, escritório. A governanta, Dona Alzira, vai ajudá-la. Melissa tem aulas com a terapeuta às segundas e quintas à tarde. Você a acompanha.
Ele fala como se estivesse delegando tarefas de escritório. Arrumar a filha traumatizada na agenda. A frieza dele deveria me machucar, mas agora é um alívio. É mais fácil ser uma ferramenta do que uma pessoa.
— Entendido.
Assim que saio do escritório, sinto o peso dos olhos de Heloísa sobre mim, vindos da mesa dela. O olhar agora é diferente. Não é mais a avaliação de uma colega. É o cálculo silencioso de um subordinado diante de uma nova e inexplicável autoridade. Virei de repente a “Senhora Lobo”. E ela não faz ideia do que isso realmente significa.
A volta para casa é um borrão. As luzes da cidade passam, manchas coloridas contra o vidro do carro de aplicativo. A pasta com o contrato está no meu colo, quente como um m****o carbonizado.
Lara está acordada quando chego, ansiosa. — E aí? Como foi o dia?
Respiro fundo. Sorrio. É o ato mais difícil da minha vida. — Foi… transformador. Conheci alguém, Lara. Alguém muito especial.
Seus olhos se iluminam. — Sério? Conta!
— É o Dante. Meu chefe. — A palavra soa absurda. — As coisas… evoluíram. Ele se importa. Quer nos ajudar. De verdade.
— Clara, que maravilha! — Ela se levanta, com um esforço visível, e me abraça. O cheiro do seu shampoo, barato e doce, me perfura o coração. — Ele é bom para você? Você merece tanto.
— Ele é… poderoso. E generoso. — Abraço-a de volta, enterrando o rosto no seu cabelo para que ela não veja a verdade nos meus olhos. — Tão generoso que… vamos nos mudar. Para uma casa maior. Onde você possa ter um quarto de verdade, e espaço. E os tratamentos… ele vai custear tudo, Lara. Tudo. O Neurovax, tudo.
Ela se afasta, segurando meus ombros, seus olhos brilhando com lágrimas de alívio. — Isso é um milagre. Um verdadeiro milagre.
Sim. Um milagre com cláusulas de rescisão e multas por descumprimento.
Nas duas noites seguintes, embalo minhas coisas, ou melhor, as nossas poucas coisas. Cada livro, cada foto dos nossos pais, cada vestido barato de Lara, é embalado com um cuidado que beira o ritual. Estou enterrando uma vida. A vida pequena, difícil, mas nossa.
Envio as caixas para o endereço da colina. Não há emoção. É uma operação logística.
Na sexta-feira, o evento. Um coquetel de arrecadação para uma fundação médica. Meu “debut”. Dante me envia um vestido — preto, simples, caríssimo — e uma profissional para fazer meu cabelo e maquiagem. Quando me olho no espelho, não me reconheço. A mulher refletida tem a postura rígida, os olhos contidos, o sorriso calculado de uma pessoa que pertence àquele mundo. A assistente jurídica sumiu.
Dante me busca no apartamento com o carro. Ao me ver, seu olhar é puramente analítico. — Aceitável — é o único comentário.
No evento, sua mão no meu cotovelo é firme, guiadora, não carinhosa. Ele me apresenta. “Minha noiva, Clara.” Os sorrisos são polidos, as perguntas, superficiais. Todos me examinam, tentando decifrar a história por trás daquela união repentina. Sinto o peso do olhar de Viktor Salles antes mesmo de vê-lo.
Ele se aproxima com um brinde, seu sorriso mais largo do que nunca, mas os olhos azuis são lascas de gelo. — Dante! Clara! Que notícia maravilhosa! Felicidades aos noivos! — Ele beija minha mão, o contato dos lábios na minha pele é repugnante. — Uma aquisição verdadeiramente estratégica, Dante. Parabéns.
O duplo sentido é gritante. Dante aperta minha mão no seu braço, um aperto de advertência. — Obrigado, Viktor. Clara é, de fato, um trunfo inesperado.
A noite é um longo exercício de atuação. Sorrio, aceno, finjo ouvir conversas chatas sobre mercados emergentes. Mas minha atenção está sempre dividida: metade no teatro, metade vasculhando a multidão, procurando por Viktor. Ele está sempre lá, à distância, observando, aquele sorriso plástico estampado no rosto.
No carro de volta, o silêncio é total. Nossas máscaras caem. Estou exausta até os ossos.
— Ele não acreditou — falo, olhando pela janela.
— Não importa o que ele acredita — responde Dante, a voz cansada. — Importa o que ele pode provar. E agora, para atacar você, ele tem que atacar a mim diretamente. A dinâmica mudou.
No sábado de manhã, um carro da empresa vem nos buscar, a mim e a Lara. Ela está radiante, impressionada com o carro, animada com a nova aventura. Eu seguro sua mão, amordaçando o grito que quer sair.
A mansão parece ainda maior de perto, mais intimidadora. Dona Alzira, a governanta, nos recebe com uma reverência formal. Sua expressão é inescrutável.
— A senhorita Lara ficará no quarto azul, no corredor leste. Tem vista para o jardim. A senhora… a senhora Clara ficará na ala sul. Quartos adjacentes ao senhor Dante.
A separação é clara, física. Lara é uma convidada de honra. Eu sou… o que quer que eu seja.
Levo Lara até seu quarto. É lindo, arejado, com móveis claros e uma cama enorme. Ela fica boquiaberta. — Clara, é um palácio!
— É a sua casa agora — digo, a voz trêmula.
Depois que ela se acomoda, explorando o banheiro com chuveiro de alta pressão, vou para a minha “ala”. É um conjunto de cômodos: um quarto enorme com uma cama de dossel que parece um trono, um banheiro de mármore e um pequeno escritório vazio. Tudo é de um luxo anestesiante, impessoal. Não há um livro, uma foto, um traço de personalidade. É um hotel de cinco estrelas. Uma cela de primeira classe.
Ao sair do quarto, vejo uma porta entreaberta no final do corredor. É o quarto de Melissa. Ela está sentada no chão, de costas para a porta, cercada por lápis de cor. Desenhando, como sempre.
Sinto um impulso, um dever que vai além do contrato. Bato levemente na porta.
Ela não se vira.
Entro e me ajoelho a uma distância segura, como da outra vez. Ela está terminando um desenho. Desta vez, é a casa. A mansão. Ela desenha a fachada de vidro e concreto com linhas precisas. Na grande janela da sala de estar, ela desenha três figuras. Um homem alto (Dante) e uma mulher (eu), lado a lado. E, um pouco afastada, no canto da janela, uma menina pequena (ela). Não há cores. Apenas lápis grafite.
Mas então, ela pega um lápis amarelo. E desenha, com cuidado, um pequeno sol no canto superior do papel. Um sol singelo, com raios curtos. Ela olha para o sol, depois para a figura da mulher na janela. Volta a olhar para mim, seus olhos profundos buscando os meus.
Ela não desenha uma família feliz. Desenha uma configuração. Uma disposição no espaço. E um sol. Um sol amarelo, do lado de fora.
É a primeira coisa que não é triste ou assustadora.
Dou um sorriso pequeno, hesitante. Ela não sorri de volta. Mas seu olhar perde um pouco da intensidade angustiada. Ela vira a folha e começa um novo desenho.
Saio do quarto em silêncio. O corredor é frio e silencioso. Do lado de fora da minha porta, encontro Dante. Ele deve ter observado a cena.
— Ela está desenhando a casa — comento, inutilmente.
— Ela desenha tudo — ele diz, a voz neutra. — É a língua dela.
Faz uma pausa. — Obrigado.
É a primeira vez que ele me agradece por algo. Soa estranho, quase desconfortável.
Ele se vira para ir.
— Dante — chamo, e ele para. Uso o nome dele pela primeira vez, e soa estranho na minha boca. — O sol. Ela desenhou um sol.
Ele não se vira, mas sua postura se altera, levemente. Um relaxamento quase imperceptível dos ombros.
— Então talvez não seja um presídio para todos — ele murmura, mais para si mesmo, e segue pelo corredor.
Fecho a porta do meu quarto novidade. A vastidão do espaço me envolve. Sento-me na beira da cama enorme, o contrato pesado na minha mente. Olho pela janela para o jardim minimalista, as linhas perfeitas, o silêncio absoluto.
A mudança está feita. Estou dentro da fortaleza. As muralhas são altas, as portas, trancadas. Há um sol amarelo no desenho de uma criança, e um fundo fiduciário inabalável para minha irmã.
O silêncio aqui dentro é diferente. Não é o silêncio ansioso do hospital, nem o silêncio cansado do nosso apartamento. É o silêncio profundo, caro, comprado, de quem fez um pacto com o d***o e agora precisa aprender a viver com o preço.
E o preço, eu percebo ao deitar nesta cama que não é minha, é acordar todos os dias e lembrar exatamente quem e o que eu vendi para estar aqui.