Pré-visualização gratuita Capítulo 1 — Até que o ódio nos separe
Ela usava branco.
Ele, preto.
Nenhuma cor jamais representou tão bem a mentira que era aquela cerimônia.
O salão estava lotado, mas ninguém ousava sorrir. Todos sabiam que aquele casamento não era um conto de fadas. Era uma troca suja. Uma punição. Um aviso.
No altar, Isadora Vilar mantinha a cabeça erguida, mesmo com o coração latejando de raiva dentro do peito. Seus dedos estavam frios, mas sua mente queimava.
Do outro lado, Dante Rivas parecia esculpido em pedra. Impecável no terno escuro, olhar gélido, que não vacilava. Ele não olhava para a noiva como um homem olha para uma mulher. Ele a encarava como um rei observa uma peça do tabuleiro que acabou de conquistar.
O juiz começou a cerimônia, mas sua voz era abafada pela tensão no ar. Cada palavra soava vazia, como se todos ali estivessem esperando o momento em que a guerra realmente começaria.
— Dante Rivas, aceita Isadora Vilar como sua esposa…?
— Sim — ele respondeu antes mesmo da pergunta terminar, sem emoção, sem hesitação, como se dissesse “assinado e selado”.
Isadora não moveu um músculo.
— Isadora…?
Ela não respondeu de imediato. O silêncio arranhou as paredes.
Alguns convidados se entreolharam.
Dante não piscou.
Ela então virou o rosto lentamente e o olhou nos olhos.
— Sim — disse com um veneno doce na voz.
Mas o que queria dizer, de verdade, era: “sim, eu te odeio.”
Dante pegou sua mão com força. Não foi um gesto de carinho. Foi posse. Ela sentiu os dedos dele pressionarem os seus, como se ele quisesse deixar marcas. Ele colocou a aliança em seu dedo como quem sela uma dívida com ferro quente.
— Você é minha agora. — A voz dele foi baixa, dura. Só para ela ouvir.
— Nunca serei sua — ela retrucou, mantendo o sorriso nos lábios para as câmeras. — Pode colocar o anel, Dante. Isso não te dá meu coração. Nem minha rendição.
Os olhos dele brilharam de raiva.
— Não preciso do seu coração, Isadora. Só preciso que você obedeça.
— Então vai ter que me m***r primeiro.
O juiz declarou marido e mulher. Sem beijo. Sem toque.
Só ódio.
Na saída, ela não lhe deu o braço. Ele pegou o dela à força. O aperto foi firme. c***l.
A plateia achou que era apenas formalidade. Mas ela sentiu. E ele sabia que ela sentiu.
Dentro do carro, a tensão era sufocante. O silêncio era uma provocação.
— Está feliz agora? — ela murmurou, encarando a janela.
— Ainda não — ele respondeu com calma. — Mas vou estar… assim que quebrar você.
Ela o olhou, com raiva e desprezo, e então sorriu.
— Vai precisar de muito mais do que alianças e ameaças pra isso.
Dante apenas encostou a cabeça no banco, com aquele meio sorriso frio que ela aprenderia a odiar.
Eles não eram marido e mulher.
Eles eram duas armas apontadas uma para a outra.
E só um deles sairia inteiro.
A mansão era grande demais, silenciosa demais.
Ela parecia gritar opulência, mas sem um pingo de vida.
Isadora entrou com os olhos atentos, pisando firme mesmo com os saltos machucando seus pés. O vestido branco ainda colava ao corpo por causa do calor do salão, mas ali dentro… ali dentro fazia frio. Um frio que não vinha do ar, mas das paredes. Do chão. Dele.
Dante subiu os degraus à frente dela, sem dizer uma palavra. Nenhuma explicação. Nenhuma recepção.
Os funcionários observavam de longe, discretos como sombras. Isadora não precisava que ninguém dissesse nada para entender: todos sabiam que ela era apenas uma peça naquele jogo — a esposa que ele não queria, mas fez questão de manter sob seu controle.
No alto da escada, ele finalmente se virou, olhando-a com aquele desprezo contido que só ele sabia exalar com perfeição.
— O quarto à direita é seu. — A voz dele cortou o ar como navalha. — E fique por lá. Não quero trombar com você pela casa.
— Você acha que eu quero te ver? — ela respondeu com um sorrisinho cínico. — Não se preocupe, Rivas. Odiar você é fácil. O difícil vai ser não te enfiar uma faca quando passar por mim.
Ele deu um passo em direção a ela, devagar, como uma fera que fareja o cheiro da presa. O olhar cinzento brilhava de puro veneno.
— Tenta, Isadora. Eu te desafio. Mas saiba de uma coisa — ele parou tão perto que ela pôde ver a tensão em cada linha do maxilar dele. — Ninguém entra nessa casa e me desafia sem pagar o preço.
Ela não recuou.
— Eu sou diferente das mulheres que você compra e destrói.
— Sim — ele concordou. — Você é a única que eu fui obrigado a manter viva.
Os olhos dela queimaram. Ele sabia exatamente o que dizer para feri-la.
Dante deu as costas e se afastou, os passos ecoando frios pelo corredor.
— A porta do seu quarto tranca por dentro — ele lançou por cima do ombro, sem virar. — Eu, pessoalmente, sugeriria que você use isso.
Isadora fechou os punhos, o peito arfando. A humilhação apertava sua garganta, mas ela não deixaria que ele visse.
Ele queria que ela quebrasse. Queria ver o orgulho dela ruir.
Mas se havia algo que Isadora jurou naquele altar silencioso, foi:
Se alguém sair destruído desse casamento, não será ela.
Ela empurrou a porta do quarto com força.
Frio. Branco. Luxuoso. Impessoal.
Como uma cela de luxo.
Ela se sentou na cama e tirou os sapatos com as mãos trêmulas. Estava cansada. Dolorida. Ferida. Mas não fraca.
No espelho, viu a imagem de uma noiva sem alma.
E jurou pra si mesma, em silêncio:
“Eu vou enterrar esse homem com o próprio orgulho dele.”