Capítulo 4

1233 Palavras
  "Tá doente de novo?" Faith me provocou, pausando o filme que assistíamos. Eu correra ao banheiro pela quarta vez naquele dia e estava exausta.   Três meses. Há três meses eu me sentia assim, como se meu corpo estivesse prestes a entrar em colapso. Provavelmente era apenas excesso de trabalho.   "Não se preocupa, não é nada!" gritei de volta, fazendo bochecho para tirar o gosto horrível da boca. Mesmo que estivesse às portas da morte, eu precisava pagar o aluguel. Ficar doente não era uma opção.   Enquanto todos tinham uma família para recorrer, eu estava sozinha, como sempre. Claro, podia pedir dinheiro emprestado à Faith ou à Luna – elas me ajudariam sem pensar duas vezes –, mas a vergonha me consumia. Já tinha idade para me sustentar, e ainda não conseguia.   "Eu avisei pra não comer aquele pão com Cheetos. Você sempre come as coisas mais nojentas", Faith reclamou, aparecendo à porta do banheiro. Escondi rápido o enxaguante bucal e forcei um sorriso. "Não é nojento! Vi num canal de culinária colombiano. É seguro!"   Ela fez uma careta e balançou a cabeça. "Amiga, eu sei que você tá desesperada pra aprender espanhol e conhecer sua cultura, mas talvez a gente deva deixar as receitas pra quando você realmente entender o que eles estão dizendo."   "Tá bom, tá bom. Na próxima vez peço ajuda à Luna", disse, fazendo beicinho para me livrar dela e voltando para a sala. Quando o filme terminou e Faith foi embora, corri de volta ao banheiro e vomitei, mais uma vez.   Por ser quem era, já havia pesquisado meus sintomos no Google. Parei rápido quando os resultados sugeriam todo tipo de doença terrível.   No dia seguinte, me senti pior, mas fui trabalhar mesmo assim. Tomei tudo que pude para melhorar – nada adiantou. Como todas as noites, me olhei no espelho do vestiário. As roupas que geralmente se ajustavam perfeitamente ao meu corpo agora pareciam diferentes.   "Luna, eu tô parecendo gorda?" perguntei para a garota que passava batom ao meu lado.   Ela parou, virou-se e deu uma boa olhada na minha barriga. "Não. Mas você ganhou um pouquinho de peso. Tá te caindo bem, viu?"   Enquanto Luna, alheia ao impacto de suas palavras, voltou à sua maquiagem, meu estômago se contorceu. Eu sabia que aquilo não era normal. Seguia uma dieta rigorosa para manter a forma; não havia motivo para engordar.   "Amiga, você só engordou. Não tá grávida, para com o drama", Luna riu, saindo do vestiário e me deixando sozinha.   Minhas pernas fraquejaram. Sentei no chão frio e enterrei o rosto nas mãos. Isso não pode estar acontecendo.   Isso não pode...   Mas não havia outra explicação. Não havia outra razão para os enjoos, para o vômito constante, para o ganho de peso súbito. Nenhuma, exceto uma.   Levantei e encarei meu reflexo mais uma vez. Por mais que tentasse me enganar, não havia como. Todos os sinais apontavam para uma gravidez. Só percebi que chorava quando senti as lágrimas quentes escorrendo pelo rosto.   Era impossível. Só podia haver um pai. E esse homem era aquele que nem sequer me olhava, que agia como se nada tivesse acontecido entre nós. Christian.   O que ele diria se descobrisse? Provavelmente me mandaria fazer um aborto. Claro que sim. Ele tinha toda uma vida pela frente – uma vida que não seria arruinada por um bebê de alguém insignificante.   Ao ouvir passos, sequei as lágrimas às pressas e tentei compor o rosto.   "Serena, você tá o—"   Virei-me e encontrei Faith, com uma expressão confusa. Infelizmente, ela sempre me leu como um livro aberto.   "Você tava chorando?" Ela perguntou.   Balancei a cabeça com força e agarrei sua mão. "Não tava. Tinha algo no meu olho. Vamos."   Saímos do vestiário de braços dados, tão entretidas em conversa fiada que não vi a pessoa até esbarrar de frente em um corpo duro como pedra.   Ergui os olhos e encontrei o olhar glacial de Christian. "Desculpa! Foi mal."   Meu coração batia tão forte que parecia querer sair pela boca. Aguardei, em pânico, sua próxima palavra. Em vez disso, ele deu um passo para o lado e seguiu seu caminho, me ignorando completamente.   Ele me ignoraria da mesma forma se eu dissesse que talvez estivesse grávida?   "Caramba, ele é tão lindo e tão rude ao mesmo tempo", Faith admirou, olhando para trás enquanto eu tentava puxá-la. Tudo o que eu queria era que aquela noite acabasse. E ela já começara da pior forma possível.   Normalmente, eu nem o via no clube. Mas, é claro, no dia em que menos precisava, lá estava ele.   Como sempre, o lugar estava lotado. Geralmente, eu ficava na área VIP, onde os clientes tinham mais dinheiro. Mas naquela noite, não estava com disposição e me misturei à pista comum.   Dançar por dinheiro não era o pior trabalho. A única desvantagem era o preconceito nos olhos das pessoas quando descobriam minha profissão. Uma garota tímida e quieta como eu, se despindo em um clube.   Por um instante, parei no meio da pista e olhei para meu estômago. Abafei a música e as luzes piscantes. Apenas um pensamento ecoava: uma mulher conhece o próprio corpo. Eu sabia. Não havia como negar. E ainda assim, ali estava eu, sendo irresponsável quando a responsabilidade era a última coisa que eu podia ignorar. Mas ninguém pagava minhas contas por mim. Eu precisava do dinheiro.   Como alguém como eu poderia ter engravidado? Por que me envolvi com alguém em uma única noite?   "Você tá com uma cara de doente há meses. Vai pra casa descansar ou procura um médico." A voz era de Frankie, o segurança que sempre ficava de olho nas minhas gorjetas. No geral, ele era um cara legal, mas extremamente direto. Eu sair mais cedo seria bom para nós dois – significava que ele também poderia encerrar a noite.   Olhei para o grande relógio na parede. Já passava da meia-noite. Acenei para Frankie. Já era o suficiente por hoje. Dei um tapinha em seu ombro em agradecimento e me dirigi rapidamente ao vestiário, torcendo para não ser vista.   "Esquilo, já indo embora?"   Reconheci a voz animada e parei, fechando os olhos por um segundo. Só podia ser Enzo. Tinha duas opções: entrar no vestiário e ignorar meu chefe, ou me virar e enfrentá-lo naquele estado. A primeira opção estava fora de questão. Considerando o dinheiro que eu precisava, evitar meu chefe era a última coisa que podia fazer.   "Oi... oi", cumprimentei, desajeitada, me virando para encará-lo.   Os olhos de Enzo se arregalaram por um segundo. Ele aproximou a mão e colocou-a na minha testa. "Esquilo... você tá com uma cara que parece um monte de porcarias misturadas."   Ele sempre teve um jeito peculiar com as palavras – ou eram muito simples ou complexas demais. Então, apenas franzi a testa, esperando a tradução de sempre.   "Quer dizer que você tá com uma cara estranha. Vai dormir um pouco", ele explicou.   Não consegui disfarçar a expressão angustiada no meu rosto. Seu olhar se tornou mais sério, percorrendo meu corpo que tremia de frio na roupa mínima.   "Chris, vem dar uma olhada nisso! Se algum dia você for substituir o nosso pai, vai ter que aprender a tratar melhor seus funcionários!" Enzo gritou para alguém atrás de mim.   Fiquei paralisada, incrédula. Se soubesse que encontraria a pessoa que mais evitava pela segunda vez no mesmo dia, teria largado o dinheiro e simplesmente não teria vindo trabalhar.
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