Capítulo 3 - Dante

1236 Palavras
Dante O barulho começou baixo, quase imperceptível para quem não está acostumado com esse tipo de ambiente, mas aqui dentro qualquer alteração no som significa alguma coisa, e eu já aprendi a reconhecer quando o caos está prestes a começar antes mesmo dele realmente acontecer. Não precisei de confirmação, não precisei de aviso, o instinto falou primeiro, e foi o suficiente para me fazer agir sem hesitação. Peguei as lâminas improvisadas escondidas debaixo do travesseiro e o ferro que eu mesmo moldei ao longo do tempo, sentindo o peso familiar nas mãos, aquele tipo de sensação que não traz conforto, mas sim preparo. Saí da cela sem pensar duas vezes, já no ritmo da guerra, e no momento em que coloquei os pés no corredor entendi que aquilo não era uma simples tentativa, era algo maior, mais organizado, mais agressivo do que das outras vezes. O cenário já estava tomado pelo caos, homens caídos no chão, alguns ainda se movendo, outros completamente imóveis, o sangue espalhado marcando cada pedaço daquele espaço como se fosse um aviso claro de que ninguém ali sairia ileso. Meus aliados italianos tentavam segurar o avanço, mesmo já feridos, enquanto os russos vinham com uma brutalidade diferente, movidos por algo que ia além de disputa, aquilo era pessoal, era vingança, e eu sabia exatamente o motivo. A morte da minha esposa nunca foi encerrada para eles, nunca foi esquecida, e cada ataque era uma tentativa de fechar aquela conta da forma mais direta possível. — Protejam o chefe! A voz ecoou no meio da confusão, carregada de urgência, mas eu já estava em movimento, analisando o que estava acontecendo, buscando o ponto de comando no meio daquela bagunça organizada, porque ninguém lidera um ataque daquele porte sem estar presente. — Quem está liderando isso? Perguntei, mantendo o olhar fixo à frente enquanto me posicionava para o confronto. — É o Sokolov, chefe! Ele veio pessoalmente! Isso aqui é por causa da russa! Aquilo confirmou o que eu já sabia, e a única coisa que fiz foi avançar, sem hesitação, porque não existe negociação em situações como aquela, não existe recuo quando o alvo é você. O impacto foi imediato, lâmina contra lâmina, força contra força, e o som do metal rasgando carne começou a se misturar com gritos e respirações pesadas enquanto eu atacava sem espaço para erro. Derrubei o primeiro homem com um golpe direto na garganta, o segundo tentou reagir, mas foi mais lento, e o terceiro caiu antes mesmo de entender o que estava acontecendo, mas aquilo não era suficiente, nunca é quando o número está contra você. A pressão aumentava a cada segundo, e foi nesse momento que tudo mudou, porque o som de um disparo cortou o ambiente de uma forma completamente diferente, seco, alto, impossível de ignorar, trazendo uma vantagem que até então eles não tinham. — Arma! O alerta veio imediato, e o efeito foi o esperado, meus homens recuaram instintivamente enquanto os russos avançavam com mais confiança, sabendo que agora tinham algo que poderia mudar o rumo daquilo em segundos. — Recuem! Agora! Ordenei sem perder tempo, já me movendo em direção à cela mais próxima enquanto calculava cada movimento, cada possibilidade, porque ficar ali seria suicídio. Entramos e trancamos a porta com tudo que tínhamos, improvisando bloqueios, empurrando estruturas, fazendo o que fosse necessário para impedir a entrada deles, e foi então que a voz que eu esperava finalmente apareceu do lado de fora. — Se quiserem sair vivos, é simples! — a voz de Sokolov veio carregada de ironia. — Entreguem o Koschei. O silêncio dentro da cela foi imediato, pesado, e eu senti os olhares se voltando para mim, não por dúvida, mas pelo peso da situação, porque ali dentro todos sabiam o que estava sendo pedido, e o que poderia acontecer se alguém cedesse ao medo. — Vai se f.o.d.e.r, Sokolov! — gritou Enzo, firme, sem hesitação. — Aqui ninguém entrega o próprio sangue. Aquilo bastou para deixar claro de que lado eles estavam, e do lado de fora o impacto começou, os russos empurrando a porta com força, tentando invadir, enquanto meus homens reagiam atacando pelos espaços possíveis, acertando braços, mãos, qualquer coisa que aparecesse, mantendo a resistência da única forma que dava. Foi nesse momento que tudo saiu do controle. — Chefe… A voz veio mais baixa, diferente, e aquilo chamou minha atenção mesmo no meio do caos. — O que foi? Perguntei, sem olhar diretamente. — Me desculpa. A frase não fez sentido de imediato, mas o impacto fez. O ferro entrou com força no meu abdômen, atravessando sem aviso, tirando o ar dos meus pulmões na mesma hora e fazendo o mundo ao meu redor desacelerar de forma brutal. Meu corpo tentou reagir, mas já era tarde, e o sangue começou a escorrer quente, pesado, enquanto eu dava um passo para trás antes de cair. A reação dos outros foi imediata, eles avançaram sobre o traidor sem hesitar, golpes rápidos, violentos, até que ele não representasse mais ameaça, mas aquilo já não importava tanto quanto o fato de que eu estava no chão, sentindo a dor crescer a cada segundo, misturada com a perda de força que começava a tomar conta. — O chefe está ferido! As vozes vinham distantes, como se estivessem sendo puxadas para longe, enquanto do lado de fora a voz de Sokolov voltava, agora carregada de satisfação. — Parece que a sua hora chegou, Koschei. Nem todos os seus homens são leais o suficiente. Respirei com dificuldade, tentando manter o controle, mas sentindo o corpo falhar aos poucos. — Você não vai sair daí. Os guardas já foram pagos. Até amanhã… você já vai estar morto. Os passos começaram a se afastar, e aquilo foi pior do que o ataque, porque significava que o plano dele não era me matar rápido, era me deixar morrer lentamente. Dentro da cela, o caos continuava, meus homens andando de um lado para o outro, tentando conter o sangue, pressionando o ferimento, falando ao mesmo tempo, tentando me manter consciente enquanto a situação ficava cada vez mais crítica. — Respira, chefe. Fica com a gente. — Está sangrando muito… — Pressiona mais aqui! Senti as mãos, senti a pressão, senti a dor aumentar, e ainda assim consegui falar, mesmo que com dificuldade. — Eles não vão vir… os guardas estão comprados… — A gente vai dar um jeito! — Isso foi planejado… ele já estava com eles… A respiração ficou mais pesada, o corpo mais fraco, e eu sabia exatamente o que aquilo significava. — Você não vai morrer. A voz veio firme. — Não desse jeito. Olhei na direção de quem falou, tentando focar, tentando me manter presente. — A gente vai buscar um médico. — Não dá… eles estão esperando… — Então a gente não leva você até lá. Houve um pequeno silêncio antes da resposta que realmente importava. — A gente traz o médico até você. Aquilo fez sentido, mesmo sendo arriscado, mesmo sendo uma sentença para qualquer um que fosse pego fazendo aquilo. — Isso vai ferrar vocês… — Você é o nosso chefe. A resposta veio sem hesitação. — A gente não abandona os nossos. Olhei para cada um deles, ainda ali, ainda de pé, ainda dispostos, e tentei dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas a tontura veio forte, pesada, e aos poucos tudo começou a se apagar. E então… Escuro.
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