06

3151 Palavras
Dulce Não que eu quisesse alimentar as esperanças de Christopher, apenas não desejava que ele achasse que eu não gosto dele. Eu gosto da maneira como ele parece apaixonado pelos animais marinhos e o jeito que trabalha com muito amor.  Não o conhecia bem para saber se era uma boa pessoa ou não, mas a forma como ele trata os animais diz muito sobre a sua pureza. Talvez, eu conseguisse fazer ele ser meu amigo, assim como o Christian.  Preparei biscoitos usando a receita da minha mãe, que era uma das poucas coisas sobre a minha família das quais eu me lembrava com detalhe. Deixei no laboratório, na mesa dele, pouco depois de terminar todos os meus serviços. Quando ia sair, a porta foi aberta por Maitê.  — Ah, oi, Dulce! — ela sorriu.  — Olá. — sorri também.  — Precisa de alguma coisa?  — Só vim deixar uns biscoitos pro Christopher, já estou de saída.  — Hum... — me olhou de canto. — Parece que você encontrou alguém digno de você, não é?  — O que? Não, não é isso! — eu ri. — Eu só estava sem nada pra fazer, fui até a cantina e preparei os biscoitos, só isso.  — Ok... — ela continuava me olhando com insinuações.  — Até mais, Maitê.  — Até mais, cunha... Dulce. — deu risada. Eu fiquei levemente corada pela brincadeira e sorri sem jeito, saindo o mais rápido possível de lá.  Ainda era o meio da tarde e o sol ainda esquentava aquelas ruas de ladrilhos. A rua estava movimentada e eu torcia pra que ninguém estivesse na praia, mas para o meu azar, o lugar estava cheio.  Fui direto para o cais, onde poucos barcos estavam ali, completamente vazios. Sentei no chão de madeira e coloquei meus pés na água.  — Olá, minha querida! — Ela disse, com carinho.  — Olá!  — Você veio cedo, geralmente eu só te vejo à noite.  — Adiantei todo o meu trabalho pra vir aqui. — Já que está aqui, eu vou precisar de você.  — Ok... — e a sensação de vazio me inundou. Eu tinha que fazer aquilo, mas me fazia um m*l inexplicável.  — Entre no mar, eu te guiarei.  — Quantas pessoas?  — Eu senti pelo menos trinta almas.  — Tudo bem... vamos fazer isso.  Mergulhei no mar e lá dentro, eu tirei todas as minhas roupas e as coloquei numa rocha, afastada do cais. E a minha calda surgiu. Nadei para longe, bem rápida, sendo guiada por Ela.  Já estava bem longe da cidade quando avistei um barco médio. Parecia um barco de passeio, desses alugados por várias famílias.  — Cante. — Ela pediu.  — Tem crianças lá.  — Toda alma é válida. — Mas... — me interrompeu.  — Vai me questionar?  Forcei-me a cantar, enquanto minhas lágrimas desciam. Eram mais de setenta anos fazendo aquilo e eu jamais me acostumaria. Sentia remorço por cada vida que eu tirava, cada sonho interrompido por mim. Eu carregava o peso daquelas mortes todos os dias, sem ter nenhum minuto de paz.  Pessoas de todas as idades começaram a saltar do barco, algumas afogando-se sozinhas, outras boiando. Famílias que agora deixariam de existir.  Vi uma mãe pular no mar com o seu bebê no colo e por impulso, eu fui até lá e peguei a criança, impedindo que ela se afogasse.  — Deixe-a! — ordenou.  — Não pode fazer isso, ela é um bebê! — eu estava aos prantos.  — Dulce! — senti o mar ficar gélido. — Se ela não morrer afogada, morrerá congelada!  — Por favor... — apertei a criança contra mim. A neném chorava tão alto, que sua voz ecoava naquele silêncio oceânico.  — Solte-a! — a temperatura baixou ainda mais.  Vi que não teria jeito, comecei a cantar para a criança e aos poucos, ela entrou em transe, ficando imóvel. Nadei para o fundo, abraçada com aquele pequeno corpo e antes de soltá-la na escuridão, corri meu dedo por seu rostinho, pedindo perdão em pensamento por ter que fazer aquilo.  Depois de vê-la sendo engolida pela areia que vinha do fundo, eu retornei para a superfície e fui buscando um a um, até que não sobrasse mais ninguém.  Nadando furiosamente, eu voltei até o cais quando já estava anoitecendo. Vesti minhas roupas e saí da água.  — Nunca mais faça isso, me ouviu? Nunca mais! — Ela disse com raiva. — Eu estou tentando te manter viva, manter todos vocês vivos! Se eu não me alimentar, como abastecerei todos os outros humanos? Prefere matar alguns ou todos eles?  — Boa noite, Água. — peguei meus sapatos e saí andando sem olhar para trás.  Chegando perto da pensão, eu avistei Christopher sentado nos degraus. Ele segurava uma bandeja nas mãos. Quando me viu, ficou de pé e abriu um sorriso.  — Eu vim devolver a sua bandeja e aproveitei para enche-la com biscoitos feitos por mim. Já que eu provei os seus, você tem que experimentar esses. — eu estava tão atordoada que suas palavras soaram como murmúrios incompreensíveis. — O que foi? — franziu a testa. — Você estava nadando? — apontou para a minha roupa molhada.  Eu não disse nada, só o abracei, encostando minha cabeça em seu peito. Ele não esperava aquilo e demorou alguns segundos para me abraçar de volta. Ao menos, ele não me fez nenhuma pergunta. Christopher acariciava meus cabelos com carinho e, por incrível que pareça, eu me senti segura dentro do abraço de um humano.  Depois de longos segundos, me afastei devagar, evitando olhar diretamente em seu rosto. O que eu iria dizer?  — Tudo bem? — ele perguntou.  — Não, mas eu não quero falar sobre isso.  — Ok, sem problemas. Eu tenho certeza que independente do que aconteceu, não é culpa sua. — eu tentava me convencer disso todos os dias, mas era impossível não me sentir culpada.  — Obrigada. — sorri de canto. — E obrigada pelos biscoitos. — segurei a bandeja em minhas mãos.  — Eu acho que você vai querer ficar sozinha agora, então eu já vou indo. — eu assenti. — Até amanhã, Dulce. — ele se esquivou, depositando um beijo no meu rosto e depois de sorrir, entrou em seu carro e partiu.  Entrei na pensão e depois de um banho quente, vesti o meu pijama mais confortável e enrolei meus cabelos numa toalha para seca-los.  Coloquei um filme na televisão e comecei a comer os biscoitos que Christopher me trouxe. Eram tão bons quanto os meus e eu podia sentir o gosto de avelã. E na tampa, ele deixou um bilhete que dizia "De avelã, como os seus olhos."  Eu senti o meu coração esquentar ao ler aquilo. Um sorriso inevitável apareceu e eu só conseguia pensar que foi bom ter conhecido alguém tão gentil, por mais que essa gentileza tenha alguma relação com o fato de eu o atraí-lo.  Ouvi dois toques na porta e levantei para abrir. Christian entrou direto e se jogou na minha cama, pegando um dos biscoitos.  — Que filme estamos vendo? — perguntou.  — A cinco passos de você. — deitei ao lado dele.  — Esses biscoitos não parecem os seus. — ele viu o bilhete sobre a cama e pegou para ler. — Olha só! Tá de paquera? Foi o Albert?  — Primeiro, eu não estou de paquera. Segundo, não foi o Albert, foi o Christopher. — Vocês vão sair ou algo do tipo? — Christian me olhou animado.  — E você é o que? Uma garotinha de 15 anos? — eu ri.  — Vai, me diz! — insistiu.  — A gente não vai sair, eu só quero ser amiga dele.  — E ele quer o mesmo?  — Eu não sei, mas vai ter que se contentar com isso. — dei de ombros. — E o festival no fim de semana? Ele te convidou pra ir?  — Sim, mas eu não quero ter um encontro com ninguém, você sabe.  — Dulce, por que evita tanto os homens? — me olhou com curiosidade. — Ninguém é bom o suficiente pra você?  — Eu não vim pra essa cidade à procura de romances.  — Nunca se apaixonou?  — Já. — suspirei pesadamente.  — Não acabou bem, não é? — me olhou triste.  — Ele morreu afogado.  — Meu Deus, igual a sua família! — arqueou as sobrancelhas.  — Acho que foi trauma o suficiente pra mim.  — Não vamos mais falar disso. Vem cá. — ele me puxou e eu deitei em seu peito. — Saiba que você é muito amada, Dulce. Em poucos meses você conseguiu ser a melhor amiga que eu já tive.  — Eu também te amo. — sorri.  No fundo, eu tinha medo. Todas as pessoas que eu já amei foram levadas pela Água. Não sei até que ponto era seguro criar tanto afeto por Christian. Mas era inevitável não amá-lo, quando ele me fez sentir ser alguém normal pela primeira vez.  ••• No dia seguinte, eu elogiei Christopher pelos biscoitos e nós trocamos receitas. Era a primeira vez que eu compartilhava algo tão íntimo com alguém. Eu sentia que podia confiar nele.  No fim de semana, eu e Christian fomos juntos até o festival do circo. Entramos em algumas tendas com mulheres barbadas, um homem super forte, uma encantadora de cobras e outro que conseguia tocar vários instrumentos ao mesmo tempo.  Resolvemos ir até o parque de diversões e começamos a caminhar por entre as barracas de jogos.  — Acho muito bom que tenha esse tipo de coisa por aqui. Seacity é maravilhosa, mas muito parada. — ele disse.  — Como você veio parar aqui?  — Eu queria sair da casa dos meus pais e essa era a cidade que cabia no meu bolso. — riu pelo nariz. — Eu gosto daqui, é muito bonito, tem um litoral de dar inveja.  — É verdade. — assenti.  — Olha quem tá ali! — apontou para uma das barracas.  Christopher usava uma daquelas espingardas de chumbo para tentar acertar um dos bichos de pelúcia. Maitê estava ao seu lado e gritava que queria o urso cor de rosa. Ele acertou o urso cor de rosa e também um golfinho de pelúcia.  — Ei, olá! — Christian se aproximou deles e eu fui obrigada a segui-lo.  — Oi, gente! — Maitê sorriu. Ela parecia feliz abraçando aquele urso.  — Maitê, não quer ir na roda gigante comigo? O Christopher não se incomoda em fazer companhia pra Dulce, não é? — eu queria bater no Christian agora.  — Por mim tudo bem. — ele respondeu olhando pra mim.  — Só vou se você pagar uma maçã do amor pra mim depois. — Maitê disse.  — Quantas você quiser. — Christian estendeu o braço para ela e os dois saíram em direção à roda gigante.  Fiquei sozinha com Christopher e me senti estranhamente desconfortável. Nós só nos víamos no trabalho e estar aqui ao lado dele no meio de todo esse festival circense era muito incomum.  O olhei segurando o golfinho de pelúcia enquanto me observava constantemente, como se esperasse que eu dissesse algo. Tudo o que eu fiz foi rir.  — O que foi? — franziu a testa.  — Um homem desse tamanho segurando um bichinho de pelúcia? Sair de casa valeu a pena.  — É, eu acho que ele combina mais com você. — me ofereceu e eu o peguei.  — Mesmo?  — Você é praticamente uma sereia. — eu assenti, sorrindo sem graça.  — Obrigada.  — Pelo golfinho ou por ter te chamado de sereia?  — Pelo golfinho. — fui firme.  — Ok, já entendi. Nada de cantadas hoje. Mas você aceita um convite pra comer alguma coisa? Um cachorro-quente ou uma maçã do amor, que tal? Deixando claro que não é um encontro.  — Tudo bem.  — Está mesmo aceitando um convite meu? — colocou a mão no peito, fazendo graça.  — Não me faça desistir. — coloquei as mãos na cintura. Ele fez sinal de zíper na boca e eu dei risada.  Fomos até a barraca de maçãs do amor e compramos duas. Começamos a caminhar pelo parque e eu via Christopher cumprimentar várias pessoas que passavam por nós. Era como se ele conhecesse a cidade toda.  — Sempre morou aqui? — perguntei curiosa.  — Vim quando eu tinha três anos. Alfonso tinha cinco e mamãe estava grávida da Maitê. Viemos porque o meu pai foi transferido pra cá.  — Nunca pensou em ir pra outro lugar?  — Eu e meus irmãos moramos um tempo na capital quando fazíamos faculdade, mas assim que nos graduamos, voltamos pra cá. Alfonso foi embora depois de alguns meses, mas voltou agora pra substituir o meu pai.  — Sente falta do seu pai? — ficar perto de Christopher me incomodava pelo fato de eu ter sido responsável pelas coisas horríveis que lhe aconteceram. Eu gostaria de poder mudar tudo.  — É claro, Dulce. Ele era o meu pai.  — Eu sinto muito... — eu queria tanto poder pedir perdão!  — Já faz muito tempo. — sorriu de canto.  — E a sua mãe? O que aconteceu com ela?  — Ela faleceu por conta de um câncer quando eu tinha 12 anos. Meu pai nos criou sozinho depois disso.  — É horrível não ter os pais por perto quando a gente mais precisa, não é?  — Sim. Imagino como deve ter sido difícil pra você, já que perdeu os dois ao mesmo tempo.  — Perder pessoas que eu amo me fez passar por um inferno. Eu nunca mais quero sentir isso de novo.  — É por isso que você não aceita sair com ninguém? Não quer amar ninguém? — me olhou curioso.  — Não quero perder ninguém que eu amo.  — Então... — ele parou em minha frente, me fazendo parar de andar. — Se você não tivesse esse medo, teria aceitado sair comigo?  — Você não é tão interessante assim. — brinquei.  — Ei! — reclamou e eu ri. — Deixa eu te mostrar como eu sou interessante?  — Hum... de que jeito?  — Quer me ver ganhar todas as competições desse festival? — Ah, mas eu duvido!  — Você vai ver só! Vem comigo!  Segurando em sua mão, ele me levou até uma competição de canto num karaokê. O melhor cantor escolhido pelo público ganharia um colar banhado a ouro.  Christopher subiu naquele palco e bancou o próprio Elvis Presley, dançando e cantando com os trejeitos de um verdadeiro artista. E eu devo confessar que ele cantava muito bem.  No meio da música, ele desceu do pequeno palco e veio até mim. Enquanto cantava aquela música romanticamente animada, me encarava profundamente, fazendo o meu olhar se fixar no dele.  Ele me girou e começou a dançar comigo. Tudo o que eu fazia era rir de satisfação. Eu estava me divertindo muito com ele.  Ele acabou vencendo e colocou o colar em meu pescoço. Depois dali, fomos até a competição de arremessar dardos, que ele também ganhou, recebendo um cheque de cento e cinquenta dólares.  Como havia prometido, ele ganhou cada uma das competições em que entrou, me enchendo de presentes que ganhava com eles.  No fim da noite, entregamos todos os brinquedos ganhados para as crianças no parque, eu fiquei apenas com o colar e o golfinho de pelúcia.  — E então, interessante o suficiente? — ele perguntou.  — Você tem que se esforçar mais, eu sou muito difícil. — joguei meu cabelo para trás.  — É mesmo? E que tal ir na roda gigante ver a cidade lá de cima?  — Já está ficando tarde. — eu disse, olhando meu relógio de pulso.  — Eu te levo pra casa.  — Sendo assim, tudo bem.  Sentamos em um dos bancos da roda gigante e o brinquedo começou a girar. Realmente, a vista era magnífica. Dava até pra ver a praia e o cais dali. Aquilo me fez lembrar que desde o último trabalho, eu não fui mais visitar a Água. Ainda estava sentida por tudo o que ela me fez passar, por mais que eu soubesse que era necessário.  — Você ficou triste de repente... — ele levou sua mão até meu rosto e colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. — No que está pensando? — Você tinha uma boa relação com a sua mãe?  — Sim, ela era a melhor.  — Eu acho que eu entrei em muitos conflitos com a minha. — eu me referia à Água. Minha mãe biológica jamais me fez sentir m*l.  — Se arrepende de alguma coisa?  — De ter aceitado que ela me impusesse tantas coisas...  — Não conversava com ela sobre isso?  — Ela sempre me disse que eu tinha que trabalhar pra ajudar a todos... ela tinha razão, mas ainda assim era muito duro pra mim.  — Você não precisa fazer nada que não queira, por mais que fosse pra sua mãe. Nem sempre os pais sabem o que é melhor.  Ele respirou fundo de olhos fechado, puxando o ar para dentro de si. Christopher era um homem cheio de paixão em sua alma, alguém incapaz de pensar em qualquer maldade. E eu o fiz passar por algo horrível, aquilo me doía muito.  — Sim.  — O que? — me olhou confuso.  — Eu aceitaria sair com você se não tivesse medo.  — É muito bom ouvir isso. — sorriu para mim.  A roda gigante parou quando o nosso banco estava bem no topo. Christopher deslizou sua mão sobre a trava até encontrar a minha. E por algum motivo, eu senti meu coração acelerar.  — Sua mão é macia. — falei.  — Você acha?  — Sim.  Ele levou sua mão até o meu rosto e o acariciou. Fechei os meus olhos sentindo aquele carinho pela minha pele, tão macio e tão quente...  Quando abri meus olhos, vi que ele se aproximava, pronto para me beijar. E eu queria aquilo também, eu sentia atração por ele agora. Seus lábios tocaram os meus, suaves e cautelosos, sem muita pressa, apenas garantindo que ficassem grudados um no outro o máximo possível.  Ele movimentou sua boca no mesmo ritmo da minha e quando começou a aproximar seu corpo do meu, a imagem do meu último amor sendo levado pela Água surgiu em minha mente. Eu não queria me apaixonar e ter que ver isso de novo.  Parei o beijo e me afastei devagar, o olhando com seriedade.  — Algum problema? — perguntou.  — Eu acho que eu quero ir pra casa. — respondi séria.  — Ah... ok... — o desapontamento em seu rosto me fez sentir m*l, mas eu não disse nada.  Depois dali, ele me levou para casa e durante todo o caminho não dissemos nada. As únicas palavras que trocamos foi quando nos despedimos na porta da pensão, sem contato, apenas com um aceno de mão.  Eu sentia muito por aquilo, mas eu não suportaria me apaixonar por alguém que não podia ser meu.
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