O medo tem um gosto metálico. É o que senti na boca enquanto o carro preto, com Marcos ao volante, deslizava pelas ruas molhadas, levando-me para longe do estacionamento subterrâneo da Lobo Holding. O cheiro do perfume de Viktor Salles — amadeirado, caro, invasivo — parecia ter impregnado o ar dentro do meu próprio pulmão. Esfreguei as mãos nos braços, tentando apagar a sensação daquela proximidade forçada, daquela ameaça velada em forma de sorriso.
Mal cruzei a porta do apartamento, meu celular pessoal tocou. Dr. Elias.
— Clara, preciso falar com você — a voz dele, normalmente tão serena, carregava um fio de tensão. — A clínica onde Lara faz a fisioterapia sofreu um… incidente hoje à tarde. Um curto-circuito no quadro de energia da ala de terapias. Ninguém se feriu, a Lara não estava lá, mas os equipamentos de neuroestimulação foram atingidos. A ala está inoperante.
O chão pareceu ceder levemente sob meus pés. Apoio--me na parede da cozinha, a tinta gelada um contraste brutal com o calor do pânico que sobe pelo meu pescoço.
— Um curto-circuito? — repeti em pergunta, a voz um eco oco.
— As causas estão sendo apuradas — ele fez uma pausa significativa, carregada. — Foi muito específico, Clara. Muito pontual. Só me ocorre perguntar… você está envolvida em algo? No seu novo emprego?
A pergunta é uma faca. A resposta, uma confissão que eu não podia fazer.
— Não sei — minto, o sabor do metal na boca se intensificando. Mas eu sei. A visita de Viktor. O sorriso. Para fazer uma omelete, tem que quebrar uns ovos. Ele não tinha quebrado um ovo. Tinha sabotado a incubadora. Um aviso. Não em mim, mas no único pedaço de mundo que eu ainda conseguia chamar de sagrado.
— Tome cuidado — foi tudo que o Dr. Elias disse antes da ligação cair.
Fico parada na escuridão da cozinha. O zumbido da geladeira é o único som. O desenho de Melissa, aquele com a mancha vermelha cobrindo Viktor, queima como uma brasa na minha mente. Não foi uma premonição. Foi um retrato.
A noite é um tormento, um pesadelo acordado. A cada ruído na rua era Viktor. Cada som no corredor do prédio, seus passos. Nos raros momentos em que o sono me vence, sonho com a mancha vermelha escorrendo, escorrendo, até cobrir o rosto pálido e tranquilo de Lara dormindo.
O dia amanhece que m*l me dou conta, cansada vou para o trabalho, o andar executivo da Lobo Holding parece ter sido congelado em carbono. O silêncio é mais profundo, mais hostil. Dante chega antes do amanhecer. A grande porta de madeira do escritório dele se fecha às 6h47 e não se reabre. A tensão que emana dali é quase palpável, uma distorção no ar.
Executo minhas tarefas como um autônomo: agenda, e-mails, relatórios para o conselho. Tudo normal. Tudo uma farsa grotesca. A cada momento, espero ver a silhueta de Viktor no corredor, seu sorriso fácil, falso chegando antes dele. Mas ele não aparece. Sua ausência é uma presença, um fantasma de paletó caro e ameaça sutil.
Às 16h03, a luz do intercomunicador interno acende. É a linha direta do escritório de Dante.
Aperto o botão.
— Senhorita Silva. Aqui. Agora.
A voz não foi um pedido, e sim uma convocação. O tom de um comandante após uma escaramuça perdida, decidindo o próximo movimento desesperado.
Minhas pernas estão trêmulas quando cruzo os poucos metros entre a minha sala e a dele. A pasta que carrego — com anotações inúteis sobre eficiência logística — parece um brinquedo de criança.
Ele não está atrás da mesa monumental. Está de pé diante do imenso painel de vidro, de costas para mim, contemplando a cidade que se dobra sob um céu de chumbo. As mãos, trançadas nas costas, estão com os nós dos dedos brancos.
— Fechou — a palavra saiu seca, um estalo no silêncio da sala.
— Senhor?
— A clínica. O “incidente”. Foi um aviso. Para você. Para mim. — Ele se vira lentamente. O rosto dele está lavado pela fadiga, mas os olhos… os olhos são como duas brasas negras, vivas, focadas com uma intensidade aterradora. — Você acessou os arquivos. O Lumina.
Não foi uma pergunta, mas um fato. O jogo das aparências acabou, neste instante.
— Acessei. Enviei para o seu e-mail pessoal, como instruiu.
— E leu.
A afirmação paira no ar. Negar é inútil e, de alguma forma, uma traição ao pacto tácito de desespero que nos une.
— Li — confirmo, minha voz soa estranhamente estável no vácuo desta sala.
Ele dá um passo à frente. O espaço entre nós, antes profissional, torna-se íntimo e carregado de perigo.
— Então você sabe. Sabe o que o Lúmen esconde. Sabe o que o Viktor é capaz de fazer para proteger seu segredo. — Outro passo. Eu não recuo. — O que aconteceu na clínica foi um tiro de aviso. O próximo será para matar. E ele não vai mirar em você primeiro. Vai mirar na sua irmã. Ou na Melissa.
O nome da filha sai de sua boca como um suspiro roubado, carregado de uma angústia tão nua e crua que faz algo dentro de mim estremecer. É a primeira vez que ele a menciona, não como uma responsabilidade logística, mas como uma pessoa amada e vulnerável.
— Por que está me dizendo isso? — pergunto, lutando para manter a racionalidade. — O que eu posso fazer? Sou uma secretária. Uma assistente. Ele é o Diretor de Operações.
Dante fecha os olhos por um segundo, como se estivesse procurando forças. Quando os reabre, o olhar é de uma frieza calculada, a do jogador que vê apenas uma jogada possível, por mais horrível que seja.
— Sozinha, você não é nada. Um obstáculo descartável. Eu, sozinho… estou cercado. O conselho teme o Viktor. O fantasma do meu pai paira sobre cada decisão. A memória da Beatriz… — a voz dele fraqueja por uma fração, ele a controla com um esforço visível. — Mas juntos, sob uma nova estrutura, podemos ser inatacáveis.
— Nova estrutura? — O ar parece ter saído da sala.
Ele não responde diretamente. Caminha até a mesa, abre uma gaveta blindada e tira uma pasta fina, de capa de couro preto. Desliza-a pela superfície polida até que para diante de mim.
— Abra.
Minhas mãos, agora trêmulas, obedecem. Dentro, um documento. O cabeçalho, em letras sóbrias, diz: CONTRATO PRÉ-NUPCIAL E DE ARRANJO PATRIMONIAL. Entre DANTE LOBO e CLARA SILVA.
O mundo para. O zumbido no meu ouvido volta, alto, ensurdecedor. Olho para as palavras, depois para o rosto impenetrável do homem à minha frente.
— Isto é uma piada de mau gosto.
— É a única jogada — a voz dele é de aço, sem emoção. — Um casamento por contrato. Dois anos. Ele te dá proteção legal e social que você não tem hoje. Como minha esposa, mesmo apenas no papel, você estará sob a guarda do meu nome e da minha fortuna. Viktor hesitará em agir diretamente contra a Sra. Lobo. Será um ato de guerra declarado contra mim, não contra uma funcionária. É uma fortaleza jurídica, Clara. Não uma farsa romântica.
As palavras batem em mim como pedras.
— Uma fortaleza? Eu me torno um alvo maior! Um alvo visível!
— Você já é um alvo! — a voz dele eleva-se pela primeira vez, um rugido abafado. — Ele foi na sua clínica! O próximo passo é na sua casa! Ou ele te desacredita, te acusa de vazar segredos, te destrói profissional e moralmente até você não ter mais valor nem para mim nem para ele, e então some com a sua irmã do mapa! — Ele respira fundo, recuperando o controle. — Como minha esposa, você ganha um poder de barganha. Acesso irrestrito. A aparência de uma união. E, o mais importante… — ele apontou para o documento. — …um fundo fiduciário. Irrevogável. Em nome de Lara Silva. A ser constituído no ato da assinatura do contrato civil. O capital será suficiente para cobrir o Neurovax, terapias, e garantir a vida dela de forma digna… independente do que acontecer com você, comigo, ou com este casamento de mentira.
A última sentença atingiu-me como um choque físico. Toda a argumentação, a lógica perversa, o risco monumental… tudo desabou diante daquelas palavras. Independente do que acontecer.
Meus olhos correm para a página indicada. A linguagem jurídica era densa, mas clara. Um fundo. Recursos destinados. Inalienáveis. A chave para salvar Lara, trancada não mais na minha boa vontade de um chefe imprevisível, mas em um instrumento legal.
— Você está comprando não só o meu silêncio — disse, a voz um fio de som. — Está comprando a minha vida. A minha identidade.
— Estou te oferecendo uma armadura — ele corrigiu, implacável. — E um escudo para quem você realmente quer proteger. A escolha, embora horrível, é sua. Você pode sair por essa porta agora. Pegar sua irmã e tentar sumir. Com o dinheiro que você tem, com a atenção que o Viktor já voltou para você… me diga, quanto tempo você acha que dura?
Ele não espera resposta. Sabe que eu não tenho uma.
— Ou você pode ficar. Assinar isso. Ganhar dois anos de relativa segurança para Lara. Dois anos para eu destruir o Viktor antes que ele nos destrua. Ao fim do período, o contrato se dissolve. Você leva o fundo fiduciário, que é seu incondicionalmente, e desaparece. Rica. Livre. E com sua irmã viva.
É a geometria do desespero. Duas linhas tortas, nenhuma delas reta ou moral, convergindo para um ponto único de sobrevivência.
— E a Melissa? — a pergunta sai antes que eu possa detê-la. — O que ela vai pensar? Vai achar que você substituiu a mãe dela por… por uma transação?
Pela primeira vez, a máscara de Dante racha por completo. Uma dor profunda, antiga, atravessa seu rosto.
— Melissa — ele diz, devagar — precisa desesperadamente de alguém no mundo que não tem medo. Alguém que ele não possa comprar ou quebrar. Nesses últimos dias, a única pessoa que ela tentou se comunicar, a única para quem ela fez um desenho com um coração… foi você. — Ele faz uma pausa, engolindo seco. — Ela vai pensar… que finalmente alguém escolheu ficar.
Fico em silêncio. O peso do documento em minhas mãos é o peso do mundo. Olho pela janela, para a cidade cinza, para as vidas anônimas seguindo em frente. Do outro lado da cidade, Lara está em casa, confiante de que sua irmã mais velha tem tudo sob controle.
Volto meu olhar para o contrato. Para as cláusulas de aço. Para a linha pontilhada no final.
Pego a caneta que está na mesa de Dante. É pesada, de metal frio.
— Eu não quero um centavo para mim — declaro, minha voz encontrando uma firmeza que não imaginava ter. — Tudo vai para o fundo de Lara. Tudo. E o senhor vai assinar, agora, um anexo separado, comigo e duas testemunhas, afirmando que o fundo se mantém mesmo se este… casamento… for anulado por qualquer motivo antes dos dois anos. Incluindo se o senhor mudar de ideia.
Ele me observou, e pela primeira vez, vi algo além do cálculo nos olhos dele. Um respeito sombrio. Um reconhecimento.
— Aceito.
— E a Melissa — continuo, a caneta pairando sobre a linha. — Eu não sou sua mãe. Não serei. Mas enquanto estiver aqui, nessa… fortaleza… ninguém vai machucá-la. Isso faz parte do contrato.
Dante Lobo, o homem de gelo, o arquiteto daquela prisão dourada, inclina a cabeça em um único aceno.
— Faz parte.
Respiro fundo. O ar entra nos meus pulmões como lâminas.
E assino.