Capítulo 4 - Valentina

1210 Palavras
Valentina O barulho começou como um impacto seco vindo do corredor, forte o suficiente para fazer tudo vibrar ao nosso redor, e no mesmo instante eu soube que aquilo não era normal, não era rotina, não era mais um dia comum dentro daquele lugar. Os guardas vieram correndo na nossa direção, completamente alterados, sem o controle que costumavam manter, e um deles gritou que estava acontecendo uma rebelião em outro setor, mandando que nos abaixássemos imediatamente enquanto diziam que iriam proteger a ala médica, como se aquilo fosse realmente suficiente para garantir alguma coisa. Eu senti meu estômago revirar na mesma hora, porque já tinha aprendido que, quando o controle se perde ali dentro, ninguém está seguro, não importa o cargo, não importa de que lado esteja. — Meu Deus, eu vou pedir demissão desse lugar, eu não aguento mais — disse Mariangela, tremendo ao meu lado, a voz completamente tomada pelo pânico enquanto se encolhia atrás da bancada e olhava ao redor como se estivesse procurando uma saída que não existia. — Toda hora isso acontece. — Maldita hora que eu achei que isso aqui seria interessante — respondi, tentando manter a voz firme, mesmo com o coração batendo rápido demais dentro do peito. Nós nos abaixamos, tentando nos esconder, tentando desaparecer dentro de um espaço que de repente parecia pequeno demais para qualquer tipo de proteção, enquanto o som do lado de fora crescia a cada segundo, passos correndo, homens gritando, ferro batendo contra ferro, grades sendo forçadas, coisas sendo derrubadas, e então veio um grito alto, seguido de um impacto violento que fez tudo tremer novamente, o tipo de som que não deixava dúvida de que alguém tinha sido atingido de forma grave. O silêncio simplesmente deixou de existir, dando lugar a um caos contínuo que parecia tomar conta de tudo. A porta foi arrombada com violência, o impacto fazendo a estrutura inteira estremecer, e antes mesmo que eu conseguisse reagir, vários homens invadiram a sala. Eles estavam sujos de sangue, ofegantes, com olhares pesados, carregados de intenção, e aquilo foi o suficiente para fazer meu corpo inteiro travar. Mariangela apertou meu braço com força, tremendo ao meu lado, e eu sabia que estava igual ou pior por dentro, mesmo tentando manter o mínimo de controle. — Quero saber quem é a médica — disse um deles, avançando um passo à frente, a voz firme e carregada de ameaça. Ninguém respondeu de imediato, e o silêncio que se formou foi sufocante, pesado, até que ele pegou um pedaço de ferro e bateu com força na mesa, o som ecoando alto o suficiente para nos fazer encolher ainda mais. — Eu não vou perguntar de novo. Quem é a médica? Eu virei o rosto devagar e olhei para Mariangela, que já estava chorando, completamente travada, incapaz de reagir, e naquele momento eu entendi exatamente o que ia acontecer se ninguém falasse. Levantei a mão com dificuldade, sentindo o corpo pesado. — Sou eu. Ele me analisou por alguns segundos antes de se aproximar e segurar meu braço com força, deixando claro que aquilo não era um pedido. — Então pega tudo que você precisar. O nosso chefe está morrendo, e você vai salvar ele. O medo subiu pelo meu corpo de uma forma quase insuportável, mas eu me obriguei a reagir, indo até os armários e pegando tudo que pudesse ajudar, mesmo sabendo que aquilo ali estava longe de ser o suficiente para um procedimento daquele nível. Luvas, gaze, compressas, pinça, fio de sutura, agulha, qualquer coisa que pudesse ser usada ali dentro, enquanto minhas mãos tremiam e minha mente tentava acompanhar a gravidade da situação sem entrar em pânico. Antes de sair, eu ainda olhei uma última vez para Mariangela, que continuava ali, encolhida, chorando, completamente sem reação, e aquilo ficou marcado em mim de uma forma que eu não consegui explicar, mas não havia nada que eu pudesse fazer naquele momento. Fui puxada para fora. O corredor estava irreconhecível, homens caídos no chão, sangue espalhado, marcas de luta por todos os lados, o som de pancadas ainda ecoando, gritos vindo de diferentes direções ao mesmo tempo, criando uma sensação de descontrole absoluto. No meio do caminho, outros homens vieram para cima da gente, mas foram contidos na força, empurrados, derrubados, o confronto acontecendo ali mesmo, corpo a corpo, enquanto eu era levada no meio daquele caos sem ter qualquer controle sobre a situação. — Por favor… eu não posso morrer — falei, sem conseguir controlar a voz, sentindo o desespero tomar conta. — Eu tenho uma filha pequena… O homem que me segurava olhou para mim de lado, sem parar de andar. — Então faz o teu trabalho direito. Continuamos até chegar à cela, e assim que entrei, o cheiro metálico de sangue foi a primeira coisa que me atingiu, forte o suficiente para fazer meu estômago revirar. Olhei para o homem no chão e fiquei parada por um segundo, absorvendo o que estava vendo, ele estava inconsciente, completamente coberto de sangue, com um ferimento profundo no abdômen que deixava claro que aquela situação estava longe de ser simples. — Se vira, doutora. Porque se ele morrer, você morre junto. A cela foi fechada, e eu fiquei ali sozinha com ele, sentindo o peso da responsabilidade cair sobre mim de forma esmagadora, sabendo que qualquer erro ali significaria muito mais do que a morte dele. Respirei fundo, tentando afastar o pânico, porque naquele momento não havia espaço para isso, e comecei a trabalhar. Coloquei as luvas, me aproximei e avaliei rapidamente os sinais vitais, a respiração fraca, o pulso irregular, a quantidade de sangue perdida, tudo apontando para uma situação crítica que precisava ser resolvida imediatamente. Afastei o tecido improvisado que cobria o ferimento e comecei pressionando com compressas, aplicando força suficiente para conter o sangramento enquanto organizava mentalmente cada etapa do que precisava fazer. Limpei o máximo que consegui com solução, retirando o excesso de sangue para enxergar melhor, e então identifiquei o ponto mais crítico, um vaso que ainda sangrava de forma ativa. Peguei a pinça e prendi com cuidado, estabilizando o suficiente para ganhar tempo, enquanto preparava a agulha com as mãos ainda tremendo, mas agora mais firmes, guiadas pelo treinamento e pela necessidade. Comecei a sutura, pontos rápidos e firmes, fechando o que era possível, reduzindo o sangramento, tentando manter ele vivo com o mínimo que eu tinha disponível. O sangue começou a diminuir, e aquilo foi o suficiente para me fazer continuar, ignorando o cansaço, ignorando o medo, focando apenas no que precisava ser feito. Continuei fechando as camadas, reforçando onde era necessário, até conseguir estabilizar o máximo possível dentro daquela realidade limitada. Quando terminei, me afastei por um segundo, observando, a respiração dele ainda fraca, mas presente, o pulso mais estável do que antes, mesmo que ainda longe do ideal. Eu não sabia se aquilo seria suficiente, não sabia quanto tempo ele aguentaria daquele jeito, mas sabia que, naquele momento, ele ainda estava vivo. Encostei as mãos nos joelhos por um instante, tentando recuperar o ar, e foi então que tudo voltou de uma vez, o barulho do lado de fora, o caos, o perigo, e principalmente o motivo pelo qual eu precisava sair dali. Minha filha.Eu precisava voltar.Por ela.
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