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2447 Palavras
Christopher  Senti Dulce tremer em meus braços em alguns momentos da noite. E toda vez que ela fazia isso, a apertava contra mim e depositava um beijo em sua cabeça, logo depois, ela relaxava e se aconchegava em mim.  Acordei mais cedo e fui até a parte externa, me preparar para ancorar em outra área. Quando ajeitava as velas, meu celular tocou. Alfonso estava me ligando novamente.  No dia anterior, me ligou para dizer que havia encontrado relatos de outros acidentes muito parecidos com aquele que matou o papai. Mais uma vez, eu ouvi tudo sem tanta vontade, só pra não acabar discutindo.  — O que foi dessa vez? — perguntei ao atender.  — Eu preciso que você veja uma coisa, você não vai acreditar!  — Que coisa?  — Lembra que eu falei sobre os acidentes parecidos? Então, eles acontecem a séculos, nenhum cientista jamais conseguiu explicar o que faz essas pessoas sumirem no mar sem ter acontecido um naufrágio.  — Prossiga.  — Alguns sobreviventes relatam que viram uma sereia. Onde você já ouviu isso?  — Ok, isso é muita coincidência, mas não quer dizer que sejam relatos verídicos. As pessoas podem teorizar dessa forma porque não sabem explicar o que realmente acontece.  — Para um louco, até que você é bem chato em tentar explicar tudo.  — Quem será que me obrigou a encontrar respostas nas coisas reais? — ironizei.  — Ok, Christopher, vamos para o próximo ponto. Eu encontrei registros de várias vítimas desse "fenômeno" e entre elas, uma família alemã. Na década de quarenta, uma família de cinco pessoas estava velejando durante uma viajem à Inglaterra, logo após a segunda guerra.  — E daí? — bufei, já impaciente.  — Um pai, uma mãe, uma filha e dois filhos. Eu vi a foto deles. Você tem que ver a filha mais velha. Vou te mandar por mensagem agora. — ele me mandou uma foto da tal filha mais velha e eu fiquei muito confuso. Ela era exatamente igual à Dulce.  — Ok, incrível, mas e daí? Existem muitas pessoas mortas que se parecem com pessoas atuais.  — Eu sei, mas não é só isso. O nome da garota era Dulce Maria Saviñon. Não é curioso?  — O nome da minha namorada é Dulce Blane. — suspirei.  — Sabia que não encontraram o corpo dela? Depois de alguns anos, acharam a ossada de todos os integrantes da família, menos a dela.  — Eu acho que você está assistindo documentários demais. Por que não tenta dormir um pouco?  — Eu só estou tentando dizer que isso é bem estranho. Veja só, Dulce não tem família, conhece todos os cantos do mundo e conversa com os animais marinhos como se eles pudessem entendê-la.  — Eu também faço isso, Alfonso! — fiquei impaciente. — Vai tirar um cochilo, ou marca uma consulta com o meu terapeuta.  — Vou te mandar o PDF de um texto que eu encontrei. Foi escrito no século XIV por um filósofo francês. É bem interessante.  — Depois, Alfonso. Eu estou no meio de um passeio romântico com a minha namorada.  — A leitura não vai demorar nada, eu juro!  — Não acha que você anda muito abalado? Perdeu parte da sua tripulação quando foi investigar sobre o papai, eu aposto que isso deve ter mexido com você.  — Christopher, só lê. — ele desligou e logo depois me mandou o tal PDF.  Eu li sem muito entusiamo.  "A teoria da Água" relatava de forma fantasiosa como a Água do mar poderia estar viva, usando "anjos da morte" para coletar almas ao longo da história. Esses "anjos" seriam garotas que ao clamarem à Água por suas vidas, foram presenteadas com a imortalidade. Em troca, elas serviriam à Água para sempre.  Continuando a leitura, em uma parte do texto, o autor contava com relatos de pessoas que afirmam terem visto esses "anjos".  "Pele escamosa, guelras no pescoço, bela mulher, cauda reluzente como vidro recém polido, canto mortal".  Aquilo era quase um verso de poema.  E ao ler os relatos que descreviam as escamas, eu lembrei do dia do acidente. Em minha falsa memória, eu conseguia lembrar da cauda parecida com vidro, tão bonita que nem parecia real. E não era real, era só uma lembrança traumática.  Fechei o PDF e voltei a ajeitar as velas. Alfonso não tinha o direito de jogar todas essas teorias conspiratórias na minha cara e esperar que eu concorde com elas. Logo ele, que lutou por meses pra que eu fugisse da ideia de ter visto uma sereia. Não era justo comigo que ele viesse com essa história depois de tanto tempo. O que ele queria? Me ferir? — Meu bem? — Dulce apareceu, vestindo uma de minhas camisas.  — Oi, linda! Bom dia! — fui até ela e lhe dei um selinho. — Como dormiu?  — Muito bem. Obrigada por ter me abraçado a noite toda.  — Te abraçar é uma dádiva. — eu a envolvi em meus braços e lhe dei um beijo longo.  Voltamos a velejar depois de tomar café da manhã. As ondas estavam um pouco mais fortes, trazendo um pouco da água do mar para dentro do veleiro. Com isso, eu notei que Dulce se encolhia e até cobriu seu corpo com uma toalha, como se não quisesse ser tocada por nenhuma gota de água.  Eu parei quando avistamos algumas baleias saltando para fora da água, belas e graciosas.  — Elas parecem felizes. — Dulce falou, olhando de forma serena para os animais.  — Não quer nadar com elas? Eu já fiz isso várias vezes e garanto que é seguro. — Não, eu não quero entrar no mar.  — Tudo bem, então, eu vou. — tirei minha camisa e comecei a caminhar até a cabine, para pegar a roupa de mergulho que havia trazido.  — Não! Espera! — ela correu até mim e parou em minha frente. — Não me deixa aqui sozinha.  — Dulce, é bem pertinho. Vou estar aqui do lado.  — Por favor, não entra no mar. — segurou minhas mãos e me olhou com piedade. Aquela atitude era muito estranha, parecia que ela tinha medo que eu mergulhasse.  — Ok... — respondi, ainda um pouco desconfiado. — Então, eu vou pegar a câmera pra fazer umas filmagens. — ela assentiu e sorriu com alívio.  Peguei a câmera, posicionei o tripé e comecei a filmar as baleias.  Eu fiquei observando cada gesto de Dulce. Seu olhar para as baleias era de amor, o que eu considerava completamente normal, já que parecia mesmo que ela amava animais marinhos. Mas bem mais que isso, era quase fraternal. Me lembrava muito o jeito como Maitê me olhava.  — Dulce, você gosta de outros animais que não sejam marinhos? — perguntei curioso.  — Eu costumava gostar muito de gatos, mas infelizmente não tive mais nenhum contato com eles.  — Por que não?  — Eu viajo muito, não tem como levar um gatinho pra lá e pra cá o tempo inteiro.  — Como começou essa sua paixão pelo mar?  — Minha família amava velejar. Nós sempre optávamos por viajar de barco e fazer passeios em veleiros. Fizemos isso em vários países que visitamos.  — Qual foi o último país? — seria loucura se ela respondesse Inglaterra.  — Inglaterra. Foi lá que o acidente aconteceu. — suspirou pesadamente. Eu fiquei em silêncio por um tempo, tentando me convencer de que era completamente normal existirem coincidências assim.  — E você tinha irmãos?  — Dois meninos. Eu era a mais velha. — assenti devagar. — O que foi? — jogou a cabeça para o lado, me olhando com curiosidade. — Você ficou pensativo demais.  — Como foi crescer na França?  — Por que está me fazendo tantas perguntas? — cruzou os braços.  — Eu gosto de ouvir sobre você, meu bem. — ela sorriu de lado.  Não que eu estivesse acreditando nas histórias do Alfonso, só era curioso como duas pessoas que nasceram em lugares e tempos diferentes tivessem tantas coisas em comum. Reencarnação, talvez? Não, também não acredito nisso. Creio que eu precise voltar a tomar os meus remédios.  Convenci Dulce a ficar ali no domingo também e ela aceitou. Foram dois dias muito proveitosos e eu me senti completo com ela do meu lado. Não existia ninguém capaz de me fazer tão feliz. Eu era o homem mais sortudo do mundo por ter Dulce em minha vida.  Ela era incrível demais, podia sentir isso a cada instante. Dulce me tratava com muito carinho, se preocupava em me fazer rir, em ressaltar o quanto eu era especial pra ela e como ela tinha medo de me perder. Eu também tinha medo de perdê-la. Ela era boa demais e qualquer um minimamente melhor que eu se interessaria.  Na nossa última noite no oceano, eu fiquei observando ela concentrada enquanto lia um livro. E durante a leitura, ela fazia algumas expressões de surpresa, irritação e soltava alguns risos suaves. Eu não conseguia parar de assisti-la e naquele momento, tudo o que eu queria dizer era que eu a amava. E por alguma razão, eu não disse. Fiquei em silêncio, encarando a perfeição que era a minha namorada. Na manhã de segunda, pouco antes do nascer do sol, nós retornamos para a cidade. Eu a acompanhei até a pensão e depois segui para a minha casa.  Entrei devagar me certificando de não fazer barulho, tirei meus sapatos e fui em direção ao meu quarto.  — Christopher? — ouvi Maitê me chamar quando passei pela porta dela.  — Te acordei?  — Não, eu não consegui dormir.  — Por que? — franzi a testa.  — Eu não quis te contar pra não estragar a sua viagem. — suspirou. — O Alfonso foi internado.  — O que? — fiquei boquiaberto.  — Ele ficou trancado no escritório por horas e só sabia falar sobre como a água do mar matava as pessoas propositalmente. Eu não sei... não entendi metade das coisas que ele disse. O convenci a ir até o seu terapeuta no sábado, que o caminhou para um psiquiatra, que o internou. A previsão é que ele fique no hospital por uma semana.  — E o que ele tem?  — O médico acha que ele está tendo surtos e alucinações, assim como você. Ele não ficou enchendo a sua cabeça, não é? Eu não quero que você se prejudique logo agora que está indo tão bem.  — Ele me ligou falando algumas coisas sobre a Dulce, mas eu não dei ouvidos.  — Pois é, ele tem falado muito sobre como a Dulce não parece ser quem realmente é. — ela fez uma cara triste. — Por que essas coisas têm que acontecer com a gente?  — Eu sinto muito. — desviei o olhar.  — Christopher, não estou falando m*l de você, não ache isso.  — Tudo bem, maninha. Eu vou dormir agora, tá? — ela assentiu. — Tenta também.  Antes de ir para a minha cama, uma pontada de curiosidade me pegou e eu fui até o escritório de Alfonso.  Tudo estava espalhado sobre a mesa. Tinham livros, documentos e muitas anotações. Não consegui entender metade do que ele estava tentando fazer.  Abri seu notebook e olhei suas últimas pesquisas, tudo sobre sereias. Talvez a loucura fosse algo hereditário na minha família e só agora nós descobrimos isso.  Uma notificação chegou e eu abri seu e-mail. Era do cartório, avisando que tinham analisado os documentos que Alfonso os enviou.  Depois de ler o enorme texto de protocolo, no fim do e-mail, estava bem explícito que a identidade em questão era um documento falsificado, tratando-se de um indivíduo que não existia.  A pergunta que pairava agora era: a identidade de quem era falsa? Alfonso pesquisou tanta coisa sobre tanta gente que encontrar uma resposta no meio daqueles papéis era uma missão impossível.  Eu sabia que aquilo não sairia da minha cabeça enquanto eu não descobrisse do que se tratava. Tirei uma cópia do e-mail e saí de casa.  Dirigi até o hospital psiquiátrico da região e pedi para ver o meu irmão. Fui até o quarto que me indicaram, onde ele estava dormindo.  — Alfonso? — o chamei. — Acorda! — dei um tapa em seu rosto.  — O que? Quem? — acordou atordoado. — Meu Deus, Christopher! Quer me matar?  — Talvez eu te mate por estar colocando a Maitê nessa situação! Me culpou por tanto tempo por bancar o louco e agora vai ficar na mesma que eu? Olha como são as coisas! — o olhei com seriedade.  — Você veio aqui unicamente pra esfregar na minha cara que eu sou um hipócrita? Não precisa, eu já sei bem disso. Mas eu não sou louco e é bem provável que você também não seja.  — Ok, você recebeu esse e-mail. — entreguei o papel para ele. — Do que se trata?  — Eu sabia! — ele ficou de pé e olhou para aquela folha como se tivesse acabado de encontrar ouro.  — De quem é essa identidade? — perguntei impaciente. — Irmão, o que eu vou te dizer agora vai mudar tudo. — colocou a mão em meu ombro. — É da Dulce. Não existe nenhuma Dulce Blane registrada nessa região da França de onde os documentos dela vêm. — fiquei estático, tentando processar tudo isso. — Eu sabia que tinha algo nela! — Espera... — respirei fundo. — Esses resultados são mesmo dos documentos dela? — eu não queria acreditar naquilo.  — São. Eu tive acesso a eles na diretoria do oceanário. Sua namorada, seja lá como ela se chame de verdade, não é quem diz ser. E aquela fotografia antiga... — o interrompi.  — Nem começa com essa história de Água assassina! Acredito nesses resultados, mas não acredito que a Dulce seja um tipo de ser de outro mundo! Você vai ficar bem aqui nesse hospital, vai cuidar da sua sanidade mental e vai voltar pra casa são, ok?  — Mas...  — Nada de "mas"! Da Dulce cuido eu.  — O que vai fazer?  — Eu não sei... cara, eu estou namorando com alguém que não tem um nome real! Eu estou tão furioso e tão confuso! Como ela pôde? — eu olhava o conteúdo do papel excessivamente.  — Fala com ela e volta aqui pra me contar qual desculpa ela deu. — riu pelo nariz.  Saí do hospital sentindo o meu sangue fervilhar. Quem ela era? O que estava fazendo aqui? Seria alguma fugitiva da lei? Isso explicaria porque não para em nenhuma cidade por muito tempo.  Mas de todas as pessoas, porque ela tinha que mentir justo pra mim? Eu abri o meu coração para ela, fui totalmente transparente o tempo todo! Por que essa garota tinha que me magoar assim?
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