Capítulo 2 — Tranca a porta, se puder

966 Palavras
O sol m*l tinha nascido quando Isadora abriu os olhos no quarto estranho. O silêncio da mansão era tão absoluto que podia ouvir o som do próprio coração — um batimento lento, pesado, carregado de tudo o que ainda estava entalado em sua garganta. Ela tinha dormido pouco. m*l conseguira fechar os olhos. A noite anterior ecoava em sua mente como um pesadelo sem fim: o altar sem flores, o anel queimando em seu dedo, os olhos de Dante cravados nela como lâminas. Ele a odiava. E ela o odiava ainda mais. O vestido de noiva pendurado na poltrona parecia uma lembrança suja. Isadora o encarou por um instante, depois se levantou e caminhou até o banheiro de mármore. Água fria, dura, gelada. Ela deixou a pele arder sob a temperatura baixa. Queria apagar o gosto daquela noite. O cheiro daquela casa. O toque daquela mão que a segurou com força diante de todos. Não havia toque de marido. Havia domínio. Desceu para o andar de baixo com os cabelos ainda úmidos. Um robe de seda branca envolvia seu corpo, marcado de leve na cintura por um laço frouxo. Ela não pretendia parecer arrumada. Pretendia parecer viva. Quando atravessou o corredor, viu-o. Dante. Sentado à cabeceira da mesa de jantar, lendo um jornal com uma xícara de café ao lado. Um terno cinza escuro. Relógio caro no pulso. O mesmo olhar indiferente que ela começava a odiar mais do que tudo. — Dormiu bem, esposa? — ele perguntou, sem erguer os olhos. Isadora parou do outro lado da mesa, os braços cruzados. — Como alguém dorme sabendo que está vivendo sob o teto de um homem que a comprou? Ele virou lentamente a página do jornal. — Você devia estar agradecida. Sua família continua respirando, não é? — E tudo o que eu tinha foi arrancado de mim. Ele finalmente levantou os olhos, encarando-a. — Tudo o que você tinha já estava em ruínas, Isadora. Eu só te coloquei onde você realmente pertence. Ela o fuzilou com o olhar, os dedos apertando o tecido do robe com força. — Você se sente homem por fazer isso? Por me obrigar a esse circo? — Me sinto satisfeito. Isso basta. Isadora puxou a cadeira com força, sentando-se à mesa como se fosse sua trincheira. — Eu não sou sua propriedade, Dante. — É, sim. Legalmente, moralmente, fisicamente. Seu pai me entregou você. E você disse “sim”. — Eu disse “sim” olhando pra você com nojo. Isso não te incomoda? — Me excita. A resposta veio tão rápida e seca que ela congelou por um segundo. Os olhos dele estavam fixos nos dela. E havia algo neles... algo que ela ainda não sabia decifrar. Não era desejo. Era... prazer em provocá-la. Em ver até onde ela resistiria. Ela se inclinou levemente para frente, desafiadora. — Continue me provocando, Dante. Um dia você vai acordar com uma faca cravada entre as costelas. Ele deu um meio sorriso. — Tranca a porta, se puder. Horas depois, a casa estava em silêncio novamente. Isadora caminhava pelo segundo andar, explorando os corredores. Tudo ali era impecavelmente organizado. Móveis luxuosos, tons neutros, obras de arte frias e impessoais. Aquela mansão não tinha alma. Era o reflexo exato de seu dono. Quando entrou na biblioteca, o cheiro de couro e papel antigo a envolveu. Era o primeiro cômodo que realmente parecia conter algo vivo. Livros empoeirados, cortinas grossas, lareira apagada. Sentou-se na poltrona ao lado da janela e deixou os ombros caírem. Pela primeira vez desde o casamento, Isadora sentiu um cansaço genuíno. Não físico. Mas mental. Ela não sabia até quando conseguiria manter aquela armadura. Odiar Dante era fácil. Difícil era não se deixar consumir por ele. Ela fechou os olhos por um momento. Só um. Só um instante. — Está à vontade na minha casa? A voz dele invadiu o ambiente como um vento cortante. Ela abriu os olhos de súbito. Dante estava encostado à porta, observando-a com aquele ar de predador entediado. — Você me persegue ou essa casa é pequena demais pra que eu possa respirar longe de você? — Nada aqui é seu. Nem o ar. Ela levantou, encarando-o. — E nem você é meu marido. Não no sentido que importa. Ele se aproximou devagar, as mãos nos bolsos do terno. Aquele andar seguro, firme, que parecia querer devorar o chão. — Não? Quer que eu te prove o contrário? Isadora engoliu em seco. Ele parou a poucos centímetros dela. O perfume dele, o calor dele... era uma armadilha. Mas ela não recuou. — Toca em mim e eu arranco sua mão fora. — Gosto de mulheres perigosas. Me fazem querer domá-las ainda mais. Ela sorriu, mas sem humor. — E eu gosto de homens mortos. Dante soltou um riso baixo, rouco, e por um segundo, o ar entre eles pareceu vibrar. — Você é fogo, Isadora. Mas já vi muitos como você. No fim, todos ardem por mim. De uma forma ou de outra. Ela se aproximou mais um pouco, o rosto a centímetros do dele. Sua voz saiu fria. Lenta. Quase como uma maldição. — Eu vou destruir você, Dante. Um pedaço de cada vez. E vou sorrir quando isso acontecer. Ele se inclinou ligeiramente, os olhos baixos, presos aos dela. — Eu já fui destruído. Você só chegou tarde demais pra impedir quem eu me tornei. O silêncio caiu pesado. E então ele se afastou. Calmo. Lento. Como se a guerra não tivesse pressa. Naquela noite, Isadora trancou a porta do quarto. Com todas as trancas. Com a cadeira apoiada por baixo. Dormiu com uma tesoura de metal sob o travesseiro e um coração em brasas dentro do peito. Ela era uma noiva de guerra. E o campo de batalha era ele.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR