Terror Narrando
Dessa vez fui eu mesmo dirigindo de volta para o meu morro. Não sei o que fazer com essa mina, na verdade nem sei direito o que ela é daquele cara ou que p***a está acontecendo debaixo desse pano. Mas se ela está aqui, é questão de tempo até que esse cuzão apareça, isso se ele realmente tiver algum sentimento por ela. Porém, se gostasse de verdade, ela não estaria tão abalada como está, não carregaria esse medo estampado no rosto. Quem ama não maltrata, e em cada marca do corpo dela dá para ver os sinais de maus-tratos. A minha cabeça estava pegando fogo, não sabia o que pensar, os meus neurônios ferviam de raiva. Hoje vai ser um daqueles dias que vou precisar fumar um pra acalmar os ânimos e não ter que recorrer aos remédios.
Nem sei direito o que aconteceu e já estou nervoso, cheio de ódio. Não consigo ver uma mancada dessas e ficar na minha, nunca fui de aceitar certas coisas. Sempre tive mais afinidade com mulheres mais velhas ou da minha idade. Essas novinhas são muito emocionadas, dão uma dor de cabeça que eu não preciso ter. Mas o que realmente me deixou intrigado foi ela se envolver logo com o Ferrugem. O cara é bem mais velho, acabado, drogado, viciado e um psicopata de marca maior. Isso não entra na minha cabeça. Vai ver ela se envolveu sem saber e só foi conhecer o monstro quando já estava presa. É f**a… tem mina que quer se envolver com bandido sem antes saber da procedência do cara, e infelizmente acaba se fudendo.
A minha mente estava barulhando sinistro, eu tava tenso pra c*****o e nem sabia onde iria colocar ela. Não curto ninguém na minha casa, odeio ter pessoas no mesmo recinto que eu, não é à toa que nem na boca eu apareço direito. Mas infelizmente vou ter que dar um jeito na situação. Não posso deixar ela em qualquer lugar fora das minhas vistas, também não dá para descartar a possibilidade de ela estar tramando algo junto com ele. São muitos porquês, sou escaldado com tudo e com todos.
Passei pela barreira com a moral em pé e fui direto para uma casa que fica quase ao lado da minha, no ponto mais alto do morro. Ali eu vou ter a visão total sobre ela. Não gosto de ficar espionando ninguém, mas não sei quem é ela de fato, então é preciso precaução. Mas ela vai ter que me passar a visão direitinho de tudo o que está acontecendo. Se não, aqui ela não fica. Ou melhor, vai ficar mesmo assim, esperando ele brotar para eu matar esse desgraçado e depois deixo ela livre, caso se prove que não está na mancada.
Parei em frente à residência, os vapores seguiram para os seus postos de contenção, o GB voltou para a boca e eu entrei na casa com ela. Ela quase não falava, e eu já curti isso. Odeio muita conversa, gente que fala muito me irrita de uma forma surreal. Prefiro ouvir barulho de tiros do que papo furado.
Ela entrou e ficou olhando tudo ao redor. A casa não é das melhores, eu só uso ela de vez em quando, principalmente quando a Gláucia vem para cá, mas isso é outra história, assunto para outra hora.
— Então, é aqui que você vai ficar. Mas antes disso, quero que você me conte tudo o que está acontecendo, não quero entrar nessa de olhos fechados. Até porque não sou maluco de confiar em qualquer um, então seja sincera e fale a verdade para não se prejudicar ainda mais — falei olhando firme para ela.
Ela piscou os olhos algumas vezes, parecendo perdida.
— Eu não sei nem por onde começar, na verdade — disse ela, mantendo o olhar no chão.
De cara já fiquei puto. Para mim, quem não sustenta o olhar na conversa está mentindo.
— De preferência, do começo. E olha para mim! Quando você estiver conversando comigo, você me encara — falei com um tom de voz mais arrogante, para logo de cara ela pegar a minha visão e entender como as coisas funcionam.
Sentei em um sofá velho e ela no outro, me encarando finalmente, pensando por onde iria começar. Eu só saio daqui quando ela me passar todas as informações que eu preciso saber. E tomara que não minta, porque se mentir, vai estar fudida e cavando a própria cova igual ao outro desgraçado.
— Vou resumir para você porque é uma história longa, mas se preferir posso falar detalhadamente — disse ela, me olhando firme nos olhos. Aí sim, p***a! Tem que sustentar o olhar.
— Conta da forma que você preferir, só não fica enrolando — falei, já sentindo a impaciência bater à porta.
— A aproximadamente seis meses atrás, meu pai teve um infarto e eu fiquei sozinha no mundo. Passada uma semana do enterro, o Ferrugem foi até a minha casa dizendo que meu pai tinha uma dívida alta com ele. Perguntei o valor e era absurdo; nem com o dinheiro da rescisão que a empresa do meu pai me enviou daria para quitar tudo. Meu pai nunca foi usuário de drogas e nunca foi de beber, então de fato não sei de onde surgiu essa dívida. Ele me deu vinte e quatro horas para pagar e disse que, caso eu não conseguisse, iria me pegar como forma de pagamento da dívida. Tentei conversar, disse que pagaria mês a mês, arrumaria um emprego, daria o valor da rescisão de entrada e pagaria o resto parcelado, mas ele não aceitou. Passou o prazo e ele mandou os seguranças me buscarem — contou ela, chorando, com o olhar baixo, carregado de culpa.
Respeitei o silêncio dela, o tempo que precisava para retomar a coragem. A minha cabeça, porém, estava a milhão.
— Não vou te pressionar agora. Se quiser descansar, a gente termina essa conversa amanhã — falei, tentando manter o controle dos meus instintos.