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2094 Palavras
Christopher  Eu e Christian ficamos a manhã inteira no oceano e voltamos no horário de almoço. Eu queria almoçar com a Dulce, mas eu não a encontrei em nenhum canto do oceanário.  Fui até a cantina, onde Christian devorava seu prato e sentei ao seu lado.  — E a Dulce? — perguntei.  — Eu não vi ela depois que voltei, deve ter saído pra comer em outro lugar.  — Ah, ela podia ter avisado... — Christopher, ela não vai te dizer onde está o tempo todo, não é assim que um namoro funciona.  — Eu sei, eu só queria ficar um pouco com ela.  — Leva ela pra jantar à noite. — sugeriu.  — É uma boa ideia. — concordei. Acabei almoçando junto com ele e terminei o resto do meu trabalho no laboratório com Maitê. Ela me disse que convidaria Christian para o evento do sábado e eu sabia que mesmo que ele não gostasse muito de eventos formais, iria pra qualquer lugar que Maitê fosse.  Saí um pouco mais tarde do oceanário e antes de chegar em casa, eu liguei para a Dulce, mas ela não me atendeu.  Tomei um banho e vesti uma roupa confortável, depois fui até a pensão. Entrei cumprimentando as pessoas que passavam por mim e fui direto para o quarto de Dulce. Bati algumas vezes na porta, mas ninguém respondeu e estava trancado.  Fui até o quarto de Christian e bati. Ele me atendeu com o rosto sonolento, quase se escorando na parede.  — Te acordei? — perguntei sem jeito.  — Eu não estava dormindo totalmente, então, tudo bem. O que aconteceu?  — Sabe se a Dulce foi pra algum lugar? Parece que ela não está no quarto dela.  — Hum... — ele se recompôs e me olhou mais atento. — Ela saiu mais cedo que eu do oceanário, acho que tinha que resolver algumas coisas... não sei bem, você vai ter que perguntar pra ela. — deu de ombros.  — Ela não te disse pra onde ia?  — Não.  — Tentou ligar pra ela? Não está me atendendo.  — Eu não sei nem se ela levou o celular.  — Quando você a ver, pede pra ela me ligar.  — Pode deixar.  Me despedi dele e voltei para a minha casa. Eu não queria bancar o namorado controlador, mas eu não sabia onde ela estava desde de manhã. Já era quase nove da noite e minha namorada nem sequer me atendia. Não era pra eu achar isso normal, nem mesmo deixar pra lá.  Nem ela, nem Christian me contataram aquela noite. Eu quase consegui dormir e fiquei rolando na cama até me dar por vencido e aceitar que o meu descanso não aconteceria.  Levantei, calcei meus chinelos e fui até a cozinha. Se eu não ia dormir, pelo menos precisava me distrair com comida.  Preparei uma panela de chocolate que estava cheirando bem o suficiente pra atrair os meus irmãos, que vieram quase correndo no meio da madrugada.  — Fala sério! — revirei os olhos quando eles pegaram suas colheres.  — Você não achou que eu ia sentir cheiro de chocolate e ficar quieta, não é? — Maitê disse, dado a primeira colherada.  — Qual o motivo de estarmos comendo esse "prato da depressão"? — Alfonso perguntou.  — É a Dulce que resolveu sumir de novo. — bufei.  — Qual o problema? Ela é adulta, não deve nada a ninguém. — ele disse.  — Alfonso, eles estão namorando, acho que ela podia pelo menos avisar ao Christopher onde está. — Maitê falou.  — Estão namorando? — ele me olhou surpreso. — Caramba, eu estou extremamente surpreso. Como ela dispensou o capitão aqui pra ficar com o encantador de tubarões? — zombou.  — Você só é melhor dentro da sua cabeça. — retruquei. — Da última vez, ela não te disse pra onde foi? — Maitê perguntou.  — Não e eu também não quis ficar pressionando, a gente ainda não tinha nada.  — Talvez você seja o primeiro namorado dela e ela ainda não entenda o conceito de relacionamento. — Alfonso deduziu.  — Ela já teve outro namorado sim, ele morreu afogado. — eu disse.  — Meu Deus... — Maitê me olhou boquiaberta. — Deve ter sido horrível pra ela.  — Tão horrível que ela custou a confiar em mim. Morre de medo de se apaixonar e me perder.  — Conversa com ela quando ela voltar, deve ter uma boa explicação pro sumiço do nada. — Alfonso me aconselhou.  Continuamos conversando até amanhecer e os dois irem deitar morrendo de sono. Eu continuei acordado e quando o sono bateu, já era quase hora de ir trabalhar. Liguei no oceanário avisando que trabalharia em casa e aproveitei as primeiras horas da manhã pra matar o sono que me consumia.  Quando estava no meu sono mais profundo, fui acordado por meu celular que começou a tocar. Era um número desconhecido, provavelmente de um telefone fixo.  — Alô?  — Christopher? Sou eu! — era a Dulce.  — Dulce? Onde você está? — sentei na cama na hora.  — Desculpe não ter avisado, eu tive que sair às pressas e acabei esquecendo o meu celular. Só agora consegui um telefone. Enfim, eu estou em outra cidade, precisei cuidar de uns assuntos sobre a minha família, mas vou estar de volta em uma semana. Não se preocupe comigo.  — Sua família? Está tudo bem? — me preocupei.  — Sim, está. Não é um grande problema, só precisava ser resolvido rápido. Semana que vem estarei aí.  — Uma semana? Mas e o evento do oceanário?  — Sinto muito, meu bem, mas você vai ter que ir sem mim.  — Em que cidade você está? Eu posso ir até aí?  — Eu prefiro que você não venha, é uma coisa minha, sabe?  — Dulce, eu sou o seu namorado.  — E precisa me dar espaço quando eu te peço isso. — ela foi um pouco grossa.  — Caramba, eu não dormi de preocupação a noite inteira, só estou tentando ser legal com você! — reclamei.  — Eu sinto muito. — foi só o que ela disse.  — E quando você voltar? Vai me explicar o que aconteceu ou vai me pedir pra te deixar em paz?  — Christopher, não é pra tanto!  — Diz isso porque não foi você que ficou aflita! Não pode sumir sem dizer nada, foi muito irresponsável! Agora me liga do nada e diz que vai ficar uma semana fora? Você acha isso certo?  — Desculpe... — suspirou pesadamente. — Eu tenho que ir.  — Dulce! — e ela desligou.  Sinceramente, parecia que eu nem a conhecia. Tudo bem ter precisado sair às pressas, mas a ponto de não poder deixar nenhum bilhete que fosse? Ou explicar ao seu melhor amigo, que foi o último a vê-la? Dulce precisava mudar esse seu lado de não se importar em deixar os outros preocupados.  E se ela me ligou no resto da semana? Não! Eu não sabia se ela estava bem, onde estava, com quem estava... e a cada dia eu ficava mais furioso com ela.  ••• Segurando uma taça de champanhe, olhando com desânimo para todo mundo que estava presente no evento. Eu só queria que aquilo acabasse logo, queria que aquela semana acabasse.  Alfonso tinha tantas pretendentes para acompanhá-lo que não convidou nenhuma. Apenas apareceu e ofereceu um drink para a primeira que disse "oi".  Maitê e Christian riam e dançavam, falando no ouvido um do outro e por vezes, beijando-se. Eu não entendia porque eles ainda não estavam definitivamente juntos.  Me aproximei da mesa de bebidas e me servi de um copo de whiskey.  — Vi você misturar bebidas a noite toda. Isso não vai te fazer bem. — uma das guias do oceanário parou ao meu lado.  — Melhor passar m*l fisicamente do que me sentir m*l mentalmente. — eu ergui o copo e dei um bom gole.  — Qual o problema?  — É isso o que eu quero saber. Qual o problema das mulheres? Não é difícil deixar as coisas claras num relacionamento, é? Por que parece que a minha namorada não se importa nenhum pouco com o que ela me causa?  — Nossa... e ela nem está aqui com você. — ela correu seu dedo indicador no meu peito, de forma bem sugestiva. — Veio sozinho no principal evento do oceanário...  Da porta de entrada, eu vi ela surgir. Com um vestido vermelho de veludo, que ia até metade de suas coxas. Era rodado, tinha um decote bem generoso, segurado por alças delicadas que deixavam seus braços e ombros à mostra.  Seus cabelos estavam soltos, iam até sua cintura e pareciam até que as ondas do próprio oceano haviam sido pintadas de vermelho. Tudo vermelho, como sua boca, como seus sapatos, e seu rosto quando olhou para mim.  — Não, eu não estou sozinho. — respondi, olhando diretamente para Dulce. Me afastei e fui em direção à ela.  — Oi. — sorriu de lado.  — "Oi"? — arqueei a sobrancelha.  — Eu sei, eu tenho que explicar muita coisa.  — Por que não me ligou durante a semana?  — Eu não tinha acesso a nenhum meio de comunicação onde eu estava. — E onde você estava?  — Eu tive que cuidar de uma prima minha que estava doente. Ela mora num vilarejo afastado da cidade, um lugar sem nenhum tipo de tecnologia. Só consegui te ligar aquele dia porque corri rapidinho até a cidade. — ela segurou minhas mãos. — Por favor, me perdoe.  — Céus... a um minuto atrás eu estava morrendo de raiva de você. Mas, caramba, olha pra você! — coloquei minhas mãos em sua cintura. — Não me deixa mais preocupado, por favor. Não sabe o quanto eu me importo com você.  — Eu vou fazer o possível pra não agir assim de novo.  — Mas a sua prima está bem? Achei que você ficaria mais tempo fora.  — Sim, eu ia ficar uma semana, mas ela melhorou muito mais do que o esperado e ficou aos cuidados de alguém que vai saber o que fazer e vai estar sempre com ela. — ela dizia aquilo de um jeito bem satisfatório. Essa experiência deve ter deixado ela emotiva.  — Estou feliz que você esteja aqui. Essa noite iria ser infernal sem você. — segurei seu rosto.  — As mulheres aqui bem que queriam te fazer companhia. — ela riu. — Minhas colegas de trabalho são bem atrevidas.  — Elas só precisam ver que eu já tenho uma dona. — tomei seus lábios num beijo profundo, cheio de saudade. Era impressão minha, ou esse tempo longe fez o beijo dela ficar ainda melhor? Só a soltei quando meu fôlego se foi.  — Que saudade disso! — ela sorriu, me olhando com ternura.  — Nem me fale... — suspirei. — Vem, eu quero dançar com você. — peguei em sua mão e a levei até o salão, onde uma música lenta começava a tocar.  Além de nós, outros casais também tomaram conta do local e todos começamos a dançar no ritmo da canção.  Dulce deitou sua cabeça em meu ombro e eu encostei meu rosto nela, sentindo o doce cheiro que emanava de seus cabelos.  Muitos nos olhavam surpresos, curiosos e até cochichavam entre si. Deveria ser incrível que a mulher que desprezava todo e qualquer homem tivesse finalmente se aberto para alguém. E que bom que isso aconteceu. Ela superava as minhas expectativas e me fazia mais feliz todos os dias.  — Eu não quero que isso acabe... — ela falou, apertando-se contra mim.  — Não vai. — beijei sua testa. — Vou garantir que a gente sempre tenha momentos assim. — sorri para ela, mas ela me olhou com tristeza. — O que foi? Eu disse alguma coisa errada?  — Não. Você sempre diz coisas maravilhosas. É só que eu tenho medo...  — Dulce, você não vai me perder. Me conquistou de um jeito que é impossível que eu cogite em sair da sua vida.  — Talvez você seja forçado a sair. — desviou o olhar.  — Quem seria o louco a me forçar? Eu jamais vou desistir de algo que me faz tão bem.  — Eu acredito em você. — sorriu de leve. — Dorme comigo hoje? Eu quero ficar perto de você o máximo que eu puder.  — Será um prazer, madame. — a beijei novamente. E aquele beijo fez parte da nossa coreografia, se fazendo tão gostoso de sentir quanto a música que invadia os meus tímpanos. E eu só pensava em como seria bom eternizar aquele momento.
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