— Por que apareceu depois de tanto tempo John ? - pergunta sentando no sofá.
— Ainda trabalha na polícia ? - pergunto diretamente.
— Sim. Por que ?
— Desapareceu alguma garota nas redondezas ? - pergunto o deixando confuso.
— Não que eu saiba. Mas faz três dias que eu não vou ao quartel, pode me dar as descrições e eu tentarei ver - proponhe ele.
— Ela é baixinha, e tem um corpo não muito magro mas também não muito gordo, ela é curvilínea, e também tem um cabelo longo no meio da cintura, preto, extremamente preto e ondulado, olhos azuis esverdeados... Acho que é só isso - explico.
— Me parece ser muito bela. A encontrou onde ?
— Desmaiada na campina onde moro. Outra coisa, ela adora pintar e está desmemoriada - explico.
— Ok. Se descobri algo eu te ligo. Como vai os seus objetivos ?
— Prestes a serem realizados.
— E ela ?
— Ela ? Não tem nada a ver com ela. Por isso quero saber de onde ela veio, para entregá-la de volta e poder seguir sem me preocupar com ninguém estar correndo perigo por minha culpa.
— Ok... Não irei discutir.
— Tchau - falo indo embora.
Garold nunca gostou dessa minha ideia de vingança porém creio que se estivesse no meu lugar não me julgaria tanto.
Entro no carro e olho o celular, tinha algumas chamadas perdidas da Lily, retorno imediatamente e ela atende.
— Aconteceu algo ?
— Não. Liguei para saber se está bem.
— Eu estou sim. E você o que está fazendo ?
— Nada. Esperando você voltar.
— Eu vou demorar só um pouco, mas não muito.
— Desde que volte, eu não me importo.
— Ok. Vou desligar para dirigir.
— Beijos John.
— Beijos Lili.
Desligo o celular e ao colocar a mão no volante dou um sorriso involuntário, essa cena talvez tenha me deixado impresionado afinal eu nunca tive isso de sair e alguém se preocupar se estou bem ou não... Lili é a primeira e única, nesse quesito.
Sigo para o supermercado e pretendo passar em uma loja de roupas femininas também afinal ela precisa de umas roupas, e também lingerie e coisas de mulheres... Como não sei quanto tempo ela ficará comigo, levarei bastante afinal odeio vir até a vila.
No supermercado algumas pessoas estranham o fato de eu estar comprando muita comida, e também as tintas e coisas rosas que estou comprando, e estranham mais ainda ao me verem na prateleira dos absorventes e outros produtos femininos.
Ao passar no caixa a balconista se espanta mais com o que estou comprando do que com a quantidade de dinheiro gasto... ( Mas ninguém se ofereceu pra pagar ). Por isso eu odeio essa vila.
Pego as sacolas e caixas e ponho no porta malas do carro, checo as horas e ainda daria tempo eu voltar para o almoço, aleluia !
Sigo até uma venda de roupas femininas não muito longe dali, entro e procuro uma velha amiga minha, uma conhecida que irá me ajudar a escolher roupas pois sou péssimo nisso.
— Arrumou uma namorada querido ? - pergunta animada.
— Não. Uma amiga minha veio passar uns dias na minha casa e ela acabou sendo roubada... Enfim achou algo ? - pergunto de volta.
— Pelas descrições que me deu achei essas roupas, vermelhas... Tem algum problema ? - confirma. Ela ainda se lembra desse meu trauma.
— Não mais - conforto ela com um sorriso.
— Está bem. Vou buscar as lingeries - diz ela indo para o galpão do local.
Como não consigo ficar parado dou uma olhada nas demais prateleiras de roupas e realmente tinha vestidos muito bonitos, boinas, casacos tudo muito lindo mas não caberia nela... Até que eu encontro por acaso um vestido roxo, muito bonito por sinal e caberia nela perfeitamente.
— Achou algo ? - pergunta ela me assustando.
— Sim achei. Quanto custa ? - pergunto mostrando para a mesma.
— Ele junto com tudo ficaria por 500 dólares - responde ela.
— Eu vou levar - confirmo sorrindo.
— Está bem. Vou embalar tudo - diz sorrindo.
Ela não demora muito para me entregar as sacolas e me ajudar a levar até o carro, ponho nos bancos de trás e sigo para casa, finalmente.
Eu não sou de presentear ninguém porém ela me parece ser alguém extremamente pobre e talvez roupas, e essas coisas a façam lembrar de coisas boas sobre a sua vida, é isso que eu quero para Lily, coisas boas apenas.
Talvez ela tenha despertado o meu lado que dormiu há anos, ou seja só empatia apenas. É só empatia óbvio, eu não estou voltando a ser bom e nem muito menos... A amar, não estou amando nem apaixonado, é apenas empatia.
.
.
John chega em casa e Lily estava a espera-lo na varanda... Coincidência ? Talvez.
Ela vem até ele que ao descer do carro e vê-la fica um tanto feliz, ele não prestou atenção mas seu coração palpitava um pouco quando ela chegava perto. Ele abre o porta malas e diz :
— Me ajuda ? - pergunta carinhosamente.
— Sim - responde ela animada.
Cada um pega algumas sacolas e levam para a cozinha, apenas em duas viagens eles já levam tudo para dentro, exceto o pacote com o vestido roxo afinal John queria fazer uma surpresa para Lily.
Ele coloca o carro no local onde ele estava e entra em casa, ele fica extremamente satisfeito e feliz ao vê o brilho no olhar de Lily ao abrir os pacotes com tintas e as telas, ele então diz :
— Eu vou para a cozinha arrumar as coisas comestíveis. Qualquer coisa me chama - diz ele indo porém Lily grita :
— Ei ! - ele para e volta o olhar para ela - Muito obrigada mesmo John - agradece um tanto emocionada.
— Se você chorar eu guardo tudo - ameaça ele rindo.
— Para de rir... Eu não aguento a emoção - diz com algumas lágrimas caindo.
— Ei ! - se aproxima dela - Para vai - pede ele pegando na mão da mesma.
— Posso te dar um abraço ? - pergunta ela enxugando o rosto.
— Pode sim - responde ele e imediatamente ela o abraça.
Ele retribui e naquele momento do abraço Lily acaba tendo um novo flash, que a faz gritar de desespero.
— NÃO ! - Grita se afastando de John.
— Ei. O que foi ? - pergunta ele preocupado.
— A minha mãe... Ela, morreu... Eu lembrei, eu vi ela morrendo na minha frente... Caindo as escadas - fala desesperada.
— Lily... Eu não sei o que dizer - diz ele triste.
— Ela... Morreu. Eu não consegui segurar ela - diz ela aumentando o pranto.
John se compadece da dor dela que é a mesma dele, afinal ambos perderam suas mães e não puderam ajudar, não por que não quiseram e sim por que não puderam.
Ele fecha os olhos enquanto abraça a pequena Lily e se lembra do barulho dos tiros, a chuva forte no carro e as últimas palavras da sua mãe que estava abraçada a ele.
— Vai ficar tudo bem querido. Eu vou te proteger, eu estou aqui...
Por um momento ele apaga devido a um forte impacto, e apenas ao acordar ver uma mão o puxando para fora do carro totalmente destruído, ele estava ferido, confuso e chorando pois esqueceram dos seus pais no carro, para John eles ainda estavam vivos...
— Minha mamãe... Ela está no carro, tirem ela de lá - pede ele puxando a blusa de um homem.
— Sabemos disso. Iremos tirar eles de lá, agora vá com aquele homem, ele irá cuidar de você - aponta o homem.
— Eu vou esperar o meus pais. Eles estão lá dentro, tirem eles de lá por favor - pede o garotinho chorando.
Ele repete isso por muitas vezes até que ao ver a cena da sua mãe sendo tirada do carro sem vida, ensanguentada e faz ter um choque tamanho que o pequeno desmaia, e acorda apenas no dia seguinte, no exato momento e que o enterro dos seus pais acaba.
— John, o meu amigo me falou que você era um garoto extremamente forte. Até mais que ele, e agora você terá que ser forte meu amigo... Infelizmente os seus pais não estão mais aqui, na terra, mas estaram para sempre na sua memória, no seu coração... Eles estão cuidando de você, só que de lá de cima - tenta confortar o encarregado de cuidar de John.
— Os meus pais morreram, eu vi, eles não estão em lugar nenhum. Estão mortos - pontua o garotinho sério.
Ele naquele momento não esboçou qualquer sentimento o que assustou o homem, porém agora ao lado de Lily após 14 anos do ocorrido John se permite demonstrar o que realmente sentia, dor... Apenas dor.
— John você tá chorando ? - pergunta Lily ao se desprender do abraço.
— Eu me emocionei apenas. Vou lavar o rosto - diz ele indo até a cozinha porém a garota segura o seu braço e diz :
— Pode chorar... Eu sei o que você está sentindo, não é fácil - diz ela fazendo um carinho no rosto molhado com lágrimas dele.
— Nós passamos por coisas iguais de maneiras diferentes... E por algum motivo estamos juntos hoje - pontua ele em meio a lágrimas.
Lily o abraça e diz :
— Talvez o destino tenha permitido isso afinal só duas pessoas que passaram por coisas iguais se entendem... Alguém te entendeu esses anos ? - pergunta ela.
— Ninguém - responde ele.
— Eu não lembro de nada mas talvez tenha acontecido o mesmo comigo. Só vamos tentar superar ou não isso, da melhor forma possível - sugere ela.
— Está bem. Eu vou arrumar as coisas, se precisar de algo me chama - diz ele indo até a cozinha.
Lily se senta no sofá e fica observando as telas em branco, e pensando no que desenhar para libertar os seus sentimentos. Já John estava desabando em lágrimas na cozinha, no chão próximo a mesa porém sem fazer muito barulho afinal não queria incomodar Lily, ele fica ali por algum tempo até que se levanta, lava o rosto na pia e respira fundo. Ele decide começar a arrumar as coisas para ocupar a cabeça e assim o faz.
...
— Lily... Por que não vai tomar um banho para almoçarmos - sugere John vindo até a sala.
— Está bem... Tem algum lugar na casa que a chuva não pegue e que seja quente ? - pergunta ela segurando uma tela.
— O forno ? - começa a rir - Não sei, acho que dentro daquele guarda roupa no seu quarto.
— Ok vou até lá - diz ela subindo as escadas.
— Você tá toda suja de tinta - pontua John rindo.
— Faz parte do processo - diz ela sorrindo.
— Te espero na cozinha.
Ela sobe para o quarto e ao abrir o guarda roupa coloca a sua tela em uma prateleira e ao ver algo brilhando na outra parte ela tenta pegar a coisa para ver o que era, era uma faca usada para confecção de coisas grafadas na madeira, ela fica inspirada em fazer algo com o objeto e o guarda próximo a tela.
...
— John, tem alguma madeira não muito dura aqui ? - pergunta ela indo até a cozinha.
— Lá fora deve ter... Por que ? - pergunta ele estranhando.
— Nada... Vamos comer ? - proponhe ela.
— Sim - diz ele puxando a cadeira ela se sentar.
Eles comem em silêncio até que Lily pergunta :
— Você teve um dajavu naquela hora não é ?
— Tá mais pra pesadelo - responde John.
— Deve ter sido muito pesado. Você pensa em se vingar ?
— Eu não quero falar disso... Eu vou ver umas coisas na horta. Quando acabar de comer ponhe os pratos na pia por favor - diz saindo da mesa porém ele paralisa ao escutar o que Lily diz.
— Você não vai se tornar uma pessoa r**m se fizerem o que fizeram contigo. Eu acho certo, e justo - pontua a garota surpreendendo ele.
— Você é diferente Lily, um diferente legal - elogia ele a fazendo sorrir.
— Obrigada. Você também - elogia de volta.
...
Subi para o andar de cima arrumar algumas coisas e deixei Lili na sala desenhando, ela estava tão animada com presentes e vê-la sorrir me faz bem, não um bem qualquer mas algo que eu nunca senti antes.
As vezes quando eu me estresso vem do nada no meu pensamento a risada dela e eu literalmente me desmonto, por algum motivo ela despertou algo bom em mim que mesmo eu tentando frear eu não consigo, ela não percebeu ainda, graças a Deus.
Desço as escadas pois já estava tarde e precisava fazer o jantar, ela escuta os meus passos e se senta no sofá pois ela estava deitada e quando eu chego na sala ela vem até mim sorrindo com seus desenhos e diz :
— Olha o que eu consegui fazer - mostra com ânimo - Eu vi essa paisagem em algum lugar e reproduzi no papel, é exatamente assim - explica ela com a mão toda suja de tinta.
— É um lugar muito bonito. E você também é muito talentosa eu estou muito orgulhoso de você pequena - falo sem pensar. p***a demonstra não !
— O que ? - pergunta ela que graças a deus não escutou - Repete.
— Eu tô orgulhoso de você Lili. Arruma o sofá e sobe para tomar um banho, enquanto isso eu faço o jantar - digo entregando a ela os papéis.
— Ok. Obrigada denovo - agradece ela arrumando seus materiais.
— Denada. Tem umas roupas novas que eu comprei para você e umas coisas de garota também lá na cama. Pode arrumar como quiser no guarda-roupa - pontuo.
— Obrigada denovo. Não precisava... Eu vou retribuir os gastos algum...
— Você ficando bem, e continuando a desenhar já é um Pagamento - interrompo.
— Você é tão legal - exclama ela.
— É impressão sua - respondo indo até a cozinha.
...
? Próximo capítulo contará cenas extremamente fofas então votem ae !