Capítulo 2 - Dante

1218 Palavras
Dante Quatro anos. Esse é o tempo que estou preso nesse lugar que o sistema chama de penitenciária de segurança máxima, mas que, na prática, funciona como um campo de guerra constante, onde cada respiração precisa ser conquistada e cada segundo exige atenção absoluta. Aqui dentro, não existe rotina, não existe descanso, não existe confiança. Existe apenas sobrevivência, e mesmo isso nunca é garantido. Eu aprendi rápido que quem abaixa a guarda não dura, e que qualquer sinal de fraqueza vira sentença. Por isso, todos os dias eu acordo com a mesma mentalidade: continuar vivo é a única prioridade. Meu nome é Dante Bitchelo. Mas ninguém aqui ousa me chamar assim. Para os italianos, eu sou o homem que mantém o equilíbrio. Para os russos, eu sou um problema que precisa ser eliminado. E dentro dessas paredes, eu carrego um nome que eles mesmos me deram, um nome que se espalhou como um aviso e virou lenda entre aqueles que já tentaram me derrubar e falharam. Koschei. O homem que deveria ter morrido… mas continua de pé. Eu tenho trinta anos, mas vivi o suficiente para saber que poder nunca vem sem cobrança. Sou o chefe de uma das famílias mais influentes da Itália, e mesmo preso, continuo sendo o centro de decisões que muitos prefeririam que deixassem de existir. O problema é que me apagar não é tão simples quanto eles gostariam. Eu construí tudo com estratégia, controle e, acima de tudo, frieza. Emoção nunca fez parte das minhas escolhas. E foi justamente isso que me manteve vivo até agora. A razão de eu estar aqui não foi um erro impulsivo. Foi uma decisão calculada que teve consequências maiores do que o esperado. Meu casamento foi um acordo político entre a Itália e a Rússia, uma união que tinha como objetivo manter a estabilidade entre duas forças que, se entrassem em conflito direto, deixariam um rastro impossível de controlar. Eu aceitei aquele acordo porque parecia o caminho mais eficiente. Uma aliança sólida, uma esposa que representava um pacto, e um cenário onde todos sairiam ganhando. Pelo menos, era isso que queriam que eu acreditasse. A verdade apareceu tarde demais. Ela não era apenas minha esposa. Era uma espiã. Alguém que foi colocada ao meu lado com um único objetivo: me eliminar no momento mais conveniente. Durante meses, ela desempenhou o papel perfeitamente, observando, aprendendo, esperando. Mas subestimou uma coisa essencial. Eu não sou um homem distraído. Eu percebo detalhes. E quando percebi que havia algo errado, já era tarde demais para ela. Eu a matei antes que ela pudesse me matar. Foi uma escolha simples. Viver ou morrer. E eu sempre escolho viver. O problema é que aquela decisão não ficou apenas entre nós. Os russos interpretaram como traição, como quebra de acordo, como um ato que precisava de resposta. Eles exigiram a minha cabeça. Queriam justiça, ou melhor, queriam vingança. O conselho italiano, por outro lado, sabia exatamente quem eu era e o que eu representava. Me entregar não era uma opção. Mas também não podiam ignorar a pressão. Então encontraram uma solução intermediária. Me prenderam. Não como punição real, mas como uma jogada política. Um sacrifício controlado para evitar uma guerra direta. A ideia era simples: me manter afastado por tempo suficiente para acalmar os ânimos e, depois, resolver tudo nos bastidores. Só que o tempo passou… e eu continuo aqui. E, enquanto isso, os russos continuam tentando terminar o que começaram. — Chefe… A voz veio baixa, respeitosa. Era Lorenzo, um dos guardas que trabalha diretamente para mim. — Fala, Lorenzo. — Estão comentando sobre movimentação no outro setor. Parece que vão tentar algo contra o senhor de novo. Ainda não tenho o horário certo, mas a informação já está circulando. Eu soltei uma risada curta, sem humor, apoiando o corpo contra a parede fria da cela enquanto analisava cada detalhe ao meu redor, como faço automaticamente desde o primeiro dia em que pisei aqui. — Eles são persistentes. — Dessa vez parece mais organizado. — Eles sempre tentam melhorar a estratégia. Nunca melhora o resultado. Passei a mão na barba, pensativo, calculando possibilidades, trajetos, tempos, reações. Aqui dentro, pensar rápido não é diferencial. É obrigação. — Assim que tiver confirmação, me avisa. — Pode deixar, chefe. Quando Lorenzo saiu, o silêncio voltou a dominar o espaço, mas nunca é um silêncio real. Sempre existe barulho ao fundo. Vozes, passos, metal, respiração. Tudo é informação. Tudo pode ser ameaça. Caminhei até o colchão e levantei com cuidado, conferindo as lâminas improvisadas que escondo ali, além de outros objetos que adaptei ao longo desses anos. Cada um deles tem função. Cada um deles já salvou minha vida mais de uma vez. — Chefe… A voz agora era de Pietro, um dos poucos homens em quem ainda se pode confiar dentro desse lugar. — Fala, Pietro. — Já estão comentando entre os caras. Parece que o ataque vai acontecer mesmo. Eu respirei fundo, mantendo a calma, deixando que o raciocínio se organizasse antes de qualquer reação. — Então espalha a informação. Quero todo mundo alerta. Ninguém relaxa. — Já estão se movimentando. — Não o suficiente. Olhei diretamente para ele, deixando claro que aquilo não era um pedido. — Aqui dentro, quem vacila não tem segunda chance. — Entendido, chefe. Ele saiu rápido, e eu fiquei sozinho novamente. Peguei o celular, sabendo exatamente quem precisava ser informado. Não gosto de repetir ordens, e muito menos de lidar com consequências desnecessárias. Quando ela atendeu, reconheci a respiração do outro lado antes mesmo da voz. — Dante, o que aconteceu agora? Era Camila. — Cuidado com o tom. — Então fala logo. — Estão armando outra tentativa contra mim. O silêncio veio imediatamente. — Isso vai complicar ainda mais a sua situação. — Então resolve. — Eu já estou tentando, mas cada vez que isso acontece, tudo piora. Passei a mão no rosto, sentindo a irritação crescer de forma controlada. — Você está sendo muito bem paga para lidar com isso. — Nem tudo depende de dinheiro. — Depende do suficiente. Caminhei de um lado para o outro, sentindo o peso daquele lugar, mas sem deixar que isso me afetasse de verdade. — Quero atualização do território. E quero saber quando eu saio daqui. — O Massimo está cuidando disso. — Então manda o meu irmão me ligar. — Ele está resolvendo problemas que você deixou. — Não me interessa. Eu quero que ele me ligue. Houve uma pausa. — E a Caterina? Fechei os olhos por um segundo, completamente sem paciência. — Não tenho interesse. — Foi você que assumiu ela como sua fiel. — Foi estratégia, não escolha. Encostei a cabeça na parede, sentindo o frio do concreto enquanto organizava os próximos passos. — Eu não me apego a ninguém. Antes que Camila pudesse responder, o barulho começou. Primeiro distante. Depois mais próximo. Gritos. Correria. Metal batendo contra metal. Abri os olhos na mesma hora. A porta da cela se abriu com força, e Pietro entrou ofegante, com o olhar carregado de alerta. — Estão invadindo o pavilhão, chefe! Eu fiquei em silêncio por um segundo. A adrenalina veio rápida, precisa, familiar. Levantei devagar, sentindo cada músculo responder como se já soubesse exatamente o que fazer. Um sorriso frio apareceu no meu rosto. — Então começou.
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