Dante
O barulho começou baixo, quase imperceptível para quem não está acostumado com esse tipo de ambiente, mas aqui dentro qualquer alteração no som significa alguma coisa, e eu já aprendi a reconhecer quando o caos está prestes a começar antes mesmo dele realmente acontecer. Não precisei de confirmação, não precisei de aviso, o instinto falou primeiro, e foi o suficiente para me fazer agir sem hesitação. Peguei as lâminas improvisadas escondidas debaixo do travesseiro e o ferro que eu mesmo moldei ao longo do tempo, sentindo o peso familiar nas mãos, aquele tipo de sensação que não traz conforto, mas sim preparo. Saí da cela sem pensar duas vezes, já no ritmo da guerra, e no momento em que coloquei os pés no corredor entendi que aquilo não era uma simples tentativa, era algo maior, mais organizado, mais agressivo do que das outras vezes.
O cenário já estava tomado pelo caos, homens caídos no chão, alguns ainda se movendo, outros completamente imóveis, o sangue espalhado marcando cada pedaço daquele espaço como se fosse um aviso claro de que ninguém ali sairia ileso. Meus aliados italianos tentavam segurar o avanço, mesmo já feridos, enquanto os russos vinham com uma brutalidade diferente, movidos por algo que ia além de disputa, aquilo era pessoal, era vingança, e eu sabia exatamente o motivo. A morte da minha esposa nunca foi encerrada para eles, nunca foi esquecida, e cada ataque era uma tentativa de fechar aquela conta da forma mais direta possível.
— Protejam o chefe!
A voz ecoou no meio da confusão, carregada de urgência, mas eu já estava em movimento, analisando o que estava acontecendo, buscando o ponto de comando no meio daquela bagunça organizada, porque ninguém lidera um ataque daquele porte sem estar presente.
— Quem está liderando isso?
Perguntei, mantendo o olhar fixo à frente enquanto me posicionava para o confronto.
— É o Sokolov, chefe! Ele veio pessoalmente! Isso aqui é por causa da russa!
Aquilo confirmou o que eu já sabia, e a única coisa que fiz foi avançar, sem hesitação, porque não existe negociação em situações como aquela, não existe recuo quando o alvo é você. O impacto foi imediato, lâmina contra lâmina, força contra força, e o som do metal rasgando carne começou a se misturar com gritos e respirações pesadas enquanto eu atacava sem espaço para erro. Derrubei o primeiro homem com um golpe direto na garganta, o segundo tentou reagir, mas foi mais lento, e o terceiro caiu antes mesmo de entender o que estava acontecendo, mas aquilo não era suficiente, nunca é quando o número está contra você.
A pressão aumentava a cada segundo, e foi nesse momento que tudo mudou, porque o som de um disparo cortou o ambiente de uma forma completamente diferente, seco, alto, impossível de ignorar, trazendo uma vantagem que até então eles não tinham.
— Arma!
O alerta veio imediato, e o efeito foi o esperado, meus homens recuaram instintivamente enquanto os russos avançavam com mais confiança, sabendo que agora tinham algo que poderia mudar o rumo daquilo em segundos.
— Recuem! Agora!
Ordenei sem perder tempo, já me movendo em direção à cela mais próxima enquanto calculava cada movimento, cada possibilidade, porque ficar ali seria suicídio. Entramos e trancamos a porta com tudo que tínhamos, improvisando bloqueios, empurrando estruturas, fazendo o que fosse necessário para impedir a entrada deles, e foi então que a voz que eu esperava finalmente apareceu do lado de fora.
— Se quiserem sair vivos, é simples! — a voz de Sokolov veio carregada de ironia. — Entreguem o Koschei.
O silêncio dentro da cela foi imediato, pesado, e eu senti os olhares se voltando para mim, não por dúvida, mas pelo peso da situação, porque ali dentro todos sabiam o que estava sendo pedido, e o que poderia acontecer se alguém cedesse ao medo.
— Vai se f.o.d.e.r, Sokolov! — gritou Enzo, firme, sem hesitação. — Aqui ninguém entrega o próprio sangue.
Aquilo bastou para deixar claro de que lado eles estavam, e do lado de fora o impacto começou, os russos empurrando a porta com força, tentando invadir, enquanto meus homens reagiam atacando pelos espaços possíveis, acertando braços, mãos, qualquer coisa que aparecesse, mantendo a resistência da única forma que dava.
Foi nesse momento que tudo saiu do controle.
— Chefe…
A voz veio mais baixa, diferente, e aquilo chamou minha atenção mesmo no meio do caos.
— O que foi?
Perguntei, sem olhar diretamente.
— Me desculpa.
A frase não fez sentido de imediato, mas o impacto fez. O ferro entrou com força no meu abdômen, atravessando sem aviso, tirando o ar dos meus pulmões na mesma hora e fazendo o mundo ao meu redor desacelerar de forma brutal. Meu corpo tentou reagir, mas já era tarde, e o sangue começou a escorrer quente, pesado, enquanto eu dava um passo para trás antes de cair.
A reação dos outros foi imediata, eles avançaram sobre o traidor sem hesitar, golpes rápidos, violentos, até que ele não representasse mais ameaça, mas aquilo já não importava tanto quanto o fato de que eu estava no chão, sentindo a dor crescer a cada segundo, misturada com a perda de força que começava a tomar conta.
— O chefe está ferido!
As vozes vinham distantes, como se estivessem sendo puxadas para longe, enquanto do lado de fora a voz de Sokolov voltava, agora carregada de satisfação.
— Parece que a sua hora chegou, Koschei. Nem todos os seus homens são leais o suficiente.
Respirei com dificuldade, tentando manter o controle, mas sentindo o corpo falhar aos poucos.
— Você não vai sair daí. Os guardas já foram pagos. Até amanhã… você já vai estar morto.
Os passos começaram a se afastar, e aquilo foi pior do que o ataque, porque significava que o plano dele não era me matar rápido, era me deixar morrer lentamente.
Dentro da cela, o caos continuava, meus homens andando de um lado para o outro, tentando conter o sangue, pressionando o ferimento, falando ao mesmo tempo, tentando me manter consciente enquanto a situação ficava cada vez mais crítica.
— Respira, chefe. Fica com a gente.
— Está sangrando muito…
— Pressiona mais aqui!
Senti as mãos, senti a pressão, senti a dor aumentar, e ainda assim consegui falar, mesmo que com dificuldade.
— Eles não vão vir… os guardas estão comprados…
— A gente vai dar um jeito!
— Isso foi planejado… ele já estava com eles…
A respiração ficou mais pesada, o corpo mais fraco, e eu sabia exatamente o que aquilo significava.
— Você não vai morrer.
A voz veio firme.
— Não desse jeito.
Olhei na direção de quem falou, tentando focar, tentando me manter presente.
— A gente vai buscar um médico.
— Não dá… eles estão esperando…
— Então a gente não leva você até lá.
Houve um pequeno silêncio antes da resposta que realmente importava.
— A gente traz o médico até você.
Aquilo fez sentido, mesmo sendo arriscado, mesmo sendo uma sentença para qualquer um que fosse pego fazendo aquilo.
— Isso vai ferrar vocês…
— Você é o nosso chefe.
A resposta veio sem hesitação.
— A gente não abandona os nossos.
Olhei para cada um deles, ainda ali, ainda de pé, ainda dispostos, e tentei dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas a tontura veio forte, pesada, e aos poucos tudo começou a se apagar.
E então…
Escuro.