Capítulo 3

925 Palavras
  Olhei de Luna para a bandeja, e depois para os homens que agora observavam minha aproximação. Avancei com cuidado, concentrada em um único pensamento: não derrubar nada. Se fosse possível suar frio, estaria encharcada.   Decidida a evitar contato visual, contornei a mesa servindo uma taça de champanhe a cada um. Tudo ia bem… até faltarem apenas duas.   Uma tontura súbita invadiu minha cabeça. O movimento foi quase imperceptível, mas o suficiente para que um fio dourado de champanhe escorresse da garrafa. O cenário ideal teria sido a mancha parar na toalha da mesa. Não foi o que aconteceu. O líquido respingou direto no paletó impecável do homem a quem eu devia servir.   "O que você está fazendo? Peça desculpas." A voz cortante de Gio fez um calafrio descer minha coluna. Gio era alguém que ninguém queria irritar – e um perfeccionista absoluto.   "E-eu sinto m-muito." Gaguejei, pegando um guardanapo para tentar limpar a mancha. Antes que o pano pudesse tocar no tecido, no entanto, sua mão envolveu a minha e apertou, interrompendo o gesto.   "Não se preocupe. É só um paletó", ele disse, um sorriso genuíno surgindo em seu rosto. Surpresa com a reação descontraída, o encarei pela primeira vez. Não era muito mais velho que eu, talvez por isso não tivesse a mentalidade rígida dos outros. Seu sorriso era caloroso. Ele franziu levemente as sobrancelhas ao perceber meu olhar fixo. Corando, baixei os olhos.   O som de uma tosse seca e deliberada me fez voltar à realidade. Era Christian.   Com um nó no estômago, me virei para encarar o mesmo homem que eu vinha tentando evitar – e que, claramente, também me evitava. A última vez que ele havia olhado diretamente para mim foi uma semana atrás, quando eu bloqueara seu caminho sem querer e ele apenas ordenara, sem perder o passo: "Sai da frente."   Ao colocar a taça de champanhe à sua frente, sua mão se moveu com uma rapidez felina, envolvendo meu pulso. Ele me puxou para perto, o suficiente para que seu sussurro áspero chegasse nítido ao meu ouvido. "Você está bem?"   Havia um traço – mínimo, quase imperceptível – de preocupação em sua voz. Mas o gesto repentino me assustou; eu já estava preparada para uma repreensão, não para… aquilo. Afastei-me rapidamente, mantendo a distância, e balancei a cabeça em um "sim" mudo. Fiquei paralisada no lugar por alguns segundos, até que o olhar urgente de Faith me puxou de volta para atrás do bar.   "Você está bem?" Faith perguntou, agora em voz baixa. O fato de quase ter desmaiado de nervosismo já era vergonhoso o suficiente. Tudo o que consegui foi balançar a cabeça novamente, mantendo os lábios cerrados.   Embora Faith tivesse dito que acabaria logo, a reunião se arrastou. Recorri a contar carneirinhos mentais, depois tentei disfarçar observando as interações. O olhar pousou em Christian e no homem do paletó manchado. Pela i********e com que conversavam, pareciam muito próximos. Quem diria que Christian era capaz de sorrir?   Quando o homem – cujo nome eu ainda não sabia – percebeu meu olhar, direcionou para mim um sorriso aberto e uma piscadela rápida. Virei o rosto imediatamente, fingindo interesse súbito por um quadro na parede. Já era tarde demais para parecer discreta, mas eu não queria me envolver com aquelas pessoas. Nem que soubessem meu nome. Tudo o que eu queria era ganhar dinheiro suficiente para sobreviver.   Depois do que pareceram horas, mas foram meros minutos, a reunião finalmente terminou. Os homens começaram a se levantar. Mantive a cabeça baixa, determinada a mantê-la assim até que todos tivessem saído. Mas um par de sapatos Oxford de couro impecável parou diante de mim.   Relutantemente, ergui o olhar e me deparei com os olhos castanhos cálidos de Johnny.   "Me desculpe por ter te cansado", ele disse, com uma expressão de sincera pena no rosto. Antes que pudesse reagir, sua mão grande e quente repousou em minha testa. "Tem certeza de que não está doente?"   Tentei ao máximo conter o rubor que ameaçava tomar minhas faces e ofereci a ele um pequeno sorriso forçado.   "Relaxa, eu também quase peguei no sono ali", brincou Marc, enlaçando o amigo pelo ombro. Enquanto os dois trocavam gracejos e as outras garotas riam, meu único alívio foi ver Johnny tirar a mão da minha testa. O alívio durou pouco. Meus olhos encontraram Christian encostado no batente da porta, braços cruzados, observando a cena.   Com uma expressão de evidente irritação, ele fechou os olhos por um segundo e pigarreou com força. O som cortou o clima descontraído, e todos se viraram para ele.   "Marc, leva as meninas lá para baixo. Johnny, vem ao meu escritório." Foi tudo o que disse antes de se virar e sair, sem esperar por resposta.   Johnny nos dirigiu um último sorriso e seguiu o primo. Marc, por sua vez, cumpriu a ordem, nos conduzindo de volta ao andar inferior.   "Você tá se alimentando direito, né?" Faith perguntou, provavelmente se referindo ao meu quase desmaio. A verdade era que eu me sentia péssima. Mas se você não está bem, não trabalha. E eu não podia me dar ao luxo de perder uma noite de pagamento. Fiz o que sempre fazia: enterrei o m*l-estar.   "Tô bem, Fê. Só fiquei nervosa, isso tudo."   Ela me olhou com desconfiança, mas acabou dando de ombros, enlaçando meu braço. "Que bom. Porque eu preciso da minha melhor amiga em plena forma."   Enquanto descíamos as escadas, tentei listar mentalmente os motivos do m*l-estar. Não havia nenhum óbvio.   Então… eu estava realmente bem? A pergunta ecoou em minha mente, sem resposta.
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