Mas ele não aceitou, e o meu pesadelo começou. Passaram-se as 24h e ele mandou seus seguranças me buscarem. Fiz o possível e o impossível para não ir, mas foi em vão. Os seguranças passaram no rádio que eu estava resistindo, e ele mesmo veio me buscar. Me deu uma surra que me deixou totalmente quebrada, ao ponto de ter que rastejar para entrar no seu carro e as pessoas da rua viam tudo, aquela humilhação que passei. Chorei tanto, que quase não tenho mais lágrimas para derramar. Desde então, estou aqui nessa casa horrível, que cheira a álcool e drogas, vivendo na mercê desse homem que diz que sou sua mulher.
Ele chega alterado em casa, fica me passando a mão e eu só choro de desespero. Mas ele nunca conseguiu consumir o ato. Acho que de tanta droga que usa, toda vez que tenta me abusar, o m****o dele não responde. Ou talvez seja as mãos de Deus, guardando o pouco que me resta de mim. Já tenho muitos traumas; conviver com um ser assim todos os dias seria demais. Pensei em me matar diversas vezes, mas não tenho coragem, não quero ser fraca. Vim de pais fortes, não posso dar esse desgosto pra eles. Sei que lá do céu agora eles estão juntos e olhando pôr mim. Não sei o que me espera na vida, mas desistir não é uma opção. Mesmo que eu morra tentando.
Começou o barulho de tiros no céu e eu fiquei desesperada. Quando isso acontecia na minha casa, a gente se escondia embaixo da cama. Mas aqui estou totalmente fora do meu habitat, não sei o que fazer e o pior, dentro da casa do dono do morro, o primeiro lugar que qualquer um tentaria atacar. Fiquei no meu canto, encolhida na parede, chorando muito. Não tenho o que fazer além disso. Não consigo fugir desse lugar; ele tem muitos seguranças nessa casa, e não sei se as pessoas sabem que estou aqui contra a minha vontade. Depois, ouço uns caras falando sobre o "estado" na verdade, todos são iguais. Não se pode confiar em ninguém além de nós mesmos. A cada dia, as pessoas ficam mais frias, sem empatia. Se quiser sobreviver, tem que aprender a não confiar em ninguém, nem na própria sombra que deixa a gente no escuro.
Os tiros ficaram mais intensos e eu, mais nervosa ainda. Mas tomar um tiro e morrer não seria tão r**m, comparado ao cenário de caos que é a minha vida. Sinto nojo do meu corpo, nojo de mim mesma, toda vez que esse homem tenta me encostar. Nunca odiei ninguém até esse homem nojento aparecer na minha vida. Nunca tive coragem de matar ninguém, mas se tivesse oportunidade, mataria ele sem pensar duas vezes, iria pra cadeia com a consciência tranquila. Mas se tentasse, não passaria nem no portão.
Fiquei quietinha e os tiros cessaram. Até que minutos depois, escutei barulhos na casa e a ansiedade tomou conta de mim, como todos os dias quando escuto ele entrar. Quando ouvi a porta do quarto ser arrombada, comecei a gritar em desespero. Mas não era ele. Era um homem lindo, lindo mesmo, nunca vi um homem tão belo em toda a minha vida. Uma beleza que eu passaria horas olhando sem cansar. Mas ao mesmo tempo, ele tinha uma expressão fria e obscura, com aquela feição de homem impiedoso, c***l e sanguinário, parecida com a do Ferrugem.
Só pedi socorro. Era a minha oportunidade de sair daqui: seria naquele momento ou nunca. E ele resolveu me ajudar. Não nos falamos nada, mas tenho certeza que ele vai querer conversar. Não iria me ajudar sem saber onde estava se metendo. Não sabia nem pra onde estava indo, mas só de sair daquela casa já é um ponto positivo. O que vier é lucro. Se depois de contar pra ele, ele não quiser me ajudar, ficará mais fácil de me virar e seguir em frente. Vou pra Minas, ou sei lá pra onde. Aqui no Rio, não fico. Fiquei no carro em silêncio, com aquela sensação de alívio que eu não sentia há meses. O que passei nas mãos daquele homem… não desejo pra ninguém.