Capítulo 5 - Valentina

1241 Palavras
Valentina Fiquei ali por alguns instantes segurando o ferimento dele, pressionando as compressas com firmeza enquanto observava cada detalhe do rosto daquele homem, tentando entender como alguém com aquela aparência podia carregar uma reputação tão pesada. Eu já tinha ouvido falar dele, não pelo nome verdadeiro, mas pelo apelido que circulava entre os guardas em tom quase reverente e ao mesmo tempo temeroso. Koschei. Diziam que ele não morria, que já tinham tentado eliminar ele várias vezes e que, de alguma forma, ele sempre voltava. Diziam também que ele era responsável por mortes dentro e fora daquela prisão, que era um homem que não hesitava, que não perdoava, que não sentia. E, ainda assim, ali naquele momento, deitado na minha frente, inconsciente, pálido, sangrando, ele parecia apenas… humano. Aquele contraste me incomodou mais do que deveria. Porque, se eu tivesse cruzado com ele na rua, talvez não percebesse nada, talvez não visse perigo nenhum, talvez ele fosse só mais um homem entre tantos outros. Mas ali dentro, naquele contexto, ele era o centro de tudo, o motivo daquela rebelião, o motivo pelo qual eu estava presa naquela cela contra a minha vontade. Os homens voltaram trazendo mais materiais, e eu continuei o que precisava ser feito, reforçando a sutura, ajustando as compressas, garantindo que o sangramento permanecesse controlado, mesmo sabendo que aquilo ainda estava longe de ser uma situação segura. Quando terminei, respirei fundo e me levantei, indo em direção à porta da cela com a intenção clara de sair dali o mais rápido possível, mas antes que eu conseguisse dar mais de dois passos, um dos homens colocou o braço na minha frente, bloqueando completamente a passagem. — Foi m*l, doutora, mas você vai ter que ficar aqui até amanhã de manhã — disse Enzo, com um tom que não deixava espaço para discussão. — Se ele passar m*l, ninguém aqui sabe o que fazer. Você vai ter que ficar e cuidar dele. O meu corpo inteiro reagiu na mesma hora. — Isso é um absurdo. Eu não posso ficar aqui dentro com ele. Ele é perigoso, vocês são perigosos. Eu fiz o que vocês pediram, eu salvei a vida dele. Agora vocês têm que me deixar sair. Ele soltou uma risada baixa, como se aquilo fosse ingênuo da minha parte. — Você ainda não salvou. Ele ainda não acordou. Quando ele abrir os olhos e estiver falando, aí a gente vê. Até lá, fica quieta aí e faz o teu trabalho. — Eu não vou ficar aqui! Tentei passar por ele, empurrando, forçando a saída, mas fui contida com facilidade. Meu corpo foi empurrado de volta para dentro da cela, e a porta foi fechada logo em seguida, o barulho do ferro ecoando como uma sentença. Alguns deles riram do lado de fora, comentando entre si como se aquilo fosse uma situação comum, como se eu não fosse uma pessoa presa ali contra a vontade. Um colchão foi jogado no chão, perto da parede. — O chefe fica na cama. Você dorme aí — disse Enzo, apontando com a cabeça. — E fica tranquila. Ninguém vai mexer com você. A gente vai ficar aqui fora a noite toda. Eu não respondi. Apenas me afastei, pegando alguns panos da própria cela e improvisando uma barreira visual, tentando criar o mínimo de privacidade possível, mesmo sabendo que aquilo não mudava muita coisa. Me encolhi em um canto, abraçando o próprio corpo, tentando controlar o tremor que não passava. Eu não sabia o que ia acontecer quando ele acordasse. E aquilo me apavorava. Levei a mão até o bolso do jaleco e peguei o celular, digitando com pressa uma mensagem para saber se estava tudo bem com a minha filha. O tempo de espera pareceu muito maior do que realmente foi, e quando a resposta veio dizendo que estava tudo bem, que ninguém tinha aparecido na minha casa, eu senti um alívio momentâneo que quase me fez chorar. Guardei o celular novamente, tentando me concentrar no presente, tentando não deixar o desespero tomar conta completamente. Alguns minutos depois, ouvi movimentação do lado de fora, passos, vozes baixas, e então alguém bateu na grade, me entregando um prato de comida. Eu hesitei por um segundo, mas acabei aceitando. Eu precisava me manter de pé. Precisava pensar. Precisava sair dali. Comecei a comer devagar, ainda com o corpo tenso, quando percebi um movimento diferente atrás de mim. Virei o rosto. Ele estava se mexendo. Meu coração disparou na mesma hora. Me levantei devagar, me aproximando com cautela, observando enquanto ele abria os olhos aos poucos, ainda desorientado, murmurando coisas que não faziam sentido, como alguém tentando voltar à consciência depois de muito tempo no escuro. E então ele me viu. O olhar focou em mim. E ele falou. — Então é assim que é morrer… — a voz saiu rouca, baixa, carregada de esforço. — Não achei que o inferno fosse tão bonito. Eu fiquei em silêncio por um segundo, tentando processar aquilo. — Você não morreu — respondi, mantendo distância. — Continua na prisão. Ele franziu a testa levemente, como se estivesse tentando organizar os pensamentos, e tentou se levantar rápido demais, mas a dor o fez parar no meio do movimento, a mão indo direto para o ferimento. — Se não morri… então quem é você? — Valentina. Eu sou médica aqui. Ele me encarou por alguns segundos, analisando, como se estivesse tentando decidir se aquilo era real ou não. — Foi você que fez isso? — Fui eu que impedi você de morrer. Ele soltou uma pequena risada, mesmo com a dor. — Doutora… você tem noção de que é bonita o suficiente pra fazer um homem achar que chegou no céu? Eu não respondi. Apenas me afastei, voltando para o meu canto, tentando ignorar completamente aquele tipo de comentário, tentando me manter focada no que realmente importava. Ele tentou se levantar novamente. — Não — falei imediatamente. — Você precisa ficar deitado. Esses pontos podem abrir. — Eu preciso levantar. — Não precisa. Precisa ficar vivo. Ele me olhou com um leve sorriso de lado. — Eu preciso ir ao banheiro. Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo. — Você deveria ter pensado nisso antes de quase morrer. — Me ajuda a levantar. — Eu não vou conseguir. — Então chama alguém. Caminhei até a grade e bati, chamando a atenção dos homens do lado de fora. Dois entraram, ajudaram ele a se levantar com cuidado e levaram até o canto da cela para que pudesse fazer o que precisava. Eu virei o rosto, tentando dar o mínimo de privacidade possível dentro daquela situação absurda. Quando terminaram, colocaram ele de volta na cama, e um deles me olhou de um jeito que fez meu corpo inteiro gelar. — A gente podia aproveitar melhor essa situação, né, doutora? Eu me encolhi automaticamente, o medo vindo de forma instantânea, mas antes que qualquer coisa acontecesse, a voz dele cortou o ambiente de forma fria. — Encosta nela pra você ver. O silêncio caiu na mesma hora. — Eu corto o que você tiver no meio das pernas e faço você engolir. O homem recuou imediatamente. — Foi m*l, chefe… não foi nada… Eles saíram rápido. E, pela primeira vez desde que entrei naquela cela… O medo mudou de forma. Porque agora eu sabia exatamente quem ele era. E o mais assustador de tudo… Era que ele tinha acabado de me proteger.
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