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2772 Palavras
Dulce  Christopher ligou avisando que iria me ver. Christian me ajudou a colocar novos curativos em meus pés, pra que Christopher não desconfiasse de nada. Meu amigo ainda tentava me convencer de que a minha relação com a Água não era nada saudável e não é que eu não concordasse, mas que escolhas eu teria? Quando uma mulher está num relacionamento tóxico, ela tem a opção de se afastar antes que fique totalmente presa nisso.  E o que eu poderia fazer em relação à Água? Ela salvou a minha vida, me mantém viva e faz parte de mim a muito mais tempo do que qualquer outra pessoa. Eu não podia simplesmente escolher me afastar Dela. Gostando ou não, Ela era a única coisa que eu podia amar sem medo de perder.  Christopher trouxe um jogo de tabuleiro e uma pizza, que nós comemos quase inteira enquanto eu o via perder a maior parte das partidas.  — Você é péssimo! — eu ri.  — Ah, é? E sabe no que eu sou bom? — ele me puxou e me deu um beijo de tirar o fôlego. Quando me soltou, eu só consegui sorrir. — Como você conseguiu?  — O que? — franzi a testa.  — Como conseguiu me fazer sentir tão bem em tão pouco tempo? O que você tem de tão especial? — talvez o fato de eu ser uma sereia, Christopher. Mas você não precisava saber disso.  — Me diz você o que sente por mim. — saber se aquela atração era só por causa do meu lado místico era uma coisa que me intrigava. Se tudo não passasse de uma paixonite atrativa, de certo, eu não era responsável por despertar isso no Christopher. Ele precisava estar apaixonado pra que eu soubesse que isso era real.  — Bom, no início, eu confesso que só te achei impressionantemente bonita demais... mas com o tempo, eu vi que tinha mais que isso. Eu gosto de ficar perto de você, conversar com você, te ouvir... eu me sinto muito bem. — aquilo aquecia o meu coração. — Eu não quero só te beijar e t*****r com você. Eu quero te ter por inteira. — eu já podia me derreter?  — Eu sinto o mesmo em relação à você. Ninguém nunca me fez sentir tão bem.  Ele jogou o tabuleiro para o lado e me agarrou, fazendo eu me deitar no chão enquanto me beijava. Ele segurou minhas mãos e as ergueu sobre a minha cabeça, mantendo meus braços fixos no chão.  Christopher mudou a direção de seus beijos, indo para o meu rosto e meu pescoço. Em seguida, ele parou e olhou em meus olhos.  — Ontem eu te perguntei pra onde você pretendia ir depois de Seacity.  — E eu disse que não havia pensado sobre isso. — Por que não pensou? — me olhou com curiosidade.  — Porque eu não quero ir embora daqui tão cedo.  — Por que? — sorriu de lado.  — Eu... encontrei um bom motivo pra ficar...  — Então, não tem que ir. — acariciou minha testa. — Fica aqui. — isso seria ótimo, até que ele e o resto da cidade notassem que eu não mudava minha aparência com o passar dos anos. — Eu não sei mais o que é ter um lar, eu sou uma nômade. Seria estranho ter um lugar fixo.  — Você pode tentar. — E se a gente não der certo? — provavelmente não daríamos. Eu teria que deixá-lo em algum momento.  — Isso não vai acontecer! — exclamou. — A gente tem uma conexão rara, eu não acho que isso vai acabar.  — Eu também não acho, mas isso não é tudo.  — Dulce, o que você realmente quer? O que mais deseja? — segurou o meu rosto. Eu fechei os meus olhos e respiro fundo.  — Liberdade. — disse por fim. Quando abri meus olhos, ele me olhava como se tentasse me entender.  — O que se passa nessa sua cabeça? — ficamos em silêncio por alguns segundos.  — Quer saber o que se passa agora? — o empurrei para o lado, ficando por cima dele.  — Disso eu gosto! — rimos.  Voltamos a nos beijar, de forma quente, esquecendo-se do mundo que nos rodeava, deixando todo aquele desejo tomar conta dos nossos corpos.  Com cuidado, ele me ergueu, ficou de pé comigo em seu colo e caminhou até a minha cama.  E nós fizemos amor, contento nossos gemidos para que o resto da pensão não pudesse saber o quanto estávamos nos divertindo. Pelo menos no farol, eu podia soltar os meus gritos de prazer sem me preocupar em deixar terceiros a mercê do meu transe de sereia.  Aquilo estava sendo maravilhosamente bom, ele mantinha seus movimentos firmes, com seu corpo totalmente colado ao meu, sem se cansar em nenhum momento.  E a noite foi tão gratificante quanto a primeira vez em que compartilhamos nossos corpos. Depois de anos sem nem ter uma conversa decente com um humano, t*****r com alguém que eu realmente gostava era valioso.  ••• Dia seguinte, eu fui trabalhar com Christian, ainda tendo que fingir que meus pés estavam machucados, mas agora eu podia andar sem ter que atuar sobre uma dor que não estava lá.  Eu e Christian limpávamos o cativeiro dos leões-marinhos na primeira hora de trabalho.  — As coisas entre você e Christopher parecem estar indo bem, não é? — Sim, eu me sinto tão bem! — sorri.  — A sua cama batendo na parede do meu quarto ontem deixou isso bem claro. — deu risada.  — Meu Deus... — senti meu rosto corar. — Juro que eu vou afastá-la da parede.  — Mas me diz, o fato do Christopher gostar de você não é culpa dos seus "poderes"? — fez aspas com os dedos.  — Sereias atraem pessoas, mas não são capazes de despertar amor nelas. Se ele se apaixonar por mim, isso virá totalmente dele.  — É por isso que depois de algumas semanas convivendo com você, eu simplesmente parei de pensar nos seus belos lábios? — eu ri ao ouvir aquilo.  — É, Christian.  — Interessante.  Christopher entrou e sorriu para nós. Quando passou por mim, me deu um beijo no rosto e foi direto para os animais.  Não demorou até outra pessoa entrar. Senhor Carter, que ignorou os meninos e veio direto até mim.  — Dulce, eu estava mesmo te procurando! Nesse sábado, nós vamos realizar um baile para arrecadar fundos para o nosso projeto de limpeza marinha. Fazemos isso todos os anos e sempre retiramos toneladas de lixo da nossa costa! Eu gostaria que você fosse minha acompanhante. — eu ouvi Christopher dar uma tossida grave atrás de mim.  — Mas eu sou só a zeladora... — falei sem jeito.  — Pra mim é uma funcionária tão importante quanto qualquer outra. — deu de ombros. — Não se preocupe com a sua posição aqui, eu jamais a trataria diferente. — tocou o meu ombro.  — Talvez ela já tenha companhia! — Christopher declarou.  — Já tem? — ele me olhou.  — Ninguém me convidou. — virei meu rosto e sorri de lado para o Christopher.  — Talvez assim como você, o seu namorado só tenha sido noticiado sobre a data do evento agora. — ele sorriu também.  — Namorado? — Carter intercalou o olhar entre nós dois.  — Pois é, Albert. — Christopher ironizou, fingindo uma cara triste. — Mas foi muita consideração da sua parte pensar na Dulce como a melhor opção, porque realmente, ela é.  — Ok... — Albert ficou sério, deu um último sorriso sem graça e se retirou.  — Isso foi impagável! — Christian soltou a risada que provavelmente não queria soltar na presença do nosso chefe. — Ficou com tanto ciúmes que antecipou o pedido de namoro? — cerrei os olhos para Christopher.  — O Albert flerta com você desde que você chegou aqui, estava na hora de alguém pará-lo. E se eu vou precisar ser o seu namorado pra que isso aconteça, eu aceito o sacrifício. — brincou, com a mão sobre o peito.  — Então, é só pro Albert me deixar em paz? — cruzei os braços.  — Não. — ele se aproximou. — Eu quero que você esteja definitivamente comigo. Eu... gosto de você. Gosto muito. E se você sentir o mesmo, não tem porque a gente ficar adiando um relacionamento que já está previsto, concorda? — pousou sua mão em um lado do meu rosto. — Eu posso te chamar de namorada? — eu mordi meu lábio inferior, impedindo que eu gritasse de alegria.  — Sim! — declarei, pulando em seus braços e lhe beijando.  — Isso foi lindo! — Christian aplaudiu atrás de nós, nos fazendo rir.  — Eu vou até o mar hoje, será que um de vocês pode vir comigo? — ele olhou direto para mim.  — Eu... — não queria me arriscar agora.  — Eu vou, Christopher! — Christian interrompeu. — Nunca acompanhei em trabalho de campo e sempre quis fazer isso.  — Ok. Eu vou preparar o barco e te espero no cais. — ele me deu um selinho e saiu dali.  — Olha, eu acho muito válido que você tente ter uma vida normal, mas acha justo fazer ele gostar de você? Sabe que não vai ficar com ele por muito tempo.  — Eu não quero pensar sobre isso. — falei séria.  — Está sendo egoísta em não pensar. Você viveu décadas desse jeito. Aproveita as maravilhas do mundo por um tempo e depois vai embora, mas tudo bem porque você já espera que seja assim. Ele acha que vocês vão ficar juntos por muito tempo, talvez até pro resto da vida. m*l sabe que a única vida que tem fim é a dele.  — Christian... — Eu não vou te pedir pra parar de fazer isso, você é dona de si mesma e faz suas próprias escolhas. Eu só estou te dizendo o que eu acho. — fiquei em silêncio. — Bom, eu já vou indo.  Fiquei sozinha com meus próprios pensamentos. Contar a verdade ao Christian foi um erro ou eu só não suportava ouvir a voz da razão?  Comecei a sentir uma força maior me incomodar. Era a Água, me chamando para ir até ela.  Saí do oceanário sem ser vista e fui até a praia, que estava vazia. Toquei meus pés no mar e esperei que Ela falasse comigo.  — Eu sei que disse que não te pediria outro trabalho agora, mas um naufrágio aconteceu por si só. Algumas pessoas se afogaram e algumas estão à deriva. É um pouco longe, mas eu te ajudarei a ir mais rápido.  Sem dizer nada, eu me despi e mergulhei no oceano. Demorei quase trinta minutos para poder chegar onde a Água queria.  Cadáveres boiando sobre a água, alguns já afundando. Os catei um a um para o fundo, para que ela os consumisse.  Cerca de cinco pessoas ainda estavam vivas, agarradas ao resto do veleiro que havia se chocado com as rochas da região.  Comecei a cantar e ele se soltaram, ficando totalmente paralisados. Assim como os outros, eu os puxei para o fundo do oceano. A última, uma mulher loira, aparentando ter os seus vinte e cinco anos de idade. Eu nadei com ela para o fundo, mas no meio do caminho, ela acordou.  Me olhou com horror e começou a lutar contra mim. Ela entrou em desespero quando começou a afogar e eu a levei de volta para cima.  — O que está fazendo? — a Água perguntou.  — Você viu ela sair do transe, assim como aconteceu comigo no passado. — cheguei até a superfície e a mulher respirou fundo. Quando ela olhou na direção da minha cauda, gritou, nadando para se afastar. — Não, por favor, eu não vou te machucar!  — Você matou os outros! — berrou.  — Eu quero te ajudar.  — Dulce? O que vai fazer?  — Água, você poderia poupa-la? — pedi. — Ela é especial, você sabe.  — Não está fazendo isso só pra ter o prazer de salvar alguém, não é?  — Eu nunca desejei salvar ninguém sem um bom motivo.  — Com quem está falando? — a garota me olhou curiosa.  — Hum... tudo bem... minhas sereias estão sempre fugindo, é bom ter mais.  — Ei, a gente tem que conversar. — eu disse para a garota. — Vem comigo até a praia.  — Não... — ela me olhava com medo.  — Se não vier, vai morrer. Confiar em mim é o único jeito de salvar a sua vida. E eu sei que você quer viver. Você quer tanto viver que o meu canto não surtiu efeito em você por muito tempo. — agora parecia que ela estava cedendo.  Esticou seu braço em minha direção e eu a segurei em meus braços, começando a nadar para a praia de uma ilha bem próxima de onde estávamos. Um lugar totalmente isolado, ótimo para prepará-la para sua nova vida.  Minhas pernas surgiram e nós duas saímos do mar. Ela me olhou de cima a baixo e tirou o blusão que usava, me entregando para que eu cobrisse o meu corpo nu.  — Obrigada. — eu sorri para ela. — Por favor, se sente, deixe que a Água toque em você. — nós sentamos na areia, recebendo as ondas que iam e vinham. — Você falou com a Água como se Ela fosse uma pessoa...  — A Água é um ser místico, está além da compreensão humana. É Dela que vem a vida na terra. Mas Ela também precisa se abastecer, assim como os humanos se abastecem com Ela. — E o "abastecimento" Dela são vidas humanas?  — Você raciocina rápido. — eu sorri. — É como uma moeda de troca. Alguns são sacrificados pra que a Água continue trazendo ao resto dos seres vivos o que eles precisam. Mas Ela não pode levá-los ao fundo do oceano sozinha, precisa de nós, sereias pra isso.  — E de onde vocês vieram? — me olhou curiosa.  — Somos mulheres que tiveram tanta vontade de viver que criamos uma espécie de barreira contra os encantos do oceano. Somos mulheres especiais, trabalhamos com a Água pra ajudar a abastecer o mundo e em troca, Ela nos mantém vivas.  — Isso é como uma chantagem? — fez uma careta.  — É uma escolha. O seu destino era morrer afogada, mas Ela está disposta a mudá-lo, se você aceitar servi-La. — Por quanto tempo?  — Para sempre. Você será imortal, não irá envelhecer, Ela irá te curar quando você se machucar, não precisa comer ou dormir, mas pode se quiser. Eu, particularmente, durmo e como todos os dias. Por que abriria mão de coisas tão prazeirosas? — eu ri e ela deu um sorriso tímido.  — E a minha família?  — Sinto muito, mas terá que renunciar à ela.  — E se eu não aceitar? — Terei que te levar ao oceano, pra cumprir o seu real destino. — a olhei com pena. — Eu sei qual vai ser a sua escolha final. Você não quer morrer. Nenhuma de nós, sereias, aceitaria morrer. Ela só escolhe aquelas que realmente entendem a importância da vida.  — É meio irônico nós, mulheres tão preocupadas com a vida, sermos assassinas do oceano, não é?  — Uma vida por um milhão de outras. — dei de ombros.  Ela ficou pensativa, seus olhos acompanhavam o movimento das ondas, suas mãos se enterravam na areia e quando ela pareceu se decidir, uma lágrima rolou o seu rosto. — O que eu tenho que fazer agora? — eu toquei sua mão e a olhei com carinho. — Creio que eu vou ter que te ensinar tudo o que precisa saber.   — Dulce, você tem uma semana com ela. — a Água começou. — Vai acompanhá-la nos primeiros trabalhos e depois que ela já estiver confiante, eu cuido dela.  — Uma semana? — me preocupei. — Não posso sumir por uma semana!  — Não pode me desobedecer de novo. — foi firme. Eu suspirei pesadamente.  — Ok, tenho uma semana pra inventar uma boa desculpa por ter sumido.  — Eu também vou poder falar com Ela?  — Claro. — eu disse. — A propósito, como você se chama?  — Angelique.  — Eu sou a Dulce. — demos um aperto de mãos.  Naquela primeira noite, iríamos fazer a transformação dela, então não poderíamos sair da ilha. No dia seguinte, eu me apressaria pra chegar até alguma cidade ou vilarejo, que possuísse um celular ou computador. Eu não podia sumir sem me explicar, ainda mais agora que a minha relação com Christopher havia ficado tão séria.
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