05

2380 Palavras
Christopher  Após o meu primeiro dia longo de trabalho, eu queria mesmo sentar e poder conversar com alguém que não me olhasse com pena. E quem melhor para isso do que a zeladora que eu acabei de conhecer?  Dulce não presenciou minha história, não criou vínculo comigo a ponto de me fazer ser digno de sua pena. Ela sim podia me olhar como se eu fosse normal e saudável. Porque, apesar dos meus esforços em fazer terapia e me medicar, meus irmãos ainda me tratavam como se eu fosse quebrar a qualquer momento e isso me incomodava muito.  Preparei o café, como prometido e aguardei no laboratório. Maitê entrou com a face cansada e já bocejando, pronta para ir embora.  — Vai ficar? — apontou para a garrafa e as xícaras em minha mesa.  — Eu chamei a Dulce pra tomar um café comigo.  — Blane? Ela não vem. — deu um meio sorriso. — Sabe quantas vezes eu vi o Albert chamar ela pra sair? Várias. E sabe quantas vezes ela aceitou? Nenhuma. Até o Alfonso já tentou e não convenceu.  — O Alfonso? — arqueei a sobrancelha.  — Sim.  — Eu só a chamei pra um café, não é um encontro.  — E você não pensou em flertar com ela? — me olhou desconfiada.  — Você não ia embora? — fiquei impaciente.  — Toma o café antes que esfrie. — deu uma piscadela. — Eu guardo seu jantar na geladeira. Boa sorte. — saiu pela porta.  Os minutos passavam e parecia mesmo que ela não apareceria. Tomei pelo menos três xícaras de café enquanto aguardava. Quando me dei por vencido, a porta do laboratório se abriu e ela apareceu.  — Achei que não viria mais. — eu disse.  — Eu não vinha. Comecei a adiantar um pouco da limpeza de amanhã. Pensei que você tivesse desistido mais cedo, mas vi a luz do laboratório acesa e deduzi que ainda estivesse aqui.  — E aí você desistiu de me dar um bolo? — brinquei.  — Te achei muito persistente. — sorriu de lado.  — Por favor, se sente. — puxei a cadeira para ela e ela sentou. — Você vai adorar o café que eu faço. — falei enquanto enchia sua xícara.  — O cheiro está ótimo. — levou a xícara até o nariz. — Vejamos... — ela deu um gole e após uma expressão analisadora, abriu um sorriso satisfatório. — Muito bom.  — Obrigado. — sorri para ela. — E então, Dulce, de onde você é mesmo?  — França. — respondeu rápida.  — E o que te trouxe até essa cidade?  — Eu não costumo morar em um lugar por muito tempo. Gosto de viajar, conhecer novos lugares, testar coisas novas.  — Uma nômade? Interessante. Mas o que fazia antes de entrar pra essa vida? — Dulce suspirou de forma pesada e desviou o olhar repetidas vezes antes de se ajeitar na cadeira e começar a falar.  — Eu vivia com a minha família, não fazia nada demais.  — E eles aceitaram que você vivesse assim? — franzi a testa. — É que você é jovem, não parece ter tanta experiência de mundo.  — Você se surpreenderia. — riu. — A minha família... como posso dizer? Os mortos não podem se incomodar com essas coisas, não é? — deu de ombros.  — Ah, nossa, eu sinto muito! — fiquei sério.  — Não sinta, já faz muito tempo. Sofremos um acidente durante um passeio de barco e eu fui a única a sobreviver.  — E a forma que encontrou pra lidar com isso foi viver viajando por aí?  — Digamos que sim.  — Como você está hoje?  — Bem. Eu posso não ter um lugar pra chamar de meu, mas sinto que o mundo é a minha casa e eu posso estar onde eu quiser.  — Nunca encontrou um lugar no qual quisesse ficar?  — Sim, mas eu não posso. — olhou para baixo. — Eu tento não me apegar.  — E se você ficasse em Seacity? Não seria nada m*l pra mim poder te ver todos os dias. — estranhamente, o flerte era automático com ela.  — Christopher, você me conhece a dois dias. Não é porque eu sou bonita que eu seja legal.  — Até agora eu te acho muito legal.  — Ilusão criada pelo rostinho bonito que você vê. — deu um grande gole em seu café, acabando com todo ele. — Agora você já me conhece. — ficou de pé.  — Não quer saber sobre mim?  — E transformar isso num encontro? — arqueou a sobrancelha.  — São só dois amigos se conhecendo. Para de ficar na defensiva. — fiquei de pé também e cheguei mais perto, a encarando.  — Para de fingir que não está dando em cima de mim. — me encarou também.  — Eu não... — eu ia me defender, explicar que só queria conversar com alguém que não me julgasse pelas coisas que passei, mas quando eu penetrei naqueles olhos, senti todo o meu corpo travar. E não, não era uma sensação boa.  Eu senti um calafrio subir minha espinha, uma sensação de que eu me perderia a qualquer momento enquanto olhasse para ela. Eu descreveria aquilo como um sentimento de medo. Os olhos dela me davam medo.  Dei um passo para trás e esbarrei na mesa. Ela continuou me observando, com o rosto sem nenhuma expressão, completamente neutro. E então, suspirou, olhando para qualquer lugar que não fosse para mim.  — Eu já vou indo. Obrigada pelo café e até amanhã, Christopher. — caminhou até a porta. — Boa noite. Arrumei as minhas coisas e no caminho para casa, eu não parava de me perguntar o que havia acontecido. Por que aquela sensação tão pesada num momento tão inconveniente? O que tinha nos olhos dela?  Entrei em casa e coloquei o meu jantar na mesa. Assim que me sentei para comer, Alfonso apareceu. Ele parecia ter acabado de chegar do mar.  — Como foi o primeiro dia de trabalho? — perguntou indo até a geladeira pegar água.  — Legal. Eu prefiro estar no oceano, você sabe, mas até que eu me diverti hoje.  — Ótimo. Logo você vai estar apto para voltar ao mar, eu tenho certeza. — eu assenti, concordando.  — Ei, Alfonso? Sabe a zeladora nova?  — Dulce? — o rosto dele pareceu se acender. — Linda, não é?  — Pois é, ela tem algo diferente, não acha?  — Sentiu isso também? É como se ela fosse literalmente um imã para os meus olhos. É encantadora.  — Além de tudo isso, você já viu os olhos dela?  — Claro, eles têm uma cor de avelã tão bonita... — olhou para cima como se estivesse imaginando.  — Eu a olhei bem de perto hoje e os olhos dela... não sei... parecia que a qualquer momento eu ia me afogar neles. Literalmente me afogar, no m*l sentido.  — Espera, você ficou com medo da Dulce? — riu.  — Eu só achei que tinha algo de sombrio nos olhos dela. — dei de ombros.  — Christopher, já tomou todos os seus remédios hoje?  — Mas... — ele me interrompeu.  — Toma os seus remédios. — disse saindo da cozinha.  Meu irmão e sua incrível arte de não me dar ouvidos! Desde o acidente, nada do que eu dizia tinha credibilidade para ele. Qualquer coisa fora do comum era ignorada e tratada como uma alucinação criada por mim. Por via das dúvidas, tomei um comprimido a mais do meu medicamento noturno. Eu não sabia até onde confiar no que eu via. E não demorou para aquela dose me apagar. Antes das nove da noite, eu já estava no meu sono mais profundo.  Pela manhã, eu e Maitê fomos juntos até o trabalho e ela não parava de me infernizar por ter levado um quase fora da Dulce.  — Quantos minutos de conversa você teve com ela? Três? — riu, entrando no oceanário. — Achou que ia conquista-la com café?  — Não é isso que você faz com o Christian? — alfinetei.  — O Christian é um amigo! — se defendeu.  — Para de mentir. Não precisa ter medo da rejeição, ele gosta de você também.  — Gosta? — se mostrou interessada. — Esquece, não me interessa porque eu não quero nada com ele! — foi firme.  — Sei. — eu ri. — Ei, olha! — apontei para um cartaz na parede. — Parece que o circo vai estar na cidade no sábado. — Legal, a gente podia ir.  — Tem certeza que não prefere a companhia do seu "amigo" Christian? — eu amava irritá-la.  — E por que você não chama a Dulce? — sorriu de lado.  Fiquei em silêncio. A imagem da Dulce me trazia o sentimento que tive no dia anterior. Eu ainda não havia me recuperado daquela sensação e até planejava evitar vê-la durante o expediente.  — Ela não aceita convites. — falei por fim.  — Se você não convidar, o Albert vai.  — Boa sorte pra ele.  — Um Uckermann não desiste tão fácil. — cruzou os braços. — Ela magoou você? — perguntou em tom de graça.  — Já faz quinze minutos que estamos aqui e ainda não começamos a trabalhar. — comecei a andar, a deixando pra trás.  Quando passei por um dos aquários, vi alguém nadar com os peixes. Pelo cabelo vermelho, aquela era a Dulce, totalmente equipada com sua roupa de mergulho e o cilindro de oxigênio nas costas.  Fiquei estático observando ela ajeitar toda a decoração dentro do aquário. Os peixes pareciam também estar parados, como se a observassem com atenção, formando quase um círculo perfeito em volta dela.  — É sério? — Maitê atrapalhou meus pensamentos. — E ainda diz que não vai tentar mais nada!  — É só que... já reparou nisso? Parece que os peixes estão olhando pra ela. — joguei minha cabeça para o lado e me aproximei do vidro.  — Intrigante... — May deu dois soquinhos no vidro e os animais voltaram-se para nós. — Ah, viu? Talvez a Dulce esteja fazendo barulho lá dentro.  — É, faz sentido. — concordei.  — Fica aí olhando pra ela. — deu dois tapinhas em meu ombro e se retirou.  E eu fiquei olhando ela nadar graciosamente, como se nadar fosse como caminhar sobre o chão. E quando virou na minha direção, ela nadou até o vidro e colocou sua mão sobre ele, me encarando.  Só para testar, eu encarei seus olhos assim como fiz na noite anterior, mas dessa vez eu não senti temor algum. Eram apenas olhos cor de avelã. Belos olhos cor de avelã.  Dulce me deu um "thauzinho" e nadou para cima, em direção à saída do aquário.  Parece que a sensação de estar sendo engolido pelo olhar dela era só fruto do resto de loucura que ainda pairava no meu subconsciente. Era idiotice tentar ignorar a existência dela por um descuido da minha mente adoecida.  Fui até a parte de cima dos aquários. A vi secando seu cabelo com uma toalha, apertando todo o comprimento.  — Bom dia! — falei.  — Bom dia! — ela respondeu.  — Está com tanta coragem pra nadar a essa hora nesse frio? — puxei assunto.  — Eu fiz toda a minha parte da limpeza ontem, então, não me resta mais nada pra fazer além de deixar a decoração dos aquários perfeita.  — E por que tanta pressa pra terminar o serviço?  — Você é da polícia? — franziu a testa e logo depois riu. — Só estou brincando. Eu quero ir até a praia antes que anoiteça.  — Eu espero poder ir até lá em breve.  — O que acha que vai acontecer se for até lá? Digo, você sabe o que vai sentir?  — Não, eu não sei. E é exatamente isso que me assusta.  — Não precisa ser agora, mas sabe que um dia terá que voltar.  — Sim. — assenti. — Eu só preciso resolver os meus conflitos mentais.  — Achei que já estivesse curado.  — Eu ainda acho ter visto uma sereia, essa falsa memória ainda está acesa. Não vou estar bem enquanto isso não sumir e eu finalmente lembrar do que realmente aconteceu. Até lá, eu continuo indo ao psiquiatra e tomando meus remédios.  — Ah... — ela pareceu ficar triste com o que eu disse.  — Não me olha assim. Eu não quero que tenha pena de mim. Lido com isso perfeitamente bem, por isso que estou fora do hospital e trabalhando como qualquer outra pessoa.  — Não tenho pena de você. Pena eu teria se você não tentasse seguir em frente. É só que me dói ver alguém passar por algo assim.  — Como você disse, vai passar.  — Claro que vai. — sorriu de lado e eu acompanhei a curva da sua boca. — O que vai fazer no sábado?  — Não, eu não vou pro festival do circo com você. — deu risada.  — Mas eu nem disse nada!  — Nem precisa.  — Já tem planos com alguém?  — Eu não quero ter nenhum encontro com ninguém. — colocou as mãos na cintura.  — Por que tão durona?  — Por que tão insistente? — jogou a toalha por cima do ombro.  — E se a gente se encontrar por lá? Eu posso falar com você sem que você me dê um soco na cara, não é? — ironizei.  — Eu não sou tão má assim. — negou com a cabeça.  — Comigo você é bem c***l. — Exagerado! — riu.  — Até sábado, ou não! — dei uma piscadela para ela, que acenou com a mão.  Me ocupei bastante pelo resto do dia e quase não parei no laboratório. Maitê era quem preferia ficar fazendo pesquisas totalmente isolada. Minhas pesquisas eram muito mais voltadas para o contato direto com os bichos.  •••  Já era hora de ir embora, eu fui até o laboratório buscar minhas coisas e quando entrei, tinha uma bandeja rosa sobre a minha mesa. Na tampa, um bilhete que dizia "Viu como eu não sou má?"  Quando abri, o doce aroma de biscoitos de chocolate recém saídos do forno subiu e inundou a sala. Tudo o que eu queria agora era me entupir daquilo até não aguentar mais.  Pois é, Dulce, você não é tão má.
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