Dulce
Foi um final de semana inesquecível e eu não parava de sorrir depois de entrar em meu quarto. Aqueles três dias foram o suficiente para eu ter total certeza de que amava o Christopher. Isso era tão gostoso de se sentir e ao mesmo tempo tão perigoso!
Tomei um banho quente, tendo o prazer de poder cantarolar longe dos ouvidos dos humanos. Eu estava tão feliz que meu peito parecia querer explodir a qualquer momento.
Enrolei uma toalha no meu corpo e saí do banheiro. Abri meu guarda-roupa e comecei a separar o uniforme de trabalho. Eu não precisava dormir e pretendia chegar mais cedo para contar às minhas queridas focas como eu estava me sentindo bem! Elas eram ótimas ouvintes.
Batidas em minha porta me fizeram saltar. Alguém parecia desesperado para me ver.
Quando abri, Christopher me olhou da forma mais sombria possível, uma expressão que eu nunca vi e nunca imaginei ver em seu rosto.
— Meu bem? — o olhei com estranheza.
— Eu só vou te fazer uma única pergunta e eu quero que você fale a verdade. — sua voz era grave, me fez tremer em poucas palavras. — Quem você realmente é?
— Hum... o que? — senti o medo me invadir. Ele me ofereceu um papel e eu o abri. Era a cópia de um e-mail do cartório, afirmando que a documentação enviada era falsa. — O que é isso?
— O cartório analisou seus documentos e sabe o que descobriram? Que Dulce Blane não existe! — bateu a mão com força na parede, fazendo com que eu me assustasse.
— Você enviou meus documentos para o cartório? Por que? — comecei a ficar aflita, como eu escaparia disso?
— Foi o Alfonso. Ele não confia em você por motivos bem longe da realidade, mas pelo menos achou algo importante!
— Deve ser um erro! Eles devem ter analisado errado! Isso é um absurdo!
— Absurdo é você continuar mentindo pra mim! Qual é o seu nome? O seu nome real!
— Por favor, eu... — me interrompeu.
— Fala!
— Ok... — tomei fôlego e tentei me preparar psicologicamente para aquilo. — O meu nome é Dulce, mas o meu sobrenome não é Blane. Christopher, já não importa quem eu sou. Já tive muitas identidades, tantas que eu m*l me lembro o meu sobrenome real... — senti que minhas lágrimas estavam chegando e fiz uma pausa, fechei meus olhos e impedi que elas descessem. — Quem eu fui não importa mais.
— Importa pra mim. Eu queria passar o resto da minha vida com você, mas como posso fazer isso se eu nem sei quem você é? — doeu ouvir aquilo, foi como uma facada direto no meu peito. — Por que você precisa mudar de identidade? De quem está fugindo?
— Eu fui dada como morta no acidente com a minha família. Aquilo me traumatizou muito, eu só queria fugir... — seria mais uma mentira, mas seria por bem. — Eu não queria responder perguntas, não queria que ninguém viesse atrás de mim. Então, eu só mudei de país, mudei de identidade... eu escolhi viver sozinha.
— Como pode não lembrar do sobrenome da sua família? — eu realmente não me lembrava, já faziam décadas e depois de se tornar uma sereia, muitas coisas da vida humana se tornam distorções.
— Eu também não sei. — dei de ombros. — Lembrar da minha família é doloroso, eu preferi bloquear tudo que se refere a eles. Eu não quero sair como correta em tudo isso, eu sei que errei em mentir pra você. Peço que me perdoe e que tente me entender. — tentei segurar a mão dele, mas ele se afastou.
— O que fez foi muito pesado, Dulce. Não é tão simples assim te perdoar.
— Eu posso ter tido outro nome no passado, mas agora o meu nome é esse. E isso não faz de mim alguém diferente. Continuo sendo a mesma Dulce que você conhece, eu nunca fingi nada para nenhum de vocês. Fui totalmente autêntica em todas as minhas ações e palavras. Se você gosta de mim, gosta pela forma como eu faço você se sentir, independente do nome que eu tenha. — ele olhou para os lados e suspirou.
— Eu tenho que pensar... sozinho.
— Você não vai terminar comigo, vai? — aquele era o meu maior medo.
— Eu preciso de um tempo pra pensar... um tempo longe de você. — e depois disso, segurar minhas lágrimas já não era uma coisa possível. — Melhor eu ir. — ele saiu e bateu a porta com força.
Comecei a chorar compulsivamente, sentindo aquela dor atravessar o meu corpo como um milhão de agulhas me perfurando ao mesmo tempo. Como ele poderia cogitar em continuar comigo depois disso?
Deitei em minha cama e fiquei chorando por horas. Nem pensava em ir trabalhar. Eu não queria ver ninguém, não queria levantar, não queria continuar acordada.
E quando fechei meus olhos, pensando em adormecer, alguém bateu em minha porta.
— Dulce? Sou eu, Christian. Eu sei que você deve estar um pouco brava comigo... me perdoa? Eu detesto sentir que não estou bem com você. — fiquei em silêncio. — Dulce? Por favor... — continuei sem dizer nada. — Bem, eu ainda tenho uma cópia da chave do seu quarto. — ele abriu a porta e me observou deitada na cama. — Meu Deus, eu te deixei tão m*l assim? — ficou surpreso.
— Não... não foi você... — ele sentou ao meu lado e começou a fazer carinho na minha cabeça. — O Christopher descobriu que eu não me chamo Dulce Blane.
— O que? Como?
— O i****a do Alfonso por algum motivo resolveu me perseguir... — enxuguei meu rosto. — O que ele quer? Ficou tão furioso por eu não ter escolhido ele que resolveu acabar comigo?
— Não, ele não é infantil assim. Deve ter outro motivo. Mas o que você disse ao Christopher?
— Eu tive que criar uma longa explicação, mas não sei se ele acreditou. Você tinha que ver, Christian... ele ficou tão furioso... — comecei a soluçar e ele me abraçou.
— Eu duvido que ele queira ficar longe de você. Ele pode ainda não ter dito, mas pela forma que ele te olha, tenho certeza que a ama.
— Amor não é tudo se você não consegue confiar na pessoa. E que direito de confiança eu tenho? Tudo o que eu faço ao longo da minha vida é mentir!
— A culpa não é sua.
— A culpa é minha por não ter aceitado morrer. As pessoas precisam morrer em algum momento! Por que eu não pude aceitar isso?
— Olha pra mim. — ele ergueu o meu queixo e eu o olhei com atenção. — Você quer morrer? Responda com sinceridade. — fechei meus olhos por alguns instantes e tornei a soluçar. — Viu? Você não quer morrer, é por isso que a Água te escolheu. Você nunca vai aceitar ser mortal.
— Eu não mereço o amor do Christopher. Ele precisa de uma mulher normal, alguém que vai envelhecer e ter filhos com ele. Eu nunca poderei fazer isso.
— Se aceitar perdê-lo, a escolha será sua. E terá que lidar com todas as consequências dessa escolha. — ergueu o braço e olhou seu relógio de pulso. — E a gente tem que ir trabalhar. A nova diretora chega hoje.
— Diretora? — franzi a testa.
— Sim, uma mulher! Não é o máximo?
— Sim. — tentei sorrir.
Christian praticamente me obrigou a levantar e me arrumar para o trabalho.
Quando chegamos ao oceanário, os funcionários comentavam entre si que Alfonso estava internado num hospital psiquiátrico pelo motivo de que não parava de falar em sereias. Algumas pessoas até zombavam dizendo que a loucura de Christopher foi contagiosa e eu, irritada, entrei numa discussão com pelo menos três pessoas para defendê-lo.
— Isso não é estranho? — me aproximei de Christian, que estava consertando um filtro de aquário, sentado num dos bancos do refeitório. — Do nada o Alfonso começa a acreditar em sereias?
— O que acha que pode ter acontecido?
— Eu não sei... — arregalei meus olhos. — Será que ele acha que eu sou uma sereia? E se ele já souber?
— Como ele poderia saber disso?
— É... mas ainda assim...
— Dulce, se acalma. Ninguém vai acreditar no Alfonso se ele começar a te acusar de ser uma sereia. — eu assenti devagar. — Ih... — indagou, olhando para alguém que estava atrás de mim. Virei naquela direção e vi Christopher, parado em frente à porta da diretoria.
E lá de dentro, uma mulher loira, com olhos azuis bem marcantes saiu pela porta e os dois sorriram um para o outro. Seria ela a nova diretora? Mas era jovem demais!
— Quem é essa gata? — Christian praticamente babou.
— Ei! — dei um tapa em sua cabeça. — Respeita a Maitê!
— Ela nem é minha namorada! — revirou os olhos.
Christopher ofereceu o braço para a tal moça e os dois saíram juntinhos em direção ao pátio do oceanário. E pela primeira vez, eu senti aquilo que os humanos chamavam de ciúmes. Francamente, a gente nem havia terminado! Não parei de encarar os dois até que sumissem do meu campo de visão.
— Se quiser arremessar alguma coisa, isso aqui vai machucar muito a cabeça do Christopher. — Christian me ofereceu a chave de f***a.
— Ela deve ser a nova diretora... será que os dois já se conheciam? Ou será que ele está flertando? Ele não pode fazer isso, a gente só deu um tempo! — eu estava furiosa. — Ou eu estou enganada e um tempo significa um término? O século XXI mudou muito o conceito de relacionamento?
— Meu Deus, respira um pouco! — riu.
— "Atenção! Todos os funcionários, apresentem-se ao pátio!" — ouvimos o auto falante anunciar.
Todos os funcionários se aglomeraram ao redor da loira de olhos azuis. Christopher a ajudou a subir num banco e depois de ela pedir silêncio, começou a se apresentar.
— Bem, o meu nome é Anahi Puente e eu espero fazer um bom trabalho com a ajuda de todos vocês. Não quero que me tratem como uma chefe. Somos colegas de trabalho e vamos nos unir pra fazer esse oceanário ser o lugar mais prazeroso de se visitar em toda a Seacity! É um prazer imenso poder estar aqui com vocês! — todos a aplaudiram.
Anahi fez um longo discurso sobre as mudanças que faria no local e todo mundo parecia feliz com isso. Ela queria o que? Bancar a líder legal que mima os funcionários? Típico!
— Finalmente alguém que valoriza os zeladores aumentando o nosso salário! — Christian disse ao meu ouvido.
— Pra mim ela está só puxando o saco agora pra gente não se sentir no direito de reclamar quando ela começar a ser uma megera. — eu disse.
— Só está dizendo isso porque está com ciúmes.
— Tanto faz. — dei de ombros.
Depois que ela acabou, todo mundo começou a voltar para suas devidas funções. Christopher continuou conversando com Anahi animadamente e eu continuei com meus braços cruzados, os olhando fixamente.
E quando todos os outros foram embora, eu me aproximei dos dois.
— Olá! — eu sorri para ela.
— Olá! — ela fez o mesmo.
— Me chamo Dulce. — demos um aperto de mãos. — É muita consideração da sua parte aumentar o salário dos zeladores. — tentei parecer o mais gentil possível.
— Eu quero o que é melhor pra todos aqui. — ela falou. — Será um prazer trabalhar em conjunto com você, Dulce. Bom, agora eu tenho que ir. Às sete na sua casa, Christopher? — eu o encarei sem acreditar que ele havia chamado ela pra sair.
— Isso. — ele assentiu. Ela se despediu e nos deixou sozinhos.
— É sério? A gente nem terminou ainda e você já está saindo com outras? Eu sei que eu fui totalmente errada nas minhas mentiras, mas isso não te ajuda a ser melhor que eu! Que tipo de homem você quer ser? — falei com raiva. Ele começou a rir e eu fiquei totalmente confusa. Agora zombar da minha cara era uma opção?
— Dulce, a Anahi é nossa amiga de infância. Ela é filha de um capitão de outro estado, que era amigo do meu pai. Ela vai jantar comigo e com a Maitê na minha casa, algum problema com isso?
— Ah... eu não sabia... — agora eu estava envergonhada pelo ataque desnecessário.
— Tudo bem, tem muita coisa sobre você que eu também não sei. — alfinetou.
— Já te falei tudo o que eu tinha pra falar. — fiquei séria.
— Mesmo? — se aproximou, me encarando.
— Sim. — respondi sem desviar o olhar. — Você só tem que decidir como vai lidar com isso. — ele voltou a se afastar, mas não disse nada. — O seu irmão está internado?
— Pois é.
— Christopher, ele acha que eu sou uma sereia?
— É... — me olhou de relance. — Como deduziu isso?
— Ora essa, eu não sou burra! Por que diabos ele iria me investigar durante um surto sobre sereias?
— O Alfonso só precisa de um tempo pra reorganizar a própria mente. Ele perdeu metade dos mergulhadores da tripulação durante uma investigação sobre o acidente do papai. Essas coisas mexeram com ele.
— Ele deve se sentir culpado pela vida desses homens, não é? — cocei minha nuca sem jeito. Só de pensar que a culpada era eu, tudo em mim doía.
— Provavelmente sim. — suspirou. — Eu vou voltar ao trabalho. Por que não tenta conhecer a Anahi? Veria que ela não faz o meu tipo.
— E por que ela não faz o seu tipo?
— Porque ela não é você. — eu ia dizer alguma coisa, mas parei e só fiquei olhando pra ele, que deu um sorriso de canto rápido e saiu andando.
É, talvez o Christian tivesse razão em dizer que o amor do Christopher o impediria de me deixar. Eu torcia pra que todo esse sentimento fosse maior do que qualquer coisa.